PARTE I – ABORDAGEM TEÓRICA
Capítulo 1 A Auditoria Financeira
1.5 Materialidade e Risco de Auditoria
Cabe ao auditor identificar se as demonstrações financeiras estão afetas de distorções materialmente relevantes. Nesse sentido, deve o auditor definir o nível de materialidade que determina a natureza, extensão e oportunidade dos procedimentos de auditoria, de forma a alcançar um risco de auditoria aceitavelmente baixo. Segundo a DRA 320 - Materialidade de revisão/auditoria, o conceito de materialidade é dado da seguinte forma:
“… é um conceito de significado e importância relativos de um assunto, quer considerado individualmente, quer de forma agregada, no contexto das demonstrações financeiras tomadas como um todo. Um assunto é material se a sua omissão ou distorção puder razoavelmente influenciar as decisões económicas de um utilizador baseadas nas demonstrações financeiras. A materialidade não é suscetível de uma definição geral matemática, uma vez que envolve aspetos qualitativos e quantitativos ajuizados nas circunstâncias particulares da omissão ou da distorção. Por conseguinte, a materialidade proporciona um patamar ou ponto de corte, em vez de ser uma característica qualitativa primária que a informação deva ter para ser útil.” (OROC, 1999: §4).
Este conceito é da maior relevância num trabalho de auditoria, na medida em que especifica um patamar teórico a partir do qual as distorções detetadas pelo auditor têm relevância e, como tal, devem estar refletidas na sua opinião sobre as demonstrações financeiras. Boynton et al. (2002) defendem que a materialidade deve ser tomada em linha de conta pelo auditor, quer ao nível da rubrica individualmente considerada, quer ao nível das demonstrações financeiras. Materialidade ao nível da rubrica constitui o nível mínimo de erro ou de classificação imprópria que pode existir no saldo de uma rubrica, para que essa conta possa ser considerada materialmente errada.
Conforme se comprova pela definição de materialidade supra citada, este limite não é de determinação fácil e objetiva uma vez que tal implicaria conhecer o universo dos utilizadores das demonstrações financeiras e o tipo de decisões que tomariam com base nas mesmas. Segundo Toffler e Reingold (2003), só seria possível determinar objetivamente o montante abaixo do qual uma distorção não levaria à alteração das decisões dos utilizadores. Assim sendo, a definição da materialidade é um exercício de juízo profissional do auditor, o qual é auxiliado pela moldura de referência proporcionada pelo conhecimento, por parte do auditor, da entidade e do seu ambiente. Essa mesma estrutura de referência constitui a base de avaliação sobre o nível de materialidade definido se mantém adequado à medida que o trabalho de auditoria progride ou se necessita de ser
ajustado e para que níveis. A definição da materialidade deverá ser feita quer ao nível das demonstrações financeiras como um todo, quer ao nível das classes de transações, saldos de contas e divulgações.
A relação entre a materialidade e o nível de risco de auditoria é inversa no sentido que quanto mais elevado for o nível de materialidade, menor o risco de auditoria e vice-versa. Quando o auditor planear procedimentos de auditoria específicos e, ao longo do trabalho, vier a determinar que o nível de materialidade afinal deve ser mais baixo, o risco de auditoria aumenta. Perante esta alteração, o auditor deverá reduzir o risco de auditoria para um nível aceitavelmente baixo alterando os procedimentos de auditoria que irá adotar, de forma a reduzir a avaliação do risco de distorção material através de testes aos controlos adicionais. Tendo em conta esta relação entre o risco e a materialidade, o auditor procura compensá-la da seguinte forma:
Reduzindo o nível estimado de risco de controlo, se possível, e suportando a redução através de testes de controlo alargados ou adicionais;
Reduzindo o risco de deteção alterando a natureza, extensão e oportunidade dos procedimentos substantivos planeados.
Segundo Mckee e Eilifsen (2000), a decisão dos auditores sobre o nível de materialidade envolve aspetos quantitativos e qualitativos, ou seja, os valores calculados quantitativamente podem aumentar ou diminuir com base no julgamento profissional dos auditores sobre o possível efeito de fatores qualitativos, como por exemplo, o risco de manipulação de resultados, a presença de cláusulas restritivas, iminente aquisição/venda/fusão, iminente oferta de ações, precisão e confiança no sistema de contabilidade. Verifica-se que há uma relação inversa entre o risco de deteção e o nível combinado do risco inerente e do risco de controlo. De acordo com as Normas Técnicas de Revisão/Auditoria:
“O revisor/auditor deve planear o trabalho de campo e estabelecer a natureza, extensão, profundidade e oportunidade dos procedimentos a adotar, com vista a atingir o nível de segurança que deve proporcionar e tendo em conta a sua determinação do risco da revisão/auditoria e a sua definição dos limites de materialidade.” (OROC, 1997: §15)
Para Marques (1997), a materialidade é um conceito de essencial importância para a auditoria externa, que a analisa e avalia em função da maior ou menor relevância das consequências que os erros possam ter nas demonstrações financeiras, por seu lado para a auditoria interna a materialidade não tem de se avaliar necessariamente em termos financeiros.
Conforme refere Barata (1996), a principal preocupação dos auditores será reduzir o mais possível o risco de revisão/auditoria, dado que resulta do facto de a auditoria poder emitir uma opinião errada sobre as demonstrações financeiras. De acordo com a DRA 400 - Avaliação do risco de revisão/auditoria (OROC, 2000a), o risco de revisão/auditoria é o risco de emitir uma opinião errada sobre as demonstrações financeiras, e é constituído por três componentes:
Risco de deteção; Risco inerente e; Risco de controlo.
O revisor/auditor ao avaliar o risco de controlo com o risco inerente, influencia a natureza, amplitude, consistência e oportunidade dos procedimentos substantivos a serem executados reduzindo assim o risco de deteção e portanto o risco de revisão/auditoria a um nível aceitavelmente baixo.
Não menos importante é de referir que o risco de revisão/auditoria é definido em termos de distorção material. Como entende Mckee e Eilifsen (2000), não é possível discutir o risco de revisão/auditoria de uma forma significativa sem também discutir o nível de materialidade correspondente. Em auditoria, a materialidade tem o dom da ubiquidade, deve ser considerada na fase do planeamento, em que são definidas a natureza, extensão, oportunidade e profundidade dos procedimentos de auditoria, na fase de execução do trabalho, conformando o nível de materialidade com o erro tolerável, e imediatamente antes de o ROC emitir a sua opinião, já que tem de fazer uma avaliação do efeito das distorções das demonstrações financeiras. Acresce que uma grande parte dos julgamentos, elaborados pelo ROC ao longo do trabalho de auditoria radica na materialidade (Taborda, 2006).