Capítulo I Mulheres matemáticas no Brasil: uma história a ser contada.
1.8 Dando voz as mulheres
1.8.6 Maria José Pacífico (1952)
Iniciou seus estudos na Matemática no curso de Licenciatura da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Unesp. Fez mestrado (1976) e doutorado (1980) no IMPA. Seu trabalho de tese foi intitulado ‘Campos de Morse-Smale em 3-variedades compactas com bordo’. Realizou seu pós-doutorado (2008-2009) na Scuola Normale Superiore Di Pisa.
Atua na linha de pesquisa dos Sistemas Dinâmicos e Teoria Ergódica. Possui vários trabalhos publicados nos Annals of Mathematics; Publications Mathématiques, dentre outros.
Iniciou a carreira acadêmica na Universidade Federal Fluminense - UFF, mas atualmente integra o quadro de professora titular da UFRJ.
Promove sempre o intercâmbio entre as/os professoras/es do IM/UFRJ com professoras/es de outros países, promovendo reuniões científicas.
Possui vários trabalhos completos publicados em revistas de circulação internacional, além da publicação de quatros livros na área de Sistemas Dinâmicos.
Em 2005, a professora Maria José passou a integrar a lista de membros titulares da ABC. Recebeu inúmeros prêmios devido aos méritos das suas pesquisas acadêmicas e seu empenho no desenvolvimento da Matemática.
Em 2007 foi condecorada pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, com a ‘Medalha da Ordem ao Mérito Científico’ na categoria comendador.
A professora Maria José muito tem contribuído para o desenvolvimento da Matemática.
Esse pequeno relato da significativa participação de algumas mulheres no desenvolvimento da matemática é revelador em vários aspectos. Primeiro, as mulheres que conseguem alcançar os meios científicos, realizam suas pesquisas de forma brilhante e habilidosa, contribuindo significativamente para elevar a Matemática em nível nacional e internacional. Segundo, demonstram que o mito da incapacidade das mulheres quanto às habilidades cognitivas matemáticas é falso, e que não passa de uma ‘armadilha’ criada pelo poder patriarcal. Contudo, não podemos negar as perguntas que surgiram durante esta elaboração: Por que tanta dificuldade em encontrá-las? Por que um relato com um número tão pequeno de mulheres pesquisadoras matemáticas?
Algumas possíveis respostas: não há uma divulgação ampla das realizações ocorridas nos meios científicos, fora dele. Para conseguir pequenas informações, na maioria das vezes incompletas e dispersas, foi preciso primeiro buscar conhecer os caminhos de acesso a essas informações. Como se trata de conhecer histórias de mulheres cientistas matemáticas, a
historiografia é muito incipiente e demonstra que apesar do aumento da inserção destas nos ciclos universitários, este fato ainda não mostrou as/aos historiadoras/es que elas precisam e devem ser reveladas na história brasileira.
Sabe-se que ainda é preciso continuar buscando os mecanismos que afastam as mulheres dos espaços que envolvem o conhecimento matemático. Mas, pode-se inferir que um dos caminhos será a transformação das concepções que lideram os espaços acadêmicos científicos, que continua adotando “o rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que ao quantificar, desqualifica”. (SANTOS, 2008, p. 54). Desqualifica a participação das mulheres, por meio dos mitos da inferioridade, os quais são, comprovadamente, uma grande “armadilha” no jogo de interesses e poder.
Neste sentido, concordo com Carla Cabral (2005, p. 5), ao argumentar que as mulheres continuam sofrendo com as barreiras invisíveis que afetam suas trajetórias profissionais:
Hoje, não há restrições aparentes para o seu acesso aos sistemas educacionais, mas ergue-se uma série de outras barreiras que restringem sua participação na produção do conhecimento científico e tecnológico, hierárquica e territorialmente, num universo androcêntrico de pesquisa e trabalho.
No Estado da Bahia, a atenção se volta para a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Bahia (FF, 1941), onde era oferecido o curso de Matemática, cuja criação se deu de modo muito peculiar, pois, desde o inicio o número de mulheres a colar grau nos cursos de graduação foi superior ao número de homens. Além disso, algumas destas mulheres matemáticas mantiveram-se ativas no cenário matemático baiano, mantendo e consolidando as atividades do Instituto de Matemática e Física da Universidade da Bahia (IMFUBa). Dentre estas, duas professoras participaram como as pioneiras na articulação da fundação do referido Instituto (1960), Martha Maria de Souza Dantas e Arlete Cerqueira Lima.
No intuito de incentivar os debates quanto as discriminações de gênero muitas vezes veladas e silenciosas nos espaços acadêmicos e científicos, serão analisadas nos próximos capítulos as contribuições de algumas mulheres baianas no desenvolvimento da Matemática na Bahia.
A história da criação do Instituto de Matemática e Física, por exemplo, objeto do próximo capítulo, contextualiza a história de luta destas duas mulheres: Arlete e Martha; diferentes em quase tudo se complementaram e construíram suas histórias em torno de um objetivo comum: modernizar o pensamento matemático na instituição que começava a se consolidar naquele momento, a Universidade da Bahia. As marcas de gênero, embora jamais
explicitadas nos seus discursos, se fizeram sentir e determinaram, em muitos momentos, uma espécie de “opacidade” das suas figuras. Este estudo busca desvelar estas duas mulheres. Para tanto, faz-se necessário uma incursão prévia nos meandros políticos e acadêmicos em que se moviam as personalidades que se constituíram como os principais atores e atrizes naquele contexto específico: a Faculdade de Filosofia.
CAPÍTULO II
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Da Faculdade de Filosofia da Bahia ao Instituto de
Matemática e Física da Universidade da Bahia – trajetórias e
protagonismos marcados pelo gênero.
Existe história enquanto existem pessoas que se revoltam e que fazem histórias.
Bourdieu
Neste capítulo será contextualizado os caminhos percorridos para criação do IMF e a participação efetiva das mulheres articuladoras do processo que se desenvolveu na Bahia para concretizar essa fundação. Com esse objetivo, se fez necessário voltar um pouco no tempo, para traçar a presença marcante de mulheres no curso de Matemática da Faculdade de Filosofia da Bahia. Desta forma, foi preciso trazer um pouco da história da fundação da Faculdade de Filosofia que se tornou também responsável pela criação da primeira Universidade da Bahia (UBa) atual Universidade Federal da Bahia. Neste percurso, destacou- se a situação da educação baiana na época, a participação dos educadores Anísio Teixeira e Isaías Alves, este último responsável pela fundação da referida Faculdade de Filosofia. Destaca-se também a participação de três mulheres no corpo docente desta faculdade no período da sua fundação.
2.1 Breve contexto histórico da situação educacional na Bahia83.
No capítulo I, de um modo geral, foi traçado o perfil da educação brasileira que inicialmente esteve centrada nas mãos dos jesuítas, os quais contribuíram com os avanços ocorridos na época. Apesar de terem uma proposta, inicialmente, de evangelizar os índios, mas já fazendo uma discriminação de gênero, pois apenas os meninos nativos e os filhos
homens dos colonos foram aceitos neste espaço, acabou perdendo de vista essa concepção de apenas evangelizar, e se moldou ao contexto burguês dos portugueses – educar as classes elitizadas, formar os homens, particularmente, priorizando a formação dos homens que desejavam a carreira eclesiástica. Assim, as meninas foram excluídas deste contexto, mantendo-se a tradição portuguesa da não aceitação da educação das mulheres.
Com essa concepção de promover conhecimento apenas aos homens das elites, o Brasil manteve durante muito tempo uma situação de abandono no ensino. Particularmente, na Bahia, segundo Luís Henrique Dias Tavares (2008), a educação da população apresentava altos índices de precariedade, não havia estrutura educacional, bem como interesses políticos em prol de mudanças. A existência do Liceu Provincial (1837) e da Escola Normal (1842) que eram responsáveis pelo “magistério secundário de então como um autentico ensino de elite”, não atendia a formação de uma cultura educacional que pudesse suprir a demanda da população. Essas escolas eram juntas “a faculdade de filosofia que não tínhamos.” (MACHADO NETO, 1972, p. 274)
Fotografia 1 - Liceu Provincial
Fonte: Jornal A Tarde de 28/04/1942
Além de poucos estabelecimentos de ensino e a visão de ensino elitizado, a Bahia mantinha “uma política clientelista responsável pelas injustiças educacionais” (TAVARES, 2008, p. 280).
Esse pensamento é revelado, também, por Paulo Santos Silva (2000, p. 16) quando fala da formação das/os intelectuais baianas/os,
tanto antes quanto depois de 1930, os indivíduos que exerciam atividades intelectuais encontravam-se vinculados aqueles que ocupavam posições chaves no aparelho do Estado ou que gozavam de situação econômica privilegiada. Não há como pensar a vida intelectual baiana dissociada dos grupos dirigentes locais, [...] era a própria classe dirigente na dupla tarefa de se dedicar às letras e à atividade política. [...] Em sua grande maioria foram bacharéis em Direito, ocuparam funções no magistério secundário e superior, participaram de debates políticos do período, influenciando na formação de opiniões.
Realidade enfatizada e ironizada também por Jorge Amado no seu livro “O país do carnaval”.
Porque na Bahia, boa cidade de Todos os Santos e em particular de Senhor do Bonfim, todo mundo é intelectual. O bacharel é por força escritor, o médico que escreve um trabalho sobre sífilis passa a ser chamado de poeta e os juízes dão valiosas opiniões literárias, das quais ninguém tem coragem de discordar. (AMADO, 1999, p. 23)
O famoso “apadrinhamento” dos intelectuais era tão demarcado que Silva (2000, p. 102) parece também ironizar ao considera que:
Não seria exagero tratá-los como uma grande família. Eram pessoas ligadas entre si pelos mais variados laços: parentescos, longas amizades, formação escolar, credos políticos, filiações partidárias, empregos, casamentos e apadrinhamentos. (Grifo nosso)
Aliado ao “intelectualismo baiano das elites”, Tavares (2008, p. 284) argumenta que os baixos índices de educação da população, tanto no período colonial, como no império, estavam vinculados à estrutura econômica84 “agrária, dominada pelo latifúndio, baseada no
trabalho escravo, dependente da economia internacional dominante”.
A Bahia era um Estado que funcionava de acordo com as concepções do poder dominante e, as mudanças politicas só eram aceitas quando caminhavam no rumo do favorecimento das oligarquias. Segundo Silva (2000, p. 85), tudo se organizava e “se caminhava em um campo permeado por favores, amadorismo e improviso”.
Um fato pertinente em relação à Proclamação da República demonstra o poder centralizador das oligarquias baianas. Na passagem do império para a república, enquanto nos outros Estados brasileiros a República começou no dia 15 de novembro, na Bahia houve “um
84 “A Bahia produzia para exportação: açúcar, fumo, diamante, café, couro, cacau e algodão. Mas era
dependente da importação de produtos manufaturas: tecidos, carnes, máquinas, ferragens” (TAVARES, 2008, p. 284)
pequeno atraso”, oficialmente aconteceu “uma nova Proclamação da República, [...], na parte externa do forte de São Pedro, às 17 horas do dia 17 de novembro de 1889”. Segundo Tavares (2008), esse episódio correspondeu à resistência a “nada de mudanças”, o que “correspondia à sobrevivência política de homens que há muito dominavam a Bahia”. (TAVARES, 2008, p. 302)
Como se observa, o poder das oligarquias baianas influenciava toda a estrutura social da época e mantinha a economia, a educação e a saúde concentradas nas mãos de poucos.
No início do século XX “assistiu-se na Bahia ao declínio de culturas básicas como o açúcar e o tabaco e o desgaste do intercâmbio comercial interno, decorrentes da politica cambial vigente no país que agravou a descapitalização do Estado.” (SPINOLA, 2001, p. 35)
No Brasil, um país de industrialização retardatária, o processo de transição do capitalismo agrário exportador para o capitalismo industrial ocorreu de forma descontínua. O planejamento nacional [...] contribuiu para aceleramento da industrialização. [...] A Bahia ficou de fora [...] e ficou condenada a uma condição de economia periférica, condicionada e reflexa do centro industrial paulista. (SPINOLA, 2001, p. 35)
Essa mudança econômica de “região hegemônica” na produção do açúcar, cacau, fumo, dentre outros, para “região periférica” industrial do novo sistema, causou perplexidade na população baiana, levando suas elites a buscarem entender as causas e encontrar as soluções. Situação que ficou conhecida na história como “enigma baiano”85. (ALBAN, 2005, p. 2)
De acordo com Spinola (2001, p. 36), uma possível causa do ‘enigma’ se devia ao fato de que na Bahia “havia um grande descompasso entre a mentalidade técnica progressista emergente na época e os interesses políticos e econômicos dominantes que eram marcados por posições retrógradas e conservadoras.”
Esses acontecimentos demonstram as concepções das oligarquias de manterem-se no poder, no controle político e econômico, gerando insatisfações por parte da população que começava a reivindicar por espaços de trabalho e acesso aos campos educacionais.
Mesmo diante desta conjuntura que mantinha a educação voltada apenas para as elites, fatos isolados ocorreram em relação à participação das mulheres nas duas escolas baianas: em 1843, a Escola Normal matriculou três mulheres no seu curso. (LIMA, 2006); em 1900, o Ginásio da Bahia (antigo Liceu Provincial) ofereceu turmas mistas e matriculou neste ano
85 Segundo Alban ( 2005, p. 2): “em síntese, o ‘enigma baiano’ consistia na não industrialização da Bahia, ou
quatro mulheres; além disso, em 1927 a Instituição recebeu no seu quadro de funcionários a primeira docente – a professora Hedyr Peltier dos Santos Cajueiro86. Pode-se inferir que estas mulheres provinham das elites, iniciaram seus estudos nas escolas internas e nas aulas particulares; além disso, observa-se que as relações de classe foram priorizadas em relação às posições de gênero. Mas, o importante é observar e chamar a atenção para o fato de que algumas mulheres já se faziam presente no espaço educacional favorecendo assim, as rupturas das discriminações gênero.
Apesar destes “avanços” pontuais na educação feminina, a Bahia seguia na precariedade do ensino em geral. Com as preocupações decorrentes do “enigma baiano” se fazia necessário revitalizar a estrutura baiana para ingressar na era da modernidade e da industrialização de acordo com as novas tendências capitalistas. Assim, os intelectuais da elite começaram a imprimir pressões diante do governo com o objetivo de formar uma sociedade capaz de atender a nova demanda e, esse processo configurava uma nova mentalidade em relação à educação – expandir o ensino em número e qualidade.
É neste sentido que o governador eleito da Bahia, Francisco Marques de Góes Calmon convida Anísio Teixeira a assumir a área da educação.
2.2 Anísio Spínola Teixeira (1900/1971)
Nenhum outro dever é maior do que o da reconstrução educacional e nenhuma necessidade é mais urgente do que a de traçar os rumos dessa reconstrução e a de estudar os meios de promove-la, com a segurança indispensável para que a escola brasileira atinja os seus objetivos. (TEIXEIRA, 1953 a, p. 7)
Querer, em poucas palavras, falar do educador Anísio Teixeira seria uma grande pretensão. Pretensão por se tratar de uma tarefa complexa, já que a história de Anísio Teixeira no cenário educacional brasileiro envolve lutas, mudanças e transformações nos meios sociais, políticos e econômicos da época. Contudo, a importância de Anísio Teixeira no contexto deste trabalho é relevante por alguns motivos: primeiro, o educador Anísio, assim como os “sujeitos” desta pesquisa, lutou pela transformação e formação de um sistema educacional de qualidade para o Brasil e, em particular para a Bahia; segundo, com as reformas educacionais que inseriu no ensino primário e secundário, estabeleceu o principio da “educação unificada para todos”, portanto demonstra a importância do ensino para as mulheres; além disso, essas reformas também influenciaram o pensamento da sociedade no
sentido de obterem educação em nível mais elevado - universidades também para todas/os; terceiro, todo o percurso de Anísio Teixeira em prol de uma educação universal, gratuita estava baseado na formação total dos indivíduos, os quais, na visão do educador, não deveriam ser apenas um receptor de conhecimentos prontos, deveriam ser capazes de despertar e desenvolver suas capacidades e habilidades através da experimentação; “dê-lhe oportunidade para pensar e julgar por si. [...] Ele vai viver a vida um passo adiante do mestre. [...] Dê-lhe liberdade de pensar.” (TEIXEIRA, 1968, p. 50)
Na visão do educador, devia-se dar oportunidade do aluno aprender por si só, neste sentido, pode-se inferir que essas ideias foram absorvidas por Martha Dantas que também lutou, durante todo seu percurso de educadora, para estimular o aluno a descobrir, experimentar, construir e aprimorar os seus próprios conhecimentos. Neste sentido, ela trabalhou durante muito tempo com o ‘Projeto entre a exposição e a descoberta’ que foi aplicado em várias escolas de Salvador87.
Diante desta concepção será realizado um pequeno relato de alguns pontos da trajetória de Anísio Teixeira88, que podem ter influenciado as mulheres matemáticas “sujeitos” desta pesquisa.
Anísio Teixeira nasceu em Caetité, sertão da Bahia, em 12/07/1900. Estudou em escolas jesuítas, primeiro no Instituto São Luiz Gonzaga (Caetité) - “colégio que educava os filhos dos grandes senhores de terras da região” (TAVARES, 1968, p. 119), e depois no Colégio Antônio Vieira (Salvador), onde concluiu o ensino secundário. Pensou em seguir o Seminário na Companhia de Jesus, e tornar-se padre, mas não teve apoio da família e acabou ingressando no Curso de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, formando-se bacharel em Direito aos 22 anos. (Biblioteca Virtual Anísio Teixeira)
Os intelectuais brasileiros pertenciam as elites e Anísio Teixeira não fugia a regra. Era filho do médico, político e fazendeiro de Caetité, Deocleciano Pires Teixeira. Segundo Silva (2000, p. 103) “Filhos de famílias com tradição política e intelectual, ou - descendentes de proprietários rurais, muitos almejavam colocação e projeção na sociedade a partir de méritos intelectuais.” Portanto, os jovens baianos eram encaminhados às escolas tradicionais para
87 Colégio Estadual Duque de Caxias, Centro Educacional Carneiro Ribeiro, Colégio Nossa Senhora da Piedade,
dentre outros. (DANTAS, 1993)
88 Para maior aprofundamento: www.bvanisioteixeira.ufba.br; ABREU, Jayme. Anísio Teixeira e a Educação na
Bahia. In: Anísio Teixeira: pensamento e ação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960, p.1-68; PÔRTO JUNIOR; REBOUÇAS, Francisco Gilson. Anísio Teixeira: vida e obra em movimento. Revista de Educação Pública, Cuiabá, UFMT, v.2002, n.18, p. 125-140, 2002; VIDAL, Diana Gonçalves. 80 anos do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova: questões para debate. Revista Educação e Pesquisa, v.39, n.3, jul/set. 2013, São Paulo: USP, p. 577-588.
assegurarem uma formação de qualidade. “Os latifundiários queriam filhos bacharéis ou ‘doutores’”. (CUNHA, 2000, p. 157)
Aos 24 anos assumiu, a convite do governador Góes Calmon, o primeiro cargo público na área da Educação, Inspetor Geral da Instrução Pública (1924/1929). (TAVARES, 2008, p. 351). Neste período, Anísio Teixeira se dedicou basicamente aos estudos da situação educacional baiana, com o objetivo de acabar com a precariedade e transformá-la em um sistema educacional público e de qualidade para ‘todos’. O pensamento do educador era “sou contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite, mantendo a grande maioria da população em estado de analfabetismo e ignorância” (TEIXEIRA, 1958, p.139). Devido a esse pensamento, Anísio Teixeira agregou seguidores, mas, principalmente, enfrentou diversos opositores a sua filosofia educacional89.
Em 14/08/1925, ele conseguiu a aprovação da Lei 1.846 conhecida como “Reforma Anísio Teixeira”90, na qual ficaram estabelecidos os seguintes critérios:
Prestígio maior ao serviço de instrução pública; ênfase no problema do ensino primário, ampliado para sete anos. Divisão do ensino em: ensino infantil, ensino primário elementar, ensino primário superior, ensino complementar, ensino normal, ensino secundário, ensino profissional, ensino especial (para anormais). O ensino no Estado da Bahia tem por objetivo a educação física, intelectual e moral do individuo de modo a formar homens aptos para a vida em sociedade e cidadãos úteis à comunhão nacional. (ABREU, 1960, p. 8)
Diante destes critérios, observa-se que a reforma de 1925, visava formar um sistema educacional de maior qualidade e de maior abrangência para a realidade baiana – ensino profissional voltado ao preparo de pessoas para o mercado de trabalho. Outro aspecto marcante na reforma foi a preocupação com a educação dos “ditos anormais”, demonstrando a ênfase dada por Anísio a “educação para todos”. A reforma também proporcionou mudanças na “importância dada à formação do magistério”. (TAVARES, 1968, p. 128).
Em 1929, após quatro anos de implantação da reforma, Anísio Teixeira realiza uma avaliação criteriosa em relação aos efeitos e alcances das suas propostas educacionais. Nesta avaliação concluiu que eram necessárias novas mudanças, pois segundo seus critérios “a escola falhara nos seus objetivos”, contudo, segundo Tavares (1968, p. 132): “essas
89 Segundo Abreu (1960) “é explicável que aos titulares do poder politico quiça não fosse agradável a área de