2 CAPÍTULO I – GRAMÁTICA, GÊNEROS TEXTUAIS E ENSINO DE
2.3 DO ALICERCE CONCEITUAL
2.3.2 Materialidade discursiva: gêneros textuais
A teoria dos gêneros do discurso ganhou destaque no Brasil a partir de 1995. A nosso ver, isso se deve, principalmente, ao fato de estar postulado nos PCNs-LP a eleição do conceito de gêneros, constitutivos do texto, como unidade básica do ensino-aprendizagem de LP. Nesse documento, é destacado que o texto (oral e escrito) deve dispor de uma descrição dos elementos regulares e constitutivos do gênero. Dito de outro modo, que os textos se configurem tendo em vista restrições de natureza temática, composicional e estilística, que os particularizem e os diferenciem diante da diversidade dos gêneros.
De acordo com Bakhtin (2003), essa diversidade de gêneros são inesgotáveis haja vista ser inesgotável a atividade humana que a todo o momento cria e recria um repertório de gêneros discursivos perpassando desde uma breve réplica de um diálogo familiar até tratados escritos científicos. Por isso, o autor distinguiu os gêneros em primários (considerados simples) e os secundários (mais complexos). Os primeiros se presentificam nas condições da comunicação discursiva mais
imediata, enquanto os secundários estão na esfera de um convívio cultural mais desenvolvido e relativamente mais estabilizado, como o artigo científico, romance, entre outros. Ressalte-se que essa distinção não quer dizer um enrijecimento dos gêneros, mesmo porque, os secundários incorporam os gêneros primários como
[...] por exemplo, a réplica do diálogo cotidiano ou da carta no romance, ao manterem a sua forma e o significado cotidiano apenas no plano do conteúdo romanesco, integram a realidade concreta apenas através do conjunto do romance, ou seja, como acontecimento artístico-literário e não da vida cotidiana (BAKHTIN, 2003, p. 264).
Sob essa ótica, compreendemos, do mesmo modo que Marcuschi (2008), que é impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, seja ele primário ou secundário. Por essa razão, a língua, como unidade de qualquer nação, passa a integrar a vida, já que, a materialidade dos gêneros supõe uma atividade humana discursiva num determinado momento histórico e social. Como afirma Bakhtin (2003), todas as esferas da atividade humana estão associadas ao caráter multiforme da linguagem, embora esse dado não contradiga a unidade nacional de uma língua que, à sua vez, efetiva-se em gêneros do discurso.
Tal efetivação, mediante uma concepção discursiva de língua, conforme já vimos, recai na relativa estabilidade dos gêneros, os quais se consolidam considerando determinados momentos históricos e dadas esferas sociais. O próprio Bakhtin (1993) vai mostrar as obras épicas como o gênero formado e apreciado na Antiguidade Clássica pelos gregos e o romance como gênero por excelência da ascensão burguesa. Ou seja, em cada momento histórico os gêneros se constituem e são reconhecidos por meio do conteúdo temático, da forma composicional e do estilo de linguagem, características intrínsecas a qualquer gênero presentificado no meio social. Talvez, sem essa relativa estabilidade acordada nas situações de interação discursiva em dados momentos históricos, teríamos que criar, sempre, novas formas enunciativas para que a comunicação ocorresse e, daí, seria impossível se estabelecer um diálogo profícuo entre interlocutores.
Inferimos que, no âmbito desse conceito de gênero defendido por Bakhtin, há uma busca, na atualidade, por parte dos estudiosos, para as questões textuais- discursivas acerca do ensino de LP. Não por acaso, Rojo (2005) destaca que essa base teórica está presente em 95 títulos seniores, 12 dissertações de mestrado e sete teses de doutorado, tendo como referência pesquisa realizada pela Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística - ANPOLL, nos anos de 1995 a 2000. A autora ainda aponta que 63 desses trabalhos se dedicam ao campo da linguagem e da educação, o que reforça a hipótese do impacto dos PCNs- LP sobre esses estudos.
No que se refere ao processo de ensino-aprendizagem de LP, não devemos desconsiderar o dado de que os estudiosos estão tomando como referência o texto “Os gêneros do discurso”, que se encontra na obra “Estética da criação verbal”14
de
Bakhtin (2003). Desse modo, as reflexões desse autor ancoram pesquisas e documentos curriculares, conforme já mencionamos.
Nesse contexto, chamamos a atenção para o fato de que, embora tenhamos adotado a nomenclatura “gêneros textuais”, estamos conscientes de que Mikhail Bakhtin, no referido texto, anuncia a terminologia “gêneros do discurso” ou “gêneros discursivos”. Assumimos o conceito de “gêneros textuais” porque a nossa investigação incide no “chão da escola” e esse último termo aproxima-se mais do que nós, professores, estamos acostumados na nossa prática pedagógica – o texto como unidade de ensino. O que não faremos é conceber essa terminologia e apagar as contribuições discursivas e enunciativas propostas por Bakhtin (2003) na sua arquitetura teórica, em especial, as condições de produção preeminentes dos gêneros do discurso: “alternância dos sujeitos do discurso” materializada na “ativa atitude responsiva”, em que os interlocutores são produtores de sentido; “conclusibilidade”, cuja referência é dada pela “vontade discursiva” do falante, pelas relações entre os interlocutores e pelo tema do enunciado; “endereçamento do discurso”, em que o falante imprime nele um “tom valorativo emocional”, visto que vai levar em consideração as “visões de mundo, antipatias, simpatias” do ouvinte de seu discurso.
Sobre isso, Brait (2000, p. 20) nos alerta que apesar de os conceitos bakhtinianos não se prestarem a aplicações mecânicas, têm a vantagem de possibilitar uma interação mais ampla entre texto e leitores e, por isso, adotar os gêneros implica refletir sobre a esfera em que eles se constituem: “as condições de produção, de circulação e de recepção”. Assim, quando estivermos falando em gêneros textuais, estamos nos referindo aos textos orais e escritos que circulam na nossa sociedade, os quais carregam marcas históricas, ideológicas, linguísticas e
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Koch (2004), por exemplo. aponta que a pesquisa atual sobre os gêneros toma como ponto de partida os estudos de Bakhtin e sua obra “Estética da criação verbal”.
tipológicas e estão associados ao processo interlocutivo nas diversas esferas e situações sociais.
Isso explicitado, chamamos a atenção para o fato de que o conceito de enunciado, gêneros do discurso, gênero textual é debatido por diferentes autores (BARROS, 2003; MACHADO, 2005; DOLZ; SCHNEWLY, 2004; MARCUSCHI, 2008) que, à sua vez, tomam a perspectiva bakhtiniana como norteadora. Barros (2003) apresenta o pressuposto de que a definição de enunciado em Bakhtin aproxima-se da concepção atual de texto, principalmente, pelo fato de essa concepção estar alinhada a um contexto sócio-histórico: “foi preciso que a linguística rompesse as barreiras que limitavam seu objeto à frase, fora de contexto, para que o autor soviético assumisse o papel precursor de antecipador de alguns dos grandes temas linguísticos atuais” (BARROS, 2003, p. 2).
Machado (2005) assenta o seu debate a partir do gênero do discurso romance – interesse, por excelência, de Bakhtin – para mostrar que a teoria dos gêneros engaja-se com uma abordagem linguística centrada na função comunicativa em que ouvinte e falante, por meio da Interação Verbal, dialoguem entre si.
Dolz e Schneuwly (2004) divulgam no Brasil a didatização dos gêneros textuais orais e escritos, mediante o conceito de gêneros como “megaestruturas”, a serem apropriadas pelos alunos no espaço da sala de aula. Para garantir essa apropriação, eles propõem sequências didáticas através de módulos, a fim de assegurar que, ao final das atividades, os alunos deem conta de uma produção final do gênero em estudo, atendendo a sua caracterização composicional bem como às condições de produção.
Na esteira didática dos gêneros, Marchschi (2008) apresenta, com muita lucidez, um estudo sobre os gêneros textuais como unidade de ensino perpassando questões como tipologia, suporte, domínio discursivo, identidade, entre outras. No item “A questão dos gêneros e o ensino de língua”, o autor traz as seguintes problematizações: “será que existe algum gênero ideal para tratamento em sala de aula? Ou será que existem gêneros que são mais importantes que outros?” O autor afirma que não há uma resposta consensual e aposta na sequência didática, pois transpor os gêneros para o ensino é uma maneira de entender o funcionamento social da língua.
Concordamos com os autores acima e considerando a dimensão enunciativa e discursiva bakhtiniana para a atividade interlocutiva nas diversas situações sociais,
acreditamos que, por meio do conceito de gênero, podemos compreender como as formas gramaticais de uma determinada língua podem funcionar; e, não por acaso, esse conceito está relacionado com a concepção de língua anunciada anteriormente. Em outros termos, Bakhtin afirma, em “Estética da Criação Verbal”, que “o emprego da língua efetua-se em formas de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (BAKHTIN, 2003, p. 261). Já vimos na seção anterior e veremos de forma mais detida na seção que trata da concepção de análise linguística, que Bakhtin (2003), ao discutir a caracterização dos gêneros – conteúdo temático, forma composicional e estilo de linguagem – apresenta para nós uma forma de conceber as formas gramaticais da língua na dimensão enunciativa e discursiva dos gêneros textuais.
Por isso, tomamos, nesta pesquisa, o conceito de gêneros textuais sob a égide do autor russo e, nessa perspectiva, os conceituamos como os textos orais e escritos que circulam na nossa sociedade, os quais carregam marcas históricas, ideológicas, linguísticas e tipológicas e estão associados ao processo interlocutivo nas diversas esferas e situações sociais.