Falo porque elas falam
1.2 Lutas de mulheres em marcha: 2015, um ano de convergência
1.2.4 Marcha das Mulheres Negras – transversalidade das pautas
Assim como a luta das mulheres no âmbito das entidades de classe, como foi apresentado acerca da MM, a MMN é fruto de um acúmulo de experiências e construções históricas muito complexas em que se articularam a luta contra os efeitos dos processos de racialização coloniais,
a luta anticapitalista e a luta contra o machismo estrutural que permeia todas as relações no que podemos chamar de sociedade ocidental, e, em especial no contexto latino-americano. Assim, é importante retomar o histórico das lutas do movimento negro no Brasil e a centralidade da atua- ção das mulheres negras. A pluralidade dessas articulações históricas de resistência e de existência é uma característica central para a compreensão da MMN como ação para a qual convergiram inúmeros grupos sociais. A esse respeito, Gonzalez (1982, p. 18) observa que:
Na verdade, falar do Movimento Negro implica no tratamento de um tema cuja complexidade, dada a multiplicidade de suas variantes, não permite visão unitária. Afinal, nós negros, não constituímos um bloco monolítico, de características rígidas e imutáveis. Os diferentes valores culturais trazidos pelos povos africanos que para cá vieram (iorubas ou nagôs, daomeanos, malês ou mulçumanos, angolanos, congo- leses, ganenses, moçambicanos, etc.), apesar da redução à “igualdade”, imposta pela escravidão, já nos levam em pensar em diversidade.
Os processos de racialização dialeticamente implicaram a organização de setores da socie- dade para a reexistência da população marginalizada. Cabe ressaltar que o lastro das lutas negras no país evidencia a sua importância para o avanço social como um todo, sendo enormes as con- tribuições nos processos mais relevantes de que se constituiu nossa história. Desde o sequestro massivo de seres humanos do continente africano e as torturas sofridas nas Américas, a luta da população negra operou na resistência ao regime escravocrata em diferentes movimentos de in- surgência, na luta contra o extermínio promovido após a falsa abolição de 1888, no enfrenta- mento ao autoritarismo da República Velha, entre muitos outros momentos da história do país. Nesses cenários de violências e lutas, mulheres negras estiveram na linha de frente, oferecendo um legado de tecnologias de mobilização social e construindo de modo efetivo avanços nas pautas sociais. A esse respeito Sueli Carneiro (2003, p. 129) defende que:
podemos afirmar que o protagonismo político das mulheres negras tem se consti- tuído em forca motriz para determinar as mudanças nas concepções e o reposicio- namento político feminista no Brasil. A ação política das mulheres negras vem pro- movendo: o reconhecimento da falácia da visão universalizante de mulher;
o reconhecimento das diferenças intragênero; o reconhecimento do racismo e da discriminação racial como fatores de produção e reprodução das desigualdades so- ciais experimentadas pelas mulheres no Brasil; o reconhecimento dos privilégios que essa ideologia produz para as mulheres do grupo racial hegemônico; o reconhe- cimento da necessidade de políticas específicas para as mulheres negras para a equa- lização das oportunidades sociais; o reconhecimento da dimensão racial que a po- breza tem no Brasil e, consequentemente, a necessidade do corte racial na
problemática da feminização da pobreza; o reconhecimento da violência simbólica e a opressão que a brancura, como padrão estético privilegiado e hegemônico, exerce sobre as mulheres não-brancas. E a introdução dessas questões na esfera pública contribui, ademais, para o alargamentos dos sentidos de democracia, igualdade e justiça social, noções sobre as quais gênero e raça impõem-se como parâmetros ine- gociáveis para a construção de um novo mundo.
A organização de movimentos identitários tem um marco importante na década de 1930, quando da criação do Centro Cívico Palmares (1926) da Frente Negra Brasileira (1931), esta úl- tima chegando a ter mais de 20 mil membros e contando com um aparato bastante significativo para o período, sendo de extrema relevância o protagonismo das mulheres negras (DOMIN- GUES, 2007). No final da ditadura Vargas, inaugura-se uma segunda fase do movimento negro no Brasil, sendo criados outros espaços de luta centrados no fomento da cultura, da alfabetização e da inclusão das negras na sociedade brasileira. Dentre esses espaços, destacam-se a União dos Homens de Cor (UHC), de 1943, muito próxima aos valores da FNB, propondo centralmente, o incremento das condições econômicas da população negra; e o Teatro Experimental do Negro (TEN) criado por Abdias do Nascimento, em 1944, a partir do contato com propostas do movi- mento negro estadunidense. A participação das mulheres no TEN foi muito significativa. Con- forme registro do IPEAFRO:
Para além da dramaturgia como meio de conscientização do negro, o TEN desem- penhou atividades de caráter social e artístico. Assim, a atuação do TEN alcançou outros palcos, revelando a militância e o engajamento feminino nas lutas contra a discriminação. A atuação das mulheres foi uma base importante de suas realizações. Arinda Serafim, Elza de Souza, Marina Gonçalves, Ruth de Souza, Ilena Teixeira, Neusa Paladino, Maria d’Aparecida, Mercedes Baptista e Agostinha Reis estão entre as mulheres que participaram desde os primeiros momentos do TEN. Muitas delas eram empregadas domésticas, e lideravam a defesa de seus direitos. A advogada Gui- omar Ferreira de Mattos atuava intensamente nessa causa. Duas organizações de mulheres negras fizeram parte do TEN: a Associação das Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras.52
Mesmo com posicionamentos bastante distintos e atuando em distintas frentes, o TEN e o UHC demandavam pelo reconhecimento da cidadania da população negra, visando sua integra- ção na sociedade brasileira. Como debaterei no 4º Movimento da tese, a filosofia africana emerge
como um grande movimento de reivindicação da humanidade para africanas. O mesmo processo de insurgência contra a negação da humanidade para afrodescentes no Brasil é promovido por pensadoras e ativistas sociais ao longo de toda a história do(s) movimento(s) negro(s) no Brasil. Esse processo, em especial, foi incrementado com as independências de países do continente afri- cano na década de 1960. É nesse contexto que se insurge uma crítica ao mito da democracia racial no Brasil, processo que, conforme Pereira (2011, p. 38-9):
foi a própria razão do surgimento de uma das primeiras organizações do movimento negro contemporâneo brasileiro, o Grupo Palmares. Este Grupo foi fundado por Oliveira Silveira, junto com outros militantes, em 1971, em Porto Alegre, e teve como primeiro e principal objetivo propor o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, como a data a ser comemorada pela população negra, em substituição ao 13 de maio, dia da abolição da escravatura; fato que engloba uma ampla discussão sobre a valorização da cultura, política e identidade negras, e pro- voca objetivamente uma reavaliação sobre o papel das populações negras na forma- ção da sociedade brasileira, na medida em que desloca propositalmente o protago- nismo em relação ao processo da abolição para a esfera dos negros (tendo Zumbi como referência), recusando a imagem da princesa branca benevolente que teria re- dimido os escravos. O 13 de maio passou, então, a ser considerado pelo movimento negro como um dia nacional de denúncia da existência de racismo e discriminação em nossa sociedade. O Grupo Palmares elegeu o Quilombo dos Palmares como pas- sagem mais importante da história do negro no Brasil e realizou, ainda em 1971, o primeiro ato evocativo de celebração do 20 de Novembro.
O Palmares Grupo operou como um think tank para a construção de novas estratégias de luta, por meio de atividades junto à população que promoviam a conscientização e a afirmação da identidade negra, em meio a um período bastante conturbado da decadência da ditadura empre- sarial-militar no país (1964-1984). Contudo, havia limitações para a realização de ações de mili- tância e contestação, sendo que as ações ficavam mais restritas a seminários e encontros em espa- ços privados (RIOS, 2012). A esse respeito, Helena Vitória dos Santos Machado, militante do Grupo Palmares e do MNU, em texto publicado no portal Geledés, observa que:
No final da década de 1970, a crise econômica que se abate sobre o mundo começa a apresentar seus reflexos sobre o Brasil, que já vivia num tempo sombrio de dita- dura: O decantado “Milagre Brasileiro” não aconteceu – o capitalismo brasileiro, com dificuldades de avançar o seu /projeto de expansão (desenvolvimento econô- mico), a inflação devorando o poder aquisitivo dos trabalhadores, os empregos de- saparecendo, grandes movimentos sociais, manifestações em praças públicas, vio- lência policial, as greves etc. Esse aumento das mobilizações teve como resultado o desenvolvimento da consciência da população oprimida. E o MNU aparece nesse
bojo, trazendo propostas às minhas indagações. Criado em 07 de julho de 78 (há 36 anos), em ato público com cerca de duas mil pessoas, em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, se propunha a “…ser uma organização de lutas e denúncias em todos os campos onde haja opressão e perseguição do negro, ou seja, um órgão de forte representatividade da população negra em sua luta pela liberdade…”(...) A linha pro- gramática do MNU abrangia desde a luta contra o desemprego, pelo saneamento básico, pela criação de escolas autônomas nas comunidades, pela criação de teatros na periferia, pela defesa de posses de terras ou doações, até a organização do traba- lhador rural, a liberdade sindical e o apoio à luta internacional contra o racismo, entre dezenas de outros itens não menos importantes nem menos urgentes. Na ver- dade, o MNU apresentava um perfil inédito na resistência negra brasileira, mercê o caráter sociopolítico evidenciadamente sindical de suas proposições. 53
O Movimento Negro Unificado (MNU) é construído, desse modo, como um movimento popular e democrático, inaugurando um novo momento de organização das lutas negras, no con- texto das lutas pela redemocratização do país. O MNU estabelece uma série de tecnologias de luta, ou repertórios de ação (TILLY, 2005), que seriam repercutidas por outros movimentos e grupos da população negra no país. A esse respeito, Rios (2012, p. 42-50) explica que esse ato de criação do MNU:
representou a forma de protesto social que o movimento negro no Brasil assumiria doravante, tomando os espaços públicos abertos como palco privilegiado de mani- festações. (...) As manifestações de rua marcaram o retorno da política negra à cena pública brasileira nos anos 1970. De lá para cá, cada vez mais, os atos do movimento negro têm tomado uma forma expressiva, litúrgica e pedagógica perante a sociedade e o Estado, enquanto outras formas de reivindicação puderam ganhar espaços insti- tucionalizados de negociação, a exemplo das plataformas partidárias, das lutas judi- ciais, dos compromissos com os órgãos internacionais e com o poder público. Isso não torna as marchas, os atos e as ocupações objetos de menor relevância para o estudo dos movimentos sociais. Muito ao contrário, no protesto encena-se o enredo do conflito social, em sua forma simbólica e coletivamente organizada. (...) Estrate- gicamente, a escolha dos ativistas não deixava dúvida: o protesto de rua era a nova aposta para a mobilização negra que, até então, por conta da repressão militar, es- teve restrita a encontros, reuniões e seminários. Eles sabiam que o ato constituía um marco para o seu repertório de ação e que as ruas passavam a ser espaços de denún- cia. (...) Certamente, o ato de 1978 teve o caráter explicitamente contestatório e rei- vindicativo, sobretudo porque naquele momento não havia ainda nenhum tipo de organização pública que pudesse servir de canal para demandas do movimento. A reivindicação, numa perspectiva estrutural, exigia o reconhecimento da existência de racismo e desigualdade social entre as raças, uma vez que o discurso oficial da ditadura militar baseava-se no mito da democracia racial.
53 Disponível em: <https://www.geledes.org.br/processo-de-adesao-os-36-anos-de-movimento-negro-unificado- mnu/>. Acesso em: 19 jan. 2018.
Desde seus primeiros momentos, o MNU teve uma atuação de caráter internacionalista, dialogando com a luta contra o Apartheid na África do Sul e com a Organização para Libertação da Palestina. Entretanto, as demandas das mulheres negras que sempre trabalharam para cons- trução dos processos de luta do movimento negro como um todo não eram ouvidas, nem tam- pouco tinham espaço lideranças femininas. Foi, nesse contexto, que se deu a criação de diferentes grupos e núcleos de mulheres negras, conforme Gonzalez (1985, p. 100):
Os anos setenta e oitenta apontam para o surgimento de grupos organizados de amefricanos em quase todo o país: Rio de Janeiro (Aqualtune, Luiza Mahin, Grupo de Mulheres Negras d RJ, Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, Centro de Mulheres de Favelas e Periferias), São Paulo, coletivo de Mulheres Negras de SP (...) Os anos seguintes testemunharam a criação de outros grupos de mulheres negras (Aqual- tune, 1979; Luiza Mahin, 1980; grupo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, 1982), que de um modo ou outro foram reabsorvidos pelo movimento negro. Todas nós, sem jamais termos nos distanciado do movimento negro, continuamos a discutir as nossas questões específicas junto aos nossos companheiros, que muitas das vezes nos tentavam excluir dos níveis de decisões, delegando tarefas mais “femininas”. Desnecessário dizer que o MN não deixava (e nem deixou ainda) de reproduzir prá- ticas originárias mistas, sobretudo no que diz respeito ao sexismo. (Gonzalez, 1985 p.100)
O protagonismo das mulheres negras foi fundamental para a consolidação do movimento negro, em especial no campo da academia, tendo grande destaque a atuação de Lélia Gonzalez para a formação de uma rede de ativismo identitário não-classista, com foco no gênero e na raça, e, de modo mais insipiente, de movimentos de homossexuais (RATTS; RIOS, 2010). Contudo, esses processos foram e ainda são bastante conflituosos,
A luta antirracista fez-se, então, em diálogo, e também em concorrência com diver- sas tendências políticas e sociais, muitas das quais se incorporaram ao repertório do movimento negro, sem dúvida alguma devido às trajetórias, trânsitos e identidades sociais de seus ativistas, que longe de pertencerem a um movimento único, circula- vam em diferentes espaços políticos, ampliando o raio de sua ação e absorvendo ideias e valores conciliáveis com seu ideário de igualdade. A despeito dessa circula- ção intensa, havia o desafio central para esse ativismo: a defesa da sua autonomia frente às demais organizações da sociedade civil. Delimitar as fronteiras do movi- mento negro era o desafio que suas lideranças e seus intelectuais teriam que enfren- tar, uma vez Rios que esse era um dos grandes imperativos de sobrevivência de todas as mobilizações emergentes naquele período (Cardoso, 1987; Kowarick, 1987) (RIOS, 2012, p. 47-8)
A desconstrução do mito da democracia racial (GONZALEZ, 1985) tem ramificações nas pressões sofridas tanto pelos movimentos negros como um todo, como, em especial, pelos movi- mentos de mulheres negras, sendo que, sistematicamente, há a tentativa do esvaziamento de pau- tas específicas em nome de um “bem maior” (como no caso da Marcha das Margaridas). Nesse sentido, a marcação de uma posição em benefício das demandas e reivindicações de mulheres negras é central e demanda muitos desdobramentos tecnológicos de seu repertório de luta, dentre os quais, focalizo a MMN de 2015, como um marco de ações das e pelas mulheres negras. a esse respeito, Lemos (2015, p. 209) indica que as disputas se dão em diferentes dimensões – tanto intragênero e intergênero como no âmbito das lutas antirracistas, conforme a autora:
Em relação ao Movimento Negro, o debate de gênero não era contemplado, uma vez que a participação das mulheres negras se restringia a arrumar as salas e a con- vocar e secretariar as reuniões, fato que se repetia em todos os encontros e eventos nos anos 1980 (LEMOS, 1997). Em decorrência da discordância com essa prática política, inúmeros conflitos aconteciam e, consequentemente, as mulheres negras buscaram organizar suas instituições especificas, a partir do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, como reação radical contra esse estado da arte. Diante desses dois polos incongruentes para a promoção de uma participação política efetiva das mulheres negras – feminismo tradicional e Movimento Negro –, o Feminismo Ne- gro se estrutura e se intensifica chegando ao auge nos anos 1980 com a criação de diversas ONGs de mulheres negras, que irão se avolumar nos anos 1990. Como exemplos destacam-se: a Reunião de Mulheres Negras Aqualtune (Remunia) (1978); o Coletivo de Mulheres Negras de SP (1982); o Nzinga: Coletivo de Mulheres Ne- gras do RJ (1983); a Maria Mulher – Organização de Mulheres de Porto Alegre – RS (1987), o Geledés/São Paulo – SP (1988); a Imena – Instituto de Mulheres Negras do Amapá/Macapá/ AP (1999), e tantas outras.
O histórico de lutas de mulheres negras se erigiu na adversidade até mesmo no âmbito de movimentos em que haveria, pretensamente, uma unidade em razão das dores compartilhadas por quem é racializado no Brasil. No entanto, para compreender as demandas específicas de mu- lheres negras, era necessário realizar um movimento que tivesse como foco o combate aos sofri- mentos que apenas mulheres negras teriam legitimidade para questionar (RATTS; RIOS, 2010).
Dez anos após o ato de criação do MNU, em 1988, quando do centésimo aniversário da assinatura da Lei Áurea houve o segundo ato de relevo na história de mobilizações do movimento negro no país. Conforme Rios (2012, p. 51):
Ao contrário da fundação do MNU, a onda de manifestações que questionou a data comemorativa de 13 de Maio possuiu maior alcance, seja porque se tratava de mo- mento simbólico para a nação, seja porque foi realizada nas proximidades da
campanha pela reforma constitucional. Não era para menos: tratava-se de uma oportunidade política francamente aberta para a consolidação do movimento negro na cena política nacional. Dez anos depois do ato no Teatro Municipal, tudo era um pouco diferente. Não só o movimento tinha se modificado, como também a conjun- tura nacional estava em mudança: os ventos democráticos assobiavam mais na soci- edade civil e nas estruturas estatais. De um lado, havia um processo franco de ex- pansão e diversificação do movimento negro, revelado, sobretudo, na formação de novas organizações e na constituição dos coletivos de mulheres negras, que amplia- ram o repertório discursivo do movimento, com a inclusão das questões de gênero e sexualidade. De outro lado, o movimento conquistara alguns espaços institucio- nais, como foi notado por Hanchard: “o protesto afro-brasileiro do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 levara à criação de assessorias e comissões no Rio de Janeiro e São Paulo” (2001, p.169). Assim, o protesto do 13 de Maio contava com outras condições objetivas de realização. Era, sem dúvida alguma, um movimento com mais recursos institucionais e mais experiência de ativismo.
O caráter crítico e a disputa pela narrativa histórica foi central no contexto dos atos que tomaram lugar nesse centenário da falsa abolição, sendo central a mobilização de mulheres negras na reivindicação e denúncia quanto aos processos de violência do racismo e do sexismo estrutu- rais, tais como podem ser vistos na Figura 1.14, em que há o registro de atos em diferentes espaços promovidos por distintos seguimentos sociais.
Figura 1.14 – Registros de atos de mulheres negras de 1988: Banner do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher do Ministério da Justiça, Cartaz do Seminário Mulher Negra 100 anos depois, Lélia Gon-
zalez no Dia Internacional da Mulher em Goiânia e Cartaz do tribunal Winnie Mandela
Fonte: Disponível em: <http://www.projetomemoria.art.br/leliaGonzalez/vida/as-mulheres-negras-ainda-lutam-
Um dos atos de maior destaque foi a Marcha Contra a Farsa da Abolição, realizada no Rio de Janeiro e protagonizada por diferentes movimentos sociais. “O Movimento Negro Unificado, que completava dez anos, produziu um outdoor com a seguinte frase ‘A princesa esqueceu de assinar nossa carteira de trabalho’.” Essa marcha foi duramente cerceada pelo braço armado do Estado, sendo que por uma suposta denúncia de que haveria depredação do monumento de Duque de Caxias, um contingente enorme de soldados tomou o centro da cidade.
Posteriormente, no mesmo contexto histórico do avanço de políticas neoliberais e da pre- carização das condições de vida das populações oprimidas que instanciou a marcha “Do pão e das rosas”, foi realizada ocorreu, no dia 20 de novembro de 1995 em memória dos 300 anos do assas-