1 PESQUISA NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS: SERIAM OS CO-
1.3 De Marias à Rosane
O olho do sol batia sobre as roupas do varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida-menina balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia. Conceição Evaristo13
Figura 3 – Silhueta Africana14
Todo convite deveria vir com um condimento, pois afinal, há sempre um novo tempero a ser incorporado em nossas vidas a cada encontro. Temperos podem ser suaves, marcantes ou intragáveis. Tudo depende do paladar. Diriam os cozinheiros que os temperos são essenciais para dar sabor aos pratos. Quem poderia imaginar que uma coisa tão pequena, quando colocada com maestria, poderia transformar, e quem sabe ligar, tantos elementos como se parecessem um, porém, sem deixar que cada parte mantenha a sua individualidade?
Quando, em um programa culinário, os chefes alertam da necessidade de se ter cautela ao usá-los, pois se colocados demais dominam o prato. Penso que pesquisar, no cotidiano, perpassa pelo mesmo movimento: encontrar o tempero certo para dar sabor uma pesquisa é um caminho longo que envolve ganhos e perdas, pois pesquisar significa abrir-se à possibilidade de tentar dialogar com o que ninguém mais quer. Deparar-se com o equilíbrio/desequilíbrio que dá o toque especial que lhe faz ir adiante. Se isso nunca lhe passou pela cabeça, eu lhe digo, o meu primeiro convite veio com condimento. Tempero especial, que marcaria a minha história de formação pelo resto da vida. Ser professora começou assim, a partir das palavras recheadas de sabor, com as quais a minha mãe me presenteou aos nove anos de idade. Um convite discreto que fez uma menina tímida, não só querer dar aulas, mas acreditar que é na educação que os homens podem encontrar um dos caminhos possíveis para transformação de suas realidades.
Não poderia iniciar esta dissertação de outra forma, pois quem escolhe falar do cotidiano se vê diante da realidade de ler o mundo a partir de si. Sua história se entrelaça com a pesquisa.
13 Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte, em 1946. De origem humilde, migrou para o
Rio de Janeiro na década de 1970. Graduada em Letras pela UFRJ, trabalhou como professora da rede pública de ensino da capital fluminense. É Mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (1996), e Doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense, com a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011), na qual estuda as obras poéticas dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira em confronto com a do angolano Agostinho Neto
14 Disponível em: https://thumbs.dreamstime.com/z/silhueta-da-menina-africana-no-perfil-com-brincos-
Seu objeto é, na verdade, sujeito, pois, “conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito e somente enquanto sujeito, que o homem pode realmente conhecer” (FREIRE, 2010).
Sujeitos modificam a realidade. Suas ações, apesar de organizadas em diferentes tons, formam um tear de atitudes que atingem os próximos e os futuros de forma atemporal. Cada passo e ação são recheados de potência e inconscientemente a transformação ocorre. Foi assim que uma geração de mulheres negras e fortes constituiu a professora-pesquisadora que hoje discorre nas linhas desta dissertação. Suas histórias marcaram a minha. E deixá-las de lado não seria justo, pois, afinal, foi sobre raça e saberes que fomos convidados a dialogar. Minha cor e vivências, enquanto professora negra, estão entrelaçadas às lutas que essas mulheres passaram para que eu pudesse estar aqui. Duas Marias que abrem a minha história.
Da primeira Maria, minha avó, pouco se sabe a origem. O que todos contam é sua vinda inesperada, ou fugida, para o Rio de Janeiro. Uma briga, um irmão com problemas, difícil explicar. Negra, filha de baianos e capixabas, neta de escravos, chega ao Rio de Janeiro, direto para o bairro rural de Duques, no interior do Estado. Casa-se cedo com um homem austero e religioso. Mãe muito nova, vê no trabalho na roça a força para alimentar e criar seus seis filhos. A vida era calma e corriqueira. As rezas, a comida na lenha, as pequenas plantações, o trabalho árduo, mas agradecido. Seu esposo, um homem mais velho, também negro, era o sustentáculo da família. Era ele quem reunia os vizinhos para a reza do terço, encomendava os corpos, dava a catequese e ensinava os filhos as primeiras letras.
Porém, foi em um dia como outro qualquer, no almoço após o trabalho que o amado marido a deixa. Com a cabeça inclinada à mesa, como o fazia sempre após o almoço, deu seu último suspiro. Um golpe grande demais para a menina sem parentes e sem história que tinha no marido o seu porto seguro. A virada inesperada levou a jovem esposa ao sanatório. A loucura foi a sua fuga. Internada durante três anos, nos choques e na alta quantidade de remédios, perdeu casa, sítio e seus filhos menores.
Foi somente anos depois, que pela ajuda de um dos médicos da clínica, que lhe chega a oportunidade de uma nova vida. Trabalhando como empregada aprendeu francês por meio das conversas dos patrões. Servia à mesa, escutava e cozinhava. E foi cozinhando, em uma cultura que jamais imaginara conhecer, que teceu sua origem, sua comida simples de origem africana, com o paladar refinado dos franceses que a acolheram. Com o dinheiro que guardava, buscou reencontrar os filhos. O mais velho, o mais novo e a menina são os seus grandes achados. O mais velho a acolhe em casa, o mais novo a sustenta e a menina fica para contar a sua história.
A menina que reencontrou é Maria, minha mãe, que aos 14 anos sai de casa para encontrar um futuro melhor. Seu sonho? Aprender a ler e escrever. Ser professora? Quem sabe?
Sai do bairro de Duques direto para o morro da Coroa, no Rio de Janeiro. Morando na casa de uma tia, aos 15 anos entra para a escola e sente dificuldade em aprender a ler. A escola é difícil, mas a recordação do seu pai escrevendo em papel de pão e giz carvão a anima a continuar.
A necessidade de trabalhar e o tempo da escola não combinam. Procurar emprego, sem estudo, é uma tarefa árdua. Em uma de suas tentativas, após passar o dia procurando emprego, chega a uma fábrica de sardinha em lata onde se oferecia oportunidade para trabalhar na esteira. Mas, para pleitear a vaga era necessária uma carta de referência. Como? Pensou ela. Como encontrar alguém que daria uma carta de referência a uma menina negra, pobre e sem estudo? Mas, como estamos falando de nossas Marias, que não desistem nunca, essa menina forte encontra a coragem de falar com o então presidente Juscelino Kubitschek.
Ao chegar ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, ela se dirige a um guarda e sem titubear diz: “Quero falar com o presidente”. Os primeiros que lhe atenderam logo a mandam embora, porém, ela não desistiu. De pessoa a pessoa, de indicação a indicação a menina chega à sala do então presidente. Sentado em uma grande mesa, como ela mesmo descreve, o presidente a recebe e depois de algumas perguntas, dá-lhe uma carta de referência. E com alegria, Maria consegue o seu primeiro emprego.
O trabalho árduo nas esteiras de uma fábrica de sardinha foi o primeiro passo. Atenta e organizada, chegou a chefe de sessão, responsável por muitas outras meninas, que, como ela, sem estudo, lutavam para sobreviver. Mas, foi nessa fábrica que um convite inesperado lhe aconteceu. Ao ver duas crianças brincando, ela se aproxima e começa a interagir com muito carinho e atenção, sem notar que estava sendo observada. Dessa breve interação, nasce o convite para ser babá e ganhar o dobro, em uma casa de família.
E no ambiente adverso ao que nascera e vivera, conhece, assim como sua mãe, outro mundo, que lhe acolhe bem, porém, cercado de preconceito e necessidade de autoafirmação. Nos espaços que frequenta, apoiada por sua patroa, é inserida em diferentes ambientes como “cria da casa”. Não tinha carteira assinada e seu salário se transforma em cursos e roupas. Porém, para a jovem menina, o desejo de independência e a oportunidade de aprender sobre arte, cultura e postura diante da sociedade era o mais importante.
O tempo passa e a jovem casa-se e a lembrança de não saber ler e escrever na infância a faz possuir o ardente desejo de ensinar às crianças mais pobres as primeiras letras. Mudando-se para a sua primeira casa própria, a pequena Maria, agora mulher e mãe de três filhos, abre uma escola de bairro, em um salão de festa, dentro de um condomínio, com bancos e mesas de madeira, nos quais cadernos e materiais não eram o problema, pois foi também com papel de pão que ela conheceu as primeiras letras. E foi assim, sem formação pedagógica inicial que ela
começou a ensinar crianças a ler e escrever e plantou em sua filha mais nova o sonho de se tornar professora.
Nessa caminhada, em que os caminhos se farão ao caminhar, retomo a minha própria
história para construir o que chamo aqui de “Prefácio de professora que descobriu ser negra.” Uma descoberta que muda todo um caminhar de pesquisa e lhe dá o corpo e sensibilidade que
faltava para realmente se movimentar no cotidiano. Não há mais a pesquisadora que observa do palanque, há a Rosane, filha e neta de negros africanos, professora negra, que se sente atravessada por um currículo repleto de praticantespensantes (OLIVEIRA, 2016), cheio de potencialidades e produção.