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PARTE II – A VIVÊNCIA DENTRO DA GUERRA ÀS DROGAS

4. Os eixos de funcionamento da Guerra às Drogas

4.4 A materialidade da Guerra às Drogas

Analisando a Guerra às Drogas como um sistema capaz de moldar a própria  realidade do contexto do consumo de drogas, a partir dos princípios previamente  explicados (racismo, demonização das "drogas" e ignorância), é necessário analisar  como é essa realidade, em termos de que tipos de experiências as pessoas têm  quando inseridas nesse sistema. Um dos objetivos dessa pesquisa é justamente  coletar, a partir de diálogos abertos e significativos, tais experiências, investigando  quais situações são moldadas por essa política, sendo direta e conscientemente  relacionadas a ela ou não pelas pessoas que passam por tais experiências. Para  entender como a realidade é moldada por essa política, porém, não é suficiente  apenas analisar a Guerra às Drogas e seus princípios delineadores, mas também  entender como as significações e relações construídas a partir da vivência dentro  dessa realidade continuam a construir esta mesma realidade. A realidade construída  pela Guerra às Drogas é construída a partir de sua aplicação e também de sua  reverberação na percepção social geral.  

 

A partir dessa constatação, também se mostra outro objetivo dessa pesquisa: ser em  si mesma uma experiência que possa construir, de maneira oposta à maneira da  Guerra às Drogas, a realidade que circunda o tema do consumo de drogas. Existem  várias maneiras de isso acontecer, e que inclusive já são praticadas por várias  pessoas no Brasil (experiências positivas e construtivas com o consumo, produção e  comércio de drogas ilegais, como será detalhado a seguir); mas essa pesquisa 

especificamente se dirige à tentativa de abarcar nela pessoas que não teriam, dentro  da realidade atual projetada pela Guerra às Drogas, sequer uma experiência que  seja diferente das expectativas sociais de doença, morte, violência e marginalização. 

Essa pesquisa pretende ser um exercício imaginativo; o simples ato de permitir um  espaço para conversar sobre esse tema, sem julgamentos ou preconceitos, de  maneira aberta e empática, a princípio, é um caminho para inserir no imaginário  social a possibilidade de que esse assunto não seja puramente tratado da mesma  forma que é tratada pelos mecanismos da Guerra às Drogas. Essa política soterra  de elementos negativos as possíveis experiências que as pessoas poderiam ter em  relação às "drogas" e a seus "usuários", e como discutido principalmente no princípio  da ignorância, impede a própria visualização de outras possibilidades para a 

realidade. Essa pesquisa deseja ser uma prova de que outras realidades para esse  tema são possíveis.  

 

A seguir encontram-se especulações sobre que experiências se têm atualmente  dentro da realidade projetada pela Guerra às Drogas e que sejam diretamente 

relacionadas a ela. É importante ressaltar como as experiências na realidade sempre  dependem de inúmeras variáveis e contextos, que podem reverter todas as 

expectativas. A pesquisa servirá justamente para aprofundar, validar, descartar,  aperfeiçoar e descobrir experiências nesses contextos. Seguindo os princípios  delineadores da Guerra às Drogas, as seguintes especulações serão alocadas nos  seguintes espectros: 

 

1 - negros (e classes pobres, em geral) / brancos (e classes ricas, em geral)  2 - "usuários" de "drogas" / "não usuários de drogas" 

3 - pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico e social sobre as 

"drogas" e sobre a Guerra às Drogas / pessoas com algum conhecimento científico e  social sobre as "drogas" e sobre a Guerra às Drogas 

 

1. No espectro do racismo, especula-se sobre como as pessoas de cada lado  (pessoas negras, marginalizadas e pessoas brancas, mais protegidas) desse  espectro experimentam essa realidade delineada pela Guerra às Drogas. 

 

1.1. negros (e classes pobres em geral): 

- violência policial  - encarceramento 

- estereotipação social e perseguição 

- genocídio negro e continuidade do racismo institucional da escravidão  - perda de amigos e família 

- convivência com a atuação do narcotráfico, milícias, polícias e exército  - empobrecimento 

- riscos (de vida, social, econômico, de saúde) maiores associados ao consumo  de "drogas" 

- exposição precoce às "drogas" 

- tráfico de "drogas" enquanto opção para sustentação financeira, mas também  associada a um caminho sem volta e violência 

- associação maior das "drogas" com morte, chantagem e violência   

1.2. brancos (e classes ricas em geral): 

- medo (mas uma boa distância) da violência associada à Guerra às Drogas,  com alguns respingos desta 

- higienização da produção, comércio e consumo das drogas ilegais 

- aplicação branda da lei (muito menos encarceramento, constrangimento,  perseguição etc) 

- riscos menores associados ao consumo de "drogas" 

- tráfico de "drogas" enquanto realidade distante, apenas presente para quem  compra, de maneira pontual, associada a violência, mas também coragem e  uma "aventura" 

- associação maior das "drogas" com "degeneração" e problemas de saúde   

2. No espectro da demonização das "drogas", especula-se sobre como "usuários" de 

"drogas" (ou seja, pessoas que utilizam substâncias perseguidas pela Guerra às  Drogas) e "não usuários de drogas" (ou seja, pessoas que, por não utilizarem  substâncias ilegais, não se veem como "usuários"; isso inclui pessoas que usam ou 

não drogas legais como álcool e cigarro) experimentam essa realidade delineada  pela Guerra às Drogas. 

 

2.1. "usuários" de "drogas" 

- "descoberta" das "drogas" e seus efeitos reais no contexto do consumo  - surpresa com possíveis diferenças entre o que foi ensinado em escolas e 

campanhas antidrogas e a realidade experimentada 

- acesso e consumo às "drogas" de maneira difícil, velada, ilegal e  potencialmente perigosa 

- publicidade inexistente além da condenação e terrorismo sobre as "drogas" 

- substâncias desconhecidas e efeitos imprevisíveis  - contextos de consumo mais perigosos 

- riscos maiores à saúde e situação social  - marginalização social 

- possível encarceramento e constrangimento policial/judicial  

- associação imediata do uso de "drogas" com "vício" e isolamento social  - ciclos sociais específicos em que o consumo é permitido ou encorajado   

2.2. "não usuários de drogas" 

- substâncias e efeitos mais conhecidas antes do seu consumo  - acesso regulado e relativamente fácil dentro das leis 

- controle em relação às substâncias e aos efeitos 

- exposição à publicidade regulada, legal e potencialmente apelativa e sedutora  - consumo legalizado e socialmente aceito, apesar da possibilidade de 

consequências de saúde e sociais 

- não associação imediata do consumo com "vício" e isolamento social 

- ainda presente, porém menor, estigmatização do uso em alguns casos (álcool  e cigarro, principalmente); ampla invisibilização da ideia maléfica de "consumo  de drogas" em outros (cafeína, açúcar, remédios etc) 

- danos sociais e de saúde, em alguns casos, não associados ao consumo  abusivo de substâncias 

 

3. No espectro da ignorância, especula-se sobre como pessoas com pouco ou  nenhum conhecimento científico e social sobre as "drogas" e sobre a Guerra às  Drogas e pessoas com algum conhecimento científico e social sobre as "drogas" e  sobre a Guerra às Drogas experimentam essa realidade delineada pela Guerra às  Drogas. 

 

Aqui, vale a pena ressaltar que essa definição do espectro deve ser considerada  dentro do ponto de vista de que a construção de conhecimento não deve 

necessariamente ser validada a partir da ideia de conhecimento científico. O 

conhecimento gerado pelas pessoas a partir dessas experiências especuladas aqui  (e não necessariamente o comprovado cientificamente) é perfeitamente válido, pois  é o conhecimento utilizado pelas pessoas para navegar dentro desta realidade e  deve ser considerado quando se pretende criar novo conhecimento nesta área  (como essa pesquisa pretende fazer). Além disso, o próprio conhecimento científico  e social pode ser utilizado ainda de má fé, para continuar reverberando efeitos  maléficos e cristalizantes dos princípios da Guerra às Drogas. Porém, é importante  entender como a ignorância (como discutido anteriormente: a invisibilização e  distorção deliberada dos reais efeitos das "drogas" e seus potenciais usos sociais e  fisiológicos) tem um papel fundamental na continuidade da política da Guerra às  Drogas, e conhecimento originário de pesquisas científicas, análises sociais e  projetos eficazes de combate ao uso abusivo de drogas pode ser proveitoso nesse  sentido. 

 

3.1. pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico e social sobre as 

"drogas" e sobre a Guerra às Drogas 

- medo (às vezes irracional) das "drogas" e de seus "usuários" 

- consumo, quando existente, mais arriscado e com menos preparação  psicológica e educativa 

- distância total das "drogas" (possível curiosidade) 

- julgamento moral sobre "usuários" e distância total destes  - sentimentos de raiva, nojo e vingança para com "usuários" 

- certeza dogmática quanto ao que o consumo de "drogas" causa na vida das  pessoas 

- desconhecimento dos efeitos fisiológicos das "drogas" 

 

3.2. pessoas com algum conhecimento científico e social sobre as "drogas" e sobre a  Guerra às Drogas 

- consumo mais consciente das "drogas" (relacionado a doses, qualidade,  frequência, finalidade etc) 

- usos e contextos diferenciados que possibilitam mais segurança, conforto e  redução de danos (uso recreativo, religioso, medicinal etc) 

- socialização a partir do consumo de "drogas" 

- compreensão do tratamento mais eficaz para usuários que demonstram  problemas decorrentes do consumo de "drogas" 

- compreensão e empatia para com "usuários" 

- compreensão da complexidade das causas e efeitos do consumo de "drogas" 

- compreensão dos efeitos fisiológicos reais das "drogas"