3. RESULTADOS
3.4. COMPOSIÇÃO GERAL DA DIETA
3.4.1. Material Vegetal
As espécies vegetais utilizadas pelos grupos ao longo de todo o período de estudo estão listadas nos Anexos 9 e 10. É interessante notar que, mesmo considerando a extensão pequena e a proximidade das duas áreas de vida, apenas 21 do total de 40 espécies foram comuns aos dois grupos.
Os taxa de frutos explorados foram aqueles citados na literatura, consistindo de espécies que tipicamente produzem frutos pequenos, doces e polposos. Uma semelhança entre os grupos foi a exploração intensiva de um pequeno número de espécies. Para Cm1, somente três espécies de frutos, Inga alba (ingá), Mezilaurus itauba (itaúba) e Humiria balsamifera (imiri) representaram 72,06% dos registros de fruto em 2000 (Figura 23). Para Cm2, o mesmo padrão foi observado, com 57,54% dos registros fornecidos por Sacoglottis sp. (achuá),
Miconia sp. e Fru412. Interessante notar a falta de registros do consumo do fruto de T. guianensis por membros de Cm2, mesmo em observações avulsas, que pareceu ser resultado
da inviabilidade dos frutos produzidos pelos indivíduos localizados dentro da área de vida deste grupo (ver detalhes em Anexo 9). Outro detalhe importante pareceu ser o maior número de espécies exploradas por Cm2 (17 contra 10 espécies exploradas por Cm1).
Espécies de Frutos Consumidos
0 5 10 15 20 25 30 35 40 Inga alb a Mezilaurus itaub a Humiria b alsamifera Tapirira guianensis Casearia gavitensis Miconia sp.1 Sacoglottis sp. fru412 Myrciaria sp.1 Outras 3 spp. Outras 9 spp. E s p é ci es % dos registros Cm1 Cm2
Figura 23: Contribuição relativa de espécies que contribuíram frutos para a dieta dos grupos de estudo no ano-base de 2000.
Com relação às gomas, ressalta-se o pequeno número de espécies exploradas (seis, Anexo 10), obtidas através de perfurações nos troncos e galhos ou por exploração oportunista, no caso de exsudação provocada em resposta a ataques de insetos ou a quebra de galhos. Duas espécies (Buchenavia sp. e Lacistema sp.) nunca foram roídas, sendo a exploração de goma sempre oportunista, enquanto o uso das outras três espécies (Cochlospermum orenocensis,
Anacardium ocidentale e Swartzia sp.) foi exclusivamente por perfuração. Somente no caso
de Tapirira guianensis foram registrados os dois tipos de exploração, embora a exploração oportunista foi relativamente rara (no ano-base, somente 12 registros para Cm2 {6,81% do consumo de goma desta espécie} e nenhum para Cm1).
Tapirira guianensis (tapiririca), foi especialmente explorada por Cm1 (73,60% dos
registros de consumo total de gomas). Para Cm2, a maior parte do consumo (80,25%) foi proveniente de três espécies, Cochlospermum orenocensis (envira-branca), Anacardium
ocidentale (cajú) e Buchenavia sp. (Figura 24).
Espécies de Gomas Consumidas
0 10 20 30 40 50 60 70 80 Anacardium ocidentale Buchenavia sp. Cochlospermum orenocensis Lacistema sp. Swartzia sp. Tapirira guianensis Es p éc ie s % dos registros Cm1 Cm2
Figura 24: Contribuição relativa de espécies que contribuíram goma para a dieta dos grupos de estudo no ano-base de 2000.
Outro item vegetal importante foi o néctar de duas espécies, Symphonia globulifera (anani) e Mabea angustifolium. Os membros de Cm1 consumiram néctar somente de S.
globulifera, em virtude da aparente ausência de M. angustifolium da sua área de vida. Esta
última espécie era comum em algumas partes da área de vida de Cm2, e foi explorada em maio e junho de 2000. Somente 13,39% do total de consumo de néctar por Cm2 foi representada por M. angustifolium.
Symphonia globulifera é encontrada nas proximidades do igarapé Camarão, sempre
ocupando solo encharcado, com alguns indivíduos emergentes, com altura acima de 20 metros. Uma vez que em 2000, o grupo Cm1 utilizou a maior porção de área banhada pelo igarapé, este grupo tinha mais acesso a este recurso que o grupo Cm2, cujo consumo de néctar de S. globulifera ocorria exclusivamente na área de sobreposição, representada pelo quadrado C910. Neste quadrado ocorreram intensas disputas pelo acesso a três indivíduos da espécie durante os meses de setembro e outubro de 2000.
Nestes meses, os indivíduos apresentaram um comportamento semelhante ao “forrageio de ponto central” descrito para Saimiri por Terborgh (1983), um padrão exclusivo de exploração deste recurso. Os grupos chegaram a permanecer até 06:30 horas ininterruptas em volta de quatro indivíduos de S. globulifera, sempre separados por uma “linha imaginária” que denotava um limite territorial que nenhum animal ultrapassava, sob risco de intensos confrontos até com embates físicos. Nestas horas, os grupos ficaram confinados em uma área de aproximadamente 1000m2, ora se alimentando do néctar e ora em displays territoriais que envolviam apresentação de genitália, marcação supragenital e suprapúbica, e urinação (Tabela 12).
Tabela 12: Horários de permanência constante dos grupos num mesmo quadrado, para exploração e defesa do néctar de Symphonia globulifera.
Dia Cm1 Cm2 Observação
24/09/00 06:55 até 14:05 07:10 até 11:20 07:10 até 11:20 disputa intensa. Depois Cm1 fica de 10:20 a 12:44, em um cipozal, aparentemente “escondidos” em posição vigilante.
26/09/00 06:25 até 08:40 ? - 30/09/00 07:50 até 08:40
13:10 até 14:42
? até 07:45 Aparentemente “escondidos” em cipozal, guardando S. globulifera.
03/10/00 06:30 até 09:55 05:50 até 10:55 Cm2 fica 06:56 a 10:00 na mesma árvore 05/10/00 06:08 até 11:15 06:04 até 11:10 Encontro intenso, de 5 horas ininterruptas. 06/10/00 ? 13:35 até 15:49 -
07/10/00 07:15 até 10:05 13:52 até ?
05:58 até 12:32 13:05 até 14:03
Cm2 fica 06:32 em cerca de 10 m2, andam 30 metros e voltam por + 1 hora para S. globulifera. 26/10/00 06:55 até 11:20 09:50 até 11:20 Encontro intenso, Cm1 fica “escondido” em
cipozal de 09:50 até 11:20.
Gill et al. (1998) avaliaram a longevidade média de flores de S. globulifera, como 31,1+1,2 horas, com uma produção de néctar de 3-130 µl por flor. Ainda que uma série de fatores possa afetar a quantidade de néctar produzido, uma única flor pode fornecer uma quantidade substancial de néctar para pequenos polinizadores ao longo do dia, especialmente flores que não foram visitadas previamente. Este comportamento de “ponto central” poderia então ser explicado, pois os animais aparentemente esperavam pela produção de néctar ao longo do dia, além de defender este recurso em período de sua alta produtividade e da relativa escassez de outros recursos.