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Nascida no município de Ponte Nova-MG, Marisa tem, atualmente, 37 anos, atua na docência há dezoito. Formou-se em Matemática pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH) e especializou-se em Educação Matemática pela mesma instituição. Na rede estadual de ensino atuou durante 15 anos como designada, mas, há três anos, devido a uma aprovação em concurso público, entrou para o quadro efetivo do magistério da rede.

Sobre sua escolha profissional pela docência, Marisa disse que teve um grande incentivo em casa, porque sua mãe achava a docência uma das profissões mais importantes na época. Além disso, revelou que as condições financeiras também tiveram um peso significativo nesse processo de escolha. Ela disse que, “sempre estudou em escola pública e que achava difícil fazer outro curso, pois a licenciatura era o mais barato. Marisa disse que entre os cursos de licenciatura escolheu a Matemática por ser a sua zona de conforto e que, dessa forma, foi para a educação”.

Assim como muitos professores, Marisa também começou a lecionar antes de concluir a graduação, aos dezenove anos já estava ministrando aulas. Ela nos disse que, no início, teve muitas dificuldades e que, por isso, teve que pesquisar e estudar muito para dar aula. Além do esforço individual, Marisa creditou a alguns colegas a contribuição pela sua inserção na docência, afirmou ter recebido apoio de alguns professores mais experientes e que a própria família foi fundamental para que ela superasse as frustrações iniciais.

Ao rememorar os primeiros anos na docência, Marisa nos relatou:

A primeira aula que eu dei foi em BH [Belo Horizonte]. Foi, na época, para a quinta série. Engraçado que eu não comecei a lecionar na minha área. Eu havia feito três anos de Inglês, então eu comecei dando aula de Inglês para quinta série. Eram cinco quintas séries, em uma escola pública, no período da tarde. Meu maior desafio, na época, foi manter a disciplina na sala de aula, ou seja, ter o domínio de classe; basicamente é isso, porque a matéria em si a gente estuda e vem para a escola preparada. O que me ajudou a contornar esse desafio foi eu me aproximar mais dos alunos, buscar aulas mais dinâmicas que pudessem despertar o interesse deles para poder ter uma maior concentração de sala de aula.

O processo de aprendizagem da docência de Marisa dependeu da participação de outros sujeitos, como os seus pares mais experientes e a própria família. Além disso, a própria capacidade de buscar novos conhecimentos e de estudar aquilo que desconhecia. Sobre os cursos de formação continuada, Marisa disse que, quando foi fazer uma especialização, já estava formada há dez anos. Ela revela que estava totalmente desatualizada e que, em vista disto, os cursos de formação continuada são importantes, pois é onde o professor pode “estar

se reciclando, aperfeiçoando mais, aprendendo novas técnicas, novos descritores da área”.

Ela viu na especialização em educação matemática a possibilidade de adquirir novos aprendizados e a oportunidade de aprender aquilo que não havia consolidado na graduação.

Para Marisa, o desenvolvimento ideal na profissão docente acontece quando o professor ministra as aulas sem tanta dificuldade, quando domina bem o conteúdo e vai preparado para a sala de aula. Ela coloca bastante peso aos conteúdos e ao manejo adequado para lidar com eles, ao ponto de ela considerar que o professor que se desenvolveu bem na profissão é aquele que “domina bem o conteúdo”.

Sobre o desenvolvimento profissional, pedimos que Marisa apontasse fatores que favorecem e que dificultam esse processo de desenvolvimento. Ela afirmou que “começa tudo

pelo interesse do aluno em sala de aula, o apoio dentro da escola, dos outros colegas e da direção e meu próprio interesse em estar trazendo algo novo para a sala de aula”.

Marisa evidencia que o desenvolvimento profissional do professor passa pelo interesse do aluno, ou seja, o docente se desenvolve a partir das interações que estabelece com seu público. Para ela, a qualidade dessas interações interfere no desenvolvimento do professor, pois se o aluno não demonstrar interesse, isso pode dificultar o desenvolvimento do professor em sua profissão.

Além dos elementos externos ao professor, como o interesse do aluno, o apoio da escola, da direção e dos colegas, Marisa considera que o desenvolvimento profissional depende do próprio sujeito da formação, uma vez que o professor precisa estar interessado em trazer algo novo para a sala de aula.

Marisa, assim como os demais sujeitos da nossa pesquisa, considera o salário da docência insatisfatório e afirmou que esse é um dos motivos que a faz exercer outra atividade remunerada. Ela possui uma loja virtual em que vende roupas, sapatos e outros acessórios de vestuário. Realiza, em casa, frequentemente, atividades que se referem a seu trabalho como, formulação e correção de provas e preenchimento do diário eletrônico.

Para ela, a “hora extraclasse”33 não colabora para que essas tarefas sejam executadas

com qualidade pelo professor. Marisa afirmou: “eu acho que ela ocupa mais tempo da gente,

porque se a gente estivesse em casa desenvolveria mais do que na escola”. Marisa demonstra resistência ao cumprimento da hora extraclasse, chega a afirmar que, dentre as condições mais exaustivas da docência, a execução da hora extraclasse é o mais extenuante. Para ela “parte

mesmo do módulo, das reuniões, eu acho que muitas são desnecessárias, outras não. Isso cansa muito, essas horas que a gente tem que ficar cumprindo na escola”.

A entrevistada considera que as condições de trabalho dificultam a participação dela em cursos de formação continuada. Ponderou que “por causa da carga horária, nem sempre a

gente consegue horários, igual eu estou desenvolvendo dois cursos de especialização e só Deus sabe quando eu vou terminar eles, difícil”.

Para Marisa “um bom professor tem que ter o domínio do conteúdo e fora o domínio, o

professor tem que procurar se envolver um pouco no social do aluno também, tem que saber um pouco da realidade dele, não é chegar e tentar enfiar tudo goela abaixo”. Diante disso,

Marisa disse que se considera uma boa professora, mas que nunca será boa o suficiente, já que sempre é possível conquistar novos conhecimentos.