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MATERIALIDADE: ESCAVAÇÕES E SUA(S) POSSIBILIDADE(S) INTERPRETATIVA(S)

5 O DISCURSO NA SALA DE AULA: ANÁLISE DE UMA PROPOSTA

2 MATERIALIDADE: ESCAVAÇÕES E SUA(S) POSSIBILIDADE(S) INTERPRETATIVA(S)

No que diz respeito à metodologia, utilizei uma entrevista online, direcionada aos TSEs que atuavam nas Secretarias das escolas da rede pública de ensino, já diplomados pelo Profuncionário. A ferramenta utilizada foi o recurso do Google Forms e o questionário contemplava 14 questões, todas de cunho dissertativo. Essas questões ficaram disponíveis para preenchimento no período de 23/05/2016 a 23/08/2016. Foram convidados a participar da pesquisa profissionais de 14 escolas, de Três Lagoas e Jurisdição; aqueles que manifestaram interesse receberam o link por e-mail.

Para o gesto interpretativo, foram selecionados dois corpora e os discursos foram enumerados. No corpus 1, o sujeito foi especificado por TSE, para sinalizar o sujeito pesquisado Técnico em Secretaria Escolar e no corpus 2, DI representa o discurso institucional encontrado nos registros dos discursos oficiais do Projeto do Curso, cuja implantação foi aprovada pelo MEC/SED/MS, como norteador das orientações e práticas pedagógicas e de tutorias.

20 Conforme publicação realizada pelo governo de Tocantins, João Monlevade é sociólogo, filósofo, mestre em administração escolar, doutor em educação pela Unicamp, atuou como professor nos níveis fundamental e médio, como professor da Universidade Federal de Mato Grosso, diretor do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público do Mato Grosso, no período de 1987 -1991, membro do Conselho Nacional de Educação, entre 1996 a 2000. Ele escreveu treze livros, um deles intitulado Treze Lições de como fazer-se Educador no Brasil (2000).

Como materialidade, selecionei dois recortes numerados em ordem crescente, conforme sequência analítica, ancorados nas perspectivas das representações de si mesmo, a partir das condições de produção e dos pressupostos teóricos que partem de uma visão que vem desestabilizar os sentidos já cristalizados.

Procedo à análise ressaltando que a interpretação se dá na relação de gestos interpretativos que deslizam, apesar de ancorarem nas regularidades enunciativas da memória discursiva. Logo, a memória discursiva não deve ser confundida com a memória cognitiva, pois nos acompanha desde o nascimento, sofre alterações que excedem o aspecto linguístico e alcançam o inconsciente. É nesse contexto que se torna complexa.

Assim, com o propósito de compreender como os discursos funcionam e produzem determinados efeitos de verdade, adentro o processo analítico num gesto interpretativo da materialidade discursiva, a partir de uma epistemologia crítica que leva em consideração a diferença e as condições de produção do discurso em pauta. Concordamos com Guerra (2008) que as memórias podem tornar possível a leitura do outro em diferença, pois depoimentos individuais de vivências e experiências trazem a cultura e a tradição de um povo, assim como os sentimentos conflituosos.

Começo os gestos interpretativos com os recortes abaixo, mobilizando as representações que envolvem o sujeito TSE e as relações que os DIs fomentam nesse sentido.

(TSE-1) (...) me vejo inserido neste espaço também como um "EDUCADOR".

(DI-1) Proporcionar formação e habilitação profissional aos educadores não docentes que atuam nas escolas das Redes Estadual e Municipal de Ensino (...).

Em TSE-1, a materialidade linguística “me vejo inserido”, instaura o “eu” no discurso ao utilizar o verbo no presente do indicativo (NEVES, 2011 p. 18) e remete ao efeito de sentido ilusório da não margem, da não periferia. Irrompe o lapso ao se referir ao espaço escolar, utilizando o pronome demonstrativo “neste”. Esse lapso pode ser interpretado como a escola em que ele gostaria de estar, de modo a lhe permitir ficar assim, com suas ações administrativas e pedagógicas, considerando a alteridade em relação ao docente que já atua e define o espaço escolar como “Educador”.

O sintagma “neste espaço” eclode efeito de sentido de pertencimento, com o uso do pronome demonstrativo “neste”, referenciando o “eu/técnico” dentro do contexto/espaço escola, que, até então, carregava o efeito de “estrangeirismo”, agora, como técnico, é

“hóspede”, “acolhido”. Importante destacar que os itens lexicais “neste espaço” também provocam efeito de sentido de interdição: não é a sala de aula. Isso relaciona-se à lógica do

“micropoder”; é possível perceber que certos enunciados, ao mesmo tempo, produzem opressão e são a expressão de uma força que os oprime. O enunciado emite o efeito de sentido de “garantias”, no entanto, “elas não existem”, “não são dadas”, mas, sim,

“aparecem e se manifestam” quando considerado o discurso institucional enquanto democratiza(dor) das relações profissionais no espaço escolar. Portanto, eclode a voz do estereótipo de que o sujeito administrativo não está na mesma posição de relação de poder e saber que o docente “Educador”, apesar de suas experiências específicas21.

21 Todo Curso Técnico ofertado pelo Profuncionário envolve, em sua carga obrigatória, a Prática Profissional Supervisionada (PPS). A PPS é um Estágio Supervisionado, conforme define a Lei de Estágio, ou seja, um ato pedagógico curricular, sujeito a acompanhamento, controle e avaliação, que supõe não somente registros e

Logo, é marcado pela identidade de sujeito de desejo (CORACINI, 2007, p. 169), reforçada pelo discurso jurídico de direito que perpassa o sujeito técnico ao lhe conceder o título de “Técnico”, que o autoriza ao pertencimento ao espaço escolar como sujeito movido por outros saberes e, assim, permite a ilusão de reconhecimento e de inteireza. Essa ilusão é confirmada pelas políticas públicas que não trouxeram valorização profissional (no sentido salarial) e não trouxeram a valorização na prática cotidiana – muitos “Técnicos” não estão envolvidos nos projetos educacionais da escola.

Por outro lado, a memória discursiva que é ativada causa outro efeito para o TSE, principalmente quando se depara com o discurso institucional, conforme citado em D-1. O enunciado discursivo “Proporcionar formação e habilitação profissional aos educadores não docentes que atuam nas escolas das Redes Estadual e Municipal de Ensino (...)” é o objetivo geral do Projeto do Curso Técnico em Secretaria Escolar, aprovado como norteador.

Esse recorte mobiliza sintagmas “educadores não docentes” que eclodem efeito de sentido de pertencimento, causando o efeito ilusório do “ser e não ser” educador, falta constitutiva do sujeito.

Na vertente da alteridade, o sintagma “inserido” em TSE-1 emerge o efeito de sentido de apropriação porque nega o que exclui. Promove a noção de discurso jurídico ao ecoar o sentimento de gozo (conquista) constituído em relação aos demais membros do espaço escolar que não receberam a formação e relacionado ao efeito de sentido de saber/poder.

Conforme pondera Guerra (2008, p. 207), “onde há saber, há poder porque os mesmos mecanismos que contribuem para melhorias também são pensados como formas de controle social”.

O enunciado “me vejo inserido neste espaço” aponta noções de discurso de igualdade e de reconhecimento ao marcar o discurso com o verbo no presente do indicativo.

Para Foucault (1979), o sujeito que possui saber possui também poder. É a relação de saber/poder que autoriza o sujeito a proferir discursos X, e não Y. Diante do exposto, concordamos com Guerra (2008, p. 31): “o ser social nasce com o exercício de sua linguagem”. Explorar esse contexto língua/escrita depende de considerar que o dizer do sujeito é determinado sempre por outros dizeres; todo discurso é determinado pelo interdiscurso (como compreendido por Coracini, 2007, p. 9) como “fragmentos de múltiplos discursos que constituem a memória discursiva” e, por serem de esfera subjetiva, sofrem alterações e modificações ao serem ativados os fios discursivos.

Problematizo a escrita de si, em especial, o sintagma “inserido”, traçando-o na perspectiva discursiva de (in)ser(ido) ao provocar deslocamento e deslizamento, em que ouso sinalizar a nuance de uma inferência à segunda pele - “(in)ser(ido)” – ao falhar na língua a camuflagem do inconsciente: ser e não ser educador (como se houvesse a possibilidade de um antes e agora), com duração e términos planejados/previstos. Ao mesmo tempo, eclodem fios de uma subjetividade que se concentra no imaginário, no inconsciente – a permissão de um novo sujeito, do gozo, da realização. Semanticamente,

“(in)ser(ido)” carrega consigo herança da cultura ocidental, entrelaçada pela política neoliberal e de globalização: o espaço é concedido a partir de outrem que pode autorizar, relação de domínio e dominado porque não é apenas uma questão de mudança na postura do TSE diante do conhecimento, diante dos outros, mas uma relação com o que ele diz e é permitido dizer. Se considerarmos que “inserido”, segundo o dicionário Michaelis (2008, p.

475), significa introduzir, essa noção é (des)construída aqui, uma vez que não existe a

relatórios de atividades desenvolvidas, mas inclui a interação presencial entre o educando e o educador, neste caso, o tutor(a) e o funcionário-estudante (BRASIL, 2014, p. 82).

relação democrática de direito, mas é autoritária em sua subjetividade ao lançar, como fator diferencial, ser formado para participar “neste espaço” – escola.

Ainda na esfera do inconsciente, o uso do advérbio “também” sinaliza o equívoco, dado que promove o efeito de sentido da noção de inclusão, conforme afirma NEVES (2011, p. 240), e emerge a referência inclusiva do sujeito Técnico Escolar. O efeito de sentido é ambíguo, uma vez que emergem outras vozes que o constituem enquanto sujeito cindido da pós-modernidade.

Nesse sentido, citamos Guerra (2008, p. 168) que, na esteira dos estudos culturais, sinaliza o quanto os sujeitos considerados periféricos estão sempre em lugares

“determinados”, portanto, profissionais sem autonomia. Essa falta de autonomia está associada às relações de saber/poder que demarcam e direcionam as normas e condutas do sujeito.

O uso do advérbio “também” evoca no sujeito o sentido de reiteração da necessidade de reafirmar a importância do novo contexto adquirido profissionalmente com a formação por apontar a voz da “inclusão” e, de outro lado, emerge a presença de estilhaços, fragmentos desse mundo da performance, da aparência que define o mundo contemporâneo no espaço escolar. Esse discurso performativo, conforme ressaltado por Santandel (2012, p. 45), interessa ao Estado, enquanto articulador de políticas públicas, como forma de garantir que os investimentos tecnológicos na educação – e aqui, em especial, o PDO – contribuam para uma “nova identidade” desse servidor “Técnico”, como parte integrante das práticas pedagógicas, e que seja estimulado, a cada dia, a ser um “educador”

a serviço da educação, concomitantemente à atuação com os demais segmentos da unidade escolar.

Nesse sentido, são estimuladas diferentes ações que são colocadas em prática a partir dos projetos específicos liderados pela equipe de docentes, coordenadores e parceiros.

Como afirma Hall (2005, p. 27), “é na relação com o outro que me identifico como não-outro”.

Na sequência, o sintagma “EDUCADOR” permeia a noção de conflito, manifestada na materialidade linguística, pela ênfase no termo grafado em letras maiúsculas destacando a alteridade (CORACINI, 2007). Tal conflito, subjetivo, pessoal (conforme uso da primeira pessoa do singular), mobiliza o aspecto identitário periférico e ecoa a voz do sujeito técnico em relação ao sujeito professor/educador porque o discurso é sempre uma paráfrase, interpretação. Embora os usos de advérbios tendam a amenizar as disparidades, a ênfase na palavra (grafada em maiúscula) aponta a diferença flagrante para ele enquanto TSE.

No recorte discursivo analisado, a representação do TSE pauta-se na alteridade (impressa no e pelo olhar do outro). Sua referência está norteada em relação ao outro e pelo outro. Nota-se que o sujeito enunciador enaltece e, de certa forma, resgata a função social exercida pelo professor/educador, ao enfatizar a voz desse outro pelo uso das aspas e pelo uso da caixa alta. Aciona, assim, a memória discursiva de professor.

O uso de aspas sinaliza alteridade (NEVES, 2011, p. 49), reforça a matriz identificatória que define a noção simbólica de professor, emitindo o efeito de sentido de valorização alcançada com a formação. O sintagma “EDUCADOR” remete ao discurso institucional da Secretaria de Estado de Educação de MS que prevê, segundo o Projeto do Programa Profuncionário, o trabalho parceiro entre os professores e técnicos.

Essa relação de parceria é direcionada na proposta atual de governo do estado de MS, quando incentiva ações voltadas para o denominado “Protagonismo”22, bem como amparadas pelo discurso oficial do MEC que afirma que o que torna um funcionário de escola (seja ele docente ou não) um educador é o compromisso que ele tem com a aprendizagem de seus estudantes, com os valores que são repassados através de suas atitudes, atrelado ao fato de manter seus conhecimentos atualizados (BRASIL, 2012).

Abro um parênteses nesse quesito do “protagonismo com formação cidadã23” para registrar que, no Governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), em setembro de 2004, na obra divulgada pelo MEC e SEB, com consultoria de João Monlevade, intitulada Por uma política de valorização dos trabalhadores em educação: em cena, os funcionários de escola, ocorre um dos primeiros movimentos de propostas de políticas públicas que envolvem

“todos os integrantes da escola”. De forma geral, essas ações são decorrentes das necessidades de gestão pública, a exemplo do que ocorre hoje, o desafio para os gestores municipais/estaduais/federais. A Lei nº 13.005 de 25 de junho de 2014, que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) com vigência 2014/2024 e dá outras providências, afirma, na meta 11, a necessidade de “triplicar as matrículas da educação profissional técnica em nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% de expansão no segmento público” (BRASIL, 2014). Portanto, a força do capitalismo e da geração de demanda também flui neste sentido, movendo os dirigentes a cumprirem ações que contemplem tais demandas. No entanto, o efeito de sentido é outro.

A representação de educador para o TSE não é a mesma que embasa o órgão formador que, nas instâncias das relações de saber/poder, está “autorizado” a defini-lo. De um lado, temos a essência da formalização e, de outro, a essência da realização profissional – completamente divergentes entre si. É nesse contexto que o sintagma “educador” é e está na vertente da alteridade. O sujeito TSE encontra-se no entre-lugar, à margem, e sua representação está relacionada na e pela alteridade, marcada pela permanência do diferencial entre administrativos/servidores/técnicos X docentes.

Ainda na perspectiva da normatização e juridicidade, quando o discurso oficial focaliza a formação, emite aos contemplados o efeito de sentido de valorização diretamente dada, merecida. No entanto, problematizo essa raiz. No recorte de DI-1, o uso do sintagma verbal “Proporcionar formação e habilitação profissional” causa um deslocamento de cunho ideológico, no tocante à representação do que é ser profissional ao (des)construir a

22 Exemplo dessa política é o denominado Protagonismo Digital, conforme divulgado no site, “A Secretaria de Estado de Educação de MS, em parceria com o Instituto Inspirare, o Instituto Natura e a Fundação Telefônica Vivo, disponibiliza a PROTAGONISMO DIGITAL, uma plataforma de busca de recursos digitais de aprendizagem, para professores e estudantes da rede estadual de ensino” (Disponível em http://www.protagonismodigital.sed.ms.gov.br. Acesso em: 12 jul. 2018). O protagonismo, no discurso oficial do MEC (2004, p. 14) é sinalizado na “concepção de “educação cidadã”, afastando os modelos padronizados e excludentes, favorecendo um ambiente de aprendizagens colaborativas e interativas onde todos os integrantes da escola são considerados protagonistas do processo educativo”.

23 A defesa da formação cidadã está presente no discurso oficial do MEC, conforme lê-se: “A escola pode e deve ser o mais importante espaço de formação cidadã. O Ministério da Educação, em parceria com o Consed, a Undime e a CNTE, acolheu, entre outras, como uma de suas principais políticas de promoção da qualidade social da educação básica escolar a valorização dos trabalhadores em educação. Para concretizar tal intenção, voltou-se para a implantação da Rede Nacional de Formação Continuada, a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), a elaboração do Pró-Infantil (programa de formação inicial, em nível médio, de professores que atuam na educação infantil), entre outros” (BRASIL, 2004, p. 07).

ideia de “obrigatoriedade” que o curso propõe com o uso do verbo proporcionar, deslocando seu efeito de sentido.

Como já citado anteriormente, existe o diferencial entre administrativos/

servidores/técnicos X docentes, que não está exposto no discurso institucional. Em DI-2 abaixo, o excerto promove uma representação do Estado como uma instituição que inclui os profissionais da educação não docentes em novo parâmetro, conforme projeto do curso, nas escolas públicas. A instituição Estado constitui, assim, uma instância normativa em relação às estruturas e práticas sociais que vigoram no contexto escolar, a partir da realização dos Cursos Técnicos no Estado de MS, sinalizando possíveis mudanças e valorização. Vejamos:

(DI-2) Por muito tempo os profissionais da educação não docentes foram recrutados para atuarem nas escolas públicas (...)

Adoto, neste trabalho, a concepção de sujeito da linguagem ou do inconsciente, o que pressupõe as noções de discurso, inconsciente, desejo e gozo. Nesse sentido, a materialidade analisada perpassa o(s) deslocamento(s), o(s) deslizamento(s) e (trans)formações dos significantes porque não carregam consigo e em si o sentido constituído, positivista, narcisista. Para nós, analistas de discurso de linha francesa, o sujeito se inscreve e se constitui através da ordem do discurso, cujos efeitos de sentidos estão entrecruzados nas relações de saber e de poder. Por isso, considero esse sujeito conforme esteira foucaultiana e pecheuxiana enquanto sujeito associado à ordem do social e do discursivo, com críticas ao sujeito logocêntrico, cartesiano, positivista.

Nessa perspectiva, problematizo o discurso institucional presente no Projeto do Curso Técnico em Secretaria Escolar a partir da materialidade “atuarem”, verbo no futuro do subjuntivo, que remete ao efeito de sentido de sujeito padronizado, em que o individual sofre subjetivação e insere novos comportamentos. É verbo com conotação de “autorizo”, de “concordância”. “Atuar” transmite semanticamente o efeito de “representar”.

Ao mesmo tempo, o discurso utilizado remete-nos ao efeito de sentido de legitimação conforme diretriz promovida a partir do domínio político, cuja argumentação instaura no interlocutor a impressão de validade do “direito oferecido” diferenciando a atual situação dos servidores - de outrora –, sinalizado pelo uso semântico do sintagma de valor adverbial

“por muito tempo” que, no contexto frasal, indica duração e apresenta-se como qualificador (NEVES, 2011, p. 270).

Além disso, mobilizo efeito de sentido na perspectiva lacaniana, pautada na obra de Peter Stallybrass (2016), intitulada O casaco de Marx: roupa, memória, dor24, em que sinalizo a desconstrução do que é respaldado no campo positivista como logística de atuação para os servidores e, posteriormente, técnicos. O verbo transitivo “atuar”, inconscientemente, permite ao sujeito TSE a transição para a representação possível - uma “pele/identidade”

24 Trago as contribuições desta obra na perspectiva de contraponto. Para Marx, a mobilidade está no efeito das roupas, como parte da memória (p. 35). Minha proposta é utilizar o esboço marxista para além do papel de simplesmente “fetichizar”, mas para a visão de efeito de sentido como “pele”, para demarcar a forma de identidade inconscientemente “visível” que o sujeito almeja alcançar em relação ao outro. E, assim, ter a ilusória sensação de identidade “completa”, um uso permitido a partir do “ego” para obter-se “poder”, mesmo que temporariamente, em dada condição de produção.

sobre si e para si. Ao tornar-se Técnico, o Outro o constitui. O desejável, o completo, a ilusão de completude e, assim, inconscientemente, (in)ser(ido).

Essa representação movediça incentivada pelas políticas públicas é reforçada ao considerarmos o uso recorrente dos outros sintagmas “profissionais de educação”, “não docentes”, “educador”, presentes no discurso institucional, marcando a relação limítrofe que o diferencia do docente em sala de aula, mas que, ao mesmo tempo, causa o efeito de sentido de “paridade”, de “sintonia nas ações” – como se o espaço escolar também fosse, para esse técnico, o campo de saber dentro da pedagogia educacional alicerçada pelo Estado. O uso de locuções adverbiais “também” e “como” em TSE-1 indica diferentes efeitos de sentido: de inclusão, de comparação e expressa condição de equivalência ou de similitude e confirma a demarcação de espaços dentro do contexto escolar – que movem ações diferenciadas, como se permitisse a fluidez identitária.

Esses sintagmas apresentados em DI-1 confirmam a relação existente da exterioridade. De acordo com Orlandi (2009, p. 30), “os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não dependem só das intenções dos sujeitos”. Logo, essa reflexão antecipa o efeito de sentido presente no uso do verbo recrutar no particípio – “recrutados”, mobilizando a essência de um tempo/espaço específico, se considerarmos o percurso histórico desses servidores públicos que, diretamente, envolve as ações políticas regionais, em especial as do estado de MS – centro da nossas problematizações porque deslizam para o efeito de sentido de “libertação”, de “valorização” e de “justiça” que culminam com a oportunidade de formação técnica estruturada pelo Ministério de Educação e Cultura, ao legitimar a oferta e implantação do Profuncionário nos estados brasileiros.

Nessa esteira, a afirmativa do sujeito TSE-1 com uso de locuções adverbiais encontra respaldo semântico fomentado a partir das relações de saber/poder, uma vez que a formação, mesmo que pelo viés da simbologia, concede-lhe essa representatividade profissional conforme logística de formação. Seguindo Cavallari (2003, p. 48), que discute a noção de autoridade na perspectiva do espaço escolar, é importante fazer também a mesma reflexão para o sujeito TSE. Por isso, mesmo que a autora não aborde a questão dos Cursos

Nessa esteira, a afirmativa do sujeito TSE-1 com uso de locuções adverbiais encontra respaldo semântico fomentado a partir das relações de saber/poder, uma vez que a formação, mesmo que pelo viés da simbologia, concede-lhe essa representatividade profissional conforme logística de formação. Seguindo Cavallari (2003, p. 48), que discute a noção de autoridade na perspectiva do espaço escolar, é importante fazer também a mesma reflexão para o sujeito TSE. Por isso, mesmo que a autora não aborde a questão dos Cursos