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A marcha dos mortos

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 133-138)

5 VOZES DA BARRIADA: UTOPIA DE INTEGRAÇÃO VERSUS

5.2 DIFERENTES VOZES NO CENTRO DE CHIMBOTE

5.2.2 A marcha dos mortos

Esse momento da narrativa é de especial atenção: o transporte dos mortos do cemitério onde estavam instalados a outro, em local quase inacessível, próximo a um lixão (basural del

puerto). Vamos nos deter nesse episódio pois nos parece de extrema relevância em relação a um dos tópicos de nossa pesquisa que é a desterritorialiação, a migração, o não-lugar. A procissão das cruzes atravesa várias páginas da obra. Os pobres, afirma o narrador, foram convencidos pelos poderes instituídos, “la municipalidad, la Beneficiencia, la policía, los párracos habían ordenado y persuadido” (ZZ, p.62). É uma gradação do poder instituído. A gratuidade foi oferecida como moeda de troca. O momento da morte, do enterro e todo o ritual que cerca esse momento, em diferentes civilizações e/ou culturas, é de suma importância. “serían enterrados los pobres, gratuitamente, sin costo parroquial, municipal ni la Beneficiencia” (ZZ, p.63). A proposta que lhes foi feita parecia referir-se ao futuro, aos mortos novos, não aos que já estavam com sua situação definida, que já haviam sido sepultados. No entanto, era isso que estava ocorrendo: “Las asociaciones de Pobladores de cada barriada habían sido notificadas. Nadie les había dicho que se llevaran sus muertos ya sepultados en el médano del cementerio recién amurrallado, solemnizado con el arco y la cruz de mármol.”(ZZ, p.63). Sem contorno físico definido; sem direito à propriedade e à voz; o cortejo fúnebre é silencioso.

No momento da procissão, Moncada, que a estava acompanhando, refere-se a um imigrante japonês, da época algodoneira de Chimbote, e, dramatizando, aponta uma arma em direção ao seu mausoléu, referindo-se a ele como forasteiro. “Te mato a ti, mato a todos” (ZZ, p.64). A partir de uma situação do cotidiano, o narrador e Moncada penetram em outra camada; por outra perspectiva. “El gallo ha muerto, los cuyes han muerto; la locomotiva mata con inocencia, amigos. Así los yanquis de Talara Tumbes Limited, Cerro de Pasco Corporation. No; no son responsables”. (ZZ, p.59)

O narrador se admira frente à construção de fachadas do cemitério e seu novo muro. Põe-se a descrevê-lo, em detalhes. Há um setor dedicado aos pobres, miseráveis e aos mais abastados: “No había nichos allí, sólo cruces clavadas en desorden, con una leyenda o simples iniciales y una fecha en el madero horizontal.”(ZZ, p.62). O poder instituído convence aos pobres a transferir seu cemitério a outro espaço físico; ficaria próximo ao “lixão” (basural del

puerto). De acordo com o narrador não teriam custo algum para ter esse novo espaço para enterrarem seus mortos. Informações preciosas não foram passadas: que ainda não havia muros na parte alta del cerro e que os moradores deveriam eles próprios levar seus mortos já enterrados.

A repetição ocorre de forma constante ao referir-se à ação relativa ao traslado de corpos de um cemitério para o outro: “Arrancaban las cruces de la arena…” (ZZ, p.62); “..las cruces que los pobres estaban arrancando en ese momente en la cima del médano” (ZZ, p.63); “Los pobres estaban arrancando las cruces de sus muertos…” (ZZ, p.63). Esse novo espaço possuía aparentemente uma fachada com arco e era amuralhado, porém bastante afastado, próximo ao deserto. Deixa-se claro que há por parte dos líderes das “barriadas” invasões de terras para habitação. Tais líderes uniram-se a “los serranos recién llegados al puerto” para assim conquistar “aguadas pestilentas y zancudientas, como médano y tierras sembradas” e desertos, áreas mais próximas ao “casco urbano”.

A procissão, liderada por Gregorio Balazar, Chachero Balazar, “cholo tadavía aturdido” (ZZ, p.67), pertencente à delegacia da Associação de Moradores da Barriada San Pedro, juntamente com Mansilla, atrai a atenção de um padre estrangeiro e de pessoas no trânsito, na estrada. Através dessas pessoas, o leitor fica ciente de que há invasões, porém sempre organizadas. Esse cortejo fúnebre, que se desloca em direção ao cemitério, é comparado pelo narrador a um “gusano negro” (ZZ, p.66). Há grande contraste entre a situação dos que estão em procissão e daqueles que pertencem ao casco urbano: asfalto novo,

recém posto para estes. Balazar foi uma testemunha do nascimento e crescimento das “barriadas”- “crecer a palo y sangre”. O narrador nos apresenta a situação do Cholo Balazar: ainda não se adequou, ainda não está adaptado ao seu momento na cidade. Sua situação de migrante está ainda em processo. “Aquí hemos llegado, en nombre del Padre, del Hijo, del Monicipio y del Subprefecto, pues. A enterrar los cruces que estamos trayendo, fúnebres. En cualquier partecita.”(ZZ, p.69). Em seu discurso, Don Gregorio Balazar ironiza a respeito do abandono das autoridades frente aos menos favorecidos. “conocido chanchero” (ZZ, p.69). “No quieren que esteamos en el cementerio moderno, norteamericano?”.

O arenal é, de acordo com a definição do narrador, um local não habitado. Porém, foi para esse espaço físico que a procissão se dirigiu: “Llevando sus cruces la gente entró a la parte deshabitada del arenal” (ZZ, p.69). A areia é “barrosienta”. O cemitério também é um local de diferenças, com “nichos, árboles, ramos de flores de ciprés”, em fila. Contrapõe-se ao outros, “cruces en desorden”, cemiterio inacabado. O narrador se preocupa em detalhar as diferenças de tratamento. A distância entre os cemitérios era grande; o caminho era considerado pesado. O que separa o cemitério dos pobres do “casco” da cidade eram o

médano e a barriada. O narrador, depois de inúmeras páginas dedicadas à procissão dos mortos transportados de um cemitério a outro, diz novamente que “no estaba bien trazado el nuevo cementerio de pobres. (ZZ, p.69)

Há que enterrar os mortos em qualquer lugar, a partir de um ponto pré-estabelecido no novo cemitério, mas em um final, ou seja, ele não tinha um enquadramento. Bazalar afirma haver dois cemitérios: um é moderno e norte-americano; o outro é dos pobres, na “hondonada del montaña”. Separados tanto na vida como na morte. Há, por parte de Mansilla, uma percepção de como a cidade de Chimbote observa seus mortos: “El muerto nada valía en Chimbote” (...) ahora vale.”(ZZ, p.66). Ouvem-se vozes dos excluídos: “ Ahora que se’han ido los pobres pavimentarán quizá el camino al cementerio- dijo un chofer”(ZZ, p.66).

A sensação de ruínas norteia a visão do narrador em contraste como, por exemplo, “es alfalto nuevo, recién tendido, del casco urbano!”(ZZ, p.67). A procissão das cruzes atravessa várias páginas da obra. As orações, em quéchua, clamando por água, se alastram, invadem a narrativa: “Dios, agua, milagro...” (ZZ, p. 68). Os poderes da Igreja e do Estado se misturam para determinar o que devem os habitantes de Chimbote fazer com seus mortos e aonde levá- los. A transculturação aqui tenta encontrar espaço, mas há um estreitamento de possibilidades: “Nadie es nadie, aquí- exclamó el dueño del bar”(ZZ, p.71).

Tinoco, um dos pesonagens centrais da narrativa, apresenta atitudes violentas, como, por exemplo, no episódio em que ameaçou ao motorista de táxi: “El chofer sintió la punta del cuchillo en la nuca.”(ZZ, p.76). Identifica-se como membro da máfia relacionada à pesca de anchovetas: “cholo” que serve à indústria, aos norte-americanos e ao clero, acusa-lhe Florinda, irmã de Asto. “Tú eres matón de Braschi, ¿ no?- le dijo ella- M’hermano sabe, te va a matar, con Zavala, con Maxe, con…” (ZZ, p.72).

Hilário Caullama, dono da lancha, de origem aymara, das montanhas, vindo do Lago Titicaca, põe-se a refletir a respeito de alcatraz cocho velho que voava do porto a seu barco Moby Dick: “llora para dentro”.

A cidade é composta por todas as origens: serranos, criollos, imigrantes, clero, donos de fábricas. Há um desejo de que os pobres estejam distantes: “- Ahora que si han ido los pobres pavimentarán quizá el camino al cemeterio- dijo un chofer.” (ZZ, p.66)

Inúmeros pequenos diálogos entrecruzam a narrativa; são anônimos que tecem comentários, levantam hipóteses a respeito de tal ou qual situação, numa imensa Polifonia. O leitor, diante de tantas vozes, tecerá sua verdade, poderá criar sua perspectiva.

Grande parte das mulheres citadas na narrativa é composta por prostitutas, ainda que possuam família (filhos e /ou esposos). Os maridos têm conhecimento da vida dupla de suas

mulheres: em casa e no bordel. Gerania, prostituta. É uma maneira de adequar-se econômica e socialmente à situação de abandono, de exploração, de submissão99.

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 133-138)

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