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Dor profunda na alma Tristeza que não se acaba Assim é a depressão

Choro, angústia e solidão Assim está um coração Afligido pela depressão

Pensamentos vêm e vão

Viver ou morrer? Eis a questão De quem vive com depressão

Epidemia? Mal do século?

Qual a cura para depressão?

Nem remédios e nem fórmula É preciso fé, amor e esperança

Nem falta do que fazer e nem demônio Mas dor incessante que não se acalma Depressão é doença da alma

Instagram: @verenavida

Desaguar

Mary Almeida

Conceição do Coité/BA

Desenredos

Marcos Andrade Alves dos Santos Canaan/Trairi/CE

Descobri que:

As pessoas mais bonitas são feias.

Os instantes mais preciosos são curtos.

As histórias mais incríveis não existem.

As coisas mais importantes não servem para nada.

As demoras nos fazem recomeçar.

O tempo desvira nossas certezas.

Todas as coisas doces começam no mar.

As belezas não são eternas.

O riso é uma flor do prado.

O olhar germina primaveras.

As palavras criam mundos menos profundos do que este.

A gente só se encontra quando se perde pelo caminho.

Despedida

Íris Cavalcante Fortaleza/CE

Divórcio era o único assunto de que Lisa e Mário tratavam nos últimos dias, entre emoções contidas ou extravasadas, papéis, assinaturas, avaliação de bens, reunião com advogados e visitas cartoriais.

Eram seis da manhã. Lisa dormira mal e o rosto não trazia o costumeiro viço.

Precisavam falar tranquilamente sobre detalhes jurídicos, mas ela não queria discutir sobre isso num ambiente formal ou tumultuado demais, muito menos na presença dos filhos. Veio de Mário a proposta de encontrá-la à beira mar. E havia urgência.

Já moravam em casas separadas. Mário arrumava-se na impessoalidade de um flat. Lisa continuava morando no mesmo apartamento do Meireles, que dividiram por mais de vinte anos. Lá criaram os filhos e viveram o que há de melhor e pior no casamento. Foram felizes e infelizes, mas infelizes não precisavam ser para sempre — pensava Lisa.

Ela inspirava todo o ar possível aos pulmões, mas nada aliviava a aflição.

Lisa tomou o café sem muito ânimo e desceu até a praia em passos tímidos, observando a assimetria entre as casas antigas que sobreviviam em meio aos prédios modernos. Lembrou-se de quantas vezes fizeram esse percurso juntos, tratando de contas a pagar e pequenas implicâncias comuns entre casais.

Mário a esperava na Ponte dos Ingleses, um lugar bucólico de onde costumavam contemplar o crepúsculo, em tempos de felicidade. Era um dos prazeres do casal, antes ou após uma caminhada, fosse manhã ou fosse tarde.

Num golpe de sorte, também poderiam deslumbrar-se com a dança de imprevistos golfinhos sob a ponte, em estado de abandono, mas a avaria e as pichações nas armações de madeira não inibiam a beleza do cenário.

Ele usava um suéter azul sobre a camiseta, prevenindo-se do incomum frio que fazia naquela cidade tropical e demonstrava certa casmurrice na expressão.

Era primeiro de janeiro e tanto o mar quanto as pessoas achavam-se de ressaca naquela manhã. Não havia babás com suas crianças, nem surfistas, banhistas ou caminhantes, apenas uma senhora que levara sua Lulu da Pomerânia para passear, mas já arrependida pelo mau tempo.

Lisa cumprimentou-o, quase formalmente, e lhe sobreveio um encadeamento de angústias pela união que cumpria seu ciclo e atingia o declínio. Não se protegera do frio, que a fazia tremer-se toda. Mário ofereceu o suéter que combinava com as íris de Lisa; após uma conversa tensa, pediu-lhe um abraço e fez-lhe tardias juras de amor. Ele acendeu um cigarro ‒ sempre recorria a um em situações delicadas. Fumava desde os treze, mesmo tempo em que começou a beber.

Ela temia pelas consequências do fim do casamento, essa instituição tão hermética, cuja ruptura causa tantos danos emocionais e deixa sempre uma dúvida, em algum recipiente da mente. Afinal como viveria sem o homem com quem partilhou mais de vinte anos da sua vida? Fora educada para pensar dessa maneira e receava pela ausência da figura masculina... De jovem passou a senhora sem se dar conta da travessia do tempo e das transformações que sofrera, ao longo da vida.

Mário se aproveitava da insegurança de Lisa para tentar reverter sua decisão, uma espécie de chantagem que ela refutava, sustentada nos ressentimentos que acumulava há anos. Na verdade, Lisa precisava renascer a partir de um determinado ponto e aquele era o momento adequado.

Era como uma queda de braços e ele, julgando-se o mais forte, não aceitava a decisão da mulher, tida como frágil durante toda a vida conjugal a que se submetera a um papel secundário. Ele queria dar a palavra final como uma afirmação de sua masculinidade e tentou, sob todos os argumentos, demovê-la da audácia quanto ao divórcio. Implorou, abraçou-a — ela se esquivou. Diante da inutilidade da súplica, Mário deu-se por rogado e disse: Tudo bem, meu amor, é isso mesmo que você quer? — insinuava-se uma ameaça em sua voz, que de tão familiar, Lisa nem estranhou.

sabia se resignado ou sofrente; o homem que amara era uma incógnita.

— Feliz ano novo, meu amor! — ele disse, com um sarcasmo no sorriso.

Abraçou-a mais uma vez. De início, suavemente, depois imprimindo força, até deixá-la comprimida, em seus braços. Incomodada, ela tentou desvencilhar-se. Ia protestar, mas ele a calou com um súbito beijo. Parecia que a sequência de seus movimentos fora programada. Na primeira oportunidade, ela gritou: Você está louco? Trazia pânico implícito na voz e no corpo trêmulo. Não sabia se fizera uma pergunta ou uma acusação, mas ao sentir sua respiração de volta, teve a sensação de ressuscitar; apenas não imaginou quão rápido seria o próximo movimento de Mário.

Ele a empurrou, como quem empurra uma pluma ao vento. Lá embaixo havia apenas um mar de um intenso azul. O grito de Lisa rompeu com o silêncio daquela manhã, apenas cortado pela rebentação das águas contra o quebra-mar.

— Adeus, meu amor! Tudo podia ter sido tão diferente...

Mário acendeu outro cigarro e começou a fazer o caminho de volta, olhando-a pelolhando-as frestolhando-as de molhando-adeirolhando-a dolhando-a ponte. Elolhando-a debolhando-atiolhando-a-se controlhando-a olhando-as águolhando-as e pediolhando-a-lhe o último socorro. Lisa não sabia nadar.

Era inacreditável a indiferença dele, até dar-se conta de que ela usava seu suéter azul.

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Devaneios

Elaine Mattos