3.5 Instrumentos de pesquisa
3.5.6 Mapas cognitivos
Os mapas cognitivos são ferramentas de representação que permitem que, a partir de dados verbais (informações orais ou escritas que expressam afirmações, predições, explanações, argumentos, regras), o pesquisador tenha acesso a representações internas e a elementos cognitivos (imagens, conceitos, crenças, teorias, etc.), mesmo quando estes não são visíveis para o próprio respondente.
(LAUKKANEN, 1992 apud BASTOS, 2002).
Bastos (2002, p. 74) afirma que “o mapeamento cognitivo é uma estratégia metodológica especialmente voltada para explicitar os processos de construção de sentido e a estruturação de conhecimento (schemas), tanto entre indivíduos, como
entre grupos e organizações”. Contudo, ele também alerta para algumas limitações da técnica, entre as quais, uma que merece ser ressaltada no presente estudo: o fato de que os mapas cognitivos são produzidos a partir de um conteúdo explícito (registros documentais e transcrições de entrevistas), mas também envolvem elementos tácitos subjacentes a esse conteúdo (crenças, valores e interesses), de forma que o processo envolve uma grande carga interpretativa do pesquisador.
Laukkanen (1994) explica que o processo de construção dos mapas cognitivos compreende os passos ilustrados na FIGURA 9. Dentre as precauções fundamentais do método está a identificação de temas idênticos, de questões ou domínios de ação uniformes entre os entrevistados e da terminologia local. Por isso, o autor sugere que a abordagem de comunicação se dê em duas etapas principais.
• Primeira etapa de entrevista (S1): voltada para a coleta de informações de fundo e, especificamente, a identificação de questões-chave e termos comuns para servir como conceitos “âncora” nas demais entrevistas.
• Segunda etapa de entrevista (S2, ..., SN): obtenção de conceitos subjetivos e crenças de relações causais sobre os conceitos âncora, utilizando sucessivas discussões em torno de um conjunto de conceitos comuns.
FIGURA 9 - PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE MAPAS COGNITIVOS FONTE: ADAPTADO DE LAUKKANEN (1994, p. 326)
A elaboração dos mapas pressupõe que os diálogos transcritos sejam reescritos de forma que termos ou expressões sinônimas sejam substituídos por uma expressão comum a fim de que sejam possíveis comparações entre os indivíduos. “A análise
de conteúdo ignora sistematicamente a dimensão pragmática da linguagem.”
(MATTOS, 2006, p. 358).
Entretanto, uma vez que foi realizado um número reduzido de entrevistas, nesta primeira etapa, optou-se pela construção do mapa representativo das crenças, valores e objetivos categorizados de acordo com a percepção obtida na fase de observação e nas entrevistas. Outra razão para que não se realizasse a reestruturação dos textos foi a dificuldade de compreensão da fala do entrevistado em decorrência de frases incompletas ou fala incompreensível.
Os mapas cognitivos foram elaborados a partir da interpretação de trechos das entrevistas e de informações coletadas por meio da observação. As categorias identificadas e suas definições operacionais estão descritas a seguir:
Categorias Subcategorias Definições
Objetivos Econômicos
Individuais Interesse por ganho econômico individual sem manifestação de preocupação com o ganho dos demais.
Coletivos Interesse por ganho econômico não apenas individual, mas também com manifestação de preocupação com o ganho de outros integrantes do grupo. bem estar e a qualidade de vida.
Colaboração Visão de que a troca e a coalizão de forças podem promover o desenvolvimento individual e coletivo.
Competição Visão de que é necessário se sobressair entre dos demais para alcançar os objetivos.
Assistencialismo Visão de que a sociedade deve atender suas necessidades individuais.
Valores
Solidariedade Esforço por uma ordem social mais justa, em que as tensões possam ser resolvidas melhor e os conflitos encontrem mais facilmente uma saída negociada.
Cooperativismo Cooperação econômica com vistas ao crescimento.
Individualismo Busca pelo benefício e interesse particular acima do interesse coletivo.
QUADRO 5 - CATEGORIAS COGNITIVAS E DEFINIÇÕES OPERACIONAIS
Para Rokeach (1968 apud MARMITT, 2001, p. 13-14), as crenças das pessoas estão organizadas em sistemas arquitetônicos e possuem propriedades estruturais descritíveis e mensuráveis, que possuem consequências comportamentais observáveis. Rokeach (1968) diz que as crenças são inferências feitas por um observador sobre estados de expectativas básicas. Frequentemente, as crenças são afetadas por razões sociais e pessoais constrangedoras, conscientes e inconscientes, que levam as pessoas a sentirem vergonha em relatá-las para outros.
As crenças encontram-se organizadas dentro das pessoas, de forma lógica ou psicológica, por não possuírem todas a mesma importância.
De acordo com Marmitt (2001, p. 17), valores humanos são características pessoais, dotadas de componentes culturais, emocionais e comportamentais que influenciam o modo como as pessoas vivem, o que elas consideram certo ou errado, o que elas compram e o que elas consideram importante para si, como prazer, honestidade, ambição ou outros.
Em resumo, os valores das pessoas refletem o que consideram importante. Eles são uma forma abreviada de descrever suas motivações individuais e coletivas.
Juntamente com crenças, eles são os fatores causais que dirigem a tomada de decisão. (BARRETT VALUES CENTRE, 2012, tradução nossa).
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Este capítulo apresenta os resultados encontrados no intuito de verificar se as informações provenientes da Demonstração de Resultado correspondem aos parâmetros de avaliação de desempenho e tomada de decisões dos entrevistados.
A análise foi estruturada de acordo com as categorias cognitivas apresentadas no QUADRO 5, começando pelas crenças e valores, para depois discutir os objetivos sociais e econômicos dos entrevistados.
Numa visão geral dos resultados foi possível notar que a busca por uma melhor qualidade de vida influenciou os produtores E3, E5, E6 E7 e E8. Quando questionados sobre as razões que levaram à trocar da cidade pelo campo termos como "vida mais tranquila", "sossego", "sair da loucura da cidade" foram encontrados como é exemplificado a seguir.
PS: O que levou vocês a vir de lá pra cá?
E8: A vida né cara tipo o sussego né que tanto eu quanto a [S] trabalhava no centro de Curitiba ali.
PS: Huhum.
E8: Uma correria i, i sempre ...como que vou dizer pra você, não tava dando o que que a gente tava esperando né, ai eu falei vamos la pro sitio né, vamos viver do sitio né.
PS: Você já tinha morado no sitio antes?
E8: Não.
Além disso, outras razões diagnosticadas foram a possibilidade de adquirir uma área na região e assim obter a fonte sustentável de renda e o desejo de exercer atividades ligadas ao campo como segue:
PS: Porque que a senhora saiu da cidade?
E3: Ah... Porque eu saí po'que eu queria trabaia na roça, né. Com minhas pranta, com minhas criação né. E lá em Tunas não tem jeito de criá porco, galinha e fazê roça né. Dai a gente compro aqui tamem, né então a gente tem que ficá aqui, trabaiando, né.
De acordo com as entrevistas, o gosto pela agricultura influenciou também os produtores E4, E7 e E9 que sempre trabalharam no campo. O produtor E7 ainda completa ressaltando a possibilidade de “permanecer perto da família”.
Ansoff (1977) salienta que as decisões em relação à administração e a forma de medir o desempenho da empresa deve seguir os propósitos pessoais, sendo eles movidos pelos objetivos econômicos e sociais (ou não econômicos). Desta forma verificou-se que a combinação de crenças, valores e objetivos pode justificar
determinadas decisões tomadas por esses indivíduos como a escolha pela forma de vida e a busca pelo trabalho de forma associada. Esses fatores podem também explicar a quase total falta de controles ou registros que tornem possível a apuração de resultados em bases monetárias. No detalhamento subsequente é possível comprovar tais afirmações.