2.1 DESENVOLVIMENTO infantil NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA
2.1.1 Marcos do Desenvolvimento Neuropsicomotor
A normatização cronológica do desenvolvimento neuropsicomotor consiste na
correlação entre uma idade e determinadas aquisições, que formam uma sequência
de mudanças na conduta sensorial e motora, nas respostas da capacidade intelectual,
locomoção, comunicação e socialização (MARCONDES, 1991; LEJARRAGA, 2002;
DELGADO, 2004; EICKMANN, 2008).
As aquisições de habilidades e desenvolvimento motor, segundo Grerpelli
(2000), se sustentam em uma maturação progressiva do sistema nervoso central,
cuja organização segue:
a) uma direção céfalo-caudal, sendo que a criança normalmente sustenta a
cabeça para depois sentar, ficar em pé e, andar;
b) no sentido próximo-distal, em que a maturação ocorre do centro do corpo
para a periferia, com movimentos amplos do ombro para os movimentos
refinados das mãos.
Os reflexos primitivos são inibidos pelo controle voluntário do movimento e
desaparecem para que esses movimentos se desenvolvam normalmente. Essas
modificações resultam das interações entre forças intrínsecas, de origem biológica, e
extrínsecas, do meio ambiente e da estimulação a ele oferecida (GHERPELLI, 2000).
O movimento é fundamental para que a criança adquira independência e
autonomia e acontece à medida que ele explora, manipula e domina o ambiente em
que está inserido. O aprendizado motor, assim como outras habilidades, acontece
através da experiência sensorial. Para Bobath e Bobath (1964), a criança não aprende
movimentos, mas vivencia a sensação destes e, assim, constrói padrões sensórios
motores básicos e necessários para as atividades funcionais (ZONTA, 2009). A
constante melhora de suas habilidades motoras significa aquisição e compreensão do
movimento funcional, da sua independência e capacidade de adaptação à sociedade
(SPARLING et al.
6,
1999, citado por ARIAS, 2006).
A regularidade e a universalização de determinadas aquisições que ocorrem
em torno de um determinado tempo cronológico da vida indicam a maturação
neurológica relacionada a um limite de idade e a uma margem de tempo. Leva-se em
conta que há, entre uma criança e outra, certas variações no decorrer do
desenvolvimento. Determinadas aquisições podem variar com uma sequência similar
a todas as crianças, porém com um ritmo individual.
As aquisições no desenvolvimento neuropsicomotor de uma criança, seguem
uma determinada ordem, como no exemplo em que a sustentação do tronco se faz
necessária para o caminhar. Sendo o desenvolvimento uma sucessão de avanços
6 Sparling, J. W.; Tol, J. V.; Chescheir, N. C. Fetal ad Neonatal Hand Movement. Physical Therapy,
obtidos pela maturação e interação com o meio, os primeiros anos de vida são de
conquistas e aperfeiçoamento de várias habilidades que se beneficiam e partilham
desse aprendizado, incluindo os campos do cognitivo, social, afetivo,motor e da
linguagem.
Pouco a pouco, a criança se adapta ao meio através de suas respostas
motoras que, inicialmente, são reflexo involuntário, essenciais para o desenvolvimento
do SNC e para a organização da consciência corporal, tendem a desaparecer entre o
6.
o e o 12.
o mês.
O padrão motor inicial da criança é em flexão, evoluindo para a extensão dos
membros até o final do 3.
o mês. Com um mês, a criança já é capaz de acompanhar
com a cabeça movimentos realizados com objetos ou rosto das pessoas, inicialmente
sem controle, adquirindo firmeza até o 3.
o mês. Por essa época, inicia apoio sobre os
antebraços, o que lhe possibilita observar o que acontece ao redor.
Entre o 3.
o mês e o 6.
o mês, já conseguindo um aprimoramento de sua
condição motora, dá chutes, brinca com as mãos, alcança e segura objetos pequenos,
descobrindo, quando colocado de barriga para baixo, o movimento de girar-se sobre
sua barriga, denominado de pivoteio.
Entre o 6.
o e o 9.
o mês consegue o rolar voluntário para ambos os lados; com
maior controle de sua musculatura, senta com apoio, adquirindo, no último mês desse
estágio, o sentar independente. Suas brincadeiras já estão mais aprimoradas,
consegue manipular e transferir objetos de uma mão para a outra, assim como
levá-los à boca. Também nesta fase tem prazer em jogar objetos no chão para ver a reação
dos que estão à sua volta, estabelecendo assim o brincar com o outro. As crianças
conseguem, nessa fase, arrastar-se para frente e para trás, principalmente se algum
objeto é colocado para chamar-lhe a atenção. Alguns iniciam o engatinhar, sendo essa
aquisição aprimorada aos 9 meses (DIAMENT; CYPEL, 2010).
Já a partir do 9.
o mês, as crianças adquirem independência motora,
conseguindo engatinhar, sentar e levantar sozinhos, inicialmente apoiados em
móveis, e também arrastando-os para percorrer distâncias. Suas habilidades manuais
tornam-se cada vez mais aprimoradas; conseguem virar uma página de um livro,
usam os dedos para apontar e apanhar objetos muito pequenos, batem palmas e dão
“tchau”.
A partir dos 12 meses, adquirem mais independência a cada dia, gostam de
explorar tudo à sua volta, iniciam o andar sozinhos e possuem bom controle das mãos.
Gostam de brincar com lápis e riscam tudo o que vêem pela frente.
Com 18 meses andam com bom controle, raramente caem, sobem degraus
com auxílio e conseguem transportar um ou mais objetos enquanto se movimentam.
Já são capazes de reconhecer formas e encaixá-las. Empilhar, empurrar, separar,
encaixar e guardar são suas brincadeiras preferidas.
Entre os 24 a 36 meses já adquiriram independência, com segurança para
subir e descer degraus, pular, correr, dançar e realizar movimentos de rosca com as
mãos, destampando potes, abrindo e fechando portas. Iniciam, aos poucos, a
habilidade de despir-se e vestir-se, fecham zíper com agilidade e tiram sapatos, blusa,
calça. Adoram atividades de saltar pequenos obstáculos, jogar bola, empilhar e
desenhar. Seus objetos de preferência são os que produzem sons. Nessa etapa,
conseguem realizar duas habilidades ao mesmo tempo (FONSECA, 2008).
Desde o nascimento, a criança reage a seus pais e outros que estão à sua
volta, tranquilizando-se ao escutar a voz de familiares, sorrindo e respondendo ao
contato. A partir do terceiro mês, demonstra gostar de companhia, percebe e
diferencia rostos e expressões, demonstra emoções de alegria ou descontentamento,
sorrindo ou chorando. A fala emerge naturalmente, inicialmente prestando atenção
quando se fala com ele, esboçando respostas pouco articuladas, que logo se tornam
mais complexas. Entre os 12 a 24 meses, o vocabulário se aperfeiçoa, com estruturas
de linguagem e fala bem definidas (PIAGET, 1989).
Entre os 24 e os 36 meses domina pouco sua emoção. Reage quando está
com raiva, gritando ou batendo, brinca e sorri quando está feliz, muda constantemente
seu humor e apresenta resistência a limites e regras. Demonstra afeto com gestos de
carinho e possui admiração por animais domésticos. Gosta de ouvir histórias sobre si
e imita a figura paterna (GESSEL, 1989).
Wallon, em 1979, declarou que são os motivos, as necessidades e os desejos
que fazem com que a criança demonstre interesse em aprender e a conquistar o
mundo exterior. A relação afetiva é a base para a criança se comunicar com o meio,
aprimorando a linguagem entre seus pares e adultos. Piaget aponta a cognição e a
afetividade como inseparáveis. Decorrem da relação da criança com o meio,
direcionando seu interesse para outra situação, que leva a uma ação cognitiva,
organizando assim o funcionamento mental (PIAGET; GRÉCO, 1974).
Vygotsky (1989), por sua vez, afirma que as emoções têm participação ativa
no funcionamento mental, concordando com as relações entre afeto e cognição. O
pensamento é ligado à vida, às necessidades e aos interesses de quem pensa e o
sentindo que a linguagem tem para cada um, sendo o significado que resulta do
contexto do uso da linguagem em suas vivências afetivas.
A linguagem é um processo mental altamente complexo da manifestação do
pensamento e de caráter social. Constitui-se em elemento estruturante no
desenvolvimento das aprendizagens e conhecimentos, na medida em que possibilita
à criança a organização da ação, expressão das ideias, sentimentos e da interação.
É um sistema constituído por gestos, sinais, signos, símbolos e palavras, que são
utilizados para representar ideias, significados e pensamentos (PINKER, 2002).
Muitos mecanismos são usados pelas crianças para se comunicar, como a troca de
olhares, sorrisos, choros e movimentos corporais. Desde muito cedo demonstram
notável capacidade de discriminar sons da fala de outros sons.
A fala é uma das mais importantes formas de comunicação utilizadas pelo
homem. Para que seja apresentada de forma estruturada e correta, condições
orgânicas, como a integridade do SNC e dos sistemas respiratórios e
fonoarticulatórios, se fazem necessárias. Importam também a vontade e o desejo de
aprender a desenvolver a linguagem, as atitudes sociais e a disponibilidade das
pessoas que convivem com a criança em estimulá-la, conversando, cantando e
dialogando (PINKER, 2002).
Cada indivíduo é afetado pelas experiências que são únicas, assim como
pelas situações culturais vividas, que repercutem de forma individual na infância e na
fase adulta. A qualidade afetiva vivida pela criança interfere na base do seu
desenvolvimento. Entenda-se afetividade não apenas como manifestações de carinho
físico, mas qualquer manifestação de confiança nas capacidades da criança de
aprender, organizar seus espaços para realização de suas descobertas, pela atenção
dada a suas dificuldades, na valorização de suas atitudes, permitindo oportunidades
de aprendizado, assim como as manifestações dos afetos negativos, que vão reduzir
essas oportunidades e inibir o aprendizado.