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Na busca por respondermos as questões: “Como os professores interpretaram os objetivos do Pacto?”; “Quais aprendizagens os docentes construíram ao longo do processo formativo?”; “O que o Pacto significou para o processo de desenvolvimento profissional dos professores cursistas?”, trabalhamos com materiais biográficos primários e secundários.

Nos termos de Ferrarotti (2010), os materiais biográficos primários são aqueles recolhidos diretamente pelos pesquisadores e são frutos de uma interação primária. Nesse caso, usamos entrevistas semiestruturadas que nos permitiram compor narrativas (auto)biográficas sobre os processos de aprendizagens docentes experimentados a partir do PNEM, apresentadas nos capítulos quatro e cinco.

As entrevistas semiestruturadas foram realizadas junto aos cinco professores cursistas com o objetivo de identificar o “olhar” e as “vozes” desses docentes em relação ao curso realizado. A conversa nos permitiu identificar o tempo de carreira de cada docente e a compreensão que eles possuem sobre aprendizagem da docência e desenvolvimento profissional. Sobre o benefício da entrevista em pesquisas qualitativas, observamos que:

A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a captação imediata e corrente da informação desejada [...]. Uma entrevista bem-feita pode permitir o tratamento de assuntos de natureza estritamente pessoal e íntima, assim como temas de natureza complexa e de escolhas nitidamente individuais (ANDRÉ; LUDKE, 1986, p. 34).

As entrevistas foram realizadas com base em um roteiro previamente estabelecido (APÊNDICE C), mas que garantiu flexibilidade e permitiu adaptações. No processo de

entrevista procuramos garantir um clima de confiança entre entrevistador e entrevistado, para que os participantes se sentissem à vontade para se expressarem livremente. A Figura 5 mostra as dimensões abordadas nas entrevistas semiestruturadas.

Figura 5 – Modelo esquemático das dimensões investigadas no roteiro de entrevistas semiestruturadas

Fonte: Dados da pesquisa

De acordo com Clandinin e Connely (2011), a pesquisa narrativa deve construir um espaço tridimensional baseado na interação (pessoal e social), na continuidade (passado, presente, futuro) e na situação (lugar). Portanto, as entrevistas semiestruturadas que realizamos se orientaram a partir dessas três dimensões. Assim também buscamos analisar os dados nos capítulos 4 e 5.

As entrevistas (auto)biográficas realizadas com os professores foram capazes de evidenciar e, em determinados momentos, esconder tensões, hierarquias, carismas e relações de poder sobre a formação docente e sobre o PNEM. Enquanto entrevistadores, não estivemos ausentes, ao contrário, como a natureza das entrevistas (auto)biográficas é relacional, estivemos implicados em todo o processo de coleta de dados.

O registro dos dados coletados foi feito por meio de dois mecanismos: a gravação direta, pois todos os professores autorizaram, e a anotação após a entrevista. As anotações compuseram o nosso caderno de campo, nele agregamos impressões sobre algumas

Entrevistas Formação Pacto do Ensino Médio Condições de trabalho

informações e condições da entrevista. Os textos de campo foram entendidos por nós como “sinalizadores de memórias” (CLANDININ; CONNELY, 2011, p. 191).

Os materiais biográficos secundários, por sua vez, não são fruto de uma relação face a face (FERRAROTTI, 2010). Na nossa pesquisa, os documentos oficiais, portarias, resoluções e cadernos de formação foram considerados materiais biográficos secundários. Eles nos ajudaram a compor a narrativa sobre o Pacto, que foi apresentada no Capítulo 1. Assim como André e Lüdke (1986) partimos da premissa que os documentos constituem uma fonte de auxílio no processo de confirmar ou refutar considerações do pesquisador.

Por fim, destacamos que, ao apresentarmos as narrativas sobre formação e experiências vividas pelos sujeitos no PNEM, nos capítulos 4 e 5, escolhemos nomes fictícios para identificá-los. Esse mecanismo buscou preservar o anonimato dos participantes da pesquisa a fim de minimizar possíveis riscos de constrangimento.

No capítulo 4 foi explorado dois aspectos das entrevistas, a formação e as condições de trabalho docente, já o capítulo 5 abordou as experiências vividas pelos professores no Pacto do Ensino Médio. Os textos compostos nos dois últimos capítulos dessa dissertação são fruto da interlocução entre a narrativa dos participantes da pesquisa e a literatura do campo da formação de professores. Procuramos apresentar as falas dos cinco sujeitos e, ao final de cada capítulo, discutir as principais impressões à luz dos autores que embasaram essa pesquisa.

CAPÍTULO 4

OS PROFESSORES E SUA FORMAÇÃO: NARRANDO VIDAS

Este capítulo apresenta as narrativas dos cinco participantes da nossa pesquisa que contemplam aspectos socioculturais e características do processo formativo dos entrevistados. Procuramos identificar as concepções que os docentes têm das suas próprias aprendizagens e do seu desenvolvimento profissional. Além disso, apresentamos as condições de trabalho vivenciadas pelos professores no período em que cursaram o PNEM.

Conforme salientamos no Capítulo 3, as nossas análises foram construídas a partir das narrativas dos participantes feitas durante a entrevista, por isso, possuem um caráter (auto)biográfico, uma vez que foram produzidas a partir da intersecção entre observador e observado, entre pesquisador e sujeito. É fruto, portanto, do encontro entre o “eu” e “eles”. Nesse sentido, Ferrarotti (2010) considera que, narrativas (auto)biográficas são aquelas colhidas pelo investigador por meio de uma interação primária, ou seja, face a face.

As trajetórias e histórias de formação apresentadas são, a nosso ver, singulares já que expressam especificidades dos sujeitos entrevistados. Mas, ao mesmo tempo, são universais, pois narram condições muito similares às de outros professores, que vivem em diferentes lugares e atuam em outras áreas. Como afirmou Ferrarotti (2010), as narrativas (auto)biográficas são a síntese das relações sociais apropriadas subjetivamente pelos sujeitos. Nós, como pesquisadoras e professoras, também nos sentimos representadas pelas “vozes” dos sujeitos da pesquisa, sobretudo no que se refere às condições do trabalho docente e às experiências de formação. Almejamos que as narrativas aqui construídas possam fazer sentido também para todos que leem essa pesquisa e esperamos que saibam que, a partir de agora, estaremos conectados por meio das memórias e histórias dos sujeitos aqui apresentados.