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MATERIAL E MÉTODOS

No documento DANILO RAFAEL MESQUITA NEVES (páginas 74-83)

116

Local de estudo 117

Este estudo foi realizado em uma área de 5.327 hectares, pertencente à 118

Mineração Corumbaense Reunida S/A (MCR), no maciço do Urucum, Corumbá, Mato 119

Grosso do Sul, considerado o mais proeminente dos relevos residuais da borda oeste do 120

Pantanal alto (ISQUIERDO 1997). 121

O conjunto de elevações que constituem o maciço do Urucum é recortado por 122

uma série de falhas, cujas escarpas formam diversas morros. Entre os morros que 123

constituem o maciço há o morro do Urucum (971m), o morro Grande (951m) o morro 124

Santa Cruz (1065m), o morro São Domingos (800m), a Tromba dos Macacos (500m), o 125

morro Jacadigo (600m) e o morro Rabichão com uma cota altimétrica de 700m. 126

(FRANCO & PINHEIRO 1982). 127

A área estudada está assentada sobre o embasamento Gnáissico-Granítico 128

(complexo Apa) do proterozóico médio (era pré-cambriana), constituído principalmente 129

por moscovitagnaisses, biotita-gnaisses de granulação fina com fraturas preenchidas por 130

veeiros de quartzo (ANJOS & OKIDA 2000). Acima dessa camada se situa o grupo 131

Jacadigo (de idade proterozóica superior). É constituído pelas formações Urucum e 132

Santa Cruz, em seqüência estratigráfica. A formação Urucum é caracterizada como um 133

relevo conservado, identificado como uma superfície estrutural tabular, marcada a oeste 134

por escarpa de falha. Posicionada ao leste desta, as morrarias Santa Cruz e São 135

Domingos caracterizam dois blocos de relevos justapostos, cujas bordas ocidentais são 136

marcadas por escarpas de falhas com desníveis acima de 100 metros (FRANCO & 137

PINHEIRO 1982). Essas duas formações são exploradas comercialmente na região para 138

extração de ferro e manganês, sendo a extração de manganês subterrânea e a de ferro a 139

céu aberto, a segunda com retirada total da vegetação herbácea (BRASIL 1982). 140

Neste estudo foram realizadas coletas em áreas de campo sujo de cerrado, as 141

quais se encontram em altitudes médias de 1.000 metros, na morraria Santa Cruz 142

(19º12’ S; 57º35’ W), município de Corumbá – MS, denominada como morro Bonito 143

pela MCR - Mineração Corumbaense Reunida S/A (Fig. 1). Este morro é a única área 144

de campo que ainda não vem sendo explorada pela MCR, porém o local sofre algumas 145

pertubações com pesquisas geológicas e fogo, sendo o último ocorrido em setembro de 146

2007. Pesquisas são realizadas no local por geólogos da MCR, com o intuito de incluir o 147

74 morro Bonito no projeto de expansão da mina (Eng. Felipe Tadashi - MCR,

148

comunicação pessoal). 149

O clima da região é do tipo tropical megatérmico (com temperatura média de 150

25ºC), com precipitação pluvial da ordem de 1.120 mm anuais e duas estações bem 151

distintas, uma seca que se estende de abril a setembro (inverno) e uma chuvosa, de 152

outubro a março (verão), classificado como Aw no sistema de Köppen (SORIANO 153

2000). 154

A paisagem da região é representada por um mosaico de fitofisionomias típicas 155

do Cerrado, como cerrado sentido restrito, campo cerrado, campo limpo e campo sujo, 156

intrusões de florestas estacionais deciduais e semideciduais. O gradiente altitudinal é 157

bastante singular com forte contraste da vegetação proporcionando ampla variedade de 158

ambientes, incluindo desde Mata Estacional Semidecidual Submontana a Savana 159

Gramíneo-Lenhosa no topo (POTT et al. 2000; POTT et al., 2002). 160

Captura de morcegos e análise das amostras fecais 161

O período total de estudo compreendeu de outubro de 2007 a setembro de 2008. 162

Os morcegos foram capturados com auxílio de redes-de-neblina dispostas até três 163

metros acima do solo. Foram armadas três redes (14x3m) por noite. 164

As fases de captura constaram de duas noites (período de lua nova) consecutivas 165

por mês, durante um ano, totalizando 48 noites/ano. A cada noite as capturas iniciavam 166

após o pôr-do-sol e encerravam seis horas depois de iniciada. 167

As redes eram armadas próximas aos frutos zoocóricos disponíveis e/ou nas 168

proximidades de uma Mata Estacional Semidecidual adjacente ao campo sujo. Foram 169

feitas revisões a cada 15 minutos nas redes. 170

Cada exemplar capturado foi colocado em um saco de pano, onde permaneceu 171

por cerca de uma hora para a coleta das fezes depositadas pelo animal. Após este 172

período, os animais foram identificados (conforme VIZOTTO & TADDEI 1973) e 173

soltos, sendo que um indivíduo de cada espécie foi sacrificado para material testemunho 174

e depositado em coleção zoológica (ZUFMS). 175

As amostras fecais foram triadas e as sementes encontradas foram identificadas 176

por meio de comparações com sementes coletadas das espécies vegetais existentes no 177

local de estudo, em áreas adjacentes e acompanhamento fenológico. 178

Foi feito um transecto de 300 metros em uma área adjacente ao morro. Esta área 179

foi recuperada pela MCR (Mina 02) em 2002. Todas as espécies de angiospermas 180

75 distante até no máximo três metros de cada lado do transecto foram registradas (Fig. 1), 181

para verificar a existências de espécies quiropterocóricas no local. 182

Estudo fenológico 183

A amostragem das espécies zoocóricas foi feita com oito transectos de 250 184

metros, distantes 50 metros entre si. Foram utilizados pedaços de tecido vermelho 185

denominado TNT, para demarcar as duas vertentes do morro Bonito. Foram amostradas 186

todas as espécies zoocóricas distantes até no máximo três metros de cada lado do 187

transecto. Foram estabelecidos quatro transectos em cada vertente do morro, totalizando 188

0,6 hectares de amostragem (Fig. 1). 189

Entre outubro de 2007 a setembro de 2008 foi feito acompanhamento mensal da 190

frutificação nas manchas que se encontravam na área dos transectos. O critério de 191

inclusão das espécies na análise fenológica foi a presença do evento de frutificação 192

durante o período estudado. 193

Os hábitos da vegetação deste estudo foram divididos em herbáceas, lianas, 194

plantas-anãs e subarbustos. As plantas-anãs são espécies que, sob condições ambientais 195

normais, possuem o hábito arbóreo, porém devido a características do maciço do 196

Urucum como: solo (baixa profundidade, umidade), velocidade do vento e queimadas 197

regulares, estas espécies não se desenvolvem normalmente nos campos sujos de cerrado 198

da área de estudo (LEHN et al. 2008). 199

Para confecção de exsicatas, foram coletados exemplares de cada espécie deste 200

estudo fora da área dos transectos, para não causar interferência nos dados fenológicos. 201

Com a utilização de tesoura de poda, as espécies coletadas eram armazenadas em sacos 202

plásticos, prensadas e utilizadas para a identificação taxonômica com o auxílio de 203

bibliografia especializada e comparação com material depositado no Herbário COR. Os 204

exemplares com material fértil conservado foram montados em cartolina, etiquetados e 205

enviados para incorporação no herbário CGMS/UFMS. 206

A nomeação dos taxa seguiu o ANGIOSPERM PHYLOGENY GROUP (2003), 207

e a grafia dos nomes foi obtida por consulta à base de dados W3 Tropicos do 208

MISSOURI BOTANICAL GARDEN (2009). 209

76 Análise dos dados

210

Para estimar a intensidade da fenofase, as espécies zoocóricas com n ≥ 10 211

manchas foram classificadas nas categorias da escala semi-quantitativa adaptada de 212

FOURNIER (1974) para espécies herbáceo-subarbustivas, com valores estimativos para 213

as fenofases conforme a seguinte escala: 0 – ausência da característica; 1- presença da 214

característica em um intervalo de 1-25%; 2- de 26-50%; 3- de 51-75%; 4- de 76-100%. 215

O cálculo da Intensidade de Fournier é feito através da seguinte fórmula: 216

% de Fournier =  Fournier. 100 217

4. N 218

onde,  Fournier é a somatória das categorias de Fournier das manchas dividido pelo 219

máximo de Fournier que pode ser alcançado por todas as manchas (N) na amostra. 220

Porém, na análise do número de espécies zoocóricas em frutificação foram 221

consideradas todas as espécies encontradas, sendo os frutos classificados quanto ao 222

estágio de maturação. 223

Para avaliar a influência da precipitação nos padrões fenológicos das espécies 224

zoocóricas observadas no campo sujo de cerrado, foi utilizado o teste do coeficiente de 225

Correlação de Spearman (SOKAL & ROHLF 1996), utilizando o software BIOESTAT 226

3.0 (AYRES et al. 2003). Esta análise foi realizada correlacionando-se a fenofase de 227

frutificação das espécies zoocóricas com os dados climáticos do mês da observação, do 228

primeiro, segundo e do terceiro mês anteriores à observação, conforme descrito por 229

FERRAZ et al. (1999). 230

O cálculo do coeficiente de Correlação de Spearman é feito através da seguinte 231 fórmula: 232 rs = 1 – 6 n(R1 – R2)2 233 n(n2 – 1) 234

onde, n é o número de pares (xi, yi), R1 é o escore de xi dentre os valores de x e R2 é o 235

escore de yi dentre os valores de y. 236

77

RESULTADOS

237

Captura dos morcegos e análise das amostras fecais

238

Em 36.288 m2.h de esforço amostral foram capturados 49 morcegos de cinco 239

espécies frugívoras (Tab. 1). Três espécies apresentaram sementes nas amostras fecais, 240

num total de 20 amostras, equivalente a 40,8% do total de capturas. 241

Platyrrhinus lineatus (E. Geoffroy, 1810) foi a espécie mais capturada na área, 242

totalizando 19 indivíduos, seguido de Artibeus lituratus (Olfers, 1818) e Carollia 243

perspicillata (Linnaeus, 1758), com 14 e 11 indivíduos respectivamente. 244

P. lineatus foi a espécie que proporcionou maior número de amostras fecais 245

(Tab. 2), seguida por A. lituratus e C. perspicillata, que apresentou menor quantidade 246

de fezes, com apenas 25% do total (Fig. 2), porém foi a espécie que apresentou melhor 247

conservação das sementes após passagem pelo trato digestivo. Artibeus jamaicensis 248

Leach, 1821 e Lophostoma silvicolum (d'Orbigny, 1836) não proporcionaram amostras 249

fecais. 250

No transecto realizado na área em recuperação (Mina 02), foram encontradas 16 251

espécies de plantas, sendo que quatro não constavam na lista de espécies para 252

recuperação da área (Tab. 3). Destas, Aristida riparia Trin. é anemocórica, Trema 253

micrantha Blume é zoocórica e Cecropia pachystachya Trécul. e Piper aduncum L. são 254

zoocóricas/quiropterocóricas (Tab. 4). 255

Estudo fenológico

256

No acompanhamento fenológico foram registradas 22 espécies zoocóricas, 257

pertencentes a 20 gêneros e 15 famílias (Tab. 5). A espécie zoocórica mais abundante 258

no campo sujo de cerrado do planalto residual do Urucum foi Davilla elliptica A. St.-259

Hil. com 126 manchas, seguida por Blepharocalyx salicifolius (Kunth) O. Berg com 260

112, Aiouea trinervis Meissn. com 110 e Echinopsis calochlora K. Schum. com 90 261

manchas. (Tab. 6). 262

A frutificação das espécies zoocóricas do campo sujo apresentou pico em 263

setembro, com sete espécies (Fig. 3), das quais quatro estavam em dispersão, 264

correspondendo ao final da estação seca (Fig. 4). Novembro apresentou seis espécies em 265

frutificação, das quais cinco estavam em dispersão. Em setembro a precipitação total foi 266

de 54 mm, sendo a maior do período de seco deste ano (junho a setembro). 267

78 A maior intensidade de Fournier (1974) para a fenofase de frutificação das 268

espécies zoocóricas também ocorreu em setembro, com 10,78% da intensidade total da 269

área estudada (Fig. 5). 270

O coeficiente de correlação de Spearman foi significativo na fenofase de 271

frutificação para as espécies zoocóricas ao se correlacionar com a precipitação de três 272

meses anteriores à observação (Tab. 7). 273

79

DISCUSSÃO

274

A riqueza de espécies de morcegos em uma comunidade local varia entre 15 e 275

25 espécies na maior parte do Cerrado (COIMBRA Jr. et al. 1982; WILLIG 1983; 276

PEDRO & TADDEI 1997; GARGAGLIONI et al. 1998; BREDT et al. 1999; 277

RODRIGUES et al. 2002; FALCÃO et al. 2003; BORDIGNON 2006; ZÓRTEA & 278

ALHO 2008). A baixa riqueza de espécies de morcegos coletados no campo sujo de 279

cerrado indica a preferência alimentar destes animais por frutos disponíveis nas matas 280

semidecíduas, fazendo com que eles possivelmente utilizem os campos como caminho 281

entre fragmentos de mata. 282

Mesmo no período de maior disponibilidade de frutos como Allagoptera 283

leococalyx Kuntze, E. calochlora, Erythroxylum campestre A.St.Hil., Manihot tripartita 284

Müll.Arg., A. trinervis, Casearia sylvestris Swartz e Smilax fluminensis Steud. os 285

morcegos da área de estudo não consumiram recursos do campo sujo de cerrado, sendo 286

as espécies dispersadas para o local consumidas de matas semidecíduas adjacentes à 287

área de estudo. DAMASCENO JUNIOR (2005) identificou nestas matas semidecíduas 288

oito espécies do gênero Ficus e cinco espécies do gênero Piper, os quais são 289

importantes recursos para a manutenção dos morcegos frugívoros do maciço do 290

Urucum. 291

Segundo JANZEN (1970), a dispersão de sementes é um mecanismo complexo 292

que depende de fatores como a taxa de remoção de frutos/sementes, frequência de 293

consumo pelos animais e local apropriado para germinação longe da planta-mãe. 294

STEBBINS (1974) verificou que morcegos podem fornecer um efetivo meio de 295

transporte de sementes para longe das plantas parentais. Além disso, os frugívoros 296

dispersores de sementes podem modificar os padrões de germinação de muitas espécies 297

de plantas através da variação no potencial de germinabilidade das sementes, da 298

velocidade de germinação, ou ambos (TRAVESET 1998; PASSOS & PASSAMANI 299

2003). 300

As quatro espécies de plantas que não constavam na lista das espécies utilizadas 301

na recuperação da Mina 02, indicam a dispersão de sementes como processo importante 302

na sucessão ecológica. Dentre estas espécies encontra-se A. riparia, uma espécie 303

anemocórica nativa da área de estudo, a qual pode auxiliar na substituição gradativa das 304

espécies de gramíneas exóticas como Melinis minutiflora P. Beauv. e Urochloa 305

brizantha (Hochst ex A. Rich.) Stapf. 306

80 T. micrantha é citada como recurso alimentar para aves (TREJO-PEREZ 1976; 307

VOSS & SANDER 1980; WHEELWRIGHT et al. 1984; SANCHOTENE 1985; 308

LORENZI 1992). Esta relação pode explicar a presença desta planta na área em 309

recuperação, uma vez que as aves dispersam sementes dos frutos que consomem em 310

vôo. C. pachystachya e P. aduncum também demonstram esta relação, sendo citados na 311

literatura como frutos quiropterocóricos (HOWELL & BURCH 1974; SIPINSKI & 312

REIS 1995; PEDRO & TADDEI 1997; THIES et al. 1998; TAVARES 1999). 313

Numa área onde a vegetação está em processo de sucessão, 314

as espécies de Cecropia podem ser as mais comuns (MEDELLÍN & GAONA 1999), 315

pois uma de suas características é a necessidade de elevada taxa de luminosidade para 316

germinar (GODOI & TAKAKI 2005). Esta característica do gênero justifica a presença 317

de indivíduos de C. pachystachya na Mina 02, uma vez que o local vem passando por 318

um processo de regeneração após lavra de minério de ferro. 319

A frutificação pode ter sido afetada pela queima, uma vez que o pico de 320

frutificação por espécies e a maior intensidade de frutificação (Fournier) ocorreu após 321

um ano do evento (setembro de 2007). Esta frutificação tardia pode ter ocorrido pelo 322

fato de que 48,74% das espécies zoocóricas possuem o hábito de plantas-anãs, as quais 323

foram danificadas durante a queima, afetando assim o restabelecimento das mesmas. As 324

herbáceas, por outro lado, tiveram suas partes aéreas totalmente destruídas durante a 325

queima, porém restabeleceram-se mais rapidamente a partir de sementes e propágulos. 326

No entanto, esta frutificação pode ter uma correlação maior com a precipitação, 327

sendo o mês de setembro o fim da estação seca no local. Eventos fenológicos 328

reprodutivos sazonais e sincronizados podem representar vantagens adaptativas para 329

muitas espécies tropicais. Algumas plantas abrem seus frutos no final da estação seca e 330

início da chuvosa para reduzir a mortalidade das plântulas (VAN SCHAIK et al. 1993; 331

PEDRONI et al. 2002) 332

A ecologia alimentar de morcegos fornece informações extremamente úteis para 333

o entendimento dos mecanismos de partilha recursos, onde espécies semelhantes 334

coexistem em um mesmo lugar variando em pelo menos uma das três dimensões do 335

nicho: espaço, tempo ou alimento (PIANKA 1973). 336

Desta forma, outros estudos podem fornecer dados mais conclusivos quanto ao 337

papel ecológico dos morcegos na regeneração dos campos sujos de cerrado do maciço 338

do Urucum. Porém, o fato dos morcegos utilizarem recursos da mata semidecíduas não 339

desabona a importância ecológica como dispersores de espécies nativas e pioneiras para 340

81 as áreas degradadas de campo sujo, pois foram encontradas espécies potencialmente 341

dispersadas por morcegos na área em recuperação. Provavelmente os morcegos tenham 342

papel fundamental na sucessão das áreas de campo, dispersando espécies da mata para 343

estes ambientes. 344

82

No documento DANILO RAFAEL MESQUITA NEVES (páginas 74-83)

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