A tarde era de um calor próximo dos 35°C na rua, mas naquela sala relativamente aconchegante não devia passar dos 20°C, tal a velocidade com que se movimentavam as palhetas do barulhento aparelho de ar condicionado bem à vista dos presentes. Cerca de dez pessoas, distribuídas em poltronas, cadeiras mais e menos confortáveis, bancos de cimento forrados com almofadas e outras simplesmente de pé, enchiam o local, um ambiente sóbrio de aproximados quinze metros quadrados, com bebedouro em um dos cantos, indicando que ali se podia dispor de água à vontade, gelada ou não; uma pequena mesa com duas garrafas de café informando ser uma com e a outra sem açúcar, xícaras de vidro e copos descartáveis, açúcar e adoçante. Logo na entrada um balcão, onde uma solicita atendente fazia anotações sobre a vida de cada um ao tempo em que prestava importantes e decisivas informações, entregava envelopes e anotava datas. Havia ainda uma mesa de centro com jornais e revistas, estas especializadas principalmente em moda e fofocas sobre a vida de personagens da tv. As paredes de cor cinza com variações entre o azul e o branco, exibiam quadros de pintores anônimos, imitações baratas de Picasso, Degas, Monet e outros, predominando figuras de famílias felizes e bem nutridas. Um quadro, porém, merecia destaque especial: a aplaudida foto de Leila Diniz produzida especialmente para a inesquecível entrevista d'O Pasquim, em que a badalada atriz brasileira desfila pela praia de Ipanema exibindo uma ridícula barriga, metida em um não menos ridículo biquíni, em tosca representação do final dos anos 60. O destaque, como não poderia deixar de ser,a barriga, transportava-se como se por milagre para cada uma das presentes, emprestando-lhes uma falsa beleza, orgulho das futuras mamães, que desconheciam a verdade sobre a foto -propagar as ideias de liberação feminina, consideradas revolucionárias para a época e das quais nossa Leila foi lídima representante. Conceitos que o trágico acidente aéreo que a vitimou não conseguiu sepultar. Completando o quadro geral, um aparelho de televisão exibindo programas de nenhuma importância e traço em audiência, excetuados os de desenho animados, vistos por algumas crianças que acompanhavam as respectivas mães, umas já veteranas outras prestes a ingressar no mundo encantado da maternidade. Uma placa retangular colada à porta da sala contígua exibia a palavra "médico".
entravam e saíam ; acompanhadas ou não; por filhas, babás, mães, irmãs, colegas, bolsas Louis Vuitton , saias ou calças Yves Saint Laurent, blusas Dudalina, sapatos Prada, celulares de última geração e até maridos.
Sentado a um canto da sala, nem alegre nem triste, um tanto ou quanto deslocado no ambiente estava estava Ruan. Ruana de nascimento, boa aparência, estatura meã, cabelos curtos, barba por fazer, costeletas alongadas, camisa de mangas curtas e botões da direita para a esquerda, calça jeans, idade entre dezoito e dezenove anos, barriga pouco à mostra, resultado de uma gravidez de aparência incipiente e até certo ponto indesejada. Não conduzia bolsa de grife, babá e nem marido. Pouco ou nada falava sobre assuntos femininos; mostrava-se entre nervoso e apreensivo quanto aos problemas ligados à gravidez e/ou parto masculino, coisa que lhe eram totalmente desconhecidas, bem assim o eram também às presentes, pretéritas e futuras mães que ali estavam e até mesmo de parcela considerável da comunidade médica até então. Estamos falando de dias idos do segundo decênio do século XXI.
Deixemos o jovem Ruan às voltas com seu "estado interessante" e partamos a conhecer um pouco da história de sua vida.
Nascido em lar cristão, família de classe média e não muito ligada a rígidos conceitos, mas seguidora dos costumes tradicionais, foi de imediato reconhecido como pertencendo ao sexo feminino, e como tal levado à pia batismal onde recebeu água benta e óleos santos, renunciou a Satanás e todas suas obras, entrando para o seleto grupo dos que têm assegurada a salvação eterna, desde que, no decorrer de sua existência secular não se afaste dos sublimes preceitos.
Dias depois, no Cartório de Registro de Pessoas Naturais recebeu o nome civil -Ruan, só alterado anos depois por força de decisão própria e permissivo judicial.
Inserida no mundo exterior, foi desde logo tratada com as peculiaridades e cuidados dispensados às crianças do sexo feminino. Deram-lhe um quarto todo pintado de rosa, espalhando-se pelas paredes desenhos que reproduziam as flores que ostentam o mesmo nome e delicadeza. Um berço de tonalidade idem, brinquedos leves e roupas apropriadas ao sexo. Ao atingir a idade escolar foi matriculada em escola particular, onde iniciou os primeiros contatos com os colegas de sua idade, começando ali a estabelecer em sua mente a diferença entre um e outro sexo e, de acordo com essas diferenças, as preferências de cada um.
Foi a partir dos seis anos de idade que começou a sentir as primeiras transformações de ordem psicológica, tais como o desejo quase incontrolável de
partilhar as mesmas brincadeiras dos meninos, as mesmas conversas, ler as mesmas histórias, gostar do mesmo gênero de filmes e cultuar os mesmos heróis. No respeitante às suas colegas meninas enxergava, ainda sem entender, como um grupo ao qual não se adaptava facilmente, como o fazia e sentia no tocante aos meninos. Não se achava confortável dentro daquelas roupas de tecidos leves, cores amenas e cortes estranhos que escondiam ora cerca de três partes do corpo, ora, a depender do lugar, quase nada.
Aos quatorze, quinze anos, no despertar da adolescência carregava corpo feminil que começava a exibir os primeiros contornos peculiares à idade, cabelos longos, lisos e bem cuidados, unhas eram apresentadas ao esmalte e lábios às mais variadas marcas e tonalidades de batons. As linhas do corpo bem definidas e seios salientes quase à mostra davam-lhe o toque final de gênero. Ruana, apesar de tudo, não se sentia psicologicamente confortável e começava a enxergar nas meninas, em particular as mais bonitas, atrativos que somente os homens em geral viam, mas não sabia muito bem o que aquilo significava.
Passado mais algum tempo deu para vestir-se e comportar-se socialmente como menino. Esse comportamento novo foi notado no dia-dia pelos pais, parentes e amigos próximos que, observando sua atenção pelo mesmo sexo pensaram tratar-se de um típico caso de lesbianismo. A Grécia Antiga foi então revirada pelo avesso, a ilha de Lesbos revisitada e a história da poetisa Safo e sua companheira Átis foi, por fim, lida e relida, e até onde foi possível interpretada graças aos escritos de Platão. Não era.
Ruana viu ser explorado o mais recôndito do seu ser. Psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas e educadores foram exaustivamente consultados, chegando-se enfim à conclusão de que tratava-se de uma pessoa trans, denominação desconhecida até aquele momento por seus pais que, malgrado seu fervor religioso, aceitaram a nova situação, à luz do olhar episcopal da tolerância, acolhimento e respeito às diferenças. Aquela descoberta foi para si um alívio, pois que a partir dali, vencidas as barreiras naturais da família, passou a exercer sua sexualidade em plenitude. Com o auxílio de profissionais especializados começou a tomar hormônios masculinos, o que lhe permitiu radical mudança de aparência física, com modificação no contorno do corpo, surgimento de pêlos no rosto e aparecimento do pomo de Adão. Mudou os gestos, a voz e o nome. Daí que, para se transformar em Ruan, foi uma questão de tempo e adaptação.
Nosso personagem mostrou-se um rapaz de feições agradáveis e muito ativo em suas relações, revelando-se assíduo frequentador de bares e boates, conquistador exímio, elegendo para compor seu séquito de namoradas quase sempre as mais bonitas e gostosas.
primeira vista, desaguando em paixão arrebatadora. Estudante de arquitetura e trabalhando no segmento de moda, fazia bico em um teatro como assistente de cenógrafo. Tivera poucos namorados; não residia em casa dos pais e dividia um apartamento no Leblon com uma famosa travesti, figura bastante conhecida no meio artístico.
Conheçamos então sua história.
Átina nasceu Aldomiro e ainda em tenra idade recebeu dos pais o apelido carinhoso de Miro, podendo variar em certas ocasiões para Aldon. Ali a sociedade gestava um engenheiro civil, um militar de alta patente, um galã de novela ou um bem-sucedido jogador de futebol, tudo a depender de suas habilidades e escolhas pessoais, com incondicional apoio da família.
O destino, porém, lhe designava outro caminho. Logo nos primeiros anos de vida viu-se atraído pelas roupas, leituras, brincadeiras e afetações de suas irmãs, e aos 15 anos decidiu assumir em definitivo sua transexualidade. Deliberou por deixar crescerem os cabelos, que se tornaram longos, brilhantes, sedosos e cheios de viço; tomou hormônios femininos às escondidas e com a cumplicidade de um primo gay; pintou unhas e lábios, pôs em destaque os seios volumosos, as pernas torneadas, nádegas bem definidas, ao tempo em que lhe sumiram os pêlos. Enfim era uma mulher perfeita, completa em exuberância e sensualidade.
Nem precisa dizer o que aconteceu em seguida na célula familiar. A mãe teve um ataque de nervos e o pai ameaçou deserdá-lo, o que mais tarde foi confirmado diante do fato consumado, mas a mudança era irreversível.
Poucas não foram as tentativas e investidas dos pais no sentido de reverter o quadro, mas sem sucesso, ouvindo apenas dos especialistas explicações das mais variadas que, apesar de sua comprovada cientificidade, não resultaram convincentes.
Em primeiro lugar recorreram à teologia, ouvindo de um ex-padre, casado, professor e brilhante em suas palestras, a explicação de que a resposta estava na Bíblia, livro do Gênesis, capítulo 1 versículos 27 e 28, onde está explícito que no sexto dia o senhor dos céus e da terra criou o homem à sua imagem e semelhança, mas o texto aclareia mais o milagre da criação quando diz taxativamente que "homem e mulher os criou". A coisa só tomaria uma nova definição a partir do capítulo 2 verso 21, quando o Todo Poderoso deferindo uma petição de Adão, separou os sexos, criando a mulher em separado mas sem dissociá-la em sua essência, visto que advinda de uma costela ali não se fizera nada de novo. A duplicidade de sexos estaria, segundo o professor, no princípio da criação dos seres humanos. Primeiro gol contra do futuro atleta.
Inúmeras outras informações foram colhidas sem que produzissem nos pais de Miro o efeito desejado. Leram, por exemplo, em artigo de uma conceituada revista que “os transgêneros já fazem parte do cotidiano brasileiro, correspondendo a 0,5% da população e que já alcançaram no mundo a casa dos 35 milhões, o equivalente à população do Canadá”. Obtiveram a informação de que hoje já foram identificados os "intersexuais", aquelas pessoas que nasceram com alguma variação de anatomia do aparelho reprodutor. Diante da possibilidade dessa última tábua de salvação foi constatado, para decepção geral, que não era o caso de Miro que era, em caráter definitivo, só e simplesmente transexual.
Por fim, expulso de casa e do coração da família, foi viver sua própria vida assumindo-se Átina.
Conhecendo-se, como já sabemos, afeiçoaram-se, apaixonaram-se e casaram-se,passando a formar uma nova família, excêntrica ainda aos olhos de muitos. Aconteceu o que era perfeitamente previsível, embora ainda difícil de se admitir na sociedade hodierna, mas que no futuro poderá tornar-se fato corriqueiro. Estando o casal em pleno vigor físico e intactos seus órgãos reprodutores, a gravidez de Ruan foi inevitável como inevitável foi contar esta história, para muitos sem pé nem cabeça.
Estamos de volta ao consultório onde o Dr. Chagas se encontra às voltas com (suas?) pacientes. O relógio na parede marca 17 horas e o entra e sai continua intenso. A atendente, sempre solícita e de ar indefinido, abre a porta e chama por Ruan que adentra à sala como quem se dirige ao desconhecido. Meia hora depois reaparece com as mãos cheias de caixas e mais caixas de remédios
“amostra grátis”, além de papéis que vão desde receitas a solicitação de exames, passando por recomendações sobre regras de comportamento a serem seguidas durante a gravidez. Sem ter como e em que acomodar tanta coisa, sentiu que naquele momento um importante acessório feminino lhe fazia falta -uma bolsa.
As outras pacientes, entupidas de curiosidade quiseram saber de logo se estava tudo bem com o feto e seu pai (ou seria mãe?), e diante da resposta afirmativa alongaram a conversa até a inevitável indagação sobre sexo e possível nome. Quanto ao sexo, respondeu Ruan: não está definido, satisfazendo o fato de ser apenas um bebê. Por enquanto chamemos de meninx.