• Nenhum resultado encontrado

Ansoff (1977, p. 32) salienta que objetivos “[...] são regras de decisão que habilitam a administração a orientar e medir o desempenho da empresa no sentido da consecução dos seus propósitos” e destaca os objetivos empresariais como sendo os econômicos e os sociais (ou não econômicos). Os primeiros, voltados à maximização da eficiência do seu processo global de conversão de recursos; os segundos, decorrentes da interação dos objetivos de cada participante nas

atividades empresariais. Nessa proposição, o autor evidencia uma questão polêmica no ambiente teórico e prático das organizações: as crescentes exigências sociais em relação às empresas – envolvendo questões ecológicas, relações entre empregados e empregadores, regulamentos de defesa aos consumidores etc. – têm promovido um debate sobre os objetivos sociais da empresa em contraposição a seus objetivos econômicos. (PEREIRA, 2001a, p. 52-53).

O caráter social das organizações tem sido colocado em evidência nos últimos anos de modo que se questiona sua finalidade em face dos valores atuais da sociedade que tem privilegiado expressões como responsabilidade social e sustentabilidade.

Ao discutir o ambiente institucional do sistema empresa, Guerreiro (1989, p. 155) afirma que “o interesse social em uma empresa está relacionado com tudo o que a envolve: finalidades, localização, administração, produtos/serviços oferecidos, recursos utilizados (humanos, financeiros e materiais), processo de produção, comportamento e outros.”

Em comparação com uma pessoa, Guerreiro (1989, p. 156) define o perfil de atuação das empresas como sendo caracterizado pela missão que pretende desempenhar no cenário social e pelas crenças e valores que carregam em decorrência da educação, cultura, experiência, ambiência das pessoas que a dirigem, etc. Tais crenças e valores e demais aspectos pessoais são fatores que assumem maior importância para a avaliação de desempenho e mensuração de resultados à medida que o tomador de decisões é levado a valorar de forma não usual os objetos ou eventos em virtude dos parâmetros próprios que possui.

As características pessoais dos indivíduos foram ressaltadas no trabalho de Guerreiro (1989) ao notar que o valor das informações e o resultado das decisões passadas dependiam sobremaneira da forma como o tomador de decisões percebia a utilidade destes elementos. Assim, o caráter cognitivo e o estoque de conhecimentos, crenças e valores prévios, sejam eles pessoais ou incorporados na filosofia da organização, dão sentido à mensuração.

Há, no campo do comportamento microorganizacional, uma forte tradição de uso de conceitos cognitivos para compreender, entre outros, fenômenos como processamento de informações, definição de problemas, estruturação cognitiva como afetando as percepções do trabalho, a motivação, a tomada de decisão, liderança e avaliação de desempenho. (BASTOS, 2002).

Estas questões podem ser analisadas por meio de teorias sobre as motivações dos indivíduos, como em Giddens (1989) que define todo ator social como um potencial agente. Saraiva Junior (2010), ao estudar as mudanças institucionais em uma organização cooperativa, destacou o processo de reflexão e ação que é construído sobre uma base de crenças, valores e interesses predominantes. A esta base é dado o nome de “esquemas interpretativos” da organização. O autor afirma que os esquemas interpretativos são também permanentemente reconstruídos pela prática da ação reflexiva.

Quanto às implicações dos esquemas interpretativos para as decisões no ambiente organizacional o autor destaca:

A compreensão de que os valores e crenças em que se baseiam as práticas de um campo organizacional são socialmente construídos, assim como os parâmetros de sua interpretação pelos atores, e da possibilidade de agência sobre esses elementos da lógica institucional, abre aos gestores um grande leque de possibilidades estratégicas. (SARAIVA JUNIOR, 2010, p. 4).

Giddens (1989) afirma que o ser humano age sempre movido por uma razão, mas, na maioria dos atos da vida cotidiana, essa é uma razão de natureza prática que não exige reflexão. Nesses casos, o ator é capaz de elaborar discursivamente sua ação, mas somente o fará se for questionado sobre porque agiu de determinada maneira.

Os limites entre a consciência discursiva e a consciência prática são imprecisos e variam de um ator para outro. Além disso, existem razões que permanecem no inconsciente do indivíduo e que, mesmo podendo exercer grande influência sobre seus atos, dificilmente podem ser interpretadas por ele. (SARAIVA JUNIOR, 2010, p.

10).

Bastos (2002) cita a tendência crescente à percepção das organizações como um fenômeno processual fortemente enraizado nas ações e decisões de pessoas, o que Burrel e Morgan (1982) chamam de “paradigma interpretante”. Tal tendência pressupõe que, “mesmo os aspectos mais tangíveis da vida organizacional envolvem construções dos indivíduos que as constituem.” A “epistemologia construcionista” citada por Bastos (2002) e a visão do indivíduo como agente de transformação defendida por Giddens (1989) encontra respaldo em estudos sociológicos, principalmente no que se refere à educação e ao desenvolvimento local, com destaque para a chamada Filosofia Freireana, segundo a qual “o sujeito é

um ser que pensa, produz e conhece, portanto sujeito ativo, histórico, sujeito de interações.” (CAVALCANTE, 2009, p. 32).

O paradigma da interpretação e construção remete ao aspecto psicológico ou moral das ações e decisões das pessoas que não se limita ao caráter racionalista e implica a compreensão dos objetivos sociais como sendo tanto ou mais importantes que os objetivos econômicos. Deste paradigma resulta o estudo dos chamados esquemas interpretativos que, segundo Bartunek (1984, p. 355) operam como suposições compartilhadas e fundamentais (embora muitas vezes implícitas) sobre o porquê de os eventos acontecerem como acontecem e como as pessoas devem agir em diferentes situações.

As razões que levam os indivíduos a agir de uma determinada forma são produto de como os mesmos percebem e interpretam o contexto em que suas ações se realizam. As ideias, valores e crenças subjacentes a esses elementos que orientam a interpretação formam os esquemas interpretativos, que constituem a “visão de mundo” e o “modo próprio de fazer as coisas”, específico de cada organização.

(SARAIVA JUNIOR, 2010, p. 18).

Crubellate (2004 p. 96) define os esquemas interpretativos como “aspectos fundamentais do processo interpretativo que convencionalmente se admite como estando relacionado com as escolhas e as ações, dentro e fora do âmbito organizacional”. Segundo esse autor os valores são “objetos ou fins considerados pelos dirigentes como sendo moralmente desejáveis, tanto para si quanto para as demais pessoas ou demais organizações”.

Ranson, Hinings e Greenwood (1980) citam os esquemas interpretativos como quadros que permanecem normalmente tidos como certos e incorporados tanto nos sentimentos avaliativos sobre o valor relativo das coisas, como nos “estoques de conhecimento” e sistemas implícitos de crença que, segundo Schutz e Luckmann (1973, p. 7 apud RANSON; HININGS; GREENWOOD, 1980, p. 5) “servem como referência para o esquema [individual] de explicação do mundo”.

Parece importante ressaltar que não há consenso entre as correntes que estudam as decisões no contexto organizacional sobre as motivações das pessoas. Hall (2004, p. 7) defende que “a análise dos indivíduos em organizações também precisa considerar os fatores econômicos.” O autor critica a posição dos sociólogos

afirmando que estes “apresentam uma tendência de desprezar o lado econômico,” o que considera “um erro”. Afirma também que “concentrar-se em fatores como moral e satisfação desvia a atenção do fato de que os fatores econômicos constituem uma preocupação central para dirigentes e trabalhadores.” Segundo ele, “as pessoas tem um interesse econômico óbvio nas organizações em que trabalham, pois elas afetam o bem-estar econômico dos trabalhadores e, portanto, também de seus dependentes.”

Não obstante as divergências de opinião comentadas, Guerreiro (1989, p. 41) afirma que a avaliação sobre as informações deve se dar “em termos dos objetivos do tomador de decisão e [representar] uma medida de utilidade no nível de satisfação daqueles objetivos.” O autor explica que, “dependendo das características psicológicas do tomador de decisão” a utilidade nem sempre pode ser expressa em termos monetários. (GUERREIRO, 1989, p. 49). Deste fato decorre o entendimento de que avaliação do resultado por meio da simples equação receitas menos custos e despesas, expressando a relação econômica (custo/benefício) das atividades de uma organização, pode não condizer com os valores da mesma.