116
Local de estudo 117
Este estudo foi realizado em uma área de 5.327 hectares, pertencente à 118
Mineração Corumbaense Reunida S/A (MCR), no maciço do Urucum, Corumbá, Mato 119
Grosso do Sul, considerado o mais proeminente dos relevos residuais da borda oeste do 120
Pantanal alto (ISQUIERDO 1997). 121
O conjunto de elevações que constituem o maciço do Urucum é recortado por 122
uma série de falhas, cujas escarpas formam diversas morros. Entre os morros que 123
constituem o maciço há o morro do Urucum (971m), o morro Grande (951m) o morro 124
Santa Cruz (1065m), o morro São Domingos (800m), a Tromba dos Macacos (500m), o 125
morro Jacadigo (600m) e o morro Rabichão com uma cota altimétrica de 700m. 126
(FRANCO & PINHEIRO 1982). 127
A área estudada está assentada sobre o embasamento Gnáissico-Granítico 128
(complexo Apa) do proterozóico médio (era pré-cambriana), constituído principalmente 129
por moscovitagnaisses, biotita-gnaisses de granulação fina com fraturas preenchidas por 130
veeiros de quartzo (ANJOS & OKIDA 2000). Acima dessa camada se situa o grupo 131
Jacadigo (de idade proterozóica superior). É constituído pelas formações Urucum e 132
Santa Cruz, em seqüência estratigráfica. A formação Urucum é caracterizada como um 133
relevo conservado, identificado como uma superfície estrutural tabular, marcada a oeste 134
por escarpa de falha. Posicionada ao leste desta, as morrarias Santa Cruz e São 135
Domingos caracterizam dois blocos de relevos justapostos, cujas bordas ocidentais são 136
marcadas por escarpas de falhas com desníveis acima de 100 metros (FRANCO & 137
PINHEIRO 1982). Essas duas formações são exploradas comercialmente na região para 138
extração de ferro e manganês, sendo a extração de manganês subterrânea e a de ferro a 139
céu aberto, a segunda com retirada total da vegetação herbácea (BRASIL 1982). 140
Neste estudo foram realizadas coletas em áreas de campo sujo de cerrado, as 141
quais se encontram em altitudes médias de 1.000 metros, na morraria Santa Cruz 142
(19º12’ S; 57º35’ W), município de Corumbá – MS, denominada como morro Bonito 143
pela MCR - Mineração Corumbaense Reunida S/A (Fig. 1). Este morro é a única área 144
de campo que ainda não vem sendo explorada pela MCR, porém o local sofre algumas 145
pertubações com pesquisas geológicas e fogo, sendo o último ocorrido em setembro de 146
2007. Pesquisas são realizadas no local por geólogos da MCR, com o intuito de incluir o 147
74 morro Bonito no projeto de expansão da mina (Eng. Felipe Tadashi - MCR,
148
comunicação pessoal). 149
O clima da região é do tipo tropical megatérmico (com temperatura média de 150
25ºC), com precipitação pluvial da ordem de 1.120 mm anuais e duas estações bem 151
distintas, uma seca que se estende de abril a setembro (inverno) e uma chuvosa, de 152
outubro a março (verão), classificado como Aw no sistema de Köppen (SORIANO 153
2000). 154
A paisagem da região é representada por um mosaico de fitofisionomias típicas 155
do Cerrado, como cerrado sentido restrito, campo cerrado, campo limpo e campo sujo, 156
intrusões de florestas estacionais deciduais e semideciduais. O gradiente altitudinal é 157
bastante singular com forte contraste da vegetação proporcionando ampla variedade de 158
ambientes, incluindo desde Mata Estacional Semidecidual Submontana a Savana 159
Gramíneo-Lenhosa no topo (POTT et al. 2000; POTT et al., 2002). 160
Captura de morcegos e análise das amostras fecais 161
O período total de estudo compreendeu de outubro de 2007 a setembro de 2008. 162
Os morcegos foram capturados com auxílio de redes-de-neblina dispostas até três 163
metros acima do solo. Foram armadas três redes (14x3m) por noite. 164
As fases de captura constaram de duas noites (período de lua nova) consecutivas 165
por mês, durante um ano, totalizando 48 noites/ano. A cada noite as capturas iniciavam 166
após o pôr-do-sol e encerravam seis horas depois de iniciada. 167
As redes eram armadas próximas aos frutos zoocóricos disponíveis e/ou nas 168
proximidades de uma Mata Estacional Semidecidual adjacente ao campo sujo. Foram 169
feitas revisões a cada 15 minutos nas redes. 170
Cada exemplar capturado foi colocado em um saco de pano, onde permaneceu 171
por cerca de uma hora para a coleta das fezes depositadas pelo animal. Após este 172
período, os animais foram identificados (conforme VIZOTTO & TADDEI 1973) e 173
soltos, sendo que um indivíduo de cada espécie foi sacrificado para material testemunho 174
e depositado em coleção zoológica (ZUFMS). 175
As amostras fecais foram triadas e as sementes encontradas foram identificadas 176
por meio de comparações com sementes coletadas das espécies vegetais existentes no 177
local de estudo, em áreas adjacentes e acompanhamento fenológico. 178
Foi feito um transecto de 300 metros em uma área adjacente ao morro. Esta área 179
foi recuperada pela MCR (Mina 02) em 2002. Todas as espécies de angiospermas 180
75 distante até no máximo três metros de cada lado do transecto foram registradas (Fig. 1), 181
para verificar a existências de espécies quiropterocóricas no local. 182
Estudo fenológico 183
A amostragem das espécies zoocóricas foi feita com oito transectos de 250 184
metros, distantes 50 metros entre si. Foram utilizados pedaços de tecido vermelho 185
denominado TNT, para demarcar as duas vertentes do morro Bonito. Foram amostradas 186
todas as espécies zoocóricas distantes até no máximo três metros de cada lado do 187
transecto. Foram estabelecidos quatro transectos em cada vertente do morro, totalizando 188
0,6 hectares de amostragem (Fig. 1). 189
Entre outubro de 2007 a setembro de 2008 foi feito acompanhamento mensal da 190
frutificação nas manchas que se encontravam na área dos transectos. O critério de 191
inclusão das espécies na análise fenológica foi a presença do evento de frutificação 192
durante o período estudado. 193
Os hábitos da vegetação deste estudo foram divididos em herbáceas, lianas, 194
plantas-anãs e subarbustos. As plantas-anãs são espécies que, sob condições ambientais 195
normais, possuem o hábito arbóreo, porém devido a características do maciço do 196
Urucum como: solo (baixa profundidade, umidade), velocidade do vento e queimadas 197
regulares, estas espécies não se desenvolvem normalmente nos campos sujos de cerrado 198
da área de estudo (LEHN et al. 2008). 199
Para confecção de exsicatas, foram coletados exemplares de cada espécie deste 200
estudo fora da área dos transectos, para não causar interferência nos dados fenológicos. 201
Com a utilização de tesoura de poda, as espécies coletadas eram armazenadas em sacos 202
plásticos, prensadas e utilizadas para a identificação taxonômica com o auxílio de 203
bibliografia especializada e comparação com material depositado no Herbário COR. Os 204
exemplares com material fértil conservado foram montados em cartolina, etiquetados e 205
enviados para incorporação no herbário CGMS/UFMS. 206
A nomeação dos taxa seguiu o ANGIOSPERM PHYLOGENY GROUP (2003), 207
e a grafia dos nomes foi obtida por consulta à base de dados W3 Tropicos do 208
MISSOURI BOTANICAL GARDEN (2009). 209
76 Análise dos dados
210
Para estimar a intensidade da fenofase, as espécies zoocóricas com n ≥ 10 211
manchas foram classificadas nas categorias da escala semi-quantitativa adaptada de 212
FOURNIER (1974) para espécies herbáceo-subarbustivas, com valores estimativos para 213
as fenofases conforme a seguinte escala: 0 – ausência da característica; 1- presença da 214
característica em um intervalo de 1-25%; 2- de 26-50%; 3- de 51-75%; 4- de 76-100%. 215
O cálculo da Intensidade de Fournier é feito através da seguinte fórmula: 216
% de Fournier = Fournier. 100 217
4. N 218
onde, Fournier é a somatória das categorias de Fournier das manchas dividido pelo 219
máximo de Fournier que pode ser alcançado por todas as manchas (N) na amostra. 220
Porém, na análise do número de espécies zoocóricas em frutificação foram 221
consideradas todas as espécies encontradas, sendo os frutos classificados quanto ao 222
estágio de maturação. 223
Para avaliar a influência da precipitação nos padrões fenológicos das espécies 224
zoocóricas observadas no campo sujo de cerrado, foi utilizado o teste do coeficiente de 225
Correlação de Spearman (SOKAL & ROHLF 1996), utilizando o software BIOESTAT 226
3.0 (AYRES et al. 2003). Esta análise foi realizada correlacionando-se a fenofase de 227
frutificação das espécies zoocóricas com os dados climáticos do mês da observação, do 228
primeiro, segundo e do terceiro mês anteriores à observação, conforme descrito por 229
FERRAZ et al. (1999). 230
O cálculo do coeficiente de Correlação de Spearman é feito através da seguinte 231 fórmula: 232 rs = 1 – 6 n(R1 – R2)2 233 n(n2 – 1) 234
onde, n é o número de pares (xi, yi), R1 é o escore de xi dentre os valores de x e R2 é o 235
escore de yi dentre os valores de y. 236
77
RESULTADOS
237
Captura dos morcegos e análise das amostras fecais
238
Em 36.288 m2.h de esforço amostral foram capturados 49 morcegos de cinco 239
espécies frugívoras (Tab. 1). Três espécies apresentaram sementes nas amostras fecais, 240
num total de 20 amostras, equivalente a 40,8% do total de capturas. 241
Platyrrhinus lineatus (E. Geoffroy, 1810) foi a espécie mais capturada na área, 242
totalizando 19 indivíduos, seguido de Artibeus lituratus (Olfers, 1818) e Carollia 243
perspicillata (Linnaeus, 1758), com 14 e 11 indivíduos respectivamente. 244
P. lineatus foi a espécie que proporcionou maior número de amostras fecais 245
(Tab. 2), seguida por A. lituratus e C. perspicillata, que apresentou menor quantidade 246
de fezes, com apenas 25% do total (Fig. 2), porém foi a espécie que apresentou melhor 247
conservação das sementes após passagem pelo trato digestivo. Artibeus jamaicensis 248
Leach, 1821 e Lophostoma silvicolum (d'Orbigny, 1836) não proporcionaram amostras 249
fecais. 250
No transecto realizado na área em recuperação (Mina 02), foram encontradas 16 251
espécies de plantas, sendo que quatro não constavam na lista de espécies para 252
recuperação da área (Tab. 3). Destas, Aristida riparia Trin. é anemocórica, Trema 253
micrantha Blume é zoocórica e Cecropia pachystachya Trécul. e Piper aduncum L. são 254
zoocóricas/quiropterocóricas (Tab. 4). 255
Estudo fenológico
256
No acompanhamento fenológico foram registradas 22 espécies zoocóricas, 257
pertencentes a 20 gêneros e 15 famílias (Tab. 5). A espécie zoocórica mais abundante 258
no campo sujo de cerrado do planalto residual do Urucum foi Davilla elliptica A. St.-259
Hil. com 126 manchas, seguida por Blepharocalyx salicifolius (Kunth) O. Berg com 260
112, Aiouea trinervis Meissn. com 110 e Echinopsis calochlora K. Schum. com 90 261
manchas. (Tab. 6). 262
A frutificação das espécies zoocóricas do campo sujo apresentou pico em 263
setembro, com sete espécies (Fig. 3), das quais quatro estavam em dispersão, 264
correspondendo ao final da estação seca (Fig. 4). Novembro apresentou seis espécies em 265
frutificação, das quais cinco estavam em dispersão. Em setembro a precipitação total foi 266
de 54 mm, sendo a maior do período de seco deste ano (junho a setembro). 267
78 A maior intensidade de Fournier (1974) para a fenofase de frutificação das 268
espécies zoocóricas também ocorreu em setembro, com 10,78% da intensidade total da 269
área estudada (Fig. 5). 270
O coeficiente de correlação de Spearman foi significativo na fenofase de 271
frutificação para as espécies zoocóricas ao se correlacionar com a precipitação de três 272
meses anteriores à observação (Tab. 7). 273
79
DISCUSSÃO
274
A riqueza de espécies de morcegos em uma comunidade local varia entre 15 e 275
25 espécies na maior parte do Cerrado (COIMBRA Jr. et al. 1982; WILLIG 1983; 276
PEDRO & TADDEI 1997; GARGAGLIONI et al. 1998; BREDT et al. 1999; 277
RODRIGUES et al. 2002; FALCÃO et al. 2003; BORDIGNON 2006; ZÓRTEA & 278
ALHO 2008). A baixa riqueza de espécies de morcegos coletados no campo sujo de 279
cerrado indica a preferência alimentar destes animais por frutos disponíveis nas matas 280
semidecíduas, fazendo com que eles possivelmente utilizem os campos como caminho 281
entre fragmentos de mata. 282
Mesmo no período de maior disponibilidade de frutos como Allagoptera 283
leococalyx Kuntze, E. calochlora, Erythroxylum campestre A.St.Hil., Manihot tripartita 284
Müll.Arg., A. trinervis, Casearia sylvestris Swartz e Smilax fluminensis Steud. os 285
morcegos da área de estudo não consumiram recursos do campo sujo de cerrado, sendo 286
as espécies dispersadas para o local consumidas de matas semidecíduas adjacentes à 287
área de estudo. DAMASCENO JUNIOR (2005) identificou nestas matas semidecíduas 288
oito espécies do gênero Ficus e cinco espécies do gênero Piper, os quais são 289
importantes recursos para a manutenção dos morcegos frugívoros do maciço do 290
Urucum. 291
Segundo JANZEN (1970), a dispersão de sementes é um mecanismo complexo 292
que depende de fatores como a taxa de remoção de frutos/sementes, frequência de 293
consumo pelos animais e local apropriado para germinação longe da planta-mãe. 294
STEBBINS (1974) verificou que morcegos podem fornecer um efetivo meio de 295
transporte de sementes para longe das plantas parentais. Além disso, os frugívoros 296
dispersores de sementes podem modificar os padrões de germinação de muitas espécies 297
de plantas através da variação no potencial de germinabilidade das sementes, da 298
velocidade de germinação, ou ambos (TRAVESET 1998; PASSOS & PASSAMANI 299
2003). 300
As quatro espécies de plantas que não constavam na lista das espécies utilizadas 301
na recuperação da Mina 02, indicam a dispersão de sementes como processo importante 302
na sucessão ecológica. Dentre estas espécies encontra-se A. riparia, uma espécie 303
anemocórica nativa da área de estudo, a qual pode auxiliar na substituição gradativa das 304
espécies de gramíneas exóticas como Melinis minutiflora P. Beauv. e Urochloa 305
brizantha (Hochst ex A. Rich.) Stapf. 306
80 T. micrantha é citada como recurso alimentar para aves (TREJO-PEREZ 1976; 307
VOSS & SANDER 1980; WHEELWRIGHT et al. 1984; SANCHOTENE 1985; 308
LORENZI 1992). Esta relação pode explicar a presença desta planta na área em 309
recuperação, uma vez que as aves dispersam sementes dos frutos que consomem em 310
vôo. C. pachystachya e P. aduncum também demonstram esta relação, sendo citados na 311
literatura como frutos quiropterocóricos (HOWELL & BURCH 1974; SIPINSKI & 312
REIS 1995; PEDRO & TADDEI 1997; THIES et al. 1998; TAVARES 1999). 313
Numa área onde a vegetação está em processo de sucessão, 314
as espécies de Cecropia podem ser as mais comuns (MEDELLÍN & GAONA 1999), 315
pois uma de suas características é a necessidade de elevada taxa de luminosidade para 316
germinar (GODOI & TAKAKI 2005). Esta característica do gênero justifica a presença 317
de indivíduos de C. pachystachya na Mina 02, uma vez que o local vem passando por 318
um processo de regeneração após lavra de minério de ferro. 319
A frutificação pode ter sido afetada pela queima, uma vez que o pico de 320
frutificação por espécies e a maior intensidade de frutificação (Fournier) ocorreu após 321
um ano do evento (setembro de 2007). Esta frutificação tardia pode ter ocorrido pelo 322
fato de que 48,74% das espécies zoocóricas possuem o hábito de plantas-anãs, as quais 323
foram danificadas durante a queima, afetando assim o restabelecimento das mesmas. As 324
herbáceas, por outro lado, tiveram suas partes aéreas totalmente destruídas durante a 325
queima, porém restabeleceram-se mais rapidamente a partir de sementes e propágulos. 326
No entanto, esta frutificação pode ter uma correlação maior com a precipitação, 327
sendo o mês de setembro o fim da estação seca no local. Eventos fenológicos 328
reprodutivos sazonais e sincronizados podem representar vantagens adaptativas para 329
muitas espécies tropicais. Algumas plantas abrem seus frutos no final da estação seca e 330
início da chuvosa para reduzir a mortalidade das plântulas (VAN SCHAIK et al. 1993; 331
PEDRONI et al. 2002) 332
A ecologia alimentar de morcegos fornece informações extremamente úteis para 333
o entendimento dos mecanismos de partilha recursos, onde espécies semelhantes 334
coexistem em um mesmo lugar variando em pelo menos uma das três dimensões do 335
nicho: espaço, tempo ou alimento (PIANKA 1973). 336
Desta forma, outros estudos podem fornecer dados mais conclusivos quanto ao 337
papel ecológico dos morcegos na regeneração dos campos sujos de cerrado do maciço 338
do Urucum. Porém, o fato dos morcegos utilizarem recursos da mata semidecíduas não 339
desabona a importância ecológica como dispersores de espécies nativas e pioneiras para 340
81 as áreas degradadas de campo sujo, pois foram encontradas espécies potencialmente 341
dispersadas por morcegos na área em recuperação. Provavelmente os morcegos tenham 342
papel fundamental na sucessão das áreas de campo, dispersando espécies da mata para 343
estes ambientes. 344
82