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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. JÉSSICA DE OLIVEIRA COLLADO MATEOS. O JORNALISMO CONTEMPORÂNEO E A MULHER JORNALISTA Um estudo sobre gênero dentro da profissão no estado de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2019.

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(3) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. JÉSSICA DE OLIVEIRA COLLADO MATEOS. O JORNALISMO CONTEMPORÂNEO E A MULHER JORNALISTA Um estudo sobre gênero dentro da profissão no estado de São Paulo. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), área de concentração "Processos Comunicacionais" e linha de pesquisa "Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais", como exigência parcial para a obtenção do título de mestra em Comunicação. Orientadores: Prof. Dr. Dimas A. Künsch Prof.ª Dr.ª Marli dos Santos. São Bernardo do Campo, 2019.

(4) FICHA CATALOGRÁFICA M417j. Mateos, Jéssica de Oliveira Collado O jornalismo contemporâneo e a mulher jornalista: um estudo sobre gênero dentro da profissão no Estado de São Paulo / Jéssica de Oliveira Collado Mateos. 2019. 198 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Dimas A. Künsch e Marli dos Santos. 1. Jornalistas – Mulheres – Brasil 2. Jornalismo contemporâneo 3. Mulheres – Gênero 4. Mulheres – Discriminação 5. Mulheres – Jornalismo 6. Mulheres – Trabalho I. Título. CDD 302.2.

(5) FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação “O jornalismo contemporâneo e a mulher jornalista: Um estudo sobre a questão de gênero dentro da profissão no estado de São Paulo”, elaborada por Jéssica de Oliveira Collado Mateos, foi defendida no dia 12 de março de 2019, tendo sido:. (. ) Reprovada. ( ) Aprovada, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias a contar da data da defesa. (. ) Aprovada. ( X ) Aprovada com louvor. Banca examinadora:. Prof. Dr. Dimas A. Künsch (orientador). _______________________________________________________________. Prof. Dr. Mateus Yuri Passos (UMESP). _______________________________________________________________. Prof.ª Dr.ª Ana Carolina Rocha Pessoa Temer (UFG). _______________________________________________________________. Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Linha 1 – Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais.

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(7) Dedico este trabalho às mulheres da minha vida: mães, amigas e irmãs; À Marli, Magali, Beth e Cicilia, guerreiras que me abriram as portas do conhecimento; E à todas as mulheres, jornalistas ou não. Nossa luta está só no começo....

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(9) The more I was treated as woman, the more woman I became. I adapted willy-nilly. If I was assumed to be incompetent at reversing cars, or opening bottles, oddly incompetent I found myself becoming. If a case was thought too heavy for me, inexplicably I found it so myself […] Men treated me more and more as junior – my lawyer in a unguarded moment one morning, even called me “my child”; and so, addressed every day of my life as an inferior, involuntarily, month by month I accepted the condition. I discovered that even now men prefer women to be less informed, less able, less talkative, and certainly less self-centered than they are themselves; so I generally obliged them1.. (Conundrum, Jan Morris). 1 “Quanto mais eu era tratada como mulher, mais mulher eu me tornava. Eu me adaptava, por bem ou por mal. Se acreditavam que eu era incapaz de dar a marcha ré, ou de abrir garrafas, eu sentia, estranhamente, que me tornava incompetente para tal. Se achavam que uma mala era muito pesada para mim, inexplicavelmente eu também achava assim. Os homens me tratavam cada vez mais como um subordinado (júnior pode significar também jovem, iniciante ou até imaturo neste caso) – meu advogado, em um momento de descuido certa manhã, até me chamou de ‘minha criança’; e assim, tratada todos os dias da minha vida como uma inferior, involuntariamente, mês a mês eu aceitei a condição. Descobri que, mesmo agora, os homens preferem que mulheres sejam menos informadas, menos capazes, menos falantes e, com certeza, menos autocentradas do que eles próprios são; então eu geralmente os obrigava”. Tradução minha..

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(11) AGRADECIMENTOS. Antes de tudo, gostaria de agradecer à Profa. Dra. Marli dos Santos por me iniciar no mundo da pesquisa, me incentivar e estar ao meu lado durante três anos, desde a iniciação científica em 2015. Ela me ajudou até quando já não tinha obrigação como minha orientadora. É uma guerreira, minha mentora no campo acadêmico, que junto da Profa. Dra. Magali Cunha, a quem sou imensamente grata pelas aulas preciosas que dava com carinho, por ter participado da minha banca de qualificação e pela ajuda nesta dissertação, foi demitida injustamente pela nova gestão Metodista. Elas e as Profas. Dras. Elizabeth Gonçalves e Cicilia Peruzzo serão pelo resto de minha trajetória acadêmica fonte de inspiração e força. Admiro-as muito por não cederam e seguirem seus ideais, mesmo que isso tenha custado muito. A todos os professores que foram demitidos ou desligados do programa de forma injusta ou por motivação político-ideológica, meus agradecimentos pelas aulas e lições valiosas. Levarei o que aprendi nas aulas da Marli, da Beth, da Magali, do Faro, da Cilicia e do Squirra comigo. Tenho saudades daquele Póscom Metodista unido e da camaradagem entre alunos e professores. Éramos (e somos) uma família, sinto muita falta de todos. Aproveito para deixar aqui minha homenagem ao Prof. Dr. José Marques de Melo, um grande pensador da comunicação brasileira que nos deixou o ano passado. Graças ao mestrado fiz amizades e amadureci e, por isso, agradeço a todos os meus companheiros de jornada, especialmente aqueles que se tornaram mais do que amigos, se tornaram também minha família: Tássia Aguiar, Carlos Eduardo, Rogério, Angela, Keila, Carlos Ferreira, Ricardo, Izabel, Arthur, Vinicius, Rosiane, Renata, Thiérri, Taynah, Danusa e todos os outros. Obrigada pelos almoços, conversas e pela companhia. Agradeço também aos meus pais por sempre me incentivarem a estudar. Minha mãe é também uma guerreira que me inspira a continuar. Ela sempre esteve ali pra mim e para a minha irmã, cuidando e nos motivando a estudar. Até fez minhas marmitinhas quando eu não conseguia sair da frente do computador. Obrigada por estarem do meu lado, junto com a Vivi (minha irmã) e o Dioguetes que ofereceram para eu ficar no apartamento deles até terminar a pesquisa. Amo vocês! Aos meus fiéis companheiros nas longas jornadas de estudos, meus cachorros Monalisa e Simba, por me animarem e pelas caminhadas necessárias para aliviar a cabeça..

(12) Duas pessoas muito importantes e que me ajudaram de forma inestimável, a Luzia e o Jason de Barros, se não fosse por eles este trabalho não estaria do jeito que está. Meus pais postiços de coração! Outra pessoa a quem devo meus sinceros agradecimentos é a amiga Elisete Mendes, por partilharmos tantas conversas. Prof. Dr. Dimas A. Künsch, meu orientador, meu muito obrigada por seguir comigo nesta segunda fase do mestrado, pelos conselhos, ajudas, por me acolher no grupo de pesquisa e por me apresentar os textos do Martín Sagrera. Prof. Dr. Mateus Yuri Passos, obrigada por me acolher e proporcionar a oportunidade de fazer o estágio docente e pelas palavras amigas nos momentos certos. Obrigada ao pessoal do Póscom, da secretaria, da biblioteca e do Escritório de Apoio à Pesquisa pela ajuda. Aos estagiários da Cátedra, por me abrigarem quando eu precisava estudar, pelos cafés e pelas conversas quando eu precisava distrair a cabeça. A Vanda, secretária da redação multimídia, pela amizade e apoio nesses três anos. Obrigada Profa. Dra. Ana Carolina Temer por me recepcionar em Goiânia no ALAIC, por participar da minha banca de qualificação, dando sugestões valorosas e por aceitar participar da defesa também! Um agradecimento mais do que especial deve ser dado às jornalistas de todo o Estado de São Paulo que participaram do estudo e também às Profas. Dras. Cláudia Nonato, Constância Lima Duarte e Dulcília Buitoni por, além de contribuírem com pesquisas excelentes, aceitaram conceder entrevistas para esta dissertação, entrevistas riquíssimas e de conteúdo inestimável. Agradeço também aos Profs. Drs. Lauro Maia e Maria Angélica Deângeli por me receberem como aluna especial na Unesp de São José do Rio Preto, a matéria sobre tradução e identidade foi essencial para a formulação desta pesquisa. Lá eu também encontrei outra família, que se tornou também a minha e me acolheu de todo o coração: Eliana, minha outra mãe, e o seu filho Lucas, o irmão que nunca tive. Às minhas amigas de infância, Caroline Oliveira, Kezia Vidigal e Bianca Miranda, em especial à Camila Boscariol e à Marcella Riner por me tirarem de casa, me animarem e me lembrarem que a vida “lá fora” também existe. Quantas vezes mandei mensagens e vocês viram que eu estava pedindo socorro?! Rs. Obrigada também a todos os amigos que fiz e a todos que me acolheram durante os três meses da minha viagem para estudar inglês, incluindo os professores das Universidades do Porto e da Complutense de Madri. Minha família Collado, tios, tias, primos e primas. Obrigada Rosanna Collado, Emilija, Carlos, Gabriel e Sarah Delgado, Anna Santos, Paula, Kalita, Muath,.

(13) Mesha, Jenna e Ahmed Nasser, Fara, Milena, Mohammad, Adriaan e outros, pelas aventuras que passamos juntos e pela amizade. É incrível como podemos estabelecer vínculos com pessoas boas em tão pouco tempo. Por último, mas não menos importante, gostaria de agradecer a CAPES pelo subsídio para esta pesquisa. Vocês ajudaram a realizar um dos meus sonhos! Todos vocês fizeram parte da minha conquista, muito obrigada, de verdade!.

(14) LISTA DE FIGURAS, GRÁFICOS E TABELAS. FIGURA 1 – Esquema sinóptico das oposições pertinentes.......................................................33 FIGURA 2 – Matéria de 1914 exalta a entrada de mulheres no mercado de trabalho.................41 FIGURA 3 - Exemplos mais comuns de assédio moral..............................................................47 FIGURA 4 - O primeiro jornal feminista: O Espelho Diamantino, 1827...................................54 FIGURA 5 - 1º exemplar do jornal A Mai de Família de 1879...................................................57 FIGURA 6 – “Inteligente e querida companheira de redação”: Eugenia Brandão.....................71 FIGURA 7 - Aposentadoria de Eugenia Brandão no jornal A Rua.............................................72 FIGURA 8 - Jornal A Notícia (RJ) fala da descoberta do disfarce de Eugenia...........................73 FIGURA 9 - Lei nº 9.799 proíbe discriminação por sexo...........................................................80 GRÁFICO 1 - Taxas de homicídios de mulheres no Brasil........................................................49 GRÁFICO 2 - Registros de ocorrências de atos violentos contra mulheres, por tipo de crime, no Brasil....................................................................................................................................49 GRÁFICO 3 - Tipo de violência registrada pelo sistema de saúde no Brasil..............................50 GRÁFICO 4 – Principal segmento de atuação.........................................................................114 GRÁFICO 5 – Fontes da discriminação..................................................................................126 TABELA 1 – Razão entre registros de jornalista profissional no Brasil e egressos (20052010).......................................................................................................................................118.

(15) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 13 Capítulo 1: O IMAGINÁRIO, A DIVISÃO BINÁRIA E A (DES)ORDEM DAS COISAS. 19 1.1 Adão e Eva, a inferiorização e a submissão da mulher ............................................... 23 1.2 Matriarcado e patriarcado como instituições .............................................................. 28 1.3 O imaginário acerca da mulher ................................................................................... 31 1.4 O mito da beleza feminina: uma perseguição (eterna) ................................................ 34 1.5 O trabalho feminino no Brasil ..................................................................................... 38 1.6 A mulher indeterminada .............................................................................................. 42 1.7 A legislação brasileira sobre assédio no trabalho........................................................ 44 Capítulo 2: O JORNALISMO CONTEMPORÂNEO E A MULHER JORNALISTA ........... 52 2.1 Jornalismo como espaço de manifesto ........................................................................ 52 2.2 Os retratos da mulher na imprensa feminina brasileira ............................................... 60 2.3 O início – quando as mulheres começaram na profissão ............................................ 70 2.4 Feminilização, feminização e desigualdades de gênero no jornalismo ....................... 77 2.5 O que está acontecendo com o Jornalismo? ................................................................ 85 2.6 A Revolução Big-Data e as novas formas de fazer jornalismo ................................... 92 2.7 As mudanças no papel do jornalista e no seu mundo do trabalho............................... 95 Capítulo 3: MULHERES JORNALISTAS NO ESTADO DE SÃO PAULO ....................... 100 3.1 Amostras precedentes – A jornalista da cidade de São Paulo ................................... 102 3.2.1 Perfil das participantes ....................................................................................... 112 3.2.2 Jornalismo contemporâneo ................................................................................ 118 3.2.3 Relação entre as mudanças estruturais e a discriminação de gênero ................. 120 3.2.4 Emprego: um espaço de assédios ...................................................................... 122 3.2.5 A questão salarial ............................................................................................... 134 3.2.6 Família e trabalho .............................................................................................. 136 3.2.7 Apesar do assédio constante, somos otimistas .................................................. 139 3.2.8 E a violência invisível se torna visível .............................................................. 141 CONSIDERAÇÕES FINAIS (OU SERIAM INICIAIS?) ..................................................... 143 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 149 APÊNDICES .......................................................................................................................... 157 APÊNDICE A - ENTREVISTA COM CONSTÂNCIA LIMA DUARTE .................... 157 APÊNDICE B - ENTREVISTA COM CLÁUDIA NONATO ...................................... 167 APÊNDICE C - ENTREVISTA COM DULCÍLIA BUITONI ...................................... 183.

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(17) RESUMO Tendo em conta o cenário de crise e mudanças estruturais no jornalismo e a crescente maioria feminina no corpo profissional, esta pesquisa tem como objetivo principal investigar como se configuram os processos discriminatórios sofridos pelas mulheres jornalistas nesse contexto de transformações. A hipótese é que a jornalista padece de uma dupla fragilização: a primeira por ser mulher e a segunda devido à crise. As referências teóricas que sustentam estas afirmações giram em torno do imaginário, da discriminação de gênero e do jornalismo contemporâneo. Um dos autores utilizados é Martín Sagrera, o qual pontua sobre a apropriação do mito por instituições; Pierre Bourdieu, Gilles Lipovetsky e Naomi Wolf, que, entre outros, trazem a discussão sobre discriminação contra a mulher e machismo no imaginário social. Constância Lima Duarte e Dulcília Buitoni contam, em entrevistas em profundidade, a história da luta por direitos das mulheres presente na imprensa feminina e feminista, da trajetória feminina para ingressar na profissão e de como a mulher é retratada pela mídia no Brasil, um corpo-produto irreal; E a terceira entrevistada, a pesquisadora Cláudia Nonato, explica as mudanças no mundo do trabalho do jornalista. Tem-se ainda, Roseli Figaro e Chris Anderson, Emily Bell e Clay Shirky, os quais, respectivamente, informam sobre as mudanças no mundo do trabalho, a crise do modelo de negócios e a reestruturação do jornalismo. Além da pesquisa bibliográfica e das entrevistas em profundidade com pesquisadoras especialistas, o estudo utiliza pesquisa quantitativa e qualitativa survey aplicada em duas fases por meio de questionários online a mulheres jornalistas maiores de 18 anos que trabalham no Estado de São Paulo. As respostas dos questionários foram categorizadas e analisadas à luz de conceitos do tema, das entrevistas e de estudos anteriores realizados pela autora desta dissertação. Demonstrou-se que as estruturas de dominação sexuais ainda estão fortemente presentes no ambiente jornalístico revelando uma atmosfera nociva e a urgência da implementação de medidas de conscientização e de punição efetivas no ambiente laboral, para que se possa ter uma cultura jornalística menos machista e mais segura.. PALAVRAS-CHAVE: Mulheres Jornalistas; Jornalismo Contemporâneo; Discriminação de Gênero; Convergência; Mundo do Trabalho..

(18) RESUMEN Teniendo en cuenta el escenario de crisis y cambios estructurales en el periodismo y la creciente mayoría femenina en el cuerpo profesional, esta investigación tiene como objetivo principal investigar cómo se configuran los procesos discriminatorios sufridos por las mujeres periodistas en ese contexto de transformaciones. La hipótesis es que la periodista padece de una doble fragilidad: la primera por ser mujer y la segunda debido a la crisis. Las referencias teóricas que sostienen estas afirmaciones giran alrededor del imaginario, de la discriminación de género y del periodismo contemporáneo. Uno de los autores utilizados es Martín Sagrera, el cual puntualiza sobre la apropiación del mito por instituciones; Pierre Bourdieu, Gilles Lipovetsky y Naomi Wolf, que, entre otros, traen la discusión sobre la discriminación contra la mujer y el machismo en el imaginario social. Constanza Lima Duarte y Dulcília Buitoni cuentan, en entrevistas en profundidad, la historia de la lucha por derechos de las mujeres presente en la prensa femenina y feminista, de la trayectoria femenina para ingresar en la profesión y de cómo la mujer es retratada por los medios en Brasil, un cuerpo-producto irreal; La tercera entrevistada, la investigadora Cláudia Nonato, explica los cambios en el mundo del trabajo del periodista. Se tiene todavía, Roseli Figaro y Chris Anderson, Emily Bell y Clay Shirky, quienes, respectivamente, informan sobre los cambios en el mundo del trabajo, la crisis del modelo de negocios y la reestructuración del periodismo. Además de la investigación bibliográfica, el estudio utiliza entrevistas en profundidad con investigadoras especialistas y una encuesta cuantitativa y cualitativa aplicada en dos fases por medio de cuestionarios online a mujeres periodistas mayores de 18 años que trabajan en el Estado de São Paulo. Las respuestas de los cuestionarios fueron categorizadas y analizadas a la luz de conceptos del tema, de las entrevistas y de estudios anteriores realizados por la autora de esta disertación. Se demostró que las estructuras de dominación sexuales todavía están fuertemente presentes en el ambiente periodístico revelando una atmósfera nociva y la urgencia de la implementación de medidas de concientización y de castigo efectivas en el ambiente laboral para que se pueda tener una cultura periodística menos machista y más segura. PALABRAS-CLAVE: Mujeres Periodistas; Periodismo Contemporáneo; Discriminación de Género; Convergencia; El Mundo del Trabajo..

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(20) ABSTRACT Taking into account the scenario of crisis and structural changes in journalism and the growing female majority in the professional body, this research has as main objective to investigate how the discriminatory processes suffered by women journalists in this context of transformations are configured. The hypothesis is that the journalist suffers from a double embryo: the first because she is a woman and the second due to the crisis. The theoretical references that support these affirmations revolve around the imaginary, the discrimination of gender and contemporary journalism. One of the authors used is Martín Sagrera, who points out the appropriation of the myth by institutions; Pierre Bourdieu, Gilles Lipovetsky and Naomi Wolf, who, among others, bring the discussion about discrimination against women and chauvinism into the social imaginary. Constância Lima Duarte and Dulcília Buitoni tell in depth interviews the history of the struggle for women's rights present in the feminist and women's press, the women's trajectory to enter the profession and how the woman is portrayed by the media in Brazil, an unreal body-product; And the third interviewee, the researcher Cláudia Nonato, explains the changes in the world of the journalist's work. There are also Roseli Figaro and Chris Anderson, Emily Bell and Clay Shirky, respectively, who report on the changes in the world of work, the crisis of the business model and the restructuring of journalism. In addition to the bibliographic research, the study uses in-depth interviews with female expert researchers and a quantitative and qualitative survey applied in two phases through online questionnaires to women journalists over 18 who work in the State of São Paulo. The answers of the questionnaires were categorized and analyzed in light of the theme concepts, the interviews and previous studies carried out by the author of this dissertation. It has been demonstrated that structures of sexual domination are still strongly present in the journalistic environment, revealing a noxious atmosphere and the urgency of implementing effective measures of awareness and punishment in the workplace so that a less sexist and safer journalistic culture can be found. KEY-WORDS: Women Journalists; Contemporary Journalism; Gender Discrimination; Convergence; World of Work..

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(23) INTRODUÇÃO. Confesso que o que me levou a estudar sobre a discriminação de gênero e a violência contra a mulher foi em primeiro lugar a própria discriminação que experimentei e presenciei ao longo de minha vida. Muitas vezes ela ocorria (e ainda ocorre) dentro da minha família, em meus relacionamentos, na igreja, no ônibus, nas ruas e até mesmo no estágio de assessoria de imprensa em uma grande empresa de comunicação corporativa, e vinha, de maneira discreta ou não, de mãos dadas não só com homens, mas também com mulheres. No estágio a discriminação veio da minha chefa. Na hora da devolutiva, ela “explicou” que eu não podia conversar com os outros, não podia ser tão aberta, não podia oferecer um bolo, uma bala ou então conversar com alguém de um cargo mais alto que eu porque isso daria a entender que eu queria alguma coisa e, segundo ela, eu não podia passar essa imagem. Mudam as tecnologias, mudam os processos, mas o imaginário social insiste em permanecer o mesmo. Mas por que esses mitos continuam tão presentes? Gostaria de partir de um comentário realizado pela querida Profa. Dra. Ana Carolina Temer, na banca de qualificação desta pesquisa, que, atentou-se à maneira como as mídias se apropriam dos mitos e por meio das tecnologias estimula o fortalecimento e manutenção de uma sociedade patriarcal. Temos ainda o fato da tomada do mito como verdade histórica, de maneira “consciente e sistemática”, e não como forma de conhecimento do mundo, trabalhado por Martins Sagrera en Mitos y Sociedad (1967), quando se refere ao estabelecimento de poder por meio de um movimento político e social. Retomando a temática da tecnologia, não é novidade a crise que as instituições jornalísticas vêm enfrentando: por um lado o declínio do financiamento publicitário, os jornais não conseguem mais se sustentar e, por outro, a pluralidade de informação que nem sempre 13.

(24) vem com a credibilidade ou com o respaldo ético do jornalismo. A mídia tradicional vem perdendo cada vez mais espaço frente às novas mídias (redes sociais, mídias online, aplicativos, entre outros) na era digital, e tem sido cada vez mais comum receber as notícias de grandes cortes nas redações, seguidos de reestruturações, ou pior, quando jornais, como o Brasil Econômico2, e revistas de tiragem nacional, como os títulos da Abril, encerram suas atividades. De acordo com o repórter Fernando Scheller (2018, online), a Editora Abril anunciou no dia 6 de agosto de 2018 que manteria somente 15 títulos em operação. A decisão veio duas semanas após a empresa americana de reestruturação Alvarez e Marsal assumir o comando da companhia. Além de fechar 10 títulos, incluindo as revistas femininas Elle e Cosmopolitan, a Casa Claudia de decoração e a Boa Forma, a medida resultou na demissão de cerca de 800 funcionários. De acordo com o Relatório de Jornalismo Pós-Industrial (2013) feito por Anderson, Bell e Shirky, a receita publicitária tradicional dos jornais vem caindo desde 2006, quando começaram as integrações entre o impresso e o digital no mercado, ou seja, quando a internet entrou no jogo os subsídios vindos da publicidade foram sendo cortados, afinal é mais barato anunciar online que pagar para anunciar na grande mídia. Além disso, para continuar trabalhando muitos jornalistas se tornaram Pessoas Jurídicas (PJ), alterando a configuração e condições de trabalho. E é nesse cenário de crise e reinvenção da atividade que surge a preocupação com a jornalista: a pesquisa sobre o Perfil do Jornalista Brasileiro, feita por Bergamo, Mick e Lima (2013), mostrou que 64% dos profissionais são mulheres. Outro estudo denominado Desigualdade de Gênero no Jornalismo (2016), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), com 535 jornalistas de todo o país, trouxe dados preocupantes: 77,9% já sofreram algum tipo de assédio moral por parte de chefes e colegas de trabalho, 78,5% das participantes afirmaram ter enfrentado situações machistas durante entrevistas e mais de 70% já deixaram de pegar pautas por serem mulheres. Além disso, a pesquisa apontou que 61,5% das jornalistas já trabalharam em cargos recebendo menos do que os colegas homens pela mesma função. O racismo também está presente: 86,4% das profissionais acreditam que jornalistas negras têm menos oportunidades dentro da área. Em matéria publicada no portal do SJPDF, Wanderlei Pozzembom, um dos coordenadores do Sindicato envolvido na produção da cartilha, explicou que a principal 2. O Brasil Econômico foi criado em 2009 pela Empresa Jornalística Econômico S.A., que também publica O Dia no Rio de Janeiro. Tornou-se o segundo maior jornal especializado em economia, depois do Valor Econômico, mas encerrou suas atividades em julho de 2015.. 14.

(25) “doença” que acomete os jornalistas é o assédio, provocando stress, depressão, síndrome do pânico, e questionou como o jornalista pode conseguir trabalhar num ambiente como esse. Diante desse panorama, a pergunta de pesquisa que surge é: como os processos discriminatórios acontecem nesse contexto de transformações (com a presente maioria feminina e as mudanças estruturais que estão ocorrendo dentro do jornalismo)? A hipótese deste trabalho é de que a jornalista, por ser uma profissional mais cobrada do que os pares homens, desvalorizada e discriminada por seu sexo, está mais sujeita às fragilidades que vêm com a mudança estrutural. Além do assédio moral e do estresse causado pelo ambiente jornalístico em crise, as profissionais também sofrem justamente por serem mulheres. Ou seja, dentro dessa fragilização (a crise do modelo de negócio e da pluralidade informacional que desacredita o jornalismo), a profissional enfrenta outra fragilização, por ser mulher. Em pesquisa anterior à presente, realizada com jornalistas da cidade de São Paulo, constatei que a discriminação de gênero continua acontecendo dentro do jornalismo: 93,6% das jornalistas participantes sofreram ou perceberam algum tipo de discriminação de gênero no ambiente laboral. Para comprovar a hipótese foi feita uma pesquisa quantitativa e qualitativa online, além da pesquisa bibliográfica, por meio da ferramenta Formulários da Google, no estado com a maior concentração de jornalistas do Brasil: São Paulo. A decisão pelo estudo misto veio após outras duas pesquisas que fiz durante minha iniciação científica “A mulher repórter no jornalismo pós-industrial”: a primeira, qualitativa, com entrevistas presenciais semiestruturadas com 5 repórteres de diferentes veículos e tipos de mídia da cidade de São Paulo; na segunda, um survey online com 94 jornalistas da cidade. A partir dos resultados das duas pesquisas e dos estudos bibliográficos houve um aprimoramento e a elaboração de dois novos questionários aplicados para o atual estudo. Para enriquecer a análise e a pesquisa bibliográfica, decidiu-se por fazer entrevistas em profundidade – compreendida a partir da entrevista dialógica/compreensiva proposta nas obras Entrevista: um diálogo possível (MEDINA, 1995) e A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo (KAUFMANN, 2013) como uma técnica não engessada, que está em construção no momento da interação com o entrevistador assumindo uma postura não autoritária e dialogando com o entrevistado – com pesquisadoras mulheres especialistas nas áreas de história da imprensa feminina e feminista, representação da mulher na mídia e mundo do trabalho do jornalista, sendo elas: Constância Lima Duarte, Dulcília Buitoni e Claudia Nonato, respectivamente. 15.

(26) Ao longo da história e do seu registro, o cotidiano das mulheres foi ignorado por ser algo de menor importância, por ficarem relegadas ao privado enquanto aos homens lhes era dado o palco da vida pública protagonizando os momentos importante. O encobrimento da história das mulheres e da história das mulheres na imprensa não é inocente, é uma construção cultural que pretende deixar de lado parte importante da humanidade. Ao optar por entrevistar pesquisadoras mulheres, pioneiras, faço parte do grupo que pretende desvelar essa história, (re)escrevê-la para deixá-la em evidência. Afinal, nós mulheres produzimos conhecimento e fazemos parte do mundo. Devemos e merecemos estar nos livros. No Brasil há poucos estudos sobre a mulher profissional jornalista e esta é uma pesquisa acadêmica que tem o objetivo de colaborar para uma mudança em relação a como o trabalho feminino dentro do jornalismo (e fora dele) é visto. Para finalizar, no primeiro capítulo desta dissertação de mestrado discorro sobre o universo mítico a partir de autores como Castoriadis e Sagrera, que explica como as instituições se apropriam dos mitos para impor sua dominância. Também abordo a divisão sexual binária da sociedade, trazendo autores como Bourdieu e Lipovetsky, o livro Dicionário Crítico de Gênero, e Naomi Wolf com o mito da beleza que ajuda a manter a mulher numa posição inferiorizada. Além de falar também da legislação brasileira sobre diferentes tipos de assédio com as cartilhas do Ministério Público do Trabalho e do Senado Federal. Tópicos importantes para entendermos por que costumes machistas e patriarcais estão tão interiorizados e naturalizados na cultura e no imaginário social, já que não é só no jornalismo que a discriminação de gênero e o assédio acontecem. Começo o segundo capítulo contando um pouco da história das mulheres no jornalismo brasileiro e como fomos conquistando espaço em uma profissão masculina com as obras Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX (DUARTE, 2016), Mulheres Jornalistas: A Grande Invasão (RAMOS, 2010) e Mulher de papel (BUITONI, 2009). Também é de suma importância trazer as pesquisas e cartilhas feitas por Sindicatos do Jornalista que falam de assédio no trabalho e da discriminação de gênero, além dos últimos estudos feitos na área. Depois adentro no campo do jornalismo contemporâneo e os novos modelos de negócio, com o auxílio de autores como Antonio Magnoni, Caio Túlio Costa, Lucas de Araújo e Christopher Anderson, Emely Bell e Clay Shirky com o seu Relatório de Jornalismo Pós-Industrial, além das pesquisas sobre o Mundo do Trabalho do Jornalista (FIGARO, 2012; FIGARO E NONATO, 2017; FIGARO, NONATO E KINOSHITA, 2017), assuntos necessários para se. 16.

(27) entender a remodelação estrutural-tecnológica pela qual a área passa e que soma outras preocupações às profissionais, fora a discriminação durante o exercício da profissão. No terceiro capítulo apresento os dados coletados nas duas fases da pesquisa online com o apoio da bibliografia consultada e das entrevistas concedidas pelas pesquisadoras analisando a situação da mulher jornalista no estado de São Paulo. Vale lembrar que a pesquisa foi aplicada somente a esse universo, mas não deixa de ser importante para desbravar o assunto na área e conseguirmos barrar mais os avanços das atitudes machistas, discriminatórias e que fazem sofrer tantas colegas. Como objetivo geral tem-se a investigação de como se configuram os processos discriminatórios sofridos pelas mulheres jornalistas levando em consideração o ambiente jornalístico em mutação, além de observar como a profissional lida com isso. Por objetivos específicos, este estudo se propõe a: debater a existência dos resíduos patriarcais na atividade jornalística; refletir sobre o impacto da internet e da convergência cultural e tecnológica na prática jornalística; debater a manutenção dos mitos na atualidade e como eles ajudam a continuar com a discriminação; e inferir sobre ações para prevenção da discriminação de gênero dentro e fora do ambiente de trabalho da jornalista. Dentro da área de concentração “Processos Comunicacionais” e da linha de pesquisa “Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais”, este trabalho cumpre sua parte ao assumir que o ser humano é um ser dialógico, como apontado por Bakhtin, que se comunica e transmite seu conhecimento por meio da linguagem, assim como, entende que pelo fato de o jornalismo ser parte integrante da sociedade, ele reproduz certas dinâmicas, como, por exemplo, a da cultura machista. Entendendo como a discriminação contra a mulher funciona dentro da instituição jornalística e contribuindo com as formas de extinguir este tipo de comportamento, alcançaremos a prática de um jornalismo mais humano e justo, que poderá refletir tais ensinamentos diante do público ao qual se dirige. Pensando em objetivos sociais, humanos e políticos, devo dizer que ainda não vivi muito, tenho 24 anos, mas vi e passei por bastante coisa e decidi que isso tinha que ter um basta ou que, pelo menos, já que não conseguiria extinguir o machismo e a discriminação com minhas próprias mãos e palavras, deveria fazer algo para que a incidência desses casos diminuísse. Além, é claro, de instruir e ajudar outras mulheres a não passarem por situações semelhantes, estimulá-las a denunciar, porque sabemos que nem sempre é tão fácil. Desejo também que este trabalho inspire colegas de outras áreas (e da minha também) a pesquisarem cada vez mais sobre o assunto para que possamos mostrar à sociedade e ao 17.

(28) mundo que queremos ser tratadas de maneira igual, que queremos trabalhar sem sofrer preconceitos somente por sermos mulheres, que queremos direitos como qualquer ser humano, e, (e não como qualquer homem!) acima de tudo desejamos ser respeitadas. Por fim, ressalto que este trabalho é uma homenagem a todas mulheres (jornalistas ou não) que lutaram pelos direitos que conquistamos e por todas as que estão lutando ou ainda lutarão para que esse abismo que existe entre homens e mulheres e essa divisão binária da vida, sociedade e do trabalho desapareçam. Ninguém merece – e não é justo – ser escrava da própria identidade!. 18.

(29) Capítulo 1. O IMAGINÁRIO, A DIVISÃO BINÁRIA E A (DES)ORDEM DAS COISAS. Para discutir a situação da mulher jornalista no momento atual de crise e reestruturação da área é necessário explicar, antes de tudo, o que é imaginário e, depois, adentrar na condição da mulher na sociedade patriarcal. De acordo com Castoriadis (1987, p. 228), o ser humano só existe enquanto integrante da sociedade e por ela, sociedade esta que tem uma forma particular e única. E ter forma implica organização. Mas o que mantém uma sociedade em ordem? A ordem em uma sociedade é mantida por sua instituição e pelo complexo total de instituições que a mantém: normas, valores, métodos, instrumentos e até o próprio indivíduo “tanto em geral como no tipo e na forma particular que lhe dá a sociedade considerada (e em suas diferenciações: homem/mulher, por exemplo)” (CASTORIADIS, 1987, p. 229). As instituições, por sua vez, são validadas superficialmente mediante coerção e sanções e, mais amplamente, por meio da adesão, do apoio, da crença, da legitimidade, do consenso e “[...] em última análise: por meio da moldagem (fabricação) da matéria-prima humana em indivíduo social, no qual estão incorporados tanto as próprias instituições como os ‘mecanismos’ de sua perpetuação”, de acordo com o autor (p. 229). Ou seja, a maneira de ver e fazer as coisas já é condicionada e co-determinada pela estrutura, pela língua que o indivíduo fala, pelo ambiente familiar, pelo mundo em que ele vive ou, como diria Agnes Heller (2000), o indivíduo é formado pelo seu cotidiano. Todas essas pré-condições conduzem o ser humano a um comportamento que prioriza as diferenciações binárias entre os sexos. 19.

(30) Heller (2000, p.19-23) afirma que o homem aprende por assimilação dos hábitos de seu grupo social, aprende as relações de poder e a manipulação das coisas. O indivíduo é condicionado pelo ambiente em que vive, mas mesmo que escolha sua própria comunidade e modo de vida dentro das possibilidades existentes, divergindo de sua comunidade originária, ainda será parte e produto da mesma. Ele é “livre”, no entanto, seu desenvolvimento é moldado pelas condições de manipulação social e da alienação, e o que forma a unicidade, segundo Heller (2000, p. 22) são essas possibilidades de liberdade. Para a autora, a maioria esmagadora. da humanidade jamais deixa de ser, ainda que nem sempre na mesma proporção, nem tampouco com a mesma extensão, muda unidade vital de particularidade e genericidade. [...] O fato de nascer já lançado na cotidianidade continua significando que os homens assumem como dadas as funções da vida cotidiana e as exercem paralelamente (HELLER, 2000, p. 23, grifo da autora).. Para Castoriadis (1987) e Heller (2000) a pessoa é produzida pela sociedade e, como parte dela reproduz sua instituição, repassando o que aprendeu para os próximos e assim sucessivamente. Segundo Castoriadis (1987), uma sociedade que passe guerras violentas e crises terríveis continuará sendo ela mesma por conta da unidade e coesão interna que o magma das significações imaginárias sociais (grifo do autor) confere a ela, animando-a. Este, é um “tecido imensamente complexo de significações que impregnam, orientam e dirigem toda a vida daquela sociedade e todos os indivíduos que, corporalmente, a constituem” (CASTORIADIS, 1987, p.230). Como exemplos de significações imaginárias sociais o autor cita: deuses e Deus, cidadão, nação, Estado, partido, dinheiro, mercadoria, virtude, pecado, e também, homem, mulher, e criança, devido a que, além das diferenças biológicas, cada um tem especificações diferentes de acordo com a sociedade à qual pertencem e que os fazem ser assim (p. 231). Uma mulher da Idade Média era e é completamente diferente da mulher brasileira ou da mulher europeia de hoje, por exemplo. Legros et al. (2014, p. 12) dizem que, as principais características atuais do imaginário podem ser expressas em quatro funções sociais: 1) A necessidade da abstração; 2) Uma função regulatória diante do incompreensível, encontrando maneiras de lidar com. ele (como a morte); 3) Relativiza a percepção do real abrindo caminhos para a criatividade social e individual; 20.

(31) 4) E a de comunhão social: favorece e alimenta, principalmente camuflando-se, a memória. coletiva e os sistemas de representação.. Para os autores,. O imaginário não é uma forma social escondida, secreta, inconsciente que vive sob as fibras do tecido social. Ele não é o reflexo, o espelho deformado, o mundo revirado ou a sombra da realidade, uma sociedade subterrânea que cruzará profundamente os esgotos da vida cotidiana, mas ele estrutura, no fundo, o entendimento humano. Tudo somado, são métodos analíticos do pesquisador que cruzam as galerias subterrâneas (LEGROS et al., 2014, p. 111).. Quando nos focamos na função regulatória, aquela que encontra maneiras de lidar com o incompreensível, e na comunhão social, a que favorece e alimenta memórias coletivas e sistemas de representação, temos os símbolos imaginários (como os seres fantásticos, divinos e outros). De acordo com Eliade (apud LEGROS et al., 2014, p. 114), estes símbolos “ligam os indivíduos entre si, confortam o sentimento de pertença para fazer face a uma ameaça invisível. Eles constituem, por oposição a essa ameaça, o elo da espécie humana”. Também servem para explicar o incompreensível, mesmo que momentaneamente, e ao mesmo tempo passam a ser a fonte da “poetização humana”, de acordo com Eliade. Legros et al. explicam que sozinhos os símbolos não são funcionais, dependem da nossa compreensão e só existem desde que não a prejudiquem:. O pensamento simbólico faz explodir a realidade imediata, mas sem diminuíla e nem desvalorizá-la: nesta perspectiva, o Universo não é fechado, nenhum objeto é isolado da sua própria “existencialidade”: tudo fica junto por um sistema fechado de correspondências e de assimilações. O homem das sociedades arcaicas tomou consciência de si mesmo em um “mundo aberto” e rico em significado. Resta saber se estas “aberturas” são tanto meios de evasão, ou se, ao contrário, elas constituem a única possibilidade de alcançar a verdadeira realidade do mundo (ELIADE apud LEGROS et al., 2014, p. 115).. Essa linha de pensamento de evasão ou alcance do real, segue o proposto por Castoriadis (1987, p. 229) quando fala da manutenção da sociedade por meio da ordem conferida pelas instituições e pelo magma das significações imaginárias sociais. Ademais da evasão ou como um modo de alcançar a realidade, Legros et al. (2014, p. 115, grifo dos autores) afirmam que os símbolos ofertam ao homem uma realidade recreativa, são um a “mais” direcionando a compreensão humana, ofertando uma “consciência inconsciente”. 21.

(32) Nesse magma encontram-se os mitos que, de acordo com Durand (1985, p. 244), são histórias compostas por seres fantásticos que justificam situações que se passam na vida real e que são tomadas como verdade, já que são ocorrências que não são racionalmente lógicas, mas que precisam ser validadas como tal. Trata-se de uma racionalização do arquétipo, de um primeiro modelo mental ou antigas impressões sobre alguma coisa pertencente ao inconsciente coletivo, universal, que funciona como estrutura de pensamento ou como uma forma, aponta Jung (2002, p. 15-17 e p. 353). Ou seja, o mito utiliza-se das imagens e formas arquetípicas (como a do herói, a do bem e mal e a da morte) para explicar porque as coisas são como são. O mito foi uma das formas que o ser humano encontrou para explicar e conhecer o mundo, refere-se a uma forma cognitiva de liberdade e é tão pertencente a humanidade como a ciência, não sendo opostos, explica Martin Sagrera (1967, p. 21). Faz parte do ato da afirmação, qualificado por Sagrera (p. 22) como “a fonte de todo o nosso conhecimento”3, que está dividido em dois tipos de objetos: um mais objetivo e sensível, como o raciocínio matemático, por exemplo, no qual uma vez que os termos do problema foram escolhidos, os resultados virão independente do que queremos ou não que sejam; já o outro tipo de objeto tem uma propriedade mais intuitiva, escura e subjetiva/pessoal, como a existência de Deus ou a imortalidade da alma (SAGRERA, 1967, p. 22). Existe também outro exemplo de mito conhecido como mito dogmático ou dogma, definido como a expressão política do mito por Sagrera. Ele tem uma função unificadora e sua “expressão em forma dogmática corresponde a um estado social de emergência, em que as liberdades individuais se juntam em uma comum vontade de subsistir”4 (SAGRERA, 1967, p. 77). Esta surge em momentos de crise nos quais a sociedade tenta explicar ou justificar o que está ocorrendo, seja quando a inteligência racional não consegue explicar ou quando se tem medo do que é exposto, utilizando o mito como uma defesa, como forma de não ter seu povo desestabilizado, ou seja quando se quer explicar uma conquista, neste caso o autor dá o exemplo de um povo que está em processo de expansão e para justificar seu poder, já que é consciente deste, fala que é de origem divina (SAGRERA, 1967, p. 73). De acordo com o autor (p.77), surge um momento de tensão quando os indivíduos se dão conta de que esta “[...] mobilização ideológica corresponde a motivos complexos que não são compartilhados plenamente por todos os membros da sociedade, ao menos de modo. 3 Tradução minha. 4 Tradução minha.. 22.

(33) permanente” 5, o que faz com que estes questionem a autoridade da sociedade e os seus valores tradicionais e sociais, querendo liberdade. Sagrera explica que. Las organizaciones religiosas y políticas que han llegado a un grado importante de saturación dogmática desprecian el verdadero ejercicio de la inteligencia, la reflexión; más aún, lo consideran, no sin lógica interna, como un insulto a la perfección alcanzada por ellas, un gasto inútil de energías, un vano y orgulloso intento de sobreponerse al saber común, un atentado peligroso al orden constituido. Según el círculo vicioso en que casi irresistiblemente caen todas las dictaduras, sobre todo cuando tienen que luchar mucho contra sus enemigos internos – lo que indica que ya no es tan evidente la necesidad de su existencia –, el dogmatismo tiende a insistir en la ignorancia humana, la incapacidad de instrucción, etc., a fin de justificar la existencia de un magisterio, y con esto mismo va aumentando progresivamente su campo de aplicación (SAGRERA, 1967, p. 78).. Ou seja, em sua tentativa de colocar ordem, as instituições se apropriam do mito de forma política e ideológica, tornando-o um dogma que precisa ser acreditado e praticado para ter força e valor. Já a intolerância é o que o instaura. Observações muito importantes explanadas por Sagrera (1967, p. 81). A seguir daremos exemplos de alguns mitos, como o de Adão e Eva, apropriados pelo cristianismo, onde à mulher é colocada a maioria da culpa, senão toda, pelo pecado e, por isso, ela e todas as mulheres depois dela deveriam ser submissas aos maridos, fiéis e gerar seus filhos com dor.. 1.1 Adão e Eva, a inferiorização e a submissão da mulher. Grande parte das pessoas com alguma ligação com as religiões cristã, judaica e islâmica alguma vez teve contato com a história da criação do mundo por Deus e do Pecado Original, seja por livros religiosos, por um desenho, novela, televisão ou qualquer outro meio. Resumidamente, depois de ter criado os céus, a terra, a luz e as trevas, a água, a vegetação, o sol e a lua, as estrelas, os répteis das águas, os animais marinhos e as aves nos cinco primeiros dias (BÍBLIA, Gênesis, 1:1-23), Deus criou, no sexto dia, os seres que habitariam a terra. Primeiro vieram o gado, os répteis e as bestas-feras da terra, depois o homem 5. Tradução minha.. 23.

(34) “à nossa imagem, conforme à nossa semelhança” (versículo 26) para que dominasse sobre todos os outros animais e toda a terra. No versículo 27 do primeiro capítulo de Gênesis, Deus criou “o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou” e os abençoou para que ambos reproduzissem e dessem frutos para encher a terra e também dominar todas as outras criações. Nessa primeira parte da bíblia, a mulher aparece em forma de igualdade, porque foi criada junto com o homem, macho e fêmea à semelhança de Deus. Ambos abençoados. No segundo capítulo a história muda, as narrativas são diferentes e a diferenciação entre gêneros se torna evidente. Surge a hierarquia:. Num primeiro nível, homem e mulher são idênticos; num segundo nível, a mulher é o oposto ou o contrário do homem. Essas duas relações, tomadas em conjunto, caracterizam a relação hierárquica, a qual não pode ser melhor simbolizada do que pelo englobamento material da futura Eva no corpo do primeiro Adão (DUMONT, 1985, p. 129).. Para Laraia (1997, online), as diferentes narrativas foram resultado da manipulação dos textos bíblicos para servissem aos propósitos de seus editores:. [...] os "editores bíblicos", através do tempo, procuraram mediante uma atitude censorial uma espécie de "pasteurização" do discurso original, numa tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respectivas épocas. Contudo, os trechos que foram objetos de cortes não tiveram o seu registro totalmente apagado, continuam disponíveis em outros textos, principalmente os da religião Judaica. A legitimidade etnográfica deste material pode ser invocada, pois o Cristianismo é uma religião derivada do Judaísmo, partilhando com o mesmo o discurso mítico contido no Velho Testamento. (LARAIA, 1997, online).. Segundo Laraia (1997, online), ao adequar o discurso bíblico, cortando as partes convenientes, a primeira narrativa bíblica sobre a criação da humanidade contraria a versão mais difundida de que a mulher foi criada depois do homem, a partir de uma costela. O autor traz então duas interpretações sobre a diferença das narrativas. A primeira contraria a versão mais difundida na qual o homem teria sido criado: Adão seria originalmente um ser andrógino com características masculinas e femininas e que a criação de Eva, a partir da cisão dos corpos, representaria a separação dessas duas partes. Essa versão é explicada, de acordo com o autor, em textos rabínicos como o Sepher Ha-Zohar. A segunda interpretação da linguagem simbólica trazida por Laraia é a de que Deus teria criado um casal, como fez com todos os animais, formado por Adão e por outra mulher 24.

(35) antecessora de Eva, Lilith. No entanto, esta queria igualdade e se recusou a ter relações sexuais com o homem por cima, dominando-a. E, por isso, Lilith fugiu para o Mar vermelho. Mas Adão se sentiu sozinho e Deus precisou criar outra mulher, dessa vez uma mais submissa (LARAIA, 1997, online). No entanto, é preciso lembrar que o mito foi originado da necessidade do homem de explicar coisas que não compreendia, como uma forma de conhecimento do mundo, e que também existe a forma apropriada politicamente do mito, o dogma, que é tratado como uma verdade pelas instituições para que os membros destas sigam suas doutrinas (SAGRERA, 1967). Logo, o que seria uma explicação mítica de como a humanidade surgiu se torna um fato, uma história real para que certas explicações impostas pelo cristianismo, neste exemplo, sejam aceitas e incorporadas pela sociedade. Ou seja, a mulher tem que ser submissa porque ela falhou com Deus e com seu esposo no início dos tempos. Deus, se compadecendo do homem, decidiu [desta vez] lhe fazer uma adjutora, que significa auxiliadora, companheira. Depois de Adão dar nome a todos os seres vivos, o Supremo o colocou para dormir, retirou uma de suas costelas e dessa formou a mulher (BÍBLIA, Gênesis, 2:22). Ou seja, é enfatizado o pensamento de Dumont que, de acordo com Mireya Suárez (1997, p. 36), teve a “virtude de desvendar o fato de que a existência das mulheres, enquanto sujeitos sociais completos, sempre foi ‘domesticada’ pelo pensamento antropológico clássico através da ideia de que o homem engloba, representa ou incorpora a mulher”. Para a autora, o imaginário sobre a mulher, revelado por Dumont e por Freud, habita tanto o entendimento da sociologia quanto o conhecimento vulgar, senso comum, os quais falam que a obra cultural recai sobre os interesses dos homens e que estes são obrigados a se superar diante das dificuldades, enquanto que as mulheres ficarem “escassamente dotadas” por serem relegadas ao familiar e ao sexual. Em seguida, Adão diz que a mulher, criada a partir de sua costela, era osso dos seus ossos e carne da sua carne. Segundo Muraro e Boff (2010, p. 90), no sentido original a história tinha como objetivo “mostrar a unidade homem/ mulher e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão, que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir da sua costela foi interpretada como superioridade masculina”, representando a mulher como um sujeito incompleto, enquanto o homem é o todo, e que mais tarde, dos tempos bíblicos para o nosso, passaria a ser ignorada em pesquisas etnográficas.. 25.

(36) Para Mireya Suárez (1997, p. 36) isso acontecia porque antropólogos como Harris e Young (1979) e Moore (1988) não prestavam atenção aos modelos sociais manifestados pelo sexo feminino e, assim, outros pesquisadores faziam o mesmo. Outro motivo, segundo a autora, era porque as mulheres não controlavam a informação dentro das culturas como o homem o fazia e, por isso, não deveriam ser objeto de estudo. No capítulo 3, a famosa serpente, animal mais astuto da criação, oferece à mulher o fruto da única árvore que Deus proibiu, garantindo que não morreria e sim que ganharia conhecimento equiparando-se a Deus. Eva então deu uma boa olhada no fruto, viu que era bonito e que parecia comestível, então o comeu oferecendo também ao marido. Os olhos de ambos se “abriram” e então perceberam que estavam nus e quando Deus os chamou se esconderam entre as árvores. A partir desse trecho Deus percebe que eles comeram da árvore proibida e Adão logo transfere a culpa para Eva e também para Deus, porque a mulher que Ele lhe deu como companheira foi quem lhe ofereceu o fruto. Eva, por sua vez, fala que a serpente a enganou. Deus amaldiçoa primeiro a serpente, obrigando-a rastejar sobre o ventre e a comer pó para sempre, e também prediz que os filhos da mulher serão inimigos dos da cobra e que um ferirá ao outro. Muraro e Boff (2010, p. 91) afirmam que a ideia é articulada de tal forma que a mulher é vista como o sexo fraco, por isso cede e seduz o parceiro, uma justificativa ideológica para explicar seu submetimento histórico. Depois vem o castigo da mulher: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (BÍBLIA, Gênesis, 3:16). A primeira parte da condenação da mulher remete, como diz Reimer (2009, p. 100), a uma circunstância natural: a de ter dores durante a gravidez. Mas a segunda parte, a do desejo voltado para o homem e sua submissão perante o marido, demonstra que quem editou o texto incorporou na escrita valores culturais e morais da época (REIMER, 2009), numa atitude censorial6 conforme explica Laraia (1997, online), ficando evidente que “não são os mitos que produzem a sociedade, mas cada sociedade procura se reproduzir criando e recriando mitos” (BERGER, 2015, p. 520). Ponto reforçado por Reimer:. [...] é instauração mítica de uma ordem binária pretendida pelos formuladores do enredo mítico. Pretende-se a validação do domínio do masculino sobre o feminino e a canalização do desejo da mulher para o seu marido. Por trás disso. 6. Os censores eram funcionários públicos que se encarregavam de examinar as obras com fins de censura política ou moral.. 26.

(37) está a concepção da estrutura familiar patriarcal típica para a sociedade do antigo Israel (REIMER, 2009, p. 100).. Reimer (2009, p. 100) enfatiza que essa divisão binária exclui todas as outras características e relações pessoais existentes além dessa condição e que, nesse sentido, “o texto projeta como ideal-e-castigo a ordem patriarcal dominante no mundo vétero-oriental”. Quanto a Adão, por ter dado ouvidos à sua mulher e comido do fruto também, teria que trabalhar e suar para, com dor, comer da terra (esta também foi maldita por causa dele e passaria a produzir espinhos e cardos) até retornar a ela, virando mortal, “porque dela foste tomado: porquanto és pó, e em pós te tornarás” (BÍBLIA, Gênesis, 3:19). De acordo com Berger (2015, p. 521), a utilização do Pecado Original como eixo das críticas à sexualidade no cristianismo foi tomada pela teologia do ocidente a partir de Agostinho. Para o autor, na sociedade teocêntrica e patriarcal de Israel quebrar ou desconfiar dos princípios estabelecidos por Deus “desestabilizaria a legitimação da ordem social”. Por isso, a narrativa do mito está elaborada para manter essa construção e ajudava a instaurar a nova ordem, na qual era necessário explicar o porquê de o trabalho ser necessário mesmo que fatigante, principalmente em sociedades escravagistas; porque as mulheres tinham dores ao ter filhos numa sociedade que valorizava famílias grandes; tinham que justificar a subjugação da mulher ao homem (BERGER, 2015, p. 521). Ou seja, o mito explica a ordem que permite a dominação de um homem sobre o outro (por Adão), sobre a mulher (por Eva) e sobre a natureza (pela terra maldita): “O conhecimento é colocado como a causa da transgressão, porque agora em diante ele vai ser o motor que vai fazer funcionar todo o sistema” (MURARO, 2002, p. 74). Pode-se perceber no cenário do mito a estruturação da configuração histórica apontada por Judith Butler (2017, p. 8) na qual “ser mulher é uma indisposição natural”, é ser um problema. Vê-se com Rose Marie Muraro (2002) e Berger (2015) que o conhecimento é colocado como um pecado passível de punição, a punição dos dominados, daqueles que não são justos. Berger (2015, p. 520-521) também explica que na tradição cristã o pecado é considerado uma característica inata de todos os seres humanos por culpa de Adão e Eva, progenitores de toda a humanidade, um pensamento que, segundo o autor, iniciou-se com Tomás de Aquino. Resta observar que foi conferido a Adão o menor dos pecados, o trabalho, e a Eva o maior, gerir com dor, ter o desejo voltado exclusivamente para o marido e ser submissa a ele. Lembrando também que Eva só recebe de Adão o nome de Eva depois que os dois pecam,. 27.

(38) “porquanto ela era a mãe de todos os viventes” (BÍBLIA, Gênesis, 3,20). Antes ela era somente chamada de mulher, a mulher de Adão. Depois de definidos os castigos, Deus dá túnicas para que o casal se vista e o expulsa do jardim do Éden para que não continuasse comendo da árvore da vida e vivesse eternamente como “um de nós”, guardando o jardim com querubins e uma espada inflamada. A exemplo desse mito, ou dogma como classificado por Martin Sagrera (1967) pelo viés político e social, deve-se prestar especial atenção à questão do imaginário, porque nela que podemos encontrar justificativas e visões de mundo para o que a sociedade se tornou e como isso ocorreu. Lewis Morgan (1978) e Muraro e Boff (2010) recorrem à história para ver como se construiu essa sociedade patriarcal e o imaginário nela presente. De acordo Muraro e Boff (2010, p. 51), a ascensão desta instituição se deu por meio da queda da sociedade matriarcal, cerca de 2000 a.C., com os homens querendo garantir aos filhos o direito à herança, nessa época as propriedades mais valiosas eram os animais e, depois de um tempo, as terras. Para garantir que o direito patrilinear fosse estabelecido sem risco da volta do Governo Feminino, os homens relegaram às mulheres à uma condição análoga à escrava (BERGER, 2015, p. 521), tema abordado a seguir.. 1.2 Matriarcado e patriarcado como instituições. O matriarcado, de acordo com Maria Beatriz Nader e Lívia Rangel (2015, p. 446), estabeleceu-se no primórdio das civilizações como uma crença, um governo no mundo antigo primitivo no qual as mulheres dirigiam os sistemas políticos numa espécie de governo feminino. Já o patriarcado, segundo Lana da Gama Lima e Suellen Souza (2015, p. 515), se origina da combinação das palavras em grego pater (pai) e arkhe (origem, comando). As autoras explicam que para Engels (1884), essa ordem social se estabeleceu com o fim da poliandria e o começo da monogamia feminina, como forma de escravidão da mulher, e a patrilinearidade (DA GAMA LIMA; SOUZA, 2015, p. 516). Muraro e Boff (2010, p. 50) utilizam Heide Göttner-Abendroth (1991) para explanar que há trinta mil anos o matriarcado prosperava em todos os continentes, dependendo da região, as grandes cidades eram matriarcais por volta de 10000 a.C. Para os autores, esse era o tempo 28.

(39) das grandes deusas e da reverência à vida, sociedades marcadas pelo novo modo de produção: o agrícola. As mulheres intercediam em situações de conflito e organizavam as sociedades. Tamanho poder se devia ao fato de serem responsáveis pela vida e pela morte, um evento tomado como um renascimento e não como negação, quando uma vida findava a mulher garantiria a concepção dos que haviam morrido (MURARO; BOFF, 2010, p. 51). A natureza era vista como uma extensão do ser humano e este deveria viver em harmonia com ela, respeitando-a e venerando-a:. As instituições do matriarcado, caracterizadas por grande força integradora, foram tão significativas que se transformaram em arquétipos e em valores e, como tais, deixaram incisões na memória genética até os dias de hoje. Esses arquétipos e valores não pairam num imaginário vazio, mas são calcados sobre fatos históricos e políticos que esclarecem a consistência guardada por eles até o presente (MURARO; BOFF, 2010, p. 51).. A linguagem, inclusive, “estaria associada ao trabalho civilizador das mulheres” (2010, p. 51), que deram origem à vida pela boca sexual e à linguagem por meio da boca social ou facial. O fim desse regime social se deu por volta de 2000 a.C., conforme Muraro e Boff explicam, variando de um lugar para outro. Depois disso, o mundo passou a pertencer aos homens e o patriarcalismo foi implantado, impondo à sociedade uma ditadura cultural machista e masculinista (MURARO; BOFF, 2010, p. 51). Para Morgan (1978, p. 80), a mudança da descendência feminina para a masculina abriu o caminho para essa nova ordem social. Morgan explica que na história das gens7, no caso das tribos pelasgas e gregas, a filiação matrilinear já havia sido extinguida quando entraram na fase superior da barbárie (fase anterior à emergência da civilização). Segundo o autor (p.81), a filiação por parte de mãe começou a ser um problema quando os animais passaram a ser a principal fonte de subsistência e propriedade, quando as terras se tornaram posses e os indivíduos passaram a acumular bens. Na linha matrilinear as propriedades e cargos dos homens eram distribuídos entre seus parentes por parte de mãe, já que a descendência feminina era a mais assegurada – até então a família era punaluana e consanguínea, nela havia irmãs e irmãos carnais e os indivíduos não eram monogâmicos, as esposas e esposos poderiam ser partilhados, não havendo certeza da paternidade (MORGAN,. 7. Pode ser entendido como gente de acordo com o autor.. 29.

Referências

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