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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

CHIMBOTE:

A CIDADE COMO PERSONAGEM NA OBRA

EL ZORRO DE

ARRIBA Y EL ZORRO DE ABAJO

DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS

Regina Duarte Viana

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa

de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ,

como parte dos requisitos necessários para a

obtenção do título de Mestre em Letras

Neolatinas.

Orientadora: Profª. Doutora Claudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva

(2)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

Chimbote: A cidade como personagem na obra

El zorro de arriba y El zorro

de

abajo

de José Maria Arguedas

Regina Duarte Viana

Orientadora: Professora Doutora Claudia Luna

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.

Examinada por:

_________________________________________________

Presidente, Profª. Doutora Claudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva - orientadora _________________________________________________

Profª. Doutora Suely Reis Pinheiro - UFF

_________________________________________________ Prof. Doutor Júlio Aldinger Dalloz - UFRJ

________________________________________________ Profª. Doutora Rita de Cássia M. Diogo – UERJ, Suplente

Profª. Doutora Mariluci Guberman– PPG Letras Neolatinas – UFRJ, Suplente

(3)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

Ficha Catalográfica

Viana, Regina Duarte.

Chimbote: A cidade como personagem na obra El zorro de arriba y el zorro de abajo de José María Arguedas. – Rio de Janeiro: UFRJ/Faculdade de Letras, 2011.

Xi, 246f.: il; 31 cm.

Orientador: Claudia Heloisa Impellizieri Luna. Dissertação (Mestrado) – UFRJ/ Faculdade de Letras/ Programa de Pos-Graduação em Letras, 2011.

Referências Bibliográficas: f.157-164.

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

Chimbote:

A cidade como personagem na obra

El zorro de arriba y El zorro de abajo

de José María Arguedas

Regina Duarte Viana

Orientadora: Claudia H. Impellizieri Luna

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.

Aprovada por:

___________________

Presidente, Profª Claudia H. Impellizieri Luna

--- Profª. Suely Reis Pinheiro

---

Prof. Júlio Aldinger Dalloz

__________________

Profª Rita de Cássia M. Diogo

--- Profª Mariluci Guberman

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

RESUMO

Chimbote:

A cidade como personagem na obra

El zorro de arriba y El zorro de abajo de José María Arguedas

Regina Duarte Viana

Orientadora: Claudia H. Impellizieri Luna

Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.

Esta dissertação tem como objetivo observar a maneira como José María Arguedas (1911 – 1969), com a obra El Zorro de arriba y el Zorro de abajo (1971) oferece uma representação de Chimbote, cidade da costa peruana, conhecida por haver sido um dos maiores portos pesqueiros do mundo. O autor elabora nesta obra uma representação dos problemas enfrentados, na década de 60, pelo Peru, como também as transformações ocorridas em Chimbote. A migração dos serranos (indígenas) em direção às cidades costeiras peruanas e as duras condições de vida: todo esse complexo atraiu a atenção do etnólogo, antropólogo, escritor da cultura quéchua José María Arguedas. Chimbote simboliza a devastação como também a desagregação da sociedade peruana. Com esta obra, Arguedas expõe a costa e a serra, onde o elemento migrante se sente descentrado, já que deixa um equilíbrio (serra- zorro de arriba) e, ao chegar a outro espaço físico-cultural (costa- zorro de abajo) não consegue um novo equilíbrio; paira uma sensação de não-pertencimento. Há uma contraposição serra e costa, onde o primeiro é o espaço do sagrado, das tradições mágicas, enquanto o segundo é o do científico, da modernização, do capitalismo. Para pensar o tema da cidade utilizaremos os conceitos de Transculturação, apoiados em Fernando Ortiz e de Heterogeneidade a partir de Antonio Cornejo Polar. A obra A cidade letrada, de Ángel Rama, foi fundamental para tratar de nosso eixo temático, que é o estudo da cidade. Tais conceitos se fazem necessários pela coexistência de distintas línguas e etnias em berço peruano como de múltiplas vozes. A conflitividade ocorre em Chimbote, como um micro-cosmos do Peru, na última obra arguediana. Observaremos a Constituição peruana em contraponto com o conceito de Estado de Exceção; de Violência Simbólica, a partir de Pierre Bourdieu e a questão do Autodiscurso a partir de Mercedes Borbosky. Quanto à questão do Migrante nos apoiaremos em documentos relativos à Comunidade Andina das Nações (CAN). Aproximar-nos à obra de José María Arguedas nos possibilita refletir sobre questões de poder, alteridade e seres à margem.

Palavras-Chave: Cidade, Ángel Rama, Chimbote, Arguedas, Peru, indígenas, migração, transculturação, heterogeneidade

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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa

ABSTRACT

Chimbote:

The city as a character in the work El zorro de arriba y El zorro de abajo

By José María Arguedas Regina Duarte Viana

Orientadora: Claudia H. Impellizieri Luna

Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas.

This dissertation aims to observe the way as José María Arguedas (1911 - 1969), with the work El Zorro de arriba y el Zorro de abajo (1971) offers a representation of Chimbote, a city of the Peruvian coast, known for having been one of the largest fishing ports in the world. The author develops a representation of the problems faced in the 60's, by Peru, as well as the changes occurred in Chimbote. The migration of the mountaineers (indigenous) toward the Peruvian coastal cities and the hard living conditions: all this complex attracted the attention of the ethnologist, anthropologist, writer of Quechua culture, José María Arguedas. Chimbote symbolizes devastation and also the breakdown of the Peruvian society. With this work, Arguedas exposes the coast and the mountains, where the migrant element feels decentered, leaving an equilibrium (mountain- zorro de arriba), and when arriving at another physical cultural space (costa -zorro de abajo) he cannot get a new equilibrium, hovering a sense of not belonging. There is a contraposition: mountain and coast, where the first is the space of the holy, the magical traditions, while the second is the space of science, modernization, capitalism. To think the theme of the city, we will use the concepts of Transculturation, based on Fernando Ortiz, and Heterogeneity based on Antonio Cornejo Polar. The work The lettered city of Angel Rama, was essential to address our main theme which is the study of the city. These concepts are necessary for the coexistence of different languages and ethnic groups in Peru as a cradle of multiple voices. The conflict occurs in Chimbote, as a microcosm of Peru, in the last work of Arguedas. We will observe the Peruvian Constitution, in contrast with the concept of State of Exception; of Symbolic Violence, from Pierre Bourdieu, and the question of Self Talk from Mercedes Borbosky. Concerning the Migrant, we will base on documents related to the Andean Community of Andean Nations (CAN). Bringing the work of José María Arguedas enables us to reflect on issues of power, otherness, people living on the edge.

Kew-words: City, Chimbote, Arguedas, Ángel Rama, tranculturacion, migrant, Peru

(7)

Dicen que no sabemos nada, que somos el atraso, que nos han de cambiar la cabeza

por otra mejor. (…)

Saca tu larga vista, tus mejores anteojos. Mira, si puedes.

(…) En esta tierra fría, siembro quinua de cien colores, de cien clases, de semilla

poderosa. Los cien colores son también mi alma, mis infaltables ojos. (…)

Ninguna máquina difícil hizo lo que sé, lo que sufro, lo que gozar del mundo gozo.

(…)

No huyas de mi doctor, acércate Mírame bien reconóceme. ¿Hasta cuándo he de

esperarte? Acércate a mí; levántame hasta la cabina de tu helicóptero. Yo te invitaré el licor

de mil savias diferentes.

Curaré tu fatiga que a veces te nubla como bala de plomo, te recrearé con la luz de las

cien flores de quinua, con la imagen de su danza al soplo de los vientos…

No, hermanito mío. No ayudes a afilar esa máquina contra mí, acércate, deja que te

conozca, mira detenidamente mi rostro, mis venas, el viento que va de mi tierra a la tuya es el

mismo; el mismo viento que respiramos; la tierra en que tus máquinas, tus libros y tus flores

cuentas, baja de la mía, mejorada, amansada. (…)

(8)

Dedico esta investigação a todos os rostos que encontrei pelas ruas de Chimbote,

Cuzco, Arequipa, Puno, Chivay, Paracas, Hungay;

Aqueles que foram desclassificados como americanos,

Que perderam ou são impedidos de dizer sua palavra, sua visão de mundo, suas

crenças;

Aqueles que buscam integrar-se ao mundo aonde chegaram aturdidos, sem rumo

Aqueles que conseguem superar a angústia do deslocamento,

o desencanto da chegada,

(9)

À orientadora Claudia Luna

por suas lúcidas observações

sobre meus caminhos e descaminhos

na escritura dessa investigação.

À Professora Bella Jozef,

que foi um alicerce em minha trajetória de mestranda,

sempre com um incentivo a dar-me diante da dúvida,

da indecisão.

Ao Professor Rômulo Monte Alto, da UFMG,

que, nas minhas idas e vindas de Belo Horizonte,

soube preencher vazios acadêmicos

que me permitiram chegar até aqui.

Ao escritor, professor e amigo Óscar Colchado Lucio,

que, não importando-se com a distância,

foi quem esteve mais perto de minhas angústias.

Aos meus diretores, Mariana e Maicon,

que souberam compreender meus pedidos de dispensa.

A Flora de Jesus,

que me acompanhou

em minha jornada a Chimbote.

À querida amiga e incentivadora Elizabeth Quireza,

que me impulsionou a ingressar no Mestrado

Agradecimento aos profissionais que me brindaram apoio,

parafraseando Rama em

A cidade das letras

.

Às Professoras Leitoras

Márcia Regina, Rosane Maranhão,

Patrícia dos Anjos e Elisangela Santos

(10)

A Carlota Martins, minha querida avó,

a qual com seu jeito, entre terno e decidido,

levou-me a crescer de forma firme.

A Clarissa, minha filha e amiga,

que me deu a mão e meu presente maior:

Miguel!

A Gabriel e Eric,

Que souberam, à distância,

colaborar para minha calma na trajetória.

A Otávio, amigo, companheiro, amante, irmão,

por seu abraço terno

No choro do parto

deste filho.

E o agradecimento mais especial

que é a Ti,

Senhor meu Deus,

Que me permitiu ultrapassar inúmeros obstáculos

olhar além do possível

ensinando-me a lançar-me ao sonho

para chegar até esse momento

Senhor meu Deus,

“És Deus de perto

e não Deus de longe

nunca mudaste

Tu és fiel”.

Ao Programa de Pós-Graduação

em Letras Neolatinas

pelo auxílio financeiro para pesquisa no Peru,

(11)

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...1

2. REPRESENTAÇÕES DA CIDADE E PROJETOS DE NAÇÃO PERUANA 2.1 PRIMEIRAS PALAVRAS...7

2.2 PENSANDO A TRANSCULTURAÇÃO ...9

2.3 CORNEJO POLAR: FERVILHAM AS DIFERENÇAS...11

2.4 LUZES DA CIDADE 2.4.1 A Cidade de Rama...18

2.4.2 A Cidade de Romero...37

2.5 REVISITANDO ALGUMAS IDÉIAS...39

3 LANÇANDO LUZ A JOSÉ MARÍA ARGUEDAS 3.1 TRAJETÓRIA ENTRE DUAS CULTURAS...51

3.2 UM POUCO DE AGUA...57

3.3 OS DIÁRIOS E RELATOS ARGUEDIANOS ILUMINAM CHIMBOTE ...60

3.4 LOS ZORROS: PANORÂMICA DE DOIS MUNDOS……...77

4 CHIMBOTE: A CIDADE QUE TRANSBORDA 4.1 MIGRANTE, ERRANTE, PEREGRINO: TODOS EM BUSCA DA IDENTIDADE...86

4.2 A VOZ DA CONSTITUIÇÃO ...95

4.3 ESPAÇOS DE VIOLÊNCIA SIM (BÓLICA)...98

5 VOZES DA BARRIADA: UTOPIA DE INTEGRAÇÃO VERSUS IDENTIDADES CONFLITIVAS NA CIDADE ARGUEDIANA 5.1 DESCORTINANDO O VÉU DA CIDADE...106

(12)

5.2.2 A marcha dos mortos...119

5.2.3 Antolín: O som da montanha migra em sua guitarra...123

5.2.4 Don Diego e Don Ángel: Os zorros observam a cidade...124

5.3 LLOQLLA: ENTRE REFLEXÕES E CERTEZAS...125

5.4 CHAUCATO: DIVISÃO POR DOIS...138

5.5 A PRESENÇA DE CHIMBOTE PÓS-ARGUEDAS 5.3.1 Gusmán Aranda: Río-Santa Editores invade o Peru...141

5.3.2 Thorndike e seu Banchero...144

5.3.3 Óscar Colchado: O homem da Isla Blanca...145

6 CONCLUSÃO...147

7 POSFÁCIO...152

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...154

9 ANEXOS 9.1 ANEXO I: GLOSSÁRIO...162

9.2 ANEXO II: DIÁRIOS DE VIAGENS...164

9.3 ANEXO III: POESIA EM HOMENAGEM A ARGUEDAS...167

9.4 ANEXO IV: ENSAIOS FOTOGRÁFICOS DO UNIVERSO ARGUEDIANO 9.2.1 Bloco I: Exposição “Chimbote en Blanco y Negro”...169

9.2.2 Bloco II: Exposição Fiestas Pátrias...178

9.2.3 Bloco III: Chimbote...190

(13)

PREFÁCIO

Em tempos de discussão ao redor da Cidade do Rio de Janeiro e das Unidades de

Polícia Pacificadora (UPPs), corrupção policial, poder das milícias, a necessidade de

aproximar o poder instituído das favelas que inundam o meio urbano, seus moradores,

alijados dos direitos básicos, como saneamento básico, acesso à rede pública, limpeza urbana,

a discussão que propiciamos através da obra Los Zorros parece incrivelmente pertinente e necessária.

Um dos pontos que atraiu nossa atenção foi o fato de a unidade policial (BOPE)

propiciar um momento para que os habitantes de uma das favelas, a Rocinha, expressassem

seus anseios e insatisfações; falou-se em resgatar a noção de cidadania, em relação aos

habitantes/moradores dessas favelas ocupadas.

Várias unidades da mídia exploram questões relativas à migração de nordestinos para

os grandes centros urbanos, como por exemplo, o Rio de Janeiro e sua necessidade de ocupar

espaços possíveis, com o aparecimento das favelas; atitudes/desenvolvimento nas políticas

voltadas para locar/oferecer uma forma para que não se necessite deslocar-se de sua terra, de

sua cultura, numa incessante busca de oportunidades de trabalho. Constatou-se que o principal

motivo que leva a tal deslocamento é o econômico.

De forma alguma oferecemos soluções, mas a oportunidade de ter em pauta tais

temáticas. Escrever no ar, testemunhar o diálogo entre raposas, ser envolvidos por lloqlla - eis um grande desafio: enlaçar, entremear, tal como A Moça Tecelã, de Marina Colasanti, um pequeno enigma que é a obra póstuma de J.M.A. Los Zorros, com tantos conceitos e autores desafiantes. Convidamos cada olhar a despertar frente às vozes que sussurram suas verdades,

(14)

Certamente deixaremos grandes vazios no percorrer de nosso texto. Primeiro motivo

que nos leva a tal certeza: a complexidade frente à obra El zorro de arriba y el zorro de abajo. Percorrer caminhos, atalhos, debater-se com inúmeros obstáculos, tais como o misto de

espanhol com o quéchua, e nosso completo desconhecimento em relação a essa língua, tanto

quanto o número incalculável de personagens. Talvez o maior enfrentamento tenha sido o

impacto de, diante das primeiras linhas, ser tomada pela verdade: a obra estava sendo tecida

como forma de esperar a morte, a qual seria o objeto/objetivo que regeria a obra, ora como

autodiscurso ora como um discurso que envolvia os personagens e a cidade de Chimbote. Por

todos esses motivos e mais alguns que ao longo do trabalho serão desvelados, admito a

decepção que ficará ao final da leitura em relação a esta investigação.

Lancei pontos de luz em direção a algumas questões, as quais poderão e deverão ser

questionadas pelos leitores: Por que tal ou qual enfoque não foi pensado/refletido a partir de

alguma perspectiva determinada, algum personagem e/ou situação?

Segui a linha de minha intuição, de nossos sentidos, de nossa racionalidade. Houve o

primeiro momento: Trataria da questão feminina, a partir do enfoque dado no primeiro

capítulo à temática da Prostituição, da mulher como centro de um capitalismo desvairado,

tendo seu corpo como eixo central do comércio, naquele lugar, naquele momento. A obra

Grandes Burdeles del Mundo nos auxiliaria a entender melhor esse universo; Jaime Gusmán Aranda com seu jornal e sua obra lançada em um prostíbulo (Três Cabezas) seria uma grande fonte de inspiração para nossa investigação e reflexão de maneira concomitante. Logo, porém,

fomos tomados por caminhos inimáginaveis, não planejados. O surgimento do Colóquio Internacional A Herança de Arguedas aos 40 anos de sua ausência, ocorrido na UFMG, em 2010, me possibilitou contato com perspectivas, visões, pessoas que não haviam sido

(15)

Sentir a paixão (quase conseguindo apalpá-la) de Rômulo Monte Alto ao conduzir o

evento com a maestria de um apaixonado pela sinfonia arguediana; aproximar-me de Óscar

Colchado Lucio, autor de Cholito y el río hablador, Rosa Cuchillo, El Hombre del Mar, nascido em Ancash, onde a cidade de Chimbote se situa; ter tido a oportunidade de falar-lhe

sobre minha investigação e pedir-lhe algumas orientações; tudo isso me deslocou de meu

propósito inicial e me fez enveredar por locais nunca antes sonhados e/ou planejados. Novas

formas de condução, outros aportes teóricos, um novo olhar foi lançado para a obra; haver

vencido grandes desafios para poder ir a Chimbote e, por conseguinte, ter realizado trabalho

de campo, que constou de entrevistas informais, emoção ao estar no porto, no muelle, o tempo chuvoso, a ida a locais singulares, tais como nos dois cemitérios; o registro fotográfico, o

depoimento de Jaime Gusmán Aranda, abordando inúmeros pontos relativos a Arguedas,

inclusive sobre sua descrença religiosa e sua reaproximação a Deus, a partir da figura de um

padre, envolvido com a Teologia da Libertação.

Não consigo, neste texto que me é possibilitado, externalizar tantas informações e

emoções pelas quais passei como leitora, como investigadora, como pessoa, como

profissional, a partir do contato com a obra, com Arguedas e sua trajetória, seja como escritor,

como cidadão, como amante da cultura indígena. O impacto frente ao planejamento e/ou a

certeza da morte diminuiu sensivelmente após trilhar tantos caminhos e descaminhos.

Voltando um pouco mais no tempo, minha participação no congresso ocorrido na Puc

de Valparaíso (Chile), em 2009, tendo como eixo temático a cidade, talvez tenha sido a

semente desta dissertação, fator determinante para o desenvolvimento de alguns pontos

abordados no corpo deste trabalho.

Como últimas palavras, falo a partir de um lugar: sou oriunda de uma barriada, tenho olhar de migrante.

(16)

Eu teria procurado um país no qual o direito de legislação fosse comum a todos os cidadãos; porque, quem melhor do que eles podem saber sob que condições lhes convém viver juntos em uma mesma sociedade?

Jean-Jacques Rousseau

Quantas reflexões podem advir desse pequeno pensamento de Rousseau?

Certamente temáticas referentes à cidade e, por conseguinte, cidadania, expressão

individual, identidade, país, região fronteira, convivência, direitos do cidadão, igualdade de

direitos. Começamos nosso trabalho, propondo uma pausa para começar a pensar sobre cada

um desses conceitos e de que maneira podemos enlaçá-los com a obra póstuma do escritor

peruano José María Arguedas (Andahuaylas, 1911- Lima, 1969).

Este ano comemora-se o centenário de nascimento do autor de Los Ríos Profundos, Yawar Fiesta, Todas las sangres, El Zorro de arriba y el Zorro de abajo, dentre outras obras. Por conta deste fato, inúmeros eventos estão ocorrendo pelo mundo. O principal deles,

segundo minha perspectiva, foi o que ocorreu na terceira semana de junho na Pontifícia

Universidade Católica de Lima, no Peru, de que tive oportunidade de fazer parte. Inúmeros

estudiosos participaram do congresso e eu não poderia deixar de considerar tais acréscimos

para minha dissertação, como as visões de Julio Ortega, Martin Lienhard, Rodrigo Montoya e

Rômulo Monte Alto1.

Esta investigação versará sobre o estudo dos procedimentos empregados na

representação da cidade de Chimbote, na obra de José María Arguedas, El zorro de arriba y El zorro de abajo, partindo dos conceitos de Transculturação de Fernando Ortiz e Heterogeneidade de Cornejo Polar. O objeto de investigação é a última obra de Arguedas e

surgiu como forma de avaliação, através de apresentação de seminário, a partir de questões

(17)

intensamente trabalhadas em nossas discussões em sala de aula, como aluna especial: zona de

contato, utopias sociais, poder e transgressão, literaturas indígenas, poder simbólico, relatos

de viagem, questões de identidade e alteridade, centro e periferia, dentre outras.

Pergunto: Como se constrói a ideia de cidade, a partir de uma realidade fragmentada,

tal como é apresentada em El zorro de arriba y El zorro de abajo (Los Zorros2)? De que maneira se representa o entremear de culturas peruanas nessa mesma realidade partida? Por

que refletir sobre cidade como tema central? O trabalho se volta para questões tais como: Que

problemas, no corpus escolhido, nos encaminham para o eixo centro/periferia? De que

maneira as identidades se posicionam diante da alteridade?

Minha hipótese é que José María Arguedas constrói em seu romance algo semelhante

ao que ocorreu em sua vida: uma impossibilidade de coexistência pacífica entre duas culturas;

e que traçando um perfil da modernização ocorrida em Chimbote na década de 60 consigamos

refletir sobre nossas cidades e tantos problemas que elas apresentam.

A obra em questão direcionou meu olhar para inúmeras possibilidades de pesquisa:

representação da modernidade, na década de 60, na sociedade peruana; a questão da mulher; o

sujeito migrante. Naturalmente, nem todos estes assuntos, por inúmeras circunstâncias,

poderão e serão abordados com o devido cuidado e profundidade exigidos. Quero

compartilhar alguns pensamentos de meu encontro com Arguedas e sua última representação de cidade: Chimbote, a cidade real e sua representação, neste romance que constitui uma

tentativa de entender o fenômeno urbano em sua grande complexidade.

Em última análise, tenho por objetivo aproximar-me de um assunto que há muito me

persegue: a barbárie travestida de civilização. Explico: como o desenvolvimento humano,

com todo o seu esplendor, regride de tal forma que não consegue esconder as garras do

horror. É impossível não pensar na imagem célebre do médico e do monstro habitando o

(18)

mesmo corpo. Também desejo observar a maneira como José María Arguedas (J.M.A.3)

elabora nessa obra uma representação dos problemas enfrentados, em meados de 1960, pelo

Peru, e as transformações ocorridas na cidade de Chimbote; observar como o processo

histórico de modernização chega à cidade e desconstrói visões (revitalização do porto e da

pesca, por exemplo). É uma tentativa de entender o fenômeno urbano em sua grande

complexidade.

J. M. A. nos legou uma obra na qual as ideias em confronto com as realidades

complexas do continente são trabalhadas em profundidade por um etnólogo e antropólogo,

que desejava intervir num processo histórico-cultural de que discordava, que o incomodava.

No segundo capítulo, discutiremos sobre as temáticas que serão abordadas nas análises

do corpus, tendo como suporte teórico os estudos de Ángel Rama, em A cidade letrada, num enfoque mais detalhado, como também a obra de José Luís Romero, A cidade e as idéias, de forma compacta, para a questão da cidade. Analisaremos os conceitos de transculturação,

criado pelo cubano Fernando Ortiz e heterogeneidade, do peruano Antonio Cornejo Polar.

Muitos autores revisitaram questões ao redor dos conceitos de Transculturação e

Heterogeneidade. Por isso, daremos espaço neste capítulo para que suas visões sejam postas a

título de reflexão.

A terceira parte de nosso trabalho objetiva tratar sobre a Modernização que se faz de

maneira descontrolada em terras peruanas, em especial, em cidades costeiras, como

Chimbote, cidade – personagem da obra Los Zorros. O assunto da migração, vale ressaltar (vide capítulo dedicado a Arguedas), está presente desde 1935, com o conto Agua (1935), passa por Los ríos profundos (1958), Todas las sangres (1964) e culmina em Los Zorros

(1971). Por este motivo central, acreditamos ser interessante perceber no texto Agua, ainda que não seja o nosso corpus central, algumas nuances relativas aos temas da migração, da

(19)

cidade desordenada. Observaremos a trajetória pessoal e profissional de J.M.A. a fim de entender melhor sua obra. A partir desse enfoque, trataremos do conceito de Autodiscurso,

proposto por Mercedes Borbosky, com a finalidade de refletir sobre o enlaçamento de diários

na composição de Los Zorros.

No capítulo quatro, observaremos a cidade pelo prisma de Pierre Bourdieu, através do

conceito de Violência Simbólica, do Estado de Exceção pela ótica de Giorgio Agamben, a

cidade ordenada” baseando nosso olhar na Constituição Peruana. Faremos também, nesta parte, uma reflexão sobre o lugar do migrante fora e dentro da obra.

A quinta parte desenvolve-se tendo em foco os grupos marginais da supra-citada

cidade como foco para melhor entender a construção de identidades em conflito. Arguedas, no

capítulo 5 de Los Zorros, com riqueza de detalhes, ilumina a migração de corpos, do cemitério para um local com delimitação geográfica incerta. Esta parte é de especial

importância para nossa investigação, já que “ouviremos” as loucuras de Moncada, o pranto de

Tinoco, a suave música do cego Antolín Crispín, as visões proféticas de Don Diego, a

ambição desmedida de Don Ángel, o diálogo entre as raposas míticas e a despedida de J.M.A.

A parte intitulada Pós-Arguedas compõe-se da centralidade de Chimbote no imaginário

peruano; seus ecos na literatura da nação. O leitor há de concordar, ao final da leitura deste

trabalho, que Arguedas fundou uma nova maneira de fazer literatura e certamente está sendo

complementada por muitos: Alejandro Ortiz, Óscar Colchado Lucio, Rômulo Monte Alto,

Jaime Gusmán Aranda e Guillermo Thorndike. Arguedas forma o embrião de inúmeros

trabalhos/produções que o sucederam; é a sua presença ecoando até nós.

Não podemos deixar de perceber os temas transversais que cortam nosso eixo: o

migrante que abandona sua terra; a violência que o espera cerceando sua língua, seus

costumes, sua visão de mundo, suas crenças. O episódio da procissão dos mortos é de suma

(20)

da errância e da migração é muito bem sinalizado pelo personagem Pico Largo, de Del mar a la ciudad, do escritor “ancashino” Óscar Colchado Lucio.

Por último, teceremos algumas considerações. Que se possa refletir sobre tais questões

e, possivelmente, encontremos algumas respostas ou, pelo menos, caminhos que possam

esclarecer tantos questionamentos. Pensar o outro é tematizar o que difere dos desejos de um,

de uma ideologia, de posições políticas. São muitas as questões sobre as políticas da diferença

(Bornheim, 2001) que permeiam este trabalho. São questionamentos sobre as relações entre

seres humanos, os contextos sociais, culturais, econômicos, onde essas relações têm um

movimento que incorpora a voz do outro. Interrogações que tentarão refletir sobre como nos

constituímos em sujeitos da alteridade, em relação entre uma subjetividade é o que o outro é,

pode ser, deve ser.

A parte dedicada aos anexos está composta por quatro materiais distintos: um

glossário, um diário de viagem, fotos e uma poesia. Quando de minha visita à cidade de

Chimbote, após haver percorrido alguns locais que aparecem na narrativa de El zorro de arriba y El zorro deabajo, me pus a registrar situações através de fotos que me emocionaram, que me auxiliaram a retirar a venda que ainda me ocultavam a situação de penúria dos

indígenas. Acredito que seja bastante apropriado incorporá-las à dissertação por auxiliar-me

na comprovação de tudo que será discutido no corpo deste trabalho, para que desta maneira

nosso leitor entenda que nossa discussão é mais do que uma utopia e/ou uma quimera. Em

relação ao outro elemento que compõe a seção de anexos, é uma poesia que compus após

minha visita, ainda em Chimbote, quando aguardava meu retorno à cidade de Lima. O

Professor Óscar Colchado Lucio me solicitou a poesia quando soube que eu a compusera no

dia que visitei a cidade de Chimbote, a qual foi publicada posteriormente pelo professor, sem

(21)

A edição que usamos para análise da obra Los Zorros pertence à Coleção Archivos. Para a Banca, no entanto, utilizei como cópia a Edição Losada, pelo fato de não conter

anotações pessoais. Há uma grande diferença entre as duas edições que tento esclarecer agora:

a edição da Coleção Archivos apresenta uma sequencia de capítulos e, ao final, o discurso de

Arguedas: “Yo no soy un aculturado”; a de Losada, ao contrário, coloca este texto como parte

inicial de Los Zorros, além de apresentar manuscritos e fotos com legendas originais de Arguedas. Esta edição teve um comitê de edição firmada pro Sybila Arredondo de Arguedas

(que compilou e incluiu nesta edição), Antonio Cornejo Polar, Francisco Carrillo Espejo e

Humberto Damonte Larran. Certamente, esse deslocamento tanto quanto às inserções do

material descrito há pouco transformam sensivelmente a leitura da obra.

Sentimos a necessidade de utilização de notas explicativas para esclarecer significado

de alguns vocábulos, os quais são vitais para a compreensão da escritura, em espanhol e

quéchua, como também de incluir ao final da dissertação um glossário com os termos lexicais

mais recorrentes, tais como, por exemplo, a palavra barriada. Salientamos que foi vital a utilização do glossário, anexo I, de Martin Lienhard4, integrante da Edição Archivos, já que

algumas expressões e termos em quéchua e espanhol são utilizados durante toda a narrativa.

Alguns termos principais foram colocados ao pé de página, com uma tradução nossa.5

Evidentemente, as formulações deste trabalho são provisórias e abertas à contestação.

A opinião sobre tais questões pode vir a transformar-se, já que estou apenas iniciando minhas

investigações e reflexões.

4 A partir de dicionários e de sua própria experiência, por haver, por alguns anos, convivido entre indígenas peruanos.

5 Uma tradução da obra ainda inexiste; o acesso a um exemplar desta obra é difícil de encontrar. Porém

antecipamos a informação que Rômulo Monte Alto, da UFMG, está em processo de editar a obra Los Zorros

(22)

2

REPRESENTAÇÕES DA CIDADE E PROJETOS DE NAÇÃO

PERUANA

As grandes idéias percorrem a história da cidade e a conformam.6

O olhar percorre os caminhos como páginas escritas: a cidade diz tudo aquilo que deves pensar, faz-te repetir o seu discurso, e quando pensas estar visitando Tamara não fazes mais do que registrar os nomes com os quais ela se define a si própria e a todas as suas partes.7

2.1 PRIMEIRAS PALAVRAS

Pensar o tema da cidade nos conduz a olhar os caminhos que seguiu para ser o que

vemos, entender suas partes, como se compõe, ouvir sua gente. Como ponto de partida é

preciso voltar ao ano de 1492, data que marca o início da história do Novo Mundo para o

Ocidente e o fim da história das grandes civilizações ameríndias, como afirma Regina Simon

da Silva (2008, p.13). Desde o princípio a antítese esteve presente nessas relações, deixando

marcas do grande abismo existente entre as culturas europeia e indígena envolvidas nesse

processo. A expansão marítima de 1492 inaugurou o que Enrique Dussel chama de origem da Modernidade:

Hasta 1492, las historias de todas las culturas habían sido, inevitablemente “regionales”. (...) Sólo los portugueses (que articularon Europa con América y por allí con el Asia de las Filipinas) la historia mundial llegó por primera vez a ser un “hecho” de la vida cotidiana y científica. Europa comienza a ser “centro” y todo el resto de la humanidad es constituída como “perifería” (primero como “periferia cultural, posteriormente neocolonial y actualmente como Tercer Mundo “subdesarrollado”. (DUSSEL, 1992, p.20-21)

O encontro das culturas europeia e índia no descobrimento do Novo Mundo seria melhor definido pela palavra choque, devido às consequências desastrosas que ele representou, afirma Regina Simón (2008, p.12). De acordo com González Echeverria, quer

6

Aldo Rossi, A arquitetura da cidade, 1966.

7

(23)

como perspectiva o principio ou o finalde todas as formas,“el Descubrimiento marcaba una ruptura.” (1984, p.9).

Estas informações são pertinentes porque nos auxiliam a compreender o tema

estudado. Retomando os pontos mais significativos expostos até o momento, podemos, como

afirma Simon, “considerar três formas de organização social: o selvagem, habitante da

floresta; o bárbaro, nômade das periferias e o civilizado, morador das cidades.” (SIMÓN,

2008, p.32). Rousseau, em seu Ensaio sobre a origem das línguas (1755), afirma que “o selvagem corresponde ao caçador, o bárbaro ao pastor e o homem civilizado (civil) ao

trabalhador da terra” (ROUSSEAU, 1981, p. 89).

Eduardo Galeano (1992, p.14) é incisivo em suas observações sobre América Latina

em relação aos conquistadores europeus e a todos que os sucederam em expoliar/explorar

nossas terras e nosso povo. Observa a divisão internacional do trabalho de forma muito clara:

de um lado “alguns países especializam-se em ganhar, e outros em que se especializaram em

perder” (GALEANO, 1994, p.13). Observa que até mesmo a perda do direito de

chamarmo-nos americachamarmo-nos foi perdida no meio do caminho. Este termo, ao ser pronunciado, remete-chamarmo-nos

aos norte-americanos. Ou seja: se falamos americanos, não se pensa mais em peruanos,

uruguaios ou qualquer outro povo que não seja oriundo dos EUA. Como tudo foi sendo

conquistado, possuído, retirado, por que não também a utilização do vocábulo americano?

Terra, recursos naturais, força de trabalho, modo de produção, tudo tem sido decidido

de fora para dentro, como boas marionetes que somos, diz Galeano. Toda essa imagem nos

remete aos títeres manejados pelo louco Moncada, em mais uma de suas representações (vide

capítulo 5).8

8

(24)

2.2 PENSANDO A TRANSCULTURAÇÃO

Fernando Ortiz, antropólogo, na década de 40, em sua obra Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar, realiza um estudo sobre as interferências mútuas que ocorrem entre culturas, a cubana e a norte-americana, que se aproximam, ainda que uma se faça dominante

em termos lingüísticos, políticos, culturais. O termo aculturação foi substituído por indicar

uma cultura subalterna. Ou melhor, como afirma Malinowsky “adquisición de una cultura

extranjera por un pueblo o cultura sometido”. Bronislaw Malinowski9, na introdução desta

obra, afirma que Ortiz lhe disse que iria introduzir o conceito Transculturação “para

reemplazar varias expresiones corrientes, tales como “cambio cultural”, “aculturación”,

“difusión”, “migración y ósmosis de cultura” e outras que, de acordo com Ortiz, não

traduziam bem o que o complexo encontro de culturas poderia desencadear para ambas.

Desejava encontrar algo que pudesse expressar com mais clareza que se ajustasse aos

acontecimentos. Ortiz percebe uma troca entre o tabaco que foi levado para a Europa e o

açúcar que foi incorporado à cultura americana.

Poderíamos dizer que um imigrante deveria acolher a outra cultura que passou a

encarar como sua; os indígenas, considerados pagãos ou infiéis, bárbaros o salvajes que estariam sendo agraciados pela benesse de serem submetidos à cultura ocidental. O termo em

questão designava que o considerado inculto, de uma cultura menos prestigiada, teria que

converter-se no outro, numa relação de passividade. Cria um termo que supera o sentido de

aculturação: o conceito de transculturação. Este termo, a partir de Fernando Ortiz, foi o que

melhor designou o encontro de culturas, que, afinal, não iria modificar apenas um lado, aquele

do supostamente inferior, mas, também, ainda que de diferentes proporções, modificaria o

outro. Podemos afirmar, tal como Malinowski tecendo considerações sobre a obra de Ortiz,

que é

(25)

un proceso en el cual ambas partes de la ecuación resultan modificadas. Un proceso en él cual emerge una nueva realidad, compuesta y compleja; una realidad que no es una aglomeración mecánica de caracteres, ni siquiera un mosaico, sino un fenomeno nuevo, original e independiente. (ORTIZ, 2002, p.47)

Com este termo e concepção, percebe-se que ambos são ativos, com contribuições,

resultando numa nova realidade para as duas ou mais culturas envolvidas, como já foi

expresso (franceses, espanhóis, alemães). Como diz Ortiz, é um “toma lá dá cá”.

Ángel Rama, em Transculturação Narrativa em América Latina irá apropriar-se do conceito de transculturação, criado por Fernando Ortiz, para desenvolvê-lo em relação à

literatura, como o próprio título levar a crer. No entanto vou centralizar minha ótica em outra

obra sua, A cidade das letras, por achá-la mais pertinente em relação ao assunto da cidade, centro de minha investigação. Rama afirma que antes mesmo de os conquistadores europeus

criarem cidades na América, estas já eram concebidas mentalmente. Ou seja, surgiam antes de

existir no real:

A ordem deve ficar estabelecida antes de que a cidade exista, para impedir assim toda futura desordem, o que alude à peculiar virtude dos signos de permanecerem inalteráveis no tempo e seguir regendo a mutante vida das coisas dentro de rígidos marcos. (RAMA, 1984, p.29)

Nesta obra, Rama identifica como, através das letras, a dominação ocorrerá em solo

latino-americano. Surgirá um continente com “cidades ordenadas”, com ideologias que as

precederão. Serão cidades regidas por homens que dominem as letras, a escrita; que possam a

partir destas, dominar o meio em que estão inseridos. Rama estuda José María Arguedas

dentre os autores que incluem a transculturação narrativa em sua prática, já que em Los Zorros podemos observar, dentre outros elementos, o cultural andino. Por haver vivenciado esta realidade, Arguedas soube compreender, diz Raquel Araújo, e “expressar com fidelidade

(26)

2.3 ANTONIO CORNEJO POLAR: FERVILHAM AS DIFERENÇAS

A partir da obra Escribir en el aire (2003), de Antonio Cornejo Polar, objetivamos traçar um panorama do conceito de Heterogeneidade.

No primeiro capítulo desta obra, El comienzo de la heterogeneidad en las literaturas andinas - Voz y letra en el Diálogo de Cajamarca (p.20-42), Cornejo Polar enfatiza diferenças conflitivas, iniciando com o antagonismo entre o que chama de “oralidad primaria” e a

escritura. O autor cita estudos de Martin Lienhard sobre a área andina e a inexistência de

simetria entre o universo oral e a escritura, expresso em La voz y su huella (1989, p.19) e a tentativa de transposição, de ponte, entre esses dois universos, aparentemente “equidistantes”

e antagônicos.

Cornejo Polar considera que a América Latina é de grande complexidade a partir dessa

perspectiva, já que “su literatura no sólo es la que escribe en español o en otras lenguas

europeas la elite letrada” (CORNEJO POLAR, 2003, p.20).

Considera como grau zero da interação o episódio referente ao “diálogo” entre o Inca

Atahuallpa e o Padre Valverde, em Cajamarca, em 1532. É sobre esse momento que Cornejo

Polar centraliza parte deste capítulo, momento esse que “deflagra” a interlocução impossível

entre essas duas forças, focando a distância, repulsão e até mesmo agressão entre os extremos,

tamanhas as diferenças.

Acredita o autor que a faceta heterogênea teve seu início antes mesmo da Conquista,

pelos espanhóis, e continua hoje, na produção literária peruana, andina e, em boa parte,

latino-americana. Percebe que situações semelhantes ao episódio de Cajamarca ocorram em toda a

América. Num mesmo espaço culturas diversas e distintas possam interagir, denunciando sua

faceta heterogênea.

(27)

el destino histórico de dos conciencias que desde su primer encuentro se repelen por la materia linguística en que se formalizan, lo que presagia la extensión de un campo de enfrentamientos, mucho más profundos y dramáticos, pero también la complejidad de densos y confusos procesos de imbricación transcultural. (CORNEJO POLAR, 2003, p.22-23).

É importante salientar que o episódio entre Valverde y Atahuallpa somente possui

testemunhas do lado hispânico, já que o poder imortalizou suas perspectivas dos fatos. É o

poder da cidade letrada, lembrando Ángel Rama (vide capítulo respectivo). A Bíblia, objeto da discórdia, possui um valor simbólico na cultura do Ocidente, mas é destituída de

significado na cultura andina, já que não possui uma história. Uma das testemunhas narrou

que a dificuldade do Inca Atahuallpa em abrir a Bíblia, o fez jogá-la ao solo, o que,

obviamente, foi visto com maus olhos pelos espanhóis, europeus, ocidentais. Nessa obra há a

análise em relação à obra de Icaza (Huaysipungo) e do conto “Un hombre muerto a puntapiés” de Palácios. Isso me leva a refletir qual pode ter sido a contribuição de J.M.A. para a literatura e a linguagem. Acredito que tal como afirmou Mariátegui, em 1926, em seu artigo

La realidad y la ficción:

El realismo nos alejaba en la literatura de la realidad. La experiencia realista no nos ha servido sino para demostrarnos que sólo podemos encontrar la realidad por los caminos de la fantasía (...). Pero la ficción no es libre. Más que descubrirnos lo maravilloso, parece destinada a revelarnos lo real. La fantasía, cuando no nos acerca a la realidad, nos sirve de bien poco. (CORNEJO POLAR, 2003, p.156).10

É claramente uma nova poética do relato. Inclusive a inserção posterior da língua

quéchua ao “status” de segunda língua do país. Certamente teve uma grande contribuição do

autor de Los Zorros.

Comungo da opinião de Cornejo Polar quando ele afirma que “lo que interesa aquí no

es el éxito o el fracaso de un modelo narrativo sino su novedad y su grado de enfrentamiento

10

(28)

con otra norma y – en el fondo – con otra noción de la literatura y del lenguaje” (CORNEJO

POLAR, 2003, 157).

No terceiro capítulo desta obra explora as múltiplas confrontações (Piedra de sangre hirviendo) existentes em solo peruano. Alguns pontos nos parecem bastante interessantes, porém, iremos ater-nos somente aos que acreditamos sejam pertinentes à vértebra de nossa

investigação. Diz que Ricardo Palma e outros escritores contemporâneos acreditavam que a

linguagem da literatura poderia abrigar as línguas e “sociodialetos nacionais” e ser

representativos de todos eles (CORNEJO POLAR, 2003, p.145).

Supunha-se, a partir do modelo palmista, que

la construcción un espacio lingüístico aparentemente homogéneo, en el que todas las disidencias parecían estar en paz, bajo el obvio imperio de una norma culta lo suficientemente porosa, como para apropriarse de los otros niveles del uso social de una lengua.(CORNEJO POLAR, 2003, p.45)

com um forte desejo de conciliar, mas que efetivamente não se realizava linguisticamente.

Palma tinha um projeto, como afirma Cornejo Polar, abarcador.

A título de aprofundamento, Cornejo Polar explora o tema ao redor de José María

Mariátegui e César Vallejo. Como afirma Mariátegui em seu texto “Poetas nuevos y poesía

vieja”, artigo de 1924; de nada adianta a casca/a parte visível quando esta destoa do interior:

“Para qué transgredir la gramática si los ingredientes espirituales de la poesía son los mismos

de hace veinte o cincuenta años? (...) hay que ser moderno espiritualmente” (CORNEJO

POLAR, 2003, p.148) referindo-se ao modernismo.

De igual forma César Vallejo diz que “Muchas veces un poema no dice “cinema”,

poseyendo no obstante, la emoción cinemática, de manera oscura y tácita pero efectiva y

humana. Tal es la verdadera poesía nueva” (CORNEJO POLAR, 2003, p.151).11

11 Entendemos que o essencial é invísivel aos olhos, lembrando um pouco o clássico O Pequeno Príncipe, de

(29)

Cornejo Polar expressa que o novo, o moderno ou o vanguardista não sejam mais que

“una cáscara que fraudulentamente oculte o un arcaísmo de fondo o un vacío espiritual”.

Cornejo Polar vê a tudo isso como ambigüidades de uma nova linguagem (CORNEJO

POLAR, 2003, p.147).

Vallejo e Mariátegui são enaltecidos como profundos conhecedores da modernidade

européia e do profundo atraso social das nações andinas. Compartilhavam esta inquietude. Há

uma profunda preocupação, também de J.M.A., evidentemente em outra época, em descobrir

uma maneira nova de inserir na linguagem o antigo. Isso nos remete à obra A utopia arcaica

de Mário Vargas Llosa, com a discussão proposta pelo autor em relação à utopia, termo que

carrega em si um tom de futuro, mais a idéia de arcaico, conduzindo o olhar a um passado.12

Beatriz Sarlo (1988, p. 59) é apontada por Cornejo Polar como alguém que, ainda que

aludindo a uma realidade distinta da andina, aponta para uma modernidade periférica.

Marshall Berman aborda o mesmo tópico em Tudo que é sólido se desmancha no ar (1988) em um capítulo dedicado a San Petersburgo.

Parece-nos pertinente lançar luz a essa temática, para refletir sobre os anseios e

preocupações de Arguedas ao deparar-se com as transformações ocorridas em Chimbote,

como em outras regiões litorâneas peruanas, e como havia um quê de encaixe imperfeito entre

o sonho/o futuro/a perspectiva e a realidade palpável/concreta. Na obra Los Zorros também, de maneira análoga à preocupação de Vallejo e Mariátegui em relação ao Modernismo, há o

enfoque de que a modernização imposta à cidade de Chimbote, aparentava ser uma ascensão,

entretanto baseava-se na mais pura degradação humana, urbanística, social. Tal como os

autores supra-citados, Arguedas também teve uma intensa experiência europeia e

(30)

americana, em grandes cidades, como Paris e, em especial, Nova Iorque. Mas o que superava

tudo isso era a estreita ligação que manteve com indígenas em sua infância e adolescência.

Tal vivência superou todos demais contatos, a ponto de ele estar numa cidade, como por

exemplo, Nova Iorque, e encantar-se com uma menina de origem indígena, que lhe remeteu a

sua infância, ao quéchua, às canções da terra.

Não aspiramos examinar a poesia de Vallejo nem tampouco os manifestos de

Mariátegui, mas aproximar-nos da essência de suas obras; o ponto que os une. Na obra

Escribir en el Aire, Cornejo Polar discorre sobre um conto de Pablo Palacio, objetivando entender que o autor rejeita o realismo por vê-lo repetir a realidade, sem encontrar sentido

nele, enquanto que a ficção proporciona “el vuelo imaginário”, propondo o sentido de “desoye” o realismo, ou seja, deixar de ouvi-lo. Mais que apresentar um fato, deseja

penetrá-lo, inspirando o leitor a elevá-lo a outra dimensão. Certamente, Arguedas ocupa esse espaço,

pois preenche os vazios que simplesmente o relato não conseguiria. Mais que informar sobre a

decadência a que Chimbote chegou depois de ser explorada vilmente, a narrativa responde a

interrogações que o leitor nem sequer sabia que tinha.

Mariátegui em um artigo de 1926 “La realidad y la ficción”13 já apontava para isso: “La ficción no es libre. Más que descubrirnos lo maravilloso, parece destinada a revelarnos lo

real. La fantasía, cuando no nos acerca a la realidad, nos sierve bien poco.” (CORNEJO

POLAR, 2003, p.155)

Há uma tendência indigenista protagonizada por Icaza que se choca com o

vanguardismo de Palacio. A linguagem aparece como caminho para vencer a mudez das

coisas e das ações dos homens, diz Cornejo Polar. Há muito por descobrir-se, além do

realismo objetivo e sua linguagem cartesiana.

(31)

Existe um projeto que objetiva “abrir el lenguaje del arte a las solicitaciones del habla,

en especial, del habla popular y de las capas medias bajas, e inclusive a la oralidad quichua,

en un nuevo intento por religar la normatividad estética a la vida cotidiana, rompiendo así la

clausura y una lengua artística que poco tenía que ver con su uso socializado por las

mayorías.” (CORNEJO POLAR, 2003, p.158). Tal projeto desejava “oralizar a escritura”.

Porém, como afirma Cornejo Polar, só o fato de escrevê-la já a distanciava, pondera, das

grandes massas de analfabetos (CORNEJO POLAR, 2003, p.158). Há um choque entre tal

projeto literário e o espaço social. Explico: deseja-se representar a fala “de los que no saben

escribir”.

Cornejo Polar considera que seja um “intricado espacio de las relaciones entre la voz

y la letra en el seno de una sociedad tajada por el analfabetismo de buena parte de la

población y el bilinguismo asimétrico de su mapa idiomático”. Percebemos uma situação

sócio-cultural bastante conflitiva e contraditória. Evidentemente há um esforço

linguístico-estético em “construir vínculos intersociales, interculturales e interétnicos, y en última

instancia espacios de homogeneidad”, mas a literatura e a linguagem que querem, entretanto,

não podem soldar profundas rachaduras.

Em seu texto “Mestizaje e Hibridez: Los riesgos de las metáforas. Apuntes”, de 1998, reconhece que utilizar termos oriundos de outras áreas do conhecimento é algo que pode levar

a desvios de entendimento, como, por exemplo, hibridez e mestiçagem. Cita Fernández

Retamar, já que ele já havia alertado para os perigos de utilização de conceitos provenientes

de outros âmbitos culturais.

O autor se refere a García Canclini, pois este, ainda que tenha utilizado o termo

hibridez, que sugere, a princípio, algo infrutífero, estéril, provou que, em termos culturais e

literários, é bastante fecundo. Cornejo Polar retoma o termo transculturação, cunhado por

(32)

posicionar-se contrariamente é o que tange à tranquilidade, à harmonia entre as culturas.

Acredita não ser possível tal equilíbrio harmônico. O autor tende a preferir o termo utilizado

por García Canclini, já que, segundo Cornejo Polar, com o conceito, por ser relacionado à

História, “se puede entrar y salir de la modernidad” se pode entrar e sair da hibridez. Afirma

que os conceitos utilizados no campo literário advindos de outros campos semânticos

possuem tantos conflitos quanto aqueles que se referem exclusivamente à literatura. Cornejo

Polar aponta a “difícil convivencia de texto y discursos en español y portugués... con la

incontenible diseminación de textos críticos en inglés” (CORNEJO POLAR, 1998, p.9).

Posiciona-se contrário ao “excesivo desnível de la producción crítica en inglés”. Acredita que

a utilização excessiva de uma língua estrangeira em relação aos estudos da “literatura

hispanoamericana está suscitando además – aunque tal vez nadie lo quiera – una extraña

jerarquía en la que los textos de esta condición resultan gobernando el campo general de los

estudios hispanoamericanos.”(CORNEJO POLAR, 1998, p.10).

Antonio Cornejo Polar, tal como Neil Larsen, também critica a Rama, acreditando que

o conceito deste supõe uma síntese harmônica, o que não acredita ser possível. O fato de

ficarem à margem discursos que não entraram no “sistema de la literatura ilustrada” também contribui para que o crítico não acredite que o termo seja o mais apropriado. Heterogeneidade

literária talvez pudesse dar conta de tantas diferenças.

Oyata Martin14 afirma que o romance oferece aspectos transculturadores (mestiçagem

feliz; meta para o Perú, mas está mais para ideologia) e heterogênicos (Cornejo Polar). Há

momentos em que não funciona a comunicação: a luta domina sobre a integração, de acordo

com seu discurso Yo no soy un aculturado. Hibridiza os dois universos culturais; o conflito domina.

(33)

Fermin del Pino Díaz15 diz que a nação está formada em sua maioria por índios,

remetendo a Mariátegui e o problema da terra; observa que o Peru é um país dual, com uma

face hispano e indígena, onde as diferenças devem ser negociadas. Perguntou-se sobre qual

seria a consequência de um encontro cultural, aludindo claramente ao título do congresso

ocorrido em Lima este ano: Dinámica de los encuentros culturales. O encontro de culturas é uma dinámica, algo que não se pode prever de todo, tendo-se uma idéia, mas não certezas. O

movimiento das raposas míticas deslocando-se de um mundo a outro possibilita imaginar a

ideia de encontro.

Parece-nos vital, para que prossigamos rumo à análise da obra arguediana Los Zorros, aproximar nossa ótica ao eixo de nossa investigação: Cidade. Faremos isso baseando nosso

olhar a partir de Ángel Rama, com a obra A cidade letrada, essencialmente, e de José Luís Romero, com A cidade e as ideias.

2.4 LUZES NA CIDADE

Para tratar do centro de nossa dissertação, o tema da cidade, optamos por Ángel Rama

e José Luís Romero, já que ambos, em diferentes épocas e espaços, pensaram o ambiente

urbano de forma bastante profunda.

2.4.1 A Cidade de Rama

Rama, em seus agradecimentos iniciais relativos à obra em questão, explicita que foi

muito perseguido por confundirem suas obras e/ou atitudes e atividades como comunistas.

Defendeu-se argumentando sobre a Biblioteca de Ayacucho, da qual foi diretor; sobre o

semanário Marcha, “destruído em 1974 pelos militares uruguaios, depois de 35 anos de

pregação intelectual” (RAMA, 1984, p.20). Foi exilado nos EUA, onde tentou “refazer a

(34)

família espiritual, essa dos peregrinos de que falou Martí, descrevendo-os a mais admirável

tradição de liberdade do país”.16 (AR, p.21)

Sua obra é resultado do estudo que durante muito tempo vinha realizando sobre as

culturas da América Latina no séc. XIX. Após participar do 8º Simpósio Internacional sobre

Urbanização nas Américas, em setembro de 1982, na Stanford University, vinculou seus

estudos anteriores a tudo que encontrou nesse evento. Tal obra terá como eixo, como ele

próprio afirma, “a letra servida do Poder e advoga pela ampla democratização das funções

intelectuais” (AR, p.21).

Há que aclarar quais são os modelos sucessivos de cidades definidas por Rama: a

Ordenada, a Letrada, a Escriturária, a Modernizada, a Politizada e a Revolucionária. No

capítulo dedicado à Cidade Ordenada, Rama afirma que a racionalidade e a ordem imperavam ao conceber-se a cidade, seja no século XVI, com, por exemplo, a remodelação de

Tenochtitlan, após sua destruição pelo espanhol Hernán Cortés, ou, no séc. XX, com a

construção de um sonho, Brasília, “em que a cidade passava a ser um sonho de uma ordem”

(AR, p.23) Ángel Rama contrapõe a cidade orgânica medieval dos conquistadores, do Velho

Mundo, à cidade barroca do Novo Continente, a qual tem um molde objetivando um futuro e

que deve obedecer “às exigências colonizadoras, administrativas, militares, comerciais,

religiosas” (AR, p.23).

Rama identifica como cegueira antropológica a aplicação do princípio de “tábula rasa”17 à essa cidade ordenada. Explico: entende-se por cegueira o fato de serem ignorados

todos os valores existentes na Nova Terra, como se tal existência “inexistisse’, não tivesse

vida antes dos colonizadores.

16 A partir de agora, usaremos a sigla AR para referir-nos à obra de Ángel Rama A cidade letrada.

(35)

Na América, nesse Novo Continente, o sonho dos peninsulares ocorreria de maneira

racional, efetiva, negando “ingentes culturas – ainda que tivessem de sobreviver e infiltrar-se

de maneira dissimulada na cultura imposta”. (AR, p.24) De certa forma, toda esta discussão

nos remete a Fernando Ortiz, com a obra Contrapunteo cubano entre el tabaco y el azúcar, à outra obra de Rama, Transculturação Narrativa, e a Cornejo Polar com Escribir en el aire, e seu conceito de heterogeneidade.

Distintamente do que se poderia pensar, os nomes Nova Espanha, Nova Galícia e

Nova Granada não condiziam com os substantivos a que se referiam. Ainda que o adjetivo

nova nos faça imaginar algo pré-existente com uma roupagem diferente, mais atualizado, não acompanhavam a imagem desses lugares na Europa. Ou seja, na verdade, eram novos lugares,

porque num novo continente, mas que não mantinham nenhum laço com o local europeu

sugerido. O autor afirma que nesse Novo Mundo surge a cidade ideal, que terá como norte

uma razão ordenadora, que a pensa enquanto hierarquia social.

A palavra ordem é o termo chave dessa perspectiva de cidade: disciplina,

enquadramento e adaptação forçada são vocábulos que se referem bem à cidade ordenada, a

essa cidade idealizada. Existe um “projeto racional prévio” à existência da cidade real. Ou seja, antes de sua existência no mundo concreto deve ser concebida nas ideias. Parte-se do

princípio, afirma Rama, de que há um poder para pensar esse projeto, e, por conseguinte,

realizá-lo. Esse poder nada tem de divino, mas coloca uma roupagem de ideologização, para

substituir os dogmas religiosos. Tal poder está concentrado em três grandes instituições: a

Igreja, o Exército e a Administração. Rama define o termo ordem: “Colocação das coisas no lugar que lhes corresponde. Conserto, boa disposição das coisas entre si. Regra ou modo que

se observa para fazer as coisas” (AR, p. 27). Era uma transposição de uma ordem social

peninsular a uma realidade física distinta. Em relação à fundação das cidades do Novo

(36)

um sonho da razão, é a perspectiva genética do projeto” (AR, p.27). Rama salienta que tal

transposição foi reforçada pelas linguagens matemáticas, entendidas como respostas seguras e

válidas para qualquer situação.

A necessidade de pensar a cidade antes de sua constituição objetiva, acima de tudo,

traduzir uma hierarquia social, com unidade, planificação e ordem religiosa, afirma o autor: “A ordem deve ficar estabelecida antes de que a cidade exista, para impedir assim toda futura

desordem, o que alude à peculiar virtude dos signos de permanecerem...”(AR, p.29). É o

sonho de uma ordem” (AR, p.32). Nesse contexto, houve a necessidade, por parte do poder,

do surgimento de um scrip (alguém que pudesse redigir) uma escritura, que tinha como

missão dar fé a partir da palavra escrita, como única válida na América Latina, como ideia de permanência, rigidez, firmeza, confiabilidade. Obviamente, para que houvesse uma escritura,

dever-se-ia escolher a língua do poder e alguém que tivesse acesso a ela, no sentido de

dominá-la, usá-la. Eis um discurso considerado ordenado, livre de movimentos, metamorfoses

ou acontecimentos.

Rama afirma que “atrás de seu aparente registro neutro do real, insere o marco

ideológico que valoriza e organiza essa realidade, autorizando todo tipo de operações

intelectuais a partir das suas proporções” (AR, p.30). Não há uma representação da coisa

existente, mas do sonho ao redor do objeto. Há um nível físico da cidade e um nível

simbólico. A representação real é aquela que sonha uma possibilidade, um futuro, um más allá. Explicamos, utilizando-nos de palavras de Rama:

Antes de ser uma realidade de ruas, casas e praças, que só podem existir e ainda gradualmente, no transcurso do tempo histórico, as cidades emergiam já completas por um parto da inteligência nas normas que as teorizavam, nos atos fundacionais que as estatuíam, nos planos que as desenhavam idealmente. (AR, p.32)

O projeto que se desenhou dispensava relação com a realidade, era quase independente

(37)

de fincar um poder já existente em solo europeu. Deveria existir uma preservação do “caráter

sistemático da autoridade, que está baseado na crença de que os reis o eram pela graça de

Deus.” (KONETZKE, 1972, p. 119).

O aparecimento das cidades nesse contexto nos remete ao dualismo entre campo e

cidade, civilização e barbárie. Impossível se faz não remeter-nos ao clássico Facundo (1845), de Domingos Faustino Sarmiento, que trata dessa questão em solo argentino.18

O enfoque não era, como anteriormente, a partir do cultivo do solo, da agricultura,

surgir um mercado e uma consequente relação com o exterior. Aqui, constrói-se a urbe e

busca-se viabilizar uma visão agrícola, ainda que, porventura, esse solo e/ou região não seja a

mais adequada para tal atividade. A lógica toma outros rumos. Com afirma Rama,

o ideal fixado desde as origens é o de ser urbano, por insignificantes que sejam os assentamentos de que se ocupem, ao mesmo tempo em que se lhe encomenda à cidade a construção de seu contorno agrícola, explorando a massa escrava para uma rápida obtenção de riquezas (AR, p.35)

São cidades irreais pois não condizem com as necessidades do meio em que se inserem, somente extraindo o que já havia no local antes de sua existência (seu aparecimento),

como zonas de cultivo, mercadores indígenas. Rama cita a obra Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, como um alerta ao princípio modernizador do conceito de cidade. A partir

do que expõe na obra, a guerra sangrenta ocorrida no sertão de Canudos, aquilo que se

supunha grandioso mostrou sua faceta monstruosa. Foram momentos de conquista

desenfreada pelos quais passou o solo americano. A esse momento deu-se o nome de

evangelização e educação. Floreou-se uma etapa cruel de nossa civilização: “Tratava-se de

um mesmo esforço de transculturação a partir da lição européia” (AR, p.37). As instituições,

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Referências

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