• Nenhum resultado encontrado

MAPA V CAMINHO DAS ÁGUAS

No documento Bandeirantes do século XX: (páginas 130-148)

FOTO VI - Campo de pouso no rio Kuluene

MAPA V CAMINHO DAS ÁGUAS

Fonte: http://www.transportes.gov.br/bit/hidro/figuras/map-mortes.gif

Orlando Villas Boas relatou a saida das duas primeira embarcações que sairam de Aragarças com suprimento e maquinária para instalar a base do rio das Mortes (futura Xavantina). O primeiro barco a ser contratado foi o São Felix, que naufragou assim que deixou o cais. Os motivos do Naufragio foram o excesso de carga e má distribuição da mesma. Orlando Villas Boas relata que o barco partiu sob protesto do comandante da embarcação, mas o Cel Vanique os ignorou solenemente. O segundo barco a ser contratado foi o Capitariguara. Desta vez, segundo Villas Boas, foi o comandante da embarcação que ignorou as ordens do Cel Vanique. A carga respeitou a estrutura do barco e o mesmo chegou a base Xavantina no rio das Mortes em 28 dias262. Sobre este Barco, o Capitariguara, o Sr. José Celestino da Silva, relatou a seguinte lembrança:

262 VILLAS BOAS, Orlando. Op cit.

130 barco e mais coisa que tem ai. Pode lota que eu faço a via-gem pro Sr. Encheu o motor no que pode. É muita coisa, pode lota, o barco é grande. Era como daqui naquela casa.

Um mundão veio de barco. Era coisa linda. Tinha oito dan-çarinas nele. Um bando de moça no segundo andar, era dois andar. Héeee barcão. Esse barco não vem aqui mais.

O rio ficou raso. Ai trouxemos o barco de lá. Chegou em (...) bateu numa pedra lá. Quase que foi. O nome dele era Capi-tariquara. Já ouviu fala? Era o nome do barco.

Olha a origem da palavra. Capitariquara na língua Caraja é ninho de tartaruga no fundo d’água. E na nossa língua Ca-pitari é o macho da tartaruga. Quara é uma tartaruga boian-do263.

É provável que o entrevistado também não tenha conhecido o Capitariguara, assim como o entrevistador. Mas como as imagens circulam pela escrita ou pela oralidade, Zé Goiás, se apropriou das mesmas e construiu a sua narrativa fantástica. A associação da imagem cinematográfica do titânic com o Capitaguara, somada as figuras da oito bailarinas em um lugar que ainda não tinha mulheres, produz para o interlocutor uma narrativa espetacular. E Zé Goiás procurou dar autoridade a sua narrativa demonstrando para o entrevistador os seus conhecimentos sobre a etmologia caraja da palavra capitariquara.

Mas as informações que surgem nas lembranças de Zé Goiás, vão além da sua narrativa fantástica. Se encontram com demandas políticas que estão na ordem do dia em Nova Xavantina e no Vale do Araguaia. Trata-se de questões ambientais relacionadas ao desaparecimento de nascentes de águas, assoreamento de rios e perda de espécies vegetais e animais. A entrevista de Zé Goiás, apresenta informações que questionam politicamente o uso predatório do Rio das Mortes. A citação sobre o barco Capitaguara: “Esse barco não vem aqui mais. “O rio ficou raso”. Coloca questões para uma pesquisa em História Ambien-tal que remetem a questionamentos sobre os desmatamentos nas matas ciliares,

263 Entrevista realizada com Sr. José Celestino da Silva – Zé Goiás - no dia 09 de Janeiro de 2006, em Nova Xavantina.

131

destruição de córregos e mananciais que compõem a bacia hidrográfica do rio das Mortes e seu, conseqüente assoreamentos. Estas observações parecem es-tar soltas na transcrição da entrevista, mas as mesmas estão contextualizadas politicamente, se pensarmos nas práticas ambientais promovidas pela expansão da fronteira agrícola no Vale do Araguaia a partir da década de 1940. Também, pensando na produção da memória, a citação sobre a degradação ecológica do rio, é um fragmento de lembranças que possibilitam a visualização das experiên-cias afetivas dos trabalhadores da Expedição Roncador-Xingu e da Fundação Brasil Central com o rio das Mortes. Esta relação afetiva com o rio surge na cita-ção que Zé Goiás faz em, sua entrevista, sobre o seu esporte na juventude; a pescaria no rio das Mortes: “Um dia eu peguei três peixão lá embaixo264”. Esta informação de Zé Goiás teve por objetivo, chamar a atenção do entrevistador para o fato dos peixes estarem desaparecendo do rio. Trata-se de outra questão para a História Ambiental. O desaparecimento de uma fonte de alimentos e renda para a população que margeia o rio e as conseqüências políticas da perda deste recur-so natural.

264 Entrevista realizada com Sr. José Celestino da Silva – Zé Goiás - no dia 09 de Janeiro de 2006, em Nova Xavantina, às 15h00min.

132 Capítulo III

Xavantes, Sertanejos e Sertanistas no Rio das Mortes

- Vargas: Vanique, eu to planejando uma Expedição aqui. E você vai ser o coordena-dor dela. Vanique: e os índio hein? Vargas:

ah!!! Vamos ter com o Rondon agora. Cha-mou o Rondon. O Rondon veio.

- Vargas: eu to planejando aqui Rondon uma Expedição daqui a Manaus. E é cami-nho que mexe com os índio.

- Rondon: ah, os índio é o seguinte: “É morre se preciso for, matar nunca”.

- Vanique: então tudo bem, nois vamos.

133

Explorações Sertanistas no Vale do Araguaia

Em 1925, o militar inglês, Sir Percival Fawcett, comandou uma Expedição que tinha por objetivo chegar a Serra do Roncador, nas proximidades do rio das Mortes. Fawcett acreditava que sob os contrafortes desta Serra se en-contrava uma avançada civilização, a cidade de Agharta. A fantasia deste explo-rador inglês se tornou uma matriz de força simbólica para a construção das ima-gens da parte mais central do Brasil que foram instrumentalizadas pela Expedição Roncador-Xingu, a Fundação Brasil Central, os grupos político que exerceram o poder em Nova Xavantina e, atualmente, faz uso destas imagens, a publicidade para promover o turismo no Vale do Araguaia. A expedição de Fawcett se apro-priou das narrativas fantásticas sobre o interior do Brasil, produzidas desde o pe-ríodo da dominação portuguesa na parte central da América do Sul. Estas narrati-vas, segundo o historiador Sérgio Buarque de Hollanda265, tinham um caráter es-peculativo, do ponto de vista geográfico, mas no imaginário europeu do Antigo Regime, estas imagens faziam parte de uma iconografia que traçava uma vertica-lidade entre o Velho Mundo, Europa, e o Novo Mundo, América. Portanto, as fan-tasias sobre o mundo americano tinham uma função política.

Com a Expedição de Sir Percival Fawcett, as instrumentalizações políticas destas imagens fantásticas sobre a parte central da América do Sul ga-nharam mais uma ferramenta para exercer o seu poder, a autoridade científica. A própria pessoa do explorador já era portadora de autoridade. O título de Sir o co-locava na elite política do Império Britânico. Por ser membro desta elite, teve tran-sito entre as instituições de Saber do Império. Entre estas instituições estavam a Real Sociedade Geográfica de Londres266, que financiou a Expedição. O aporte financeiro desta instituição ao empreendimento exploratório de Fawcett das terras da parte central do Brasil, pensando com a leitura de Edward Said sobre a per-cepção européia das terras e pessoas localizadas na parte sul do globo

265 Em relação as fantasias portuguesas produzidas sobre o interior do Brasil nos séculos XVI ao XIX, ver: HOLLANDA, Sergio Buarque de. A visão do Paraíso. São Paulo, Brasiliense, 2000.

266 LIMA FILHO, Manoel Ferreira. A Fundação Brasil Central: o Fio da História e Outras Cosmologias no Médio Araguaia. In: Revista de Divulgação Científica/ Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia. V. 1, Goiânia: Ed. Da UCG, 1996.

134

tre267, estava dentro de um campo de poder, detentor de força simbólica, suficien-te para impor as suas imagens.

A imposição destas imagens fantásticas pelo campo de poder do qual fazia parte Sir Percival Fawcett se expressa na consolidação da versão cons-truída para explicar o seu desaparecimento para o público que acompanhava a epopéia do explorador inglês nas selvas do Brasil Central. Segundo esta versão, o explorador encontrou os portais da cidade encantada de Agharta e migrou para a sua avançada civilização, sendo descartadas outras possibilidades para sua morte, como ataque de animais e execução por um dos povos indígenas deste espaço geográfico. As circunstâncias da morte de Sir Percival Fawcett foram in-vestigadas pelo Sertanista Orlando Villas Boas durante cinco anos. Com a colabo-ração dos índios Calapalo, Villas Boas reconstituiu a execução do explorador in-glês, de seu filho e de seu ajudante. Com as informações colhidas junto aos ín-dios, foram localizados e exumados os seus restos mortais. Os mesmos foram enviados ao Museu Nacional para identificação. Porém, a família Fawcett se ne-gou a colaborar nesta etapa da investigação e nunca aceitou os resultados da apuração empreendida por Orlando Villas Boas e, desde então, passou a susten-tar a tese de que Fawcett encontrou um portal na Serra do Roncador para uma civilização subterrânea muito avançada268.

A construção da parte mais central do Brasil, como um lugar fantástico, pela Expedição de Sir Percival Fawcett, tornou-se referência para as expedições de sertanistas e exploradores ao território Xavante na década de 1930. Cito a seguir as duas expedições que tiveram mais publicidade e recursos financeiros e foram nomeadas como as novas bandeiras paulistas. Uma delas, a Bandeira Piratininga foi chefiada pelo jornalista Willy Aurelli que foi também o seu cronista. E a Segunda, foi a Bandeira Anhanguera, chefiadas por outro jor-nalista Hermano Ribeiro e teve, também, duas entradas, uma em 1932 e, a se-gunda, em 1937.

267 SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

268 FERREIRA, Manuel Rodrigues. História dos Irmãos Villas Boas: Fundação Brasil Central, Expedição Roncador-Xingu e Parque Indígena do Xingu, São Paulo, RG Editores, 1997, p. 121-123.

135 A Bandeira Piratininga

Em 1937, Willy Aurelli269, organizou a Bandeira Piratininga. Esta bandeira percorreu o Rio das Mortes, em seguida o Rio Araguaia e chegou até a Ilha do Bananal, onde fez contato com os índios Karajá. Em 1945, retornou ao Rio Araguaia e, no ano de 1949 publicou os resultados sua expedição explora-tória a estes dois rios e a Serra do Roncador270. A publicação de Aureli apresen-tou informações sobre o relevo e os biomas do Vale do Araguaia.

O livro de Willy Aureli com os resultados das suas pesquisas ex-ploratórias deu destaque para os dois rios mais importantes do Vale do Araguaia e a Serra do Roncador. Entretanto, ao descrever o rio das Mortes, apresenta-o em uma narrativa espetacular, com teor fantástico. As imagens do cronista sobre o rio das Mortes é comportada pela mesma icnografia que orientou as leituras de Percival Fawcett sobre a parte Central do Brasil; o imaginário fantástico dos euro-peus sobre as terras dos continentes; americano africano e asiático. Na citação a seguir, percebem-se as fantasias de Willy Aureli sobre o rio das Mortes em diálo-go com as imagens fantásticas sobre o Brasil Central, construídas pelas fantasias de Fawcett. Entre estas fantasias esta a cidade de Agharta, perdida sob os con-trafortes da Serra do Roncador.

Rio das Mortes!

Nome sombrio, mas que não corresponde à fantasia de to-dos. Jamais a mente humana poderá fazer ideia real da ma-jestade deste curso d’água cristalina e pura. Pintor algum sonhou fixar na tela paisagem tão maravilhosa! É indescrití-vel a beleza desta via fluvial que desperta gritos de sincera admiração aos que nela viajam. E gritos de estupefação sai-am de nossas bocas, mesmo quando esfalfado pela rude fadiga, irritados e mau humorados, quedávamos extasiados ante um crepúsculo, ou defrontando um conjunto de ilhas, matas e campos esmeraldinos. Desejava possuir mil bocas para gritar ao mundo minha impressão maravilhosa que du-rou meses a fio. A vista não se cansa de admirar os quadros estupendos. Nenhuma monotonia no ambiente para fazer

269 Willy Aureli nasceu em Santos - SP, em 18 de junho de 1898, e trabalhou no jornal da Noite e Gazeta do Povo, na cidade de Santos. Na cidade de São Paulo, trabalhou para os jornais, Folha da Noite e Folha da Manhã, A Época, O Tempo, Diário Popular, Diários Associados e Shopping News. Como Chefe e cronista da Bandeira Piratininga publicou o seu diário269. Aureli, também é um dos biógrafos de Sir Percival Fawcett.

270AURELI, Willy. Roncador: Jornada da Bandeira Piratininga, Rio de Janeiro, Edição Cultural Brasileira, 2º Edição, 1949.

136

decrescer o entusiasmo que se experimenta desde o inicio.

Se o rio Araguaia é belo, o das Mortes é esplendido! Nunca julguei topar, nesta minha vida de peregrinação, espetáculos tão deslumbrantes como os que aqui deliciaram meus olhos.

Nesta maravilhosa manifestação do belo, todos os perigos, todas as tocaias que a natureza prepara, justificam-os a moldura radiosa que os cerca! Poucas regiões do mundo poderão oferecer ao viajante tamanha variedade de paisa-gem como o rio das Mortes! Um verdadeiro parque!

É a descrição do paraíso na terra. A construção de um lugar pa-ra ser identificado com os jardins de uma civilização avançada, a cidade de A-gatha271, escondida nas selvas do Brasil Central. O fato de Aurelli ter sido um dos biógrafos de Percival Fawcett estabelece uma correspondência entre as fantasias do explorador inglês e esta descrição do rio das mortes feita por Aurel-li272. Construir lugares com descrições fantásticas é uma tradição que remonta aos gregos antigos, a exemplo da descrição que Platão construiu para a lendá-ria cidade de Atlântida273.

Mas a descrição fantástica da paisagem do rio das Mortes não deixa de dar lugar a oposição civilização, litoral do Brasil, lugar da indústria e agricultura, e barbárie, interior do Brasil, lugar do sertão e de populações incul-tas, índios selvagens e natureza bravia. Na seqüência do relato de Aurelli, a descrição do paraíso, desvia para o outro extremo, a de um lugar traiçoeiro com águas violentas, animais horrendos e pessoas selvagens. Nesta passagem da descrição, grifei a afirmação: insidia dos selvagens. O cronista se refere aos ín-dios Xavante, ocupantes do espaço geográfico, percorrido pelas águas do rio das Mortes.

271 Segundo a EUBIOSE, sob os contrafortes da Serra do Roncador, esta o portal para a cidade de Agartha. Esta cidade faz parte de uma civilização subterrânea que era procurada pelo Inglês Per-cival Fawcet quando desapareceu entre os índios Calapalo. EUBIOSE é uma seita religiosa que tem entre os seus cânones, a crença na terra oca, onde encontra-se civilizações mais avançada que a dos terráqueos da superfície do planeta terra.

272 Durante a pesquisa de campo, a leitura da Biografia de Fawcett, escrita por Willy Aurelli, não foi realizada por falta de acesso a obra. Localizei um exemplar desta obra em uma biblioteca particu-lar em Nova Xavantina, mas a proprietária não me franqueou o acesso. Este fato é revelador da instrumentalização política que personalidades da cidade fazem das fantasias sobre a região do Araguaia na gestão da memória da cidade.

273 Platão. Timeu – Crítias o Segundo Alcibíades Hípias Menor. Traduão Carlos Alberto Nunes. 3º Edição. Belém, EDUFPA, 2001, p. 149-175.

137

A natureza prodigaliza indistintamente as nuances das co-res, a pujança da selva, a fereza da fauna, a insidia dos selvagens. Aqui, a tremenda solitude do sertão bruto; ali, o mistério da floresta lacustre; acolá, a placidez dos lagos vir-gens, a brutalidade inaudita dos ciclones, a amenidade das campinas sem fim, a cilada assassina das quedas d’água, a majestade dos barrancos altíssimos, a mansidão das águas puras, o clima inconstante, a tortura dos mosquitos, a fartura inigualável da caça e pesca, a riqueza do solo, as praias al-víssimas, os lodaçais traiçoeiros , as ilhas solitárias, os “iga-rapés” duvidosos....

Sinuosos como serpentes, os afluentes investem para o desconhecido. As lagoas surgem como reflexo de aço poli-do. E o imã gigantesco que atrai para o interior povoado pe-lo mistério ainda não desvendado. Perspectivas abrem-se a cada passo, dividindo, em avenidas, os braços de água.

Portais e túneis verdes convidam à penetração, conduzem por corredores jamais palmilhados, ao imprevisto. A vereda tranqüila transmuda-se num tabocal hirto de pontas, agres-sivo, impedindo o acesso à campina de ervas altas ondejan-tes à brisa, onde o buritizal campeia soberano, índice seguro de águas potáveis e mansão de gigantescas sucuris. De-pois, o cerrado habitado por galheiros, sussuaparas, cam-peiros e catingueiros, guataparás e cervos. Mais além, tabu-leiros dilatados onde a “barba de bode” esconde as varas de queixadas ferozes, de caititus espavoridos.

Em meio a essa solidão, como olho gigantesco a perscrutar o infinito do céu, lagoas circulares de onde irradiam as pe-gadas da fauna que nelas se dessedenta a horas certas. Mi-lhares de patos selvagens, marrecõens, garças níveas e co-lhereiros rosados, volteiam pelo espaço ou sulcam as águas paradas enquanto, como troncos amorfos, enormes sáurios balouçam a espera de vitimas.

Imagens como estas circularam na imprensa nacional e, principalmente, na imprensa paulista. Estas duas bandeiras – Piratininga e Anhanguera - foram financiadas por jornais da capital paulista, que publicavam reportagens e fotografias produzidas por seus integrantes. A imagem que Willy Aureli construiu do rio das Mortes se afirmou e se tornou referência para os textos produzidos posteriormente e orientou a imaginação sobre o lugar: rio das Mortes.

O cronista participou da sua construção através dos seus textos como as citações anteriores.

Um exemplo desta circulação das imagens do rio das Mortes, construídas pelas expedições exploradoras das décadas de 1920 e 1930 ao Vale do Araguaia é o relato das memórias de Sylvio da Fonseca. Este cronista

partici-138

pou da expedição do Serviço de Proteção ao Índio - SPI, realizada no ano de 1946, chefiada pelo sertanista Francisco Meireles274. Esta expedição estabeleceu contato com os índios Xavante em nome do governo brasileiro. Em seu livro de memórias, o cronista praticamente copiou uma frase inteira do livro de Willy Aure-li, construída para se referir ao rio das Mortes: “Do ponto de vista pictórico, o Mortes é um dos mais belos rios que cortam os sertões brasileiros275”.

A cópia desta frase sobre o rio das Mortes, feita por Sylvio da Fonseca do Livro de Aureli, não pode ser transformada em uma acusação de plá-gio. É um dado como tomado. O momento que uma idéia ou imagem se consolida a ponto de se sobrepor a sua origem. A força desta imagem do rio das Mortes foi verificada, por esta pesquisa, em uma das entrevistas realizadas em Nova Xavantina. O Sr. Fernando Mesquita lembrou em seu relato, da leitura que fez do livro de Willy Aureli276, quando planejava sair da cidade de São Paulo para morar no Brasil Central. Neste fragmento de memória, a referência à imagem construída do sobre o rio das Mortes, por Aureli, é direta.

[...] Sobre o rio das Mortes eu já tinha lido um livro, sobre a Expedição Piratininga de Willy Aureli que falava do Rio das Mortes. [...] E eu não tinha visto o Rio das Mortes. Então eu atravessei, entrei na cozinha, fui andando, fui lá pela cozi-nha, o rio das Mortes. Tive a maior decepção. Porque ele tava muito cheio, estava muito barrento. Parecia uma coisa extremamente feia. Não tinha nada há ver com o que o Willy Aurelli tinha descrito.277

A decepção do entrevistado não enfraquece a imagem do rio das Mortes, construída por Aureli. O fato da vista do rio não corresponder a sua ex-pectativa, demonstra a força simbólica que esta imagem exerceu sobre a imagi-nação de Fernando Mesquita em relação ao rio e ao centro do Brasil. Esta citação também é uma indicação da instrumentalização destas imagens para mobilizar os indivíduos que participaram destas expedições, na década de 1930 e, ainda na década de 1980, orientou uma decisão individual em migrar da cidade São Paulo

274 FONSECA, Sylvio da. Frente a Frente com os Xavante. Rio de Janeiro. Irmãos Pongetti Editores, 1948.

275 FONSECA, Sylvio, Op. Cit, p. 49.

276 Roncador: Jornada da Bandeira Piratininga, Rio de Janeiro, Edição Cultura Brasileira, 2º edição, S/D.

277 Entrevista com Fernando Mesquita em 15/01/2006, as 14:00 horas.

139

para o interior do Brasil. É óbvio que nem todas as pessoas que decidiram migrar das regiões Sul e Sudeste do Brasil para o Brasil central e Amazônia eram leito-res deste gênero literário278, que além de Willy Aurelli, contava com publicações de outros sertanistas como Hermano Ribeiro, Francisco Brasileiro e Silvyo da

para o interior do Brasil. É óbvio que nem todas as pessoas que decidiram migrar das regiões Sul e Sudeste do Brasil para o Brasil central e Amazônia eram leito-res deste gênero literário278, que além de Willy Aurelli, contava com publicações de outros sertanistas como Hermano Ribeiro, Francisco Brasileiro e Silvyo da

No documento Bandeirantes do século XX: (páginas 130-148)