4.1. Áreas de estudo
As amostras de testemunhos e afloramentos coletadas para análise palinológica pertencem a depósitos da Formação Solimões abrangendo os Estados do Amazonas e Acre, respectivamente. A localização das áreas de estudo está representada na figura 4.
Figura 4: Localização das áreas de coleta.
4.2. Coleta do material
4.2.1. Amostras de subsuperfície
As amostras de subsuperfície foram cedidas pela CPRM e DNPM e são provenientes de furos de sondagem do Projeto Carvão do Alto Solimões. Este projeto tinha como objetivo determinar o potencial linhítico da porção ocidental do Estado do Amazonas. O material para estudo palinológico foi obtido de amostras de testemunho do poço 1AS-32-AM, próximo a localidade de Tambaqui no Rio Curuçá (Lat. 4˚32’38’’S / Long. 71˚24’24’’W) com 361,50 metros de profundidade, dos quais, foram retiradas 14 amostras da parte superior até aproximadamente 132 metros de profundidade.
A litologia do poço 1AS-32-AM no intervalo de 132m a 12,10m é definida na base por uma camada de argilito linhitico, coberta por intercalações de siltito, arenito e linhito (camadas variando de 1,65m a 0,40m de espessura) por toda sessão. A cerca de 55 m de profundidade são abundantes os níveis de calcário, nódulos de pirita e restos vegetais. O topo é definido por argila carbonosa, localmente conglomerático sendo este, o topo da Formação Solimões neste poço. As amostras foram retiradas das seguintes profundidades: 12,10m;
17m; 25m; 48m; 59m; 71m, 92m; 100m; 106m; 115,69m; 120m; 126m e 132m.
4.2.2. Amostras de Afloramento
A excursão realizada para a coleta das amostras de afloramentos ocorreu no mês de setembro de 2002, período de estiagem na região, quando grande parte dos sedimentos da Formação Solimões ficam expostos. As amostras de superfície foram coletadas na região do alto Rio Acre ao longo do Município de Assis Brasil-AC e a desembocadura da localidade fossilífera de Patos. Um total de oito amostras de superfície foram coletadas em distintas
localidades ao longo do Rio Acre. Na tabela 1 estão representadas as coordenadas geográficas das áreas onde foram coletadas as amostras:
Tabela 1: Coordenadas das localidades de coleta do material de superfície
4.3. Seleção das amostras
Dos 84 furos de sondagem realizados pelo Projeto Carvão do Alto Solimões -CPRM na década de 70, foi desperdiçado muito material devido ao apodrecimento das caixas de madeira ao longo desses anos. Por essa razão, para a seleção do poço foram estabelecidos dois critérios: 1) localização da sondagem mais ao sul da Amazônia ocidental brasileira, uma vez que o espessamento da camada é maior em direção ao sul e permite estabelecer correlação com os sedimentos aflorantes do Acre; 2) condições de armazenagem adequadas de forma a evitar à contaminação desse material por outras caixas contendo amostras de outras localidades. Escolhido o poço que apresentasse essas condições, procurou-se obter amostras em intervalos aproximados de 10 em 10 metros contendo características litológicas que indicassem a fertilidade do material.
Por outro lado, a coleta de sedimentos de superfície no Estado do Acre foi acompanhada por paleontólogos da Universidade Federal do Acre- UFAC e da Universidade Federal de Rondônia- UFRO que indicaram as localidades ricas em macrofósseis. O nível
Localidades Coordenadas
Localidade de Murici Lat: 10˚ 57’24’’S/Long: 69˚44’44’’W Cachoeira de Gracinda Lat: 10˚56’06’’S/Long: 69˚46’46’’W São Lourenço Lat: 10˚55’31’’S/Long: 69˚48’35W’’
Barranco do Geraldo Lat: 10˚55’50’’S/Long: 69˚46’02’’W Cavalcante Lat: 10˚55’42’’S/Long: 69˚49’53’’W Barraco de Elizete Lat: 10˚ 56’25’’S/Long: 69˚45’44’’W Ipiranga Lat: 10˚ 57’09’’ S/Long: 69˚ 39’22’’W Patos Lat: 10˚ 55’00’’ S/Long: 69˚ 55’00’’W
contendo o material fossilífero corresponde ao conglomerado maciço, e desse modo observou-se níveis litológicos que apresentavam características de fertilidade adequadas para análise palinológica.
A escolha do material de subsuperfície e superfície foi feita baseando-se na tabela de cor do sedimento de cinza-claro a preto (Arai, 1982) e granulometria fina com maior concentração de matéria orgânica e conseqüentemente, mais rica em palinomorfos.
As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos, lacradas e identificadas quanto à localidade e/ou profundidade. Em seguida, foram transportadas ao Laboratório de Palinologia do INPA onde foram preparadas, analisadas e os palinomorfos identificados.
4.4. Preparação das amostras
A metodologia utilizada foi descrita por Uesugui (1979) e consiste no ataque com ácido clorídrico e fluorídrico de modo que não restem mais resíduos de materiais inorgânicos como: carbonatos, silicatos e matéria orgânica carbonizada.
Em linhas gerais o tratamento empregado foi: maceração das amostras, ataque com HCL a 32% por 2 horas para eliminação de carbonatos. Em seguida com HF a 40% por 18 horas para eliminação de silicatos, para retirada do produto resultante (fluorsilicato) utiliza-se HCL a 10%. Em todas as etapas lava-se com água destilada por três vezes para neutralizar a ação dos ácidos. Após a acidificação das amostras, peneirou-se em malha de 200µm visando eliminar a parte inorgânica grosseira e assim concentrar os palinomorfos na fração restante.
Nos casos de sedimento com muita matéria orgânica carbonizada utilizou-se solução de Schulze composta por HNO3 e KCLO3 de 15 min. a 1 hora dependendo do grau de
oxidação da amostra. O tempo de duração é determinado pela mudança da cor de preto para castanho (Antonioli, 1998).
Após a lavagem com HCL a 10% e, em seguida com água destilada foi feita a preparação da amostra para a separação de constituintes orgânicos pela diferença da densidade entre eles. Esse método consiste na separação por flotação utilizando ZnCl2 de densidade entre 1,95 a 2,0 que é então, centrifugado por 20 minutos em velocidade de 1500 a 2000 rpm. A parte sobrenadante é retirada e novamente submetida a centrifugação com ZnCl2 por 20 min. a 1500-2000 rpm. O anel resultante na parte superior é colocado em outro tubo com álcool comercial e centrifugado por 5 min. a 1500-2000 rpm. O resíduo foi lavado com água destilada por 1 min. e em seguida centrifugado com HCL a 10% por 1 min. em velocidade de 1500-2000 rpm.
Finalmente, as amostras foram lavadas por três vezes com água destilada. Entretanto, quando encontrado o material húmico nas amostras adicionou-se KOH sendo o material aquecido em banho-maria por 15 min. Após essas etapas o resíduo foi então peneirado com malha de 10 µm e a fração retida na peneira foi transferida para tubos de 10 ml para a etapa seguinte.
A preparação das lâminas foi feita adicionando uma gota do resíduo, duas gotas de água e uma gota de goma de acácia sobre uma lamínula em uma placa aquecedora com temperatura de aproximadamente de 30ºC. As lamínulas devidamente secas foram coladas com entellan em lâminas de vidro e identificadas com relação: localidade e profundidade.
Para análise palinológicas foram confeccionadas quatro lâminas de cada amostra.
As lâminas foram analisadas na objetiva de 40x com auxílio do microscópio óptico Axioplan plus da Zeiss e fotografadas com máquina MC-80 acoplada, utilizando-se filme ISO 100 da Kodak.
4.5. Análise polínica
A análise polínica baseou-se na identificação (análise qualitativa) e contagem (análise quantitativa) dos palinomorfos contidos nos sedimentos amostrados.
A análise qualitativa consistiu na identificação dos morfotipos presentes no material estudado. Nesse caso a identificação foi feita por comparação com a coleção de referência do Laboratório de Palinologia do INPA com auxílio da Dra. Maria Lúcia Absy e os Drs. Luzia Antonioli da UERJ e Rodolfo Dino do CENPES/PETROBRAS e UERJ e por consulta a literatura palinológica existente (Germeraad et al. (1968); Lorente, 1986; Muller et al., 1987;
Hoorn, 1993; Jaramillo & Dilcher, 2001).
Após a identificação, os palinomorfos foram fotografados em microscópio óptico Axioplan plus da Zeiss em objetiva de 100x.
Foi feita a descrição morfológica e feitas medidas do diâmetro equatorial de cada tipo.
Para cada tipo estudado foi indicada afinidade botânica do mesmo. Para todas as espécies estudadas foram mencionados os nomes dos autores que as descreveram e quando possível, o número da página do trabalho onde se encontra a descrição.
A análise quantitativa baseou-se na contagem de 300 grãos de cada amostra. Em seguida, foram feitos cálculos da freqüência relativa dos tipos para se poder estimar o tipo de vegetação predominante e a idade de sedimentos pela existência de marcadores bioestratigráficos. Os palinomorfos analisados foram enquadrados em quatro categorias: 1) Elementos aquáticos: Azolla sp., Chomotriletes minor, Magnastriatites grandiosus, 2) marcadores bioestratigráficos: Grimsdalea magnaclavata e Crassoretitriletes vanraadshoovenii, 3) marcadores ambientais: palmeiras (M. franciscoi), gramíneas (M.
annulatus) e pteridófitas, 4) outras angiospermas e outros esporos.
Com os resultados da análise palinológica foi elaborado um diagrama que apresenta as curvas indicando as flutuações dos diferentes taxa encontrados nas amostras. Os diagramas polínicos foram elaborados por meio da utilização do programa TILIA 5.0 e TILIA GRAPH (Grimm, E. Illinois State Museum) de acordo com as percentagens dos tipos ao longo dos níveis estratigráficos.
4.6. Interpretação Paleoambiental e Idade.
Estudos de interpretação paleoecológicas e de datações relativas são realizados por meio de presença ou ausência de determinados tipos que tenham um significado ambiental e bioestratigráfico, respectivamente.
Para o estabelecimento do paleoambiente foram utilizadas referências que continham informações sobre afinidades botânicas, ecológicas (Germeraad et al, 1968; Frederiksen, 1983; Lorente, 1986; Muller et al., 1987; Hoorn, 1993; Antonioli, 2001; Jaramillo & Dilcher, 2001). Como indicadores de ambientes continentais aquáticos e terrestres foram estabelecidos grupos:
- Elementos continentais: presença de fragmentos quitinosos de conchostráceos, grãos de pólen, esporos de pteridófitas, briófitas.
- Elementos aquáticos: cistos de algas, Chomotriletes minor, Azolla sp., M. grandiosus.
- Elementos costeiros: associação de Rhizophora (Zonocostites ramonae) e Acrostichum (D. adriennis).
Os palinomorfos encontrados foram enquadrados em biozonas definida por Lorente (1986) e Hoorn (1993) para definir a idade dos sedimentos analisados.