3 O BODE GAIATO NAS MÍDIAS SOCIAIS
3.1 O ethos discursivo em memes do Bode Gaiato
As personagens do Bode Gaiato apresentam características muito comuns e atribuídas aos nordestinos. Assim, “o auditório é induzido a se identificar com o discurso através do ethos que possui valores socialmente construídos” (CAVALCANTE, 2018, p. 65), que podemos perceber muito bem evidenciados nos memes do perfil.
Uma das características das personagens do Bode Gaiato, em específico a figura da Dona Zefinha, é a forma rude com que trata as pessoas. Para a personagem, é comum tratar as pessoas daquela forma, pelo fato de fazer parte da personalidade que lhe foi atribuída pelo seu criador, como podemos ver na Figura 4.
Figura 4 - “Forma rude”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Percebemos que a atendente do comércio oferece a Dona Zefinha uma sacola, o que para ela é apenas uma pergunta corriqueira de trabalho. O que Dona Zefinha entende como uma pergunta óbvia e logo lhe responde de forma grotesca. Assim como afirma Recuero (2009), vemos que a essência da personagem se constrói a partir da personalização, cristalizada no seu jeito rude de ser.
Além disso, vemos na segunda cena uma gíria muito utilizada no Nordeste, feita através da junção de duas palavras “ME + ENGULA”, “MINGULA” expressão usada para indicar que a interlocutora agiu de modo grosseiro. Além de rude, a personagem Zefinha representa um perfil de mãe que educa através de uma pedagogia tradicional, em que a disciplina é reforçada através do castigo físico, conforme percebemos na Figura 5.
Figura 5 - “E foi assim que fui dormir de couro quente”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Na Figura 5, o humor se constrói a partir da possível ambiguidade da palavra “terra”, que é propositalmente interpretada como “planeta Terra”, e não “solo”. O gracejo de Junin é punido pela mãe, que acaba aplicando um corretivo no filho. O jeito bruto de ser de Dona Zefinha também se manifesta em sua forma de agir, expresso por Junin através do bordão que lhe é característico “e foi assim que fui dormir de coiro quente”.
Outra figura comum presente nos memes do Bode Gaiato é o bêbado. Essa característica é muito evidenciada na personagem Biu. Desse modo, assim como afirma Charaudeau (2005), as personagens aparecem com uma imagem que lhe é atribuída através de suas ações. Na maioria das situações, criadas nos memes, a personagem é trazida como um alcoólatra ou então falando sobre bebidas alcoólicas, como podemos observar nas Figuras 6 e 7.
Figura 6 - “Figura do bêbado”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Na Figura 6, Biu está junto a uma mesa de bar, tomando cerveja. Nesse meme, o alcoolismo é tratado de uma forma bem humorada. O humor, nesse meme, é explorado a partir da ambiguidade da expressão “todo dia”. Assim, Biu toma a expressão não no sentido de “diariamente”, mas significando “o dia inteiro”. Ao dizer que “alcoólatra” é quem bebe
“o dia inteiro”, Biu se assume como “não alcoólatra”, já que só bebe à noite.
Figura 7 - “Figura do bêbado violento”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
A Figura 7 trata da figura do bêbado violento. Nesse meme, é possível perceber que Biu já bebeu muitas cervejas, pela quantidade de garrafas que vemos em cima da mesa, e se revolta, quando o garçom pede que ele se retire, por não haver mais cervejas geladas no bar.
Biu fica revoltado com a situação e o suposto desenrolar da história se dá na cena seguinte, a partir de uma manchete de um conhecido jornal da Região, o Diário do Nordeste. Desse modo, por achar inaceitável que o bar esteja sem cerveja gelada, subentendemos que Biu é o causador do incêndio.
Outra característica explorada nos memes do Bode Gaiato é a representação das tradições e crenças do povo nordestino. A construção discursiva e o imaginário social presente nos memes podem contribuir para o estabelecimento de um ethos e a troca de valores sociais (AMOSSY, 2005). Nesse sentido, uma crença muito comum na região é a de que a mistura da manga com o leite faz mal à saúde, podendo levar à morte, conforme vemos nas Figuras 8 e 9:
Figura 8 - “Manga com leite faz mal”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Figura 9 - “Manga com leite faz mal”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Na Figura 9, vemos que Junin, com os olhos cheios de lágrimas39, diz à mãe que Ciço foi traído e iria se matar. O humor se instaura no segundo quadrinho, em que vemos Ciço com um copo de leite em uma mão e pedaço de manga na outra, o que nos leva a compreender que o personagem pretende tirar a própria vida misturando manga com leite.
Essa crença também está presente na Figura 8. A embalagem de suco artificial de manga vem com uma sugestão de consumo do produto com leite e humor se instaura a partir da recusa categórica de Junin, valendo-se da expressão “Zulive”, aglutinação das palavras Deus + me + livre, comumente utilizada para expressar rejeição ou negação.
Além das crenças, outra característica muito evidenciada nos memes de Bode Baiato é a valorização da cultura popular do Nordeste, o que configura não só em uma imagem individual do sujeito nordestino, mas coletiva (AMOSSY, 2014). Os festejos juninos, por exemplo, carregam tradições como quadrilhas juninas, comidas típicas, forró pé de serra e as fogueiras em homenagem a São João e a São Pedro, conforme apresentamos nas Figuras 10 e 11:
Figura 10 - “Cultura popular”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
39 O traço azul nos olhos, para representar a lágrima, é um recurso utilizado para expressar a tristeza ou pesar dos personagens.
Figura 11 - “Cultura popular”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
É possível perceber características típicas dos festejos juninos do Nordeste, na época do São João e São Pedro, o que reforça mais ainda o ethos do nordestino nas imagens (VIALA, 2005). As roupas, representadas pela camisa listrada e a jaqueta de couro dos músicos; as fogueiras, o forró pé de serra, as comidas típicas como a pamonha, milho, bolos e pés de moleque; bombas, chuvinhas e estalinhos comuns nessas festas, todos esses elementos representam as tradições culturais da região. Vale lembrar que os festejos juninos são tradições bastante valoradas pelos nordestinos. Em algumas cidades do Nordeste, esses festejos chegam a durar o mês inteiro.
Outro hábito cultural relacionado à gastronomia popular e que é representado no perfil do Bode Gaiato é o cuscuz, também conhecido como “pão de milho” ou mesmo “pão-de-mi”, alimento à base de milho flocado cozido no vapor (Figuras 12 e 13). A presença desse tradicional alimento nos memes do perfil reforça a adesão do público, por identificação. Inclusive, em alusão à oração “O pão nosso de cada dia”, o cuscuz muitas vezes é expresso pelos nordestinos como “o cuscuz nosso de cada dia”.
Figura 12 - “O cuscuz nosso de cada dia”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Figura 13 - “O cuscuz nosso de cada dia”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Podemos perceber, a partir das Figuras 12 e 13, que o cuscuz é um alimento valorizado nos memes do perfil, mesmo sendo uma iguaria originária do Magrebe, Norte da África. Tal valoração se expressa na declaração de amor de Dona Zefinha, segundo a qual o amor à primeira vista se define como o aroma de cuscuz fumegando de uma cuscuzeira.
Além das características regionais, os memes do perfil também trazem hábitos presentes no cotidiano das pessoas de modo geral, não apenas do nordestino. Tal recurso permite a universalização do perfil, que pretende alcançar, por meio da identificação, brasileiros de outras regiões. Como exemplo, apresentamos nas Figuras 14 e 15.
Categorizamos estes memes como “Coisas de pobre”, representados a partir de situações em que o brasileiro se vale de sua criatividade para solucionar algum problema.
Figura 14 - “Coisas de pobre”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
Figura 15 - “Coisas de pobre”
Fonte: https://www.instagram.com/bodegaiato/
As Figuras 14 e 15 apresentam diversas situações em que algum problema é solucionado com “gambiarra”, ou “jeitinho brasileiro”. Na Figura 14, Dona Zefinha tem sua própria solução para os problemas domésticos, compartilhando-a com seu interlocutor. A Figura 15, por sua vez, trata, em tom jocoso, do hábito de consertar o chinelo com um prego.
O que poderia ser interpretado como uma “coisa de pobre” e, por conseguinte, como vergonhoso, humilhante, na realidade alcança outra perspectiva, a sustentabilidade, relacionada ao consumo consciente e ao melhor aproveitamento dos bens de consumo.
Assim, o autor do perfil leva adiante a tarefa de persuadir o interlocutor, levando-o à identificação do seu público com as situações relatadas nos memes. Por explorar estereótipos atribuídos ao povo nordestino, generalizar estereótipos ligados à pobreza e por lidar com situações presentes no cotidiano das pessoas, o perfil Bode Gaiato no Instagram tem a adesão de um grande público. Até a data da publicação deste capítulo, são 4 milhões de seguidores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mediante os estudos acerca do ethos discursivo, foi possível perceber os memes presentes no perfil evidenciam um ethos comprometido com a valorização da cultura nordestina. Percebemos também que o fato de os memes abordarem assuntos muito específicos da uma cultura nordestina não compromete o entendimento do interlocutor que porventura seja de outra região, pois o autor do perfil trata de estereótipos, valores, crenças e situações que fazem parte do cotidiano do brasileiro de um modo geral.
Os memes ora apresentados veiculam as tradições, valores e crenças presentes na cultura nordestina. Além dessas representações, o perfil Bode Gaiato lida, através do humor, com estereótipos negativos atribuídos ao povo nordestino, como o jeito grotesco de ser, a valentia, o alcoolismo e, como vimos, a pobreza. A genialidade do artista está no modo como diz o que diz. Longe de reforçar os estereótipos e menosprezar o universo nordestino, o autor do perfil se vale dos mesmos estereótipos para se diferenciar, para firmar sua autenticidade diante do público. Assim, vemos uma espécie de universalização da cultura nordestina, de modo que o brasileiro vai se identificar com as situações dramatizadas, visto
que o autor do perfil parte de situações cotidianas presentes na vida das pessoas, de um modo geral.
Vale ressaltar que o próprio humor em si é uma característica atribuída ao povo nordestino. Desse modo, concluímos que, através das publicações do perfil, o criador de Bode Gaiato ressignifica os eventos da vida cotidiana. Valendo-se do humor, o autor reinterpreta características depreciativas do homem sertanejo e as ressignifica. Com essa atitude, o perfil se constitui como um canal de valorização da identidade cultural nordestina.
REFERÊNCIAS
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A COESÃO EM FÁBULAS: ANÁLISE DO EMPREGO DA REFERENCIAÇÃO EM PRODUÇÕES TEXTUAIS DE ALUNOS DO
ENSINO FUNDAMENTAL
Francisco Jean Paulino de Souza
Secretaria de Educação do Estado do Ceará – SEDUC Juazeiro do Norte – Ceará
[email protected] 1 INTRODUÇÃO
Escrever sempre foi uma atividade difícil para quem se desafia a esse trabalho. Na escrita, escolher as palavras adequadas com as quais se planeja dizer o que pensa exige não só uma riqueza de vocabulário como também estratégias de escolha vocabular que possam tornar o texto cada vez mais acessível.
Na escola, a produção de texto é, ainda, um desafio que encontra muita resistência e exige muito treino. Habilidades são apreendidas desde que os interlocutores estejam conscientes de que o processo de escrita é um jogo de interações sobre o qual eles agem no intuito de torná-lo mais acessível.
Por outro lado, essa consciência linguística ainda é precária. Infelizmente, o ensino da produção de texto tem sua preocupação voltada para o simples fazer. As produções dos alunos são requisitadas diariamente pelos professores, que as solicitam sem o cuidado especial com uma correção minuciosa, voltada para segunda produção. Não há, portanto, por parte de muitos docentes, estratégias de reescrita que possam conduzir o aluno a uma reflexão profunda sobre os empecilhos que brecam a qualidade de seus textos. Muitas vezes, as redações ora privilegiam à formalidade, - consoante as regras gramaticais - ora a organização e a estética, por exemplo, os aspectos mais simples do texto, como título, paragrafação, organização das linhas etc. Dessa forma, essa metodologia distancia-se dos PCNs que, nesse aspecto, propõem a produção textual e a leitura com base para a formação do educando. Nesse sentido, o ensino de redação assume uma função interativa, uma vez que ela “não deve se resumir a uma atividade que se esgote em si mesma, mas em aulas voltadas especificamente para esse fim”. (PCNEM, p. 18).
Ciente disso, faz-se necessário que as produções textuais foquem não só na organização de seus elementos internos que constituem o “tecido” do texto, mas também na escolha e na disposição adequadas de elementos linguísticos que garantam a ele um produto final que satisfaça às expectativas interacionais. Dentre os elementos da língua responsáveis pela textualização, destacamos aqui a coesão textual, sobre a qual Koch (2005) define como sendo:
[...] o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual se encontram interligados entre si, por meio de recursos também linguísticos, formando sequencias veiculadoras de sentido (p. 45).
Já para Beaugrande e Dressler (1981, apud Koch 2016), a coesão concerne ao modo como “os componentes da superfície textual – isto é, as palavras e frases que compõem um texto - encontram-se conectados entre si numa sequência linear, por meio de dependências de ordem gramatical”. A coesão é elemento necessário e, quase sempre, indispensável na organização do texto. Não à toa, ela é conhecida como um fenômeno da superfície do texto, uma espécie de sintaxe textual. Mas, como observa Marcuschi (2008), há exceções, quer dizer, casos em que a coesão “não é nem necessária nem suficiente, ou seja, sua presença não garante a textualidade e sua ausência não impede a textualidade” (p. 104). Para exemplificar a afirmação, Marcuschi aponta-nos alguns textos, como o conto “Circuito fechado” de Ricardo Ramos, para o qual, Hallyday/Hassan atribui a característica de um
“não texto”. A obra apresenta frases isoladas sem a presença de qualquer marcador sequencial. O sentido é atribuído apenas pela sequência dos acontecimentos presentes em cada oração.
Nos demais casos, são observados, sobretudo, elementos linguísticos que ligam cada enunciado, procurando construir um texto coerente e coeso. É importante notar que a coesão determina a coerência global do texto. Ainda assim, não se deve confundi-los, mas separar aqui dois aspectos da textualidade.
A coerência, para Koch & Travaglia, (1989, apud Koch, 2016b, p. 52):
longe de constituir mera qualidade ou propriedade do texto, é resultado de uma construção feita pelos interlocutores, numa situação de interação dada, pela atuação conjunta de uma série de fatores de ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional.
Desse modo, a presença da coerência depende não apenas do código escrito ou falado, mas também de fatores cognitivos, da interação e do compartilhamento de experiências que todos os usuários trazem na construção de seus discursos. A coerência depende das intenções discursivas presentes em um texto e da capacidade de essas intenções serem reconhecidas, compartilhadas e aceitas pelos indivíduos numa interação verbal. Acresce-se ainda que existem dois níveis da coerência: a global e a local. Esta última ocorre, sobretudo, no nível sintático; a anterior, no sentido do texto como um todo.
Voltando à coesão textual, Koch tem considerado em suas pesquisas duas grandes modalidades desse aspecto: a sequenciação e a remissão ou referenciação, sendo esta última a de nosso interesse. Aqui, faremos reflexões a respeito da escolha de um determinado elemento referencial em relação a outro, de que modo essas escolhas compõem o sentido de que necessita o texto como um todo e que perfil do enunciador é possível deduzir por trás dessas escolhas linguísticas.
É importante ressaltar ainda que, em se tratando de um processo de escrita em desenvolvimento, focaremos um número limitado, mas suficiente desse material, que compõe o corpus; serão quatro produções textuais, separadas em duas etapas de produção:
a primeira, sem acompanhamento docente; e a segunda, partindo dos resultados da análise da primeira etapa, com a intervenção do professor. A princípio, pensamos em um número maior para compor o corpus, entretanto, visto que os problemas de escrita entre um e outro texto se repetiam com muita frequência, e que o espaço é limitado para tantas análises, abordamos apenas quatro textos, porém, bastante significativos para se perceber semelhanças e diferenças em relação ao uso da coesão referencial.
Na composição do artigo, apresentam-se as seções divididas da seguinte maneira. Na primeira, fazemos uma reflexão sobre o conceito de texto e visões de ensino focando na
perspectiva sociocognitiva, conforme os pressupostos teóricos de Marcuschi (2008). Na seção seguinte, abordaremos o aspecto da coesão textual a partir dos pressupostos de Koch (2016a, 2016b, 2018), Mondada e Dubois (2003);do texto, com Antunes (2005) e Marcuschi (2008); e com Apothéloz e Reicheler-Béguelin (1995) a questões relacionadas à recategorização e a progressão textual.