Falo porque elas falam
1.1 Palavras aprendidas e a potencialidade de fazer perguntas
1.1.2 Questões suleadoras e objetivos significativos
No projeto inicial desta tese, meu foco recaía, de maneira dicotômica, sobre a construção discur- siva da violência, como forma de legitimação da hegemonia, e, por outro lado, sobre a construção discursiva da resistência e do projeto, como estratégias de luta contra hegemônica, aos moldes do que convencionou Manuel Castells (2001). A violência é compreendida como ação de atores so- ciais articulados para o poder e pelo poder em eixos de sofrimento humano – patriarcado, colo- nialidade e capitalismo –, conforme a delimitação de Boaventura de Sousa Santos (2010) (ver 2º movimento).
A partir dessa delimitação inicial, busquei, em diversos lugares sociais, compreender as categorias da violência e da resistência à violência. A coleta de dados documentais e a pesquisa bibliográfica realizadas nos primeiros momentos de minha investigação evidenciaram a necessi- dade de:
1) dedicar-me ao estudo sobre as possibilidades de resistir e, para além, de uma ação respon- siva ou meramente reativa aos ataques hegemônicos, e focalizar ações propositivas que projetassem e realizassem formas alternativas de práticas sociais, visando construir arran- jos sociais justos e igualitários, tendo o Sul da ‘reexistência’ como conceito a trilhar;22
2) focalizar a convergência de eixos de violência/sofrimento ou interseccionalidade e a orga- nização social de reexistência realizada por protagonistas de lutas pelos direitos das mu- lheres;
3) analisar que processos discursivos eram ativados de modo regular em textos produzidos em contextos de luta, buscando, assim, perfazer uma gramaticalidade da construção dis- cursiva da reexistência; e
4) a partir da constatação de que a identidade (ou, como proporei em 2.2, centros tonais identitários) e os processos relacionados ao significado identificacional tinham potencial para evidenciar como se dava a construção da resistência enquanto arranjo social (conceito que também será apresentado em 2.2), focalizar a análise desse significado nos dados dis- cursivos reunidos por esta pesquisa (sem para tanto desconsiderar os outros significados do discurso – representacional e acional –, que estão dialeticamente associados).
22 Essa mirada foi possível pelo encontro, na marcha das ações que focalizei na etnografia desta pesquisa, com uma palavra
– reexistência – que me mostrou como saberes vivenciais locais tinham uma potência muito maior para sistematizar os processos sociais do que teorias importadas (por mais adequadas que estas fossem para explicar seus contextos de origem). Na sequência, quando ainda estava gestando essa reflexão, no exame de qualificação realizado em fevereiro de 2016, as orientações do professor Dr. Wanderson Flor do Nascimento sulearam meu estudo, a partir das indicações de obras e pensamentos de autoras com quem poderia dialogar. Essas orientações foram de tal modo importantes, que ele acabou se tornando coorientador desta pesquisa, pelo que, sou muito grata.
Desse modo, as questões de pesquisa inicialmente construídas foram sendo aprimoradas, buscando abrir frentes de diálogo e questionar de modo crítico os processos sociais sobre os quais pretendia pensar e estudar por meio da análise de textos produzidos em contextos situados de luta pelos direitos das mulheres. Nesse sentido, como observei, não tenho como objetivo, aqui, dar respostas, mas construir uma análise acerca de textos produzidos em práticas situadas, a fim de contribuir com a mudança social pelo compartilhamento de minha reflexão crítica com outras pessoas que se interessem pelos mesmos assuntos ou que partilhem de sentimentos semelhantes em relação ao potencial que o conhecimento científico possa ter em relação ao exercício do pen- samento sobre o mundo, numa perspectiva política (de discussão da polis, ou da vida comum).
Nesse sentido, em diferentes momentos de minha experiência como pesquisadora e como professora, em especial quando fui a campo na instância desta investigação, fui ensinada por com- panheiras que minhas questões iniciais careciam de substância, havia perguntas melhores a se fazer. Assim, busquei significar os processos sobre os que estava centrada (como num ato de au- toeducação, pelo prisma freireano)23 e redelimitei os focos de minha atenção (mais do que objetos
de pesquisa, foram focos que dialogaram comigo, reinformando minha pesquisa): a Marcha Mun- dial das Mulheres (MMM), em sua ação internacional de 2015 no Brasil; a Marcha das Margaridas (MM) de 2015; e a Marcha das Mulheres Negras (MMN), cuja primeira edição ocorreu, também, em 2015.
Esses focos exigiram que construísse questões substantivas, que foram sendo aprofunda- das e aprimoradas, visando acessar aspectos da construção discursiva da reexistência ligados, cen- tralmente, aos arranjos identitários de mulheres. Tendo isso em vista, apresento os dois últimos dois momentos desse processo de buscar fazer melhores perguntas, tal como fui capaz de consti- tuir até a finalização desta pesquisa, mas que, certamente, poderão ser aprimoradas em trabalhos vindouros. Essas questões estão apresentadas na Figura 1.1 que segue:
23 Para Paulo Freire (1995), educar é possibilitar que a vida cotidiana seja significada, seja lida criticamente a fim de que se
possa agir sobre esta e produzir um movimento humanizador da realidade que compartilhamos. Ecco e Nogaro (2015, p. 3523), ao realizarem um ensaio sobre eixos centrais da perspectiva freireana, observam que Paulo Feire: “Considera que o ato de educar, no seu verdadeiro significado, é humanizar. A multiplicidade conceitual da palavra educação revela, tam- bém, sua ambiguidade, verificada na sua origem etimológica. O sentido da educação em Freire decorre da incompletude dos seres humanos. Em vista disso, modificar-se é uma necessidade da natureza dos seres humanos, na busca de comple- mentarem-se como pessoas. (...) E, nesta premissa, está inserida a concepção de educar que, em síntese, é, também, pro- mover, nos sujeitos, a capacidade de interpretação dos diferentes contextos em que estão inseridos, bem como, qualificá- los e ‘instrumentalizá-los’ para a ação”. Ainda conforme os autores (ECCO; NOGARO, 2015, p. 260, “educar é promover o outro. E promover o outro é uma tarefa humanizador”.
Figura 1.1 – Questões suleadoras da investigação: delimitação e enfoque
Essas questões ganharam corpo ao serem vivenciados eventos sociais realizados no âmbito das marchas focalizadas, sendo que participei de diferentes ações e marchei lado a lado com as mulheres cujas práticas de organização pude estudar. Essa vivência corporal reuniu, então, o sen- tir e o pensar, numa lógica do pensamento sensível (BOAL, 1988) ou do sentipensar (MORAES; TORRE, 2004), por meio de uma sociopoética (GAUTHIER; SANTOS, 1996) que foi necessária para poder questionar e pensar sobre os aspectos e dimensões da reexistência aqui sumarizados. Para poder construir as linhas de reflexão mobilizadas por essas questões de pesquisa foi necessá- rio constituir um conjunto de ferramentas intelectuais capazes de dar conta de suas especificida- des. Foi-me necessário ir além do marco teórico já assentado na tradição do campo da ADC e buscar pontes, diálogos e conversas com outras searas do conhecimento. Nesse sentido, as refle- xões teóricas, metateóricas e metodológicas que serão aprofundadas nos Movimentos 2, 3 e 4, respondem a uma questão de investigação, ou em termos de Mason (2000), um desafio intelectual – Como é possível pensar sobre a reexistência? Como é possível produzir conhecimento sobre a construção discursiva da reexistência? – que reúne as questões de pesquisa (delimitação e enfo- que). Sem esse esforço intelectual, não seria possível mover o pensamento a partir das questões de pesquisa que construí para esta investigação.
Essas questões foram redimensionadas como questões de análise para o estudo de textos documentais coletados e como eixos temáticos para entrevistas semi-estruturadas em profundi- dade que realizei junto a seis colaboradoras que participaram das marchas focalizadas. Desse modo, pude acessar diferentes formas de ver, ser e vir-a-ser no mundo a partir do contato com diferentes subjetividades, em distintas práticas sociais de mobilização.24 A partir desse movimento
de aprofundamento e de aprimoramento das questões suleadoras, pude formular uma proposta de compreensão das atividades discursivas mobilizadas para e pelas marchas, como discutirei com mais detalhes no 5º Movimento, são nós focais de uma multiplicidade de eventos que co-ocorre- ram no contexto de lutas pelos direitos das mulheres e que compartilharam traços de similitude, por um lado, e de complementaridade, por outro, no que concerne a construções discursivas que desses eventos emergiram.
Na seção seguinte, apresento uma abordagem conjuntural acerca do momento em que convergiram as marchas em foco, e retomo o histórico das edições anteriores da MMM e da MM, bem como e apresento o histórico de lutas de mulheres negras que construíram a MMN de 2015.