5.3 Os Mapas Conceituais Construídos em cada Período do PPGExR
5.3.2 Mapa conceitual do II período – 1980 – 1990
O segundo período é aquele em que se fortalece o movimento de “repensar” da extensão rural. As críticas e questionamentos ao paradigma de difusão de inovações são intensificados, mostrando que surgem anomalias as quais o paradigma não é capaz de dar respostas e buscando sensibilizar mais componentes da comunidade científica para trabalhar com essas anomalias, de maneira a encontrar respostas satisfatórias para elas. Nesse sentido, as concepções dos dois conceitos principais de extensão rural, quais sejam, educação e comunicação, são os alvos das mais severas críticas nos trabalhos de pesquisa realizados, no âmbito dessa comunidade científica, porém, ainda no mapa conceitual construído nesse período do PPGExR, notam-se definições de extensão rural as quais os autores apontam e criticam como a hegemonia do paradigma de difusão de inovações.
A hegemonia dos conceitos que estão sob a égide desse paradigma apresenta-se, mesmo que os autores tracem enaltecidas críticas ao paradigma, esses trabalhos de pesquisa ainda não apresentam alternativas conceituais de maneira clara. Os autores apontam a obra de Paulo Freire (2006), que já havia sido lançada, como ponto necessário de reflexão, contudo, não sinalizam que conceito ou concepção precisam ser adotados pela comunidade científica
de modo a solucionar as anomalias encontradas nas pesquisas realizadas com base no paradigma de difusão de inovações.
O mapa conceitual do segundo período está apresentado na figura 14. No período, oito dissertações atenderam os critérios para comporem a amostra nessa pesquisa. Seus temas são diversos, vão desde o estudo de perfis de diferentes profissionais como técnicos agrícolas e médicos veterinários para trabalhar na extensão rural até a análise crítica dos documentos lançados pela EMBRATER que apontam já novos conceitos, ainda que a prática mantenha-se embasado no paradigma orientador, o de difusão de inovações. Os trabalhos discutem o bem estar social na extensão rural, a questão cultural e sua implicação na extensão rural, o nível de conhecimento de extensionistas acerca de pesquisas realizadas e obstáculos à participação dos agricultores em processos de planejamento e a temática da proletarização no meio rural.
Novamente, cabe aqui ressaltar que esse período compreende a década de 1980 até 1990, período de maior intensidade de críticas lançadas ao paradigma de difusão de inovações. Ao analisarmos o mapa que foi construído a partir das dissertações defendidas na comunidade científica nesse período, é justamente a concretização dessas críticas que pode ser observada. Embora ainda não estejam presentes novos conceitos a serem incorporados ao paradigma, ou que apontem para a emergência de um novo paradigma, os conceitos apresentados, e aqui esquematizados, representam o início de um processo de crise do paradigma de difusão de inovações, onde anomalias surgiram, e esse paradigma não mais consegue responder, evoluindo assim para uma crise paradigmática, tal e qual assevera Kuhn (2007).
Figura 14 – Mapa conceitual referente ao Período II do PPGExR
Os conceitos que estruturam esse mapa conceitual apontaram para um modelo de extensão rural que não se justificava mais, já que, apesar de alguns agricultores terem alcançado o dito desenvolvimento almejado por esse modelo, ou seja, o crescimento econômico, muitos outros ainda acabaram sendo excluídos do processo e ficaram à margem de todo e qualquer benefício que deveria ser oriundo da extensão rural. Justificando essas afirmações, os autores dessas dissertações apontam a manutenção da concentração das terras nas mãos de poucos donos no Brasil, a necessidade de venda de força de trabalho, enfim diversas anomalias para as quais o paradigma de difusão de inovações não consegue encontrar
resposta adequada, pois no seu ideário, a adoção de tecnologias agropecuárias modernas por parte dos agricultores, redundariam em seu progresso econômico e social, se libertando do umbral da pobreza e da ignorância.
Os conceitos que são, podemos dizer, denunciados pelos autores e que estão apresentados no mapa mostram uma concepção ainda de desenvolvimento como crescimento econômico que, nas condições do Brasil e de outros países da América Latina, seria alcançado através da modernização da agricultura que, por sua vez, faz parte da ação da extensão rural. A relação entre técnico e agricultor para que a difusão seja adequada e o agricultor adote as tecnologias impostas é uma relação sujeito-objeto e o mecanismo para que essa adoção seja em um nível que realmente capaz de modernizar rapidamente a agricultura brasileira é a comunicação de massa.
A relação entre a comunicação de massa e a modernização da agricultura, ou seja, as adoções de tecnologias está presente já na adaptação que Rogers (1966) fez da teoria de difusão para os países da América Latina, conforme apresentado no capítulo de revisão de literatura. Os autores das dissertações do período apontam que essa relação se dava através dos meios de propaganda e difusão de boas ideias sobre as tecnologias. Essas propagandas eram utilizadas, de maneira dominadora e reducionista, cercada de uma neutralidade inexistente na população para que se alcançasse os objetivos de modernização da agricultura. Assim, as concepções de extensão rural que são denunciadas pelos autores são de determinismo tecnológico e desenvolvimento conservador.
O planejamento dito participativo foi identificado nas leituras das dissertações como uma tentativa do paradigma de difusão de inovações de dar alguma resposta a não participação dos agricultores nos processos educativos sob uma concepção dominadora. Entretanto, esse planejamento ainda era realizado através de uma racionalidade instrumental, ou seja, sem considerar a complexidade existente de um ponto de vista produtivista humanista, conforme pode ser observado no mapa conceitual, e visava a uma organização da população rural. Essa organização ficou clara, nesse período, e tinha como objetivo “acomodar” os ânimos de agricultores e demais atores envolvidos no processo que não estavam satisfeitos com os resultados obtidos através de uma extensão rural realizada com base em um paradigma de difusão de inovações.
A concepção de educação revelada à época trata da elevação do nível de conhecimento dos agricultores para que eles sejam capazes de adotar e utilizar de maneira adequada as tecnologias desenvolvidas. Em outros termos, a educação era também um instrumento que promovesse a dominação dos agricultores de maneira que todos buscassem os mesmos
resultados para suas atividades. Toda essa relação identificada através dos conceitos levantados nas dissertações é positivista e reducionista em relação ao desenvolvimento no meio rural.
Assim, percebemos, resumidamente, que a extensão rural foi identificada pelos autores como veiculadora de um processo de modernização que buscava culminar com o crescimento econômico e o consequente aumento de qualidade de vida e de bem estar social. Analisando os conceitos levantados, observamos que eles compõem a teoria da difusão de inovações, configurando, dessa forma, que os estudos elaborados estão voltados para esse paradigma que é, até o momento, amplamente aceito pela comunidade científica, contudo, o interesse das pesquisas realizadas nessa comunidade científica, durante esse período, teve o intuito de denunciar as diversas anomalias provocadas pelo paradigma.
É importante salientar que esses cientistas da extensão rural identificaram que as ferramentas que a extensão rural utiliza, nesse momento, para a execução do plano de modernização da agricultura baseiam-se em modelos positivos e reforçam o tripé pesquisa – assistência técnica – crédito rural, sistema que excluiu vários agricultores que não conseguiram acessar o crédito rural por não terem condições de comprovar capacidade de pagamento e que se relacionava com os que tinham condições de acessar no modelo up down, ou seja, mantendo uma relação que considera o sujeito como objeto do processo. Por outro lado, a pesquisa também recebia fomentos governamentais para desenvolver as tecnologias que seriam capazes de tirar os agricultores que tiveram capacidade de acessar o crédito rural do atraso tecnológico.
Os conceitos de comunicação de massa, líderes, difusão de tecnologias, transferência de conhecimentos e treinamento e as relações que eles apresentam uns com os outros remetem claramente ao paradigma da difusão de inovações em voga na comunidade científica. A denuncia dos autores, aqui identificada através dos conceitos por eles elaborados e essa relação em que eles se encontram, delatam uma visão de mundo proporcionada pelo paradigma de difusão de inovações, o qual é apontado pelos autores das dissertações como reducionista e neutra.
Esse período traz ainda a concepção de alguns autores sobre a justificativa para que o paradigma ainda se mantenha vigente para a comunidade científica global. Essa manutenção se justifica pelo fato de que a difusão de inovações, a adoção de tecnologias e o processo de modernização das propriedades rurais, que se dão através dessas adoções, são quantificáveis e observáveis de forma direta o que justifica todos os esforços da extensão rural, ainda que sob
o paradigma de difusão de inovações, visto que a ação dos extensionistas era avaliada pela quantidade, em área (hectares), do uso da tecnologia moderna por parte dos agricultores.
Embora os autores façam todas as denúncias que foram aqui apresentadas através dos conceitos apontados por eles e das relações neutras e simplistas entre os referidos conceitos, existe ainda uma justificativa que é maior do que todas as anomalias denunciadas pelos autores que é a urgência em modernizar a agricultura do país, buscando o seu crescimento econômico. Assim, alguns atores desse período afirmam que essa extensão rural, embasada no paradigma de difusão de inovações, tem um forte compromisso com o capitalismo emergente à época no país.
Diante do mapa conceitual apresentado no estudo do período, bem como de todo o exposto acerca das pesquisas realizadas pela comunidade científica do PPGExR, o que se que pode evidenciar é o aprofundamento de uma crise do paradigma de difusão de inovações através da identificação pelos autores de diversas anomalias que foram encontradas durante o período analisado em relação ao paradigma dominante. Tais anomalias, embora tivessem sido objeto de estudos da comunidade científica, não puderam ser respondidas pelo paradigma. O que surge, e vai ser apresentado daqui para frente nesse trabalho, são as descobertas que aconteceram durante a busca por respostas do paradigma de difusão de inovações às anomalias. Essas descobertas deixam exposta a crise do paradigma de difusão de inovações.