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Matriarcado e patriarcado como instituições

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Capítulo 1: O IMAGINÁRIO, A DIVISÃO BINÁRIA E A (DES)ORDEM DAS COISAS

1.2 Matriarcado e patriarcado como instituições

O matriarcado, de acordo com Maria Beatriz Nader e Lívia Rangel (2015, p. 446), estabeleceu-se no primórdio das civilizações como uma crença, um governo no mundo antigo primitivo no qual as mulheres dirigiam os sistemas políticos numa espécie de governo feminino. Já o patriarcado, segundo Lana da Gama Lima e Suellen Souza (2015, p. 515), se origina da combinação das palavras em grego pater (pai) e arkhe (origem, comando). As autoras explicam que para Engels (1884), essa ordem social se estabeleceu com o fim da poliandria e o começo da monogamia feminina, como forma de escravidão da mulher, e a patrilinearidade (DA GAMA LIMA; SOUZA, 2015, p. 516).

Muraro e Boff (2010, p. 50) utilizam Heide Göttner-Abendroth (1991) para explanar que há trinta mil anos o matriarcado prosperava em todos os continentes, dependendo da região, as grandes cidades eram matriarcais por volta de 10000 a.C. Para os autores, esse era o tempo

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das grandes deusas e da reverência à vida, sociedades marcadas pelo novo modo de produção: o agrícola. As mulheres intercediam em situações de conflito e organizavam as sociedades. Tamanho poder se devia ao fato de serem responsáveis pela vida e pela morte, um evento tomado como um renascimento e não como negação, quando uma vida findava a mulher garantiria a concepção dos que haviam morrido (MURARO; BOFF, 2010, p. 51).

A natureza era vista como uma extensão do ser humano e este deveria viver em harmonia com ela, respeitando-a e venerando-a:

As instituições do matriarcado, caracterizadas por grande força integradora, foram tão significativas que se transformaram em arquétipos e em valores e, como tais, deixaram incisões na memória genética até os dias de hoje. Esses arquétipos e valores não pairam num imaginário vazio, mas são calcados sobre fatos históricos e políticos que esclarecem a consistência guardada por eles até o presente (MURARO; BOFF, 2010, p. 51).

A linguagem, inclusive, “estaria associada ao trabalho civilizador das mulheres” (2010, p. 51), que deram origem à vida pela boca sexual e à linguagem por meio da boca social ou facial.

O fim desse regime social se deu por volta de 2000 a.C., conforme Muraro e Boff explicam, variando de um lugar para outro. Depois disso, o mundo passou a pertencer aos homens e o patriarcalismo foi implantado, impondo à sociedade uma ditadura cultural machista e masculinista (MURARO; BOFF, 2010, p. 51).

Para Morgan (1978, p. 80), a mudança da descendência feminina para a masculina abriu o caminho para essa nova ordem social. Morgan explica que na história das gens7, no caso das tribos pelasgas e gregas, a filiação matrilinear já havia sido extinguida quando entraram na fase superior da barbárie (fase anterior à emergência da civilização).

Segundo o autor (p.81), a filiação por parte de mãe começou a ser um problema quando os animais passaram a ser a principal fonte de subsistência e propriedade, quando as terras se tornaram posses e os indivíduos passaram a acumular bens. Na linha matrilinear as propriedades e cargos dos homens eram distribuídos entre seus parentes por parte de mãe, já que a descendência feminina era a mais assegurada – até então a família era punaluana e consanguínea, nela havia irmãs e irmãos carnais e os indivíduos não eram monogâmicos, as esposas e esposos poderiam ser partilhados, não havendo certeza da paternidade (MORGAN,

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1978, p. 213) –, e não poderiam ser passados para seus filhos. Esse modelo, de acordo com Morgan (p. 213), não era compatível “com a existência de uma autoridade paterna”.

Quando as famílias assumiram um caráter mais voltado para a monogamia, a certeza da paternidade já não era questionável como antes, Morgan (1987, p. 81) explica que os pais e os filhos começaram a travar uma luta pela herança e pelo modo de sucessão, de maneira que as posses não fossem partilhadas com os demais membros da família que não fossem descendentes paternos. Mais tarde excluíram-se da partilha os parentes agnados, de modo que a herança era transmitida exclusivamente aos filhos (MORGAN, 1978, p. 81-82).

Mireya Suárez (1997, p. 32-33) diz que, para Morgan, “a civilização somente pode ser alcançada quando os membros da ‘gens’ passaram a ser definidos através da descendência masculina, ficando então excluída toda criatura que até esse momento estava incluída através da descendência feminina”.

Maria Beatriz Nader e Lívia Rangel (2015, p. 446-447) citam Bachofen para falar do cenário de debate e reformulação sobre o patriarcado, para ele, a transição ocorreu por dois procedimentos: o dualista, que via, a partir de uma perspectiva progressista, a passagem do matriarcado para o patriarcado como uma transição fundamental para a evolução da sociedade; e a etapista, método que via a sociedade matriarcal como decadente, enaltecendo a troca de um sistema pelo outro, tendo o patriarcalismo como ordem superior que levou o mundo à maturidade.

Assim como Morgan, Bachofen (1987) também conta que o matriarcado estava em vigor durante o período mais primitivo da sociedade, caracterizado pela promiscuidade, pela ausência de posses e laços estabelecidos de mãe para filho (NADER; RANGEL, 2015, p. 447). De acordo com Nader e Rangel (2015), este era o primeiro nível do matriarcado para Bachofen, sendo, o matriarcado positivo. O segundo nível acontece ao passo que, a sociedade avança com a criação de normas de convívio social, e a monogamia passa a imperar, dando origem ao direito à propriedade privada, porém, ainda sob o domínio materno. Por fim, temos o terceiro nível, conhecido como ginecocrático, considerado o apogeu do matriarcado, “com a instauração do governo civil das mulheres” (NADER; RANGEL, 2015, p. 447). Aqui se torna importante observar que a descendência continuava matrilinear, mas o homem já tinha uma participação mais ativa, de acordo com Nader e Rangel.

As autoras (2015, p. 448) explicam que embora pareça que o matriarcado estava progredindo, Bachofen vê nesse progresso uma transição de um modelo mais degenerado para outro mais virtuoso. Para elas, não há evidências na teoria de Bachofen que comprovem que o

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matriarcado resistiu ao fim da era primitiva, ficando unicamente como “o predecessor de um sistema muito mais complexo, civilizado, racional, ordenado, e, com características exclusivas da última fase do esquema bachofeniano, o patriarcado” (NADER; RANGEL, 2015, p. 448). Morgan (1978, p. 81) também reconhece que a mudança de filiação matrilinear para patrilinear já era tida como uma solução natural, faltando somente o pretexto: o da herança.

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