• Nenhum resultado encontrado

2.3 PROMOÇÃO E PROTEÇÃO AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

2.3.2 Programas de follow-up e a importância do processo de avaliação

Com o objetivo de atender crianças em situação de risco para seu

desenvolvimento, realizando o acompanhamento longitudinal do crescimento e

desenvolvimento neuropsicomotor, foram introduzidos no Brasil na década de 80 os

programas de follow-up. Junto com eles, fez-se necessário a aplicação de

instrumentos de triagem e avaliação para o acompanhamento e registro da evolução

das crianças (LOPES; LOPES, 1999; FORMIGA; PEDRAZZANI; TUDELLA, 2004).

O Ministério de Saúde (MS) instituiu, para utilização pelos Pediatras no

acompanhamento de qualquer criança, a Ficha de Acompanhamento do

Desenvolvimento e o Manual de Vigilância do Desenvolvimento Infantil no contexto da

Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI), para identificação

precoce de alterações no desenvolvimento infantil (OPAS; 2005; OMS, 2001, 2005).

A Academia Americana de Pediatria (APP, 2001) recomenda que todas as crianças,

mesmo as sem fatores de risco, devem ser submetidas a testes de triagem

padronizados com 9, 18, 24 e 30 meses.

Rugolo et al. (2005) reforçaram a importância desses programas, mostrando

que esses devem ser um processo contínuo e flexível de avaliação da criança,

incluindo a observação direta, a valorização dos familiares, um exame neurológico

sistematizado, assim como a avaliação dos marcos de desenvolvimento neuromotor

com a realização de testes de triagem.

Diferentes testes e escalas de avaliação e triagem podem ser aplicados em

crianças de 0 a 5 anos, permitindo comprovar o desenvolvimento das áreas cognitivas,

motora, da linguagem e social de forma segura e rápida. As primeiras publicações que

se têm sobre avaliação e escalas do desenvolvimento psicomotor foram encontradas

com data de 1877, mas somente em 1920 é que o tema despertou interesse do meio

científico (ICETA; YOLDI, 2002). Muitos estudos e instrumentos de avaliação foram

desenvolvidos desde então, alguns dos quais são utilizados até hoje, como Métodos

de Avaliação do Desenvolvimento de Gesell y Amatruda, Escala de Desenvolvimento

Psicomotor para primeira Infância de Brunet-Lézine; Bayley Scales of Infant

Development; Teste de Triagem de Desenvolvimento de Denver (DDST); Método de

avaliação neurológica de crianças nascidas a termo de Amiel-Tison e Grenier e a

Peabody Development Motor Scales; (GESEL; AMATRUDA, 1987; AMIEL-TISON,

GRENIER, 1985, BAYLEY, 2006; BRUNET; LÉZINE, 1981; FRANKENBURG et

al.,1992; FOLIO; FEWLL, 2000).

A palavra avaliar tem origem no latim e provém da composição a-valere, que

significa "dar valor a...". O conceito de "avaliação" é expresso como sendo a

"atribuição de um valor ou qualidade a alguma coisa, ato ou curso de ação...",

implicando em "um posicionamento positivo ou negativo em relação ao objeto, ato ou

curso de ação avaliado" (LUCKESI, 1999; LUCKESI, 2000).

As funções específicas avaliadas permitem o diagnóstico, o controle e a

classificação (TURRA et al., 2001). O diagnóstico possibilita identificar, discriminar,

compreender e caracterizar os fatores desencadeantes das dificuldades de

aprendizagem (TURRA et al., 2001; LIBÂNEO, 1999; HAYDT, 1997).

A Avaliação do Desenvolvimento Neuropsicomotor pode ser entendida como

a aplicação de um método com critérios explícitos de análise, com vistas a conhecer,

medir, determinar e julgar o contexto ou o estado em que se encontra uma criança, a

fim de estimular e facilitar processos de aprendizagem e de desenvolvimento. Para

Eickmann, a avaliação "tem por objetivo identificar distúrbios específicos do

desenvolvimento que afetam a criança, possibilitando estabelecer quocientes de

desenvolvimento" (EICKMANN, 2008). Segundo a autora, a monitorização do

desenvolvimento passa pelo "processo flexível, longitudinal, contínuo e cumulativo,

através do qual profissionais de saúde podem, utilizando várias fontes, reconhecer

crianças em risco para distúrbios do desenvolvimento".

O conceito de avaliar o desenvolvimento neuropsicomotor foi incorporado à

promoção do desenvolvimento infantil pelo setor público, tanto na saúde como na

educação, com ações de Vigilância do Desenvolvimento, englobando a prevenção e

detecção de possíveis alterações, bem como a promoção e antecipação de questões

relacionadas a esse processo (HUTCHSSON; NICkOLL, 1988; DWORKIN, 1989;

KING; GLASCOE, 2003; SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2005).

De uma forma ou de outra, todas as avaliações infantis envolvem a busca de

informações, na tentativa de melhor compreender e apoiar a aprendizagem e o

desenvolvimento da criança. Os resultados esperados de uma avaliação podem

descrever alguns detalhes informativos do que essas crianças sabem e podem fazer,

mas nunca totalmente retratar quem são ou serão como indivíduos. Ao avaliar o

desenvolvimento neuropsicomotor, é importante distinguir entre as crianças que

apresentam desenvolvimento típico das que apresentam desenvolvimento atípico.

Basear-se apenas na impressão clínica pode ser ineficiente para se avaliar o

desenvolvimento neuropsicomotor (DWORKIN, 1992

17

, citado por CAMPOS et al.,

2006). Esse é um processo dinâmico, complexo e de difícil mensuração, devido à

grande interdependência entre os vários domínios de funções que o compõem.

O exame físico, englobando o clínico e neurológico, além do registro das

aquisições neuropsicomotoras, também deve compor a tríade no processo da

Avaliação do Desenvolvimento Neuropsicomotor.

Diante do exposto, a realização de testes de triagem para detecção de

alterações do desenvolvimento deve ser concebida como complementar às ações de

vigilância mencionadas. Para a realização de uma avaliação significativa, o

profissional deve deter-se no planejamento e na escolha do instrumento, entre os

disponíveis. É necessário conhecer e discutir as várias finalidades, tipos e métodos

que o instrumento dispõe para que seja realizada a avaliação. É importante considerar

algumas implicações, como: a) a realização de uma avaliação completa e significativa

requer a compreensão do contexto familiar e a obtenção de informações dos pais

sobre o desenvolvimento da criança, a história pregressa e atual, a rotina da família,

sua situação socioeconômica e cultural, seguida do exame físico da criança,

englobando o neurológico e clínico e, se possível e com permissão, realizar visitas

domiciliares; b) ao realizar avaliação em crianças pequenas, é preciso ser flexível,

devendo fazer parte do planejamento as variáveis como fadiga, sono, doença e o

próprio temperamento da criança, horário, materiais, entre outros fatores situacionais

que podem facilmente ofuscar as habilidades e o desempenho da criança; c) as

crianças aprendem fazendo e demonstram suas habilidades através de ações lúdicas

e atividades orientadas. Assim, aplicar a avaliação nessas atividades, rotinas e

interações do dia a dia pode produzir um resultado mais fidedigno; d) planejar o

objetivo que deve ser alcançado com os resultados da avaliação, devendo-se coletar

somente as informações que realmente são úteis para a intervenção (EFFGEN, 2007).