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Maria Luísa Lobo – 2011/2012 Page 66 Efeitos

No documento Direito da Família - Apontamentos (páginas 66-71)

1. Tendo ambos os cônjuges agido de boa fé (art. 1647º/1)

Respeitam-se todos os efeitos que o casamento tenha produzido ate ao transito em julgado da sentença de anulação ou até ao averbamento da decisão declaratória de nulidade  efeitos mantém-se tanto nas relações entre os ex-cônjuges, como em relação a terceiros.

Tendo um dos cônjuges contraído qualquer dívida para ocorrer a encargos normais da vida familiar ou em proveito comum do casal, dentro dos limites dos seus poderes de administração, a dívida considerar-se-á válida e o credor poderá exigir o seu cumprimento de qualquer dos cônjuges, e não apenas daquele que a contraiu, alegando tratar-se de dívida comunicável.

Se algum dos cônjuges tiver falecido antes do transito em julgado da sentença anulatória e o outro lhe tiver sucedido como herdeiro ou legatário, a devolução sucessória manter-se-á para todos os efeitos.

Os filhos que houverem um do outro serão havidos como filhos nascidos dentro do casamento.

Quanto às doações que hajam feito um ao outro, ou que terceiros tenham efectuados a favor de um deles ou de ambos eles, será necessário distinguir consoante o momento da produção dos efeitos da liberalidade.

 Doações entre vivos, que tenham produzido os seus efeitos antes da data da anulação ou da declaração de nulidade do casamento – eficácia mantém- se, tratando-se de efeitos produzidos cuja manutenção a boa fé dos cônjuges legitima. O donatário não terá que restituir os bens doados nem os seus rendimentos.

 Doações mortis causa, seja de terceiro a um dos nubentes ou a ambos, seja de um dos nubentes a favor do outro, com ou sem reciprocidade: a eficácia mantém-se, desde que o doador tenha falecido antes do transito em julgado da sentença de anulação ou antes do averbamento da decisão declaratória da nulidade do casamento.

Se a declaração de nulidade ou a anulação do casamento precederem a morte do doador, a doação caducará, não produzindo efeitos uma vez que no momento em que ela deveria surtir efeito já não existia o casamento que determinou a sua realização – art. 1703º e 1760º. ▲ art. 1703º/3.

2. Tendo um só dos cônjuges agido de boa fé – caso típico da bigamia

Decreto 25 de Dezembro de 1910: critério que distinguia entre efeitos favoráveis (do casamento) e efeitos desfavoráveis ao cônjuge de boa fé.

 Tendo um dos cônjuges contraído o casamento de boa fé, o casamento só produzirá efeitos a favor dele. Ex: a prescrição entre casados não corria em

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benefício do cônjuge de boa fé, mas correria contra o de má; o cônjuge de boa fé tinha direito aos alimentos recebidos até à declaração de nulidade ou de anulabilidade do casamento, ao invés do cônjuge de má fé que teria de restituir as prestações recebidas, etc.

 Reconhecer ao cônjuge de boa fé a faculdade de chamar a si os efeitos favoráveis do casamento e repelir ao mesmo tempo os efeitos desfavoráveis equivale a conceder-lhe um estatuto privilegiado, superior ao que desfrutam os cônjuges unidos por casamento válido.

CC de 66’’:

 Relações jurídicas estabelecidas entre os cônjuges (dívidas contraídas por ambos ou por um deles; alienações realizadas por ambos ou por um deles, com ou sem o consentimento do outro): só o cônjuge de boa fé, depois de definitivamente declarada a nulidade ou a anulação do casamento, pode invocar os benefícios do estado matrimonial, para resguardar os efeitos até então produzidos. Porem uma vez invocados por ele os benefícios do estado matrimonial, os respectivos efeitos mantém-se, não só entre os cônjuges, como reflexamente, em relação a terceiros, quer sejam favoráveis, quer desfavoráveis ao cônjuge de boa fé.

 Relações jurídicas directamente estabelecidas (por lei, negócio jurídico) entre terceiros e qualquer dos cônjuges, embora nas situações de esposados ou de casados (afinidade, doações de terceiros a esposados, etc.): a eficácia própria do casamento putativo não cobre estas relações. A declaração de nulidade ou de anulação do casamento estende os seus efeitos a essas relações. Se terceiro houver realizado qualquer doação a favor de um dos esposados, mesmo que o donatário seja o cônjuge de boa fé e a doação tenha produzido imediatamente os seus efeitos, a declaração de nulidade ou a anulação do casamento faz caducar a liberalidade (art. 1760º/1 al. a) – não existindo ressalva pelo art. 1647º/1 e 2). Quanto à afinidade, os seus efeitos também caducarão automaticamente em relação a ambos os cônjuges, com a declaração de nulidade ou a anulação do casamento, quer ambos os cônjuges tenham agido de má fé, quer só um deles tenha agido em tal situação.

Natureza Jurídica do Instituto: várias doutrinas acerca da natureza do casamento putativo

 Casamento putativo enquanto ficção legal, baseado na força criadora da boa fé. Para assegurar a protecção devida à boa fé dos cônjuges, a lei trataria, ficticiamente, o casamento nulo como se ele fosse válido.

 Casamento putativo enquanto excepção à retroactividade normal da declaração de nulidade ou da anulação, fundada na teoria da aparência.  Prof. Antunes Varela:

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 Não constitui uma pura ficção legal, na medida em que assenta numa realidade social juridicamente relevante, cujo substrato é a comunhão de vida, mais ou menos duradora, estabelecida entre dois cônjuges, na convicção (partilhada por ambos, ou mantida por um deles) de terem celebrado um casamento válido.

 Não constitui uma excepção que os cônjuges tenham a faculdade de invocar ou não, consoante as suas conveniências particulares. Se a sentença que anula o casamento tiver reconhecido a boa fé de ambos os cônjuges, os efeitos do casamento putativo produzem-se por força da lei; não lhes sendo licito invocar a nulidade ou anulação do casamento para se oporem a qualquer efeito já produzido, que lhes seja desfavorável. Tanto se produzem por via de excepção como por via de acção. Na hipótese de só um deles ter agido de boa fé, será licito a esse cônjuge invocar ou não os benefícios do estado matrimonial, mas uma vez invocada a existência do casamento putativo, este opera tanto a favor do cônjuge de boa fé como contra ele.

 Concorda com Prof. Pires de Lima: casamento putativo como um instituto autónomo, que tem como substrato ‘’o facto material, que se revela pela aparência de um casamento, e a que a lei atribui efeitos análogos aos desse acto’’.

Prova do Casamento. Registo do Casamento Civil

Art. 1651º: o registo do casamento de qualquer cidadão nacional, português ou estrangeiro, seja efectuada ou não em território nacional é obrigatório  forma do Estado de garantir a plenitude ou a veracidade da informação sobre o estado civil dos seus súbitos.

Art. 1652º: registo do casamento tem o nome de assento, lavrado por inscrição ou transcrição.

 Inscrição (art. 52º CRCivil): assento do acto directamente lavrado nos livros do registo público – o acto matrimonial é inscrito no registo, para significar que se transita directamente da cerimonia do casamento para o assento lavrado no livro do registo civil.

 Transcrição: o assento tem como base um outro documento escrito (título) que pode ser uma decisão judicial, um documento estrangeiro, um assento paroquial ou documento equivalente, ou o despacho de homologação (casamentos civis urgentes)

Assento, embora constitua uma formalidade posterior à celebração do casamento, não interessando à validade do acto, é um elemento essencial à prova deste  A prova do casamento faz-se pela certidão extraída do assento e só através deste pode ser efectuada.

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 Prof. Pereira Coelho: o registo não contende com a existência nem em rigor com a validade ou mesmo com a eficácia do acto, mas só com a sua prova; simplesmente o registo é a única prova legalmente admitida do casamento, o qual, enquanto não for registado, não pode ser invocado (tudo se passa como se não tivesse efeitos) quer pelas pessoas a quem respeita, seus herdeiros ou representantes, quer por terceiros.

E se houver perda do registo ou se não se tiver chegado, por qualquer razão, a lavrar o assento?

 Assento que deve ser lavrado por inscrição: terá de se recorrer à acção judicial de justificação da perda ou omissão do registo, no qual todos os meios de prova são admitidos. Simplesmente, não é a sentença proferida em tal acção que passa a servir de instrumento de prova do casamento. A sentença serve apenas de meio para a realização do assento, sendo o assento lavrado pelo oficial do registo civil de acordo com os elementos fixados pelo juiz na decisão. Força Probatória atribuída ao Registo Civil – Corolários

 A prova resultante do registo civil não pode ser ilidida por nenhuma outra, a não ser nas acções de estado ou nas acções de registo (art. 3º/1 CRCivil) – limitação dos meios de impugnação do registo.

 Os factos comprovados pelo registo civil não podem ser impugnados em juízo (mesmo em acção de estado), sem que seja pedido o cancelamento ou rectificação dos assentos e averbamentos que lhes correspondem (art. 3º/2 CRCivil) – homenagem ao Princípio da Veracidade ou Fidelidade do Registo e em obediência ao Principio da Concomitância do Facto e do Registo.

Registo do Casamento Civil:

 tratando-se de casamento civil comum, celebrado em Portugal, o assento é lavrado por inscrição logo apos a solenidade da celebração, devendo ser lido em voz alta pelo funcionário do registo civil e assinado pelas partes, testemunhas e funcionários;

 casamento urgente: o registo é feito por transcrição em face do despacho de homologação, despois de preenchidas as formalidades próprias dessa forma de celebração.

 Casamento civil (não urgente) realizado no estrangeiro perante agente diplomático ou consular português, o assento é lavrado por inscrição, sendo directamente integrado nos livros da Conservatória dos Registos Centrais o duplicado lavrado pelo agente diplomático ou consular. Já será realizado por transcrição o assento do casamento civil celebrado por portugueses (ou estrangeiros que adquiram a nacionalidade portuguesa) perante as autoridades legais competentes.

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Valor e Eficácia do Registo do Casamento: o casamento, quer seja feito por inscrição, quer por transcrição, não é um elemento constitutivo ou integrativo do casamento – não faz parte das formalidades essenciais do acto matrimonial.

A sua falta ou omissão, bem como a sua perda, não constituem causa de nulidade ou anulabilidade do casamento, mas apenas fundamento para as acções de registo ou as providencias administrativas destinadas a suprimir a omissão – não determinam a necessidade de repetição do acto. Deste modo, compreende-se que o registo uma vez realizado goze de eficácia retroactiva – art. 1670º/1.

A eficácia do registo retroage à data da celebração do casamento, não nascendo com o acto praticado pelo funcionário do registo civil – a fonte dos efeitos civis esta no contrato e não na inscrição.

Princípio da Retroactividade do Registo abrange: (1) efeitos pessoais; (2) efeitos patrimoniais do casamento; (3) aproveita às relações entre os cônjuges; (4) aproveita as relações dos cônjuges com os filhos e com terceiros.

O Princípio da Retroactividade, em relação aos terceiros, possui uma ressalva: se o casamento civil não tiver sido imediatamente inscrito ou transcrito no registo, ou se o casamento católico não tiver sido transcrito no prazo de 7 dias apos a sua celebração, o registo posteriormente efectuado já não pode prejudicar os direitos de terceiros que sejam compatíveis com os direitos e deveres de natureza pessoal dos cônjuges e dos filhos – art. 1670º/2. ▲ esta ressalva não prejudica os direitos e deveres de natureza pessoal, quer dos cônjuges, quer dos filhos; a ressalva em beneficio de terceiro dirige-se apenas aos efeitos civis dos casamentos.

Caso (verdadeiro – anterior ao CC), que evidencia o alcance do art. 1670º/2: tratava- se de um inventário judicial, no qual os irmãos de um dos cônjuges foram chamados como herdeiros, com integral preterição do cônjuge sobrevivo, porque o inventário foi aberto antes de ter sido transcrito em Portugal o assento do casamento que o finado realizada anos antes no Brasil – o acórdão ressalvou os direitos dos irmãos do de cuiús (terceiros, neste caso)  manteve-se a mesma doutrina com o CC de 66’.

II – Direitos e Deveres dos Cônjuges de Carácter Pessoal Remete-se para o Manual.

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