FONTE: INSTITUTO ARQUEOLÓGICO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE PERNAMBUCO. Processo
cível de Divisão da propriedade Alagoinhas. Acervo Orlando Cavalcanti-CX.150, 1835.
As informações contidas no mapa revelam os limites da propriedade com as terras de outros proprietários:
Serra do Gavião primeira linha que divide com Joaquim Ferreira da Silva e José [ilegível]; esta linha divide com Bocú e Liberal; esta linha divide com o sítio do Contador; esta linha [ilegível] divide com os donos da propriedade Barra.157
No centro do mapa a presença de uma rosa dos ventos situa as coordenadas desses limites. O mapa traz também as dimensões de terras recebidas por cada descendente, que variavam entre 218 e 440 braças pra cada um dos herdeiros, perfazendo ao todo 3017 braças.158
Segundo Henry Koster, a divisão das propriedades nos sertões era vaga: “poucos tentam conhecer as dimensões exatas de sua propriedade e, possivelmente, não chegariam ao
157 INSTITUTO ARQUEOLÓGICO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE PERNAMBUCO. Processo cível de
Divisão da propriedade Alagoinhas. Acervo Orlando Cavalcanti-CX.150, 1835.
158
fim colimado”.159
Nesse sentido, o Mapa constante no documento de divisão de terras da família Antunes Bezerra foi elaborado possivelmente com a finalidade de descrever minuciosamente a área da propriedade Alagoinhas, o que demonstraria que certos proprietários realmente tinham a preocupação de conhecer os limites de suas terras.
A ocupação do sítio onde se assentaria o núcleo inicial da povoação de Alagoinhas se deveu possivelmente a condições naturais favoráveis à existência de água, elemento essencial para sobrevivencia humana, principalmente em uma região que possui clima semiárido. De acordo com Pereira da Costa o sítio era situado numa região que se caracterizava pela presença de água potável e que, anos depois, deu origem a uma “povoação, que consta de
umas cento e cinqüenta casas, com algum comércio e animada feira semanal, tem um cemitério público, murado, com diversas catacumbas e jazigos particulares...”.160
Segundo Dorgival Galindo, a primeira ocupação colonial de Alagoinhas se deu a partir do último quartel do século XVIII, quando João Antunes Bezerra adquiriu a propriedade a uns portugueses residentes no Brejo da Madre de Deus. Chegando lá, acompanhado de sua família e de escravos, encontrou João Antunes o local desabitado, isto é, sem a presença dos povos indígenas que outrora ocuparam a região.161 Anos mais tarde, vendeu João Antunes sua propriedade para seu irmão, Gonçalo Antunes Bezerra, que vindo de Vitória de Santo Antão fixou residência na localidade, trazendo consigo sua mulher, filhos, parentes, amigos e escravos, no ano de 1805.162
Pode-se perceber que os relatos de Galindo afirmam que a família Antunes Bezerra chegou às terras de Alagoinhas e não encontrou presença de grupos indígenas que no passado habitavam o território. Sendo assim, possivelmente, esses grupos indígenas foram expulsos dessa localidade devido às ações colonizadoras de Antonio Viera que, chegando ao Ararobá no século XVIII, empreendeu perseguição contra os antigos habitantes. Portanto, fixados nas terras de Alagoinhas, Gonçalo Antunes e seus familiares trataram de erguer algumas habitações, cercas e abrir caminhos pelos matos, transformando os espaços naturais em espaços construídos.
159 KOSTER, Viagens ao Nordeste do Brasil Op. Cit. p. 218. 160 COSTA. Op. cit. v. 7. p. 195 e 196.
161
Essa ausência de grupos indígenas em Alagoinhas no período da chegada da família colonizadora se explica pelo fato de que, entre a passagem do século XVIII para o XIX, muitos grupos indígenas dos sertões de Pernambuco já haviam sido expulsos do seu território pelos colonizadores. Ver SILVA. Nas Solidões Vastas e Assustadoras. Op. Cit.
162 GALLINDO, Dorgival. Traços históricos sobre a fundação de Alagoinhas e seus primeiros habitantes.
Para Mary Del Priore e Renato Venâncio, a família colonial era a base de existência dos lugarejos do interior do Brasil, na qual grupos domésticos podiam viver isolados de outras famílias graças a uma produção praticamente autossuficiente. Geralmente a ocupação desses locais se dava em regiões originalmente ocupadas por povos indígenas.163 Nesse sentido, o povoado de Alagoinhas seguiu um processo já corriqueiro e bem difundido em outras localidades da América portuguesa, que geralmente se iniciava com instalação de uma família colonial, em terras outrora frequentadas por grupos indígenas, propiciando uma série de atividades desenvolvidas pelos colonos.
Antes da chegada dos colonizadores no interior dos sertões de Pernambuco a região era ocupada por uma enorme variedade de povos indígenas. Povos estes que ao alterarem o ambiente ao seu redor deixavam suas marcas no tempo e no espaço através da elaboração de diversos tipos de artefatos. É muito provável que adentrando cada vez mais nos sertões, os colonizadores se depararam e entraram em contato com as transformações no ambiente causadas outrora pelos antigos habitantes.164 Na região na qual o povoado de Alagoinhas foi criado não foi diferente. Lá ainda hoje é possível encontrar vestígios (pinturas rupestres, artefatos líticos) que remetem ao tempo em que a localidade era frequentada por homens e mulheres indígenas que possuíam padrões culturais diferentes dos colonizadores. Se os colonizadores reutilizaram ou ressignificaram esses bens pertencentes aos indígenas, é difícil dizer. O fato é que provavelmente essas pessoas recém-chegadas tiveram contato com essa cultura material, pois ela estava a vista dos colonizadores principalmente através das pinturas rupestres inseridas em matacões rochosos que fazem parte da paisagem da localidade. Pensar que os colonizadores não tenham se deparado com esses registros que comprovavam a presença de grupos indígenas é negar as estratégias de ocupação dessa sociedade que se embrenhava nas serras e caatingas para poderem reconhecer o ambiente, no intuito de praticar seus hábitos de moradia, alimentação, trabalho. No século XIX, Pereira da Costa já registrava em seus Anais Pernambucanos informações trazidas pelo padre Francisco Correia, no ano de 1799, sobre a existência de registros rupestres encontrados nos sertões de Pernambuco.
Um dos objetos que mereceram a particular atenção do Padre Francisco Correia nas suas excursões sertanejas, foram-- as pedras pintadas, ou inscrições indígenas,
163 DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato. Uma história rural no Brasil. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 164 De acordo com Marcus Carvalho e Anna Laura Teixeira de França, “não existem matas intocadas pelo
homem. É um sonho pensar que possa haver recantos florestais onde ninguém tenha se aventurado. Antes mesmo da chegada dos portugueses, os povos indígenas já estavam a milhares de anos interagindo e mudando o meio ambiente”. CARVALHO; FRANÇA. Op. Cit. p. 133.
lapidares, constantes de caracteres e figuras ignotas, - das quais faz, ele menção, indicando a localidade em que se viam, e copiando mesmo os seus curiosos desenhos, traçados de um vermelho vivíssimo, indelével, e cujo numero atinge areais de cem.165
(...) Cimbres, no lugar Cacimbas, a 15 quilômetros de alagoinhas, na serra do Bocu, em uma grande laje, constante de desenhos de animais da nossa fauna, toscamente grafados, na serra do Dinheiro, ao sul da povoação, e na fazenda Arara no distrito de Olho-d'Água dos Brados; Alagoa de Baixo, em algumas serras, nomeadamente as de Jabitacá e da Velha Chica; Pedra, no sitio Barbado, na gruta de uma empinada montanha. 166
Percorrendo esses sertões, o padre se deparou com uma variedade de registros rupestres em diversas localidades do interior pernambucano. De acordo com o documento acima, em suas andanças ele verificou pinturas nas áreas que compõem ou estão no entorno do território de Alagoinhas, o que demonstra que os colonizadores percebiam e até mesmo registravam as alterações no ambiente, causados pelos povos indígenas que habitavam a região antes do processo colonizador da Coroa portuguesa.
Sendo assim, podemos considerar que a família colonial de Gonçalo Antunes, juntamente com seus parentes e trabalhadores escravos, não foram os primeiros homens e mulheres a ocupar o local que viria a ser edificado o povoado de Alagoinhas, pois a presença de indígenas aparece nos bens culturais elaborados e deixados por esses povos nas formas de registros rupestres e de artefatos de pedra. No entanto, respeitando as particularidades culturais de cada grupo, possivelmente tanto os colonizadores quanto os índios encontraram um ambiente natural propício para se estabelecerem, transformando, cada um ao seu modo, as paisagens em busca de uma melhor sobrevivência.
165 COSTA. Op. cit. v. 7. p. 62 166
4.NAS “LAGOINHAS” DOS SERTÕES: ESPAÇOS, HABITAÇÕES, CULTURA