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Capítulo I Mulheres matemáticas no Brasil: uma história a ser contada.

1.8 Dando voz as mulheres

1.8.2 Maria Laura Mouzinho Leite Lopes (1917/2013)

A professora Maria Laura revelou em entrevista a Alicia Ivanissevich (2009) que no primário não se sentia atraída pela matemática devido à forma como eram realizados os estudos; o ensino era mecanizado, os alunos faziam contas enormes sem sentido e sem motivações. Mas, segundo ela, ao ingressar na Escola Normal conheceu o seu grande incentivador e inspirador o professor Luiz de Barros Freire, que ensinava mostrando a função de cada assunto. Desta forma Maria Laura se apaixona pela matemática.

Nesta entrevista, Maria Laura revelou as condutas que eram esperadas das mulheres na sua época.

Durante uma aula no Colégio Sion/ RJ, a ‘mestra de classe’ – uma freira francesa me pergunta: “O que você vai fazer quando sair do colégio Maria Laura?” E eu respondi: “Acho que engenharia ou Matemática.” Então rapidamente ela disse: “E o que você vai conversar com o seu marido?” Era essa a mentalidade da época, [...] o Sion tinha que formar aquelas damas da sociedade muito cultas, que falavam línguas, etc. (IVANISSEVICH, 2009, p. 71)

Maria Laura enfrentou, assim como suas contemporâneas, os questionamentos sobre suas possíveis atitudes de divergências em relação aos papéis de gênero determinados pela sociedade.

Em 1938, fez vestibular para engenheira, obtendo boas notas em matemática e física, mas perdendo em desenho. Esta reprovação foi um choque devido ao empenho e dedicação que sempre marcaram a trajetória estudantil da aluna. Mas, nas palavras de Pereira (2010, p. 36): “foi muito ruim para está área do conhecimento (engenharia), mas ótimo para a matemática”.

Coincidência ou não, o fato foi que Maria Laura reencontrou seu antigo professor Luiz Barros agora na Universidade do Distrito Federal (UDF). Tomando conhecimento da reprovação de Marília no vestibular, o professor resolve analisar as notas da aluna e percebe

74 Segundo Pereira (2010, p. 26), a professora Maria Laura nasceu em 1919, mas em 1935 devido às exigências

do Exame de Madureza que só era permitido a pessoas com idade de 18 anos, o pai fez um novo registro de nascimento alterando o ano, e à partir de então 1917 passou a ser a data oficial.

que com as médias alcançadas em matemática e física, ela estava apta a cursar a graduação em Matemática. Desta forma, Maria Laura começou seu curso de Matemática na UDF. (PEREIRA, 2010, p. 34)

Quando em 1939, o governo federal estabeleceu a extinção da UDF, os alunos foram todos direcionados para a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFi); nesta faculdade, Maria Laura formou-se em Bacharel em 1941 e em Licenciatura em 1942, sendo contratada como professora assistente de geometria em 1943, após progressões assumiu, em 1967, o quadro de professores titulares. (IVANISSEVICH, 2009)

Em 1944, começou seu projeto de estudos para obtenção do título de livre docência. Durante seis anos preparou o trabalho intitulado ‘Espaços Projetivos – Reticulado de seus Subespaços’, apresentado em 1949, com orientação do matemático Antônio Aniceto Monteiro, professor visitante no departamento de matemática da FNFi. Com a defesa da livre docência recebe o título de Doutor na especialidade Geometria. (PEREIRA, 2010, p. 40)

Em 1952, a professora passou a integrar o quadro de membro associado da ABC. Lecionou também no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), participou do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Em 1969, devido as crises políticas que atingiam o país, a professora Maria Laura foi aposentada pelo AI-575, sendo exilada com seu marido, o físico José Leite Lopes. O casal permaneceu exilado durante seis anos. Neste período, Marilia teve contato, na França, com os estudos sobre Formação Continuada de Professores e Didática da Matemática, estudos que visavam “consolidar e ampliar o pensamento crítico do professor e pesquisador visando à melhoria da qualidade do ensino da matemática”. (PEREIRA, 2010, p. 100).

De volta ao país em 1974, a professora incentivou e participou da criação do Grupo de Ensino e Pesquisa em Educação Matemática – GEPEM76 (1976), sua nova paixão. Em 1980, obteve a anistia e foi reintegrada ao quadro de professores da UFRJ; neste retorno, elaborou a criação do Projeto Fundão – desafio para a Universidade do SPEC/CAPES/PADCT77, o qual

coordenou desde seu inicio em 1983. Este projeto visa a formação continuada de professoras/es de matemática e áreas afins, e está vinculado ao IM/UFRJ. O principal objetivo deste projeto é a valorização do/a professor/a mediante sua atualização no uso de

75AI-5- Ato Institucional de número 5- foi um decreto emitido pelo governo militar brasileiro dando poderes

quase absolutos ao regime militar.

76 Neste grupo várias mulheres que estão envolvidas na Educação Matemática, merecem os devidos

reconhecimentos: Anna Averbuch, Estela Kaufman Fainguelernt, Franca Cohen Gottlieb, Moema Sá Carvalho.

77 SPEC/ PADCT – Subprograma Educação para a Ciência, do Programa de Apoio ao Desenvolvimento

Científico e Tecnológico, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. (MOUZINHO, 2004)

metodologias inovadoras e seu aprofundamento em conhecimento científico e matemático. (IVANISSEVICH, 2009).

A professora Maria Laura foi uma entusiasta da Educação Matemática no Rio de Janeiro, contribuindo no desenvolvimento dos cursos de licenciatura Matemática em todo o país.

Ela foi também professora Honorária da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM); e em 1996, recebeu o título de professora Emérita da UFRJ. Publicou cinco livros.

Uma mensagem que considero importante deixada gravada pela professora Maria Laura na revista Ciência Hoje (2009) revelava sua preocupação em relação aos rumos da Matemática. Ela diz:

Antes de ser matemático é preciso ser um cidadão preocupado com os problemas da sua época, [...] mais importante do que fazer pesquisa é poder formar alunos; é entender que a matemática é uma forma de pensar, de interpretar o mundo e resolver as situações que se apresentam. (IVANISSEVICH, 2009, p. 68)

Esse pensamento da professora Maria Laura reforça o quanto precisamos desenvolver a Ciência em conjunto com a formação, a ética e o desenvolvimento da pessoa humana.