SUMÁRIO
DEPOIS DA PORTEIRA
3.5 ASPECTOS LEGAIS
3.5.7 Mecanismos de transparência
Conforme o disposto por Francisco de Godoy Bueno (2017, p. 166), a Lei n. 13.288/2016 (BRASIL, 2016) instituiu instrumentos garantidores de transparência na relação contratual, evitando que assimetrias de informações levem o produtor integrado a subestimar os custos e os riscos envolvidos no contrato. Para isso, além de exigir que os contratos sejam escritos com clareza, precisão e ordem lógica, obriga o integrador a disponibilizar Documento de Informação Pré-Contratual (DIPC) e Relatórios de Informações da Produção Integrada (RIPI).
Vincenzo Roppo (2011, p. 85-86) identifica um novo paradigma na teoria dos contratos, em que a autonomia contratual passa a ser limitada por regras de conduta impostas pelo ordenamento jurídico. Observa-se, nesse fenômeno, uma ampliação das normas previstas na defesa do consumidor para outros contratos, independentemente da posição socioeconômica das partes. Isso, porque, Vincenzo Roppo (2011, p. 87) assinala a existência de assimetria contratual nos mais variados tipos contratuais, decorrente da disparidade de poder contratual88. Na tentativa de reequilibrar a relação entre as partes, o legislador opta pela imposição de regras de conduta contratual.
87 Art. 12, § 3º O Foniagro terá o prazo máximo de seis meses contados da promulgação desta Lei para apresentar
as metodologias de cálculo para cada cadeia produtiva, podendo esse prazo ser prorrogado, mediante justificativa aceita pelas partes.
88 Para Vincenzo Roppo (2011, p. 87), a assimetria de poder contratual é essencial para a caracterização da posição
do consumidor frente ao fornecedor, mas não limita-se à essa espécie contratual, podendo ser observada, por exemplo, na locação e nos contratos agrários de arrendamento e parceria.
Os contratos agrários, por sua vez, identificam-se como assimétricos, não em razão exclusiva de hipossuficiência econômica de uma das partes, mas decorrente de sua posição conatural. Francisco de Godoy Bueno (2017, p. 153-153) identifica três debilidades comuns nos contratos agrários: i) dependência e subordinação da empresa agrária ao ciclo biológico; ii) informações disponíveis em respeito ao ciclo biológico; iii) posição das partes ao mercado.
Em primeiro momento, a caracterização de uma atividade como agrária depende da observância da teoria da agrariedade, ou seja, do desenvolvimento do ciclo biológico. Para a sua qualificação, basta o desenvolvimento de uma fase deste ciclo, incluindo, por exemplo, a engorda de animais, conforme aponta Alessandra Di Lauro (2005).
Observa-se, nessa situação, que o adimplemento das obrigações não depende exclusivamente da vontade da parte, pois sujeita a um risco particular da atividade agrícola e pecuária. Flavia Trentini (2012, p. 3) aponta que esse risco pode ser definido como biológico em razão da “vulnerabilidade climática que os ciclos vegetais e animais estão expostos. Acrescenta-se a este risco as inúmeras doenças que podem vitimar estes ciclos”89.
Já quanto às informações disponíveis em respeito ao ciclo biológico, Francisco de Godoy Bueno (2017, p. 153) demonstra ser “natural que a parte diretamente envolvida com a atividade agrária tenha uma dominância das informações disponíveis sobre as condições de cumprimento do contrato”. A assimetria técnica verificada nesta hipótese impõe um amplo dever de transparência para a parte responsável pelo desenvolvimento do ciclo biológico.
Para o sistema de integração, o domínio do ciclo biológico encontra-se fragmentado entre integrador e produtor integrado. Isso, porque, na avicultura, por exemplo, o integrador fornece os pintos de um dia para a criação pelo produtor integrado. Assim, participa diretamente de fase do ciclo, resultando em assimetria de informação quanto a esse estágio. Desse modo, eventual contaminação prévia das aves que resulte em mortalidade excessiva, imputa-se a
89 Mariagrazia Alabrese (2009) propõe a classificação do risco na agricultura em duas espécies: risco para
agricultura e riscos da agricultura. A primeira espécie refere-se a fontes externas, não dependendo do modo de desenvolvimento da atividade, mas com efeitos internos Envolvem, assim, os riscos técnicos e econômicos. Os riscos técnicos podem ser abióticos (geada, vento, chuva, poluição, alterações climáticas) ou bióticos (vírus, bactéria e insetos). Já os riscos econômicos envolvem a deterioração dos produtos agrícolas e o risco institucional, derivados da mudanças políticas ou regulamentações jurídicas. Por sua vez, os riscos da agricultura advém de fontes internas, mas com efeitos externos. Dividem-se em riscos ambientais (poluição, danos ambientais); riscos conexos à introdução e difusão de biotecnologia (diminuição de biodiversidade, riscos ambientais e para a saúde).
responsabilidade ao integrador, gerando o dever de informar as causas identificadas, em decorrência da necessidade de transparência na relação contratual. Essa mesma lógica aplica- se Aos insumos fornecidos pelo integrador.
Observa-se um dever mútuo de informação, pois a assimetria pode alcançar ambas as partes, responsáveis por frações do desenvolvimento do ciclo produtivo. Os produtores integrados, por sua vez, responsabilizam-se pelo manejo de engorda dos animais, definido como desenvolvimento do ciclo biológico, conforme aponta Alessandra Di Lauro (2005). Assim, apesar de ausência de mecanismo expresso de transparência imposto ao produtor integrado, o contrato pode e deve prever o dever de informação do produtor integrado quanto à sua atividade90.
Por fim, quanto à posição de mercado, a assimetria decorre da natureza perecível dos produtos e a necessidade de rápida transformação ou comercialização após o alcance das condições ideais para colheita ou abate. Esse fato pode resultar em situação de dependência de uma parte, por conta da possibilidade de comportamento oportunista91, carecendo de regras de condutas para
preservação do equilíbrio entre as partes.
Destaca-se, assim, que a obrigação de transparência deve ser observada pelas duas partes no contrato, pois a assimetria pode alcançar a ambas, dependendo do enfoque analisado. Por sua vez, os mecanismos de transparência previstos pela Lei n. 13.288/2016 (BRASIL, 2016), como regras de conduta propensas à equilibrar à posição de dominância contratual, são instituídos para o dever de informação do integrador de modo a reduzir as assimetrias verificadas na relação sobre o produtor integrado.
3.5.7.1 Documento de Informação Pré-Contratual (DIPC)
90 Nesse sentido, a Lei n. 13.288/2016 prevê mecanismos de transparência exigidos ao integrador - Documento de
Informação Pré-Contratual (DIPC) e Relatórios de Informações da Produção Integrada (RIPI). Porém, o contrato de integração costuma impor dever de transparência ao produtor integrado, como, por exemplo, a obrigação de informar imediatamente a ocorrência de situações anormais na produção, principalmente relacionas à mortalidade de animais, sob pena de responsabilização pelos prejuízos causados o integrador, bem como a possibilidade de desfazimento unilateral do contrato, sem observância de aviso prévio.
91 Pode-se citar como exemplo de comportamento oportunista o rompimento contratual e a negociação da produção
O Documento de Informação Pré-Contratual (DIPC) previsto no artigo 9º da Lei n. 13.288/2016 é documento obrigatório a ser apresentado para o produtor integrado interessado em aderir ao sistema de integração. Deve conter, nesse sentido, as informações, condições e obrigações que decorrem do contrato de integração.
O contrato de integração pode ser caracterizado como de adesão92, uma vez que as suas condições e os seus parâmetros são impostos pelo integrador, não havendo espaço para a negociação de seu conteúdo. Assim, ao prever a obrigatoriedade do DIPC, o legislador busca reduzir incertezas decorrentes da aderência a cláusulas invariáveis, possibilitando ao produtor integrado antever as obrigações, os riscos e as vantagens do referido contrato.
Para isso, ao artigo 9º da lei impõe uma série de informações que deverão obrigatoriamente compor o DIPC. Exige-se, também a atualização trimestral do DIPC para os setores de produção animal e anual para os setores de produção agrícola e de extração vegetal, conforme parágrafo único do artigo 9º.
I - razão social, forma societária, Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ e endereços do integrador;
II - descrição do sistema de produção integrada e das atividades a serem desempenhadas pelo produtor integrado;
III - requisitos sanitários e ambientais e riscos econômicos inerentes à atividade; IV - estimativa dos investimentos em instalações zootécnicas ou áreas de cultivo e dos custos fixos e variáveis do produtor integrado na produção;
V - obrigação ou não do produtor integrado de adquirir ou contratar, apenas do integrador ou de fornecedores indicados formalmente pelo integrador, quaisquer bens, serviços ou insumos necessários à operação ou à administração de suas instalações zootécnicas ou áreas de cultivo;
VI - relação do que será oferecido ao produtor integrado no que se refere a: a) suprimento de insumos;
b) assistência técnica e supervisão da adoção das tecnologias de produção recomendadas cientificamente ou exigidas pelo integrador;
c) treinamento do produtor integrado, de seus prepostos ou empregados, especificando duração, conteúdo e custos;
d) projeto técnico do empreendimento e termos do contrato de integração;
VII - estimativa de remuneração do produtor integrado por ciclo de criação de animais ou safra agrícola, utilizando-se, para o cálculo, preços e índices de eficiência produtiva médios nos vinte e quatro meses anteriores, e validados pela respectiva Cadec; VIII - alternativas de financiamento por instituição financeira ou pelo integrador e garantias do integrador para o cumprimento do contrato durante o período do financiamento;
92 Leonardo Estevam de Assis Zanini (2017, p. 80) discorre que “o contrato de adesão se contrapõe ao contrato
paritário, no qual as partes são colocadas em pé de igualdade, ante o princípio da autonomia da vontade, o que lhes permite a discussão dos termos da contratação. No contrato de adesão não há discussão sobre o seu conteúdo, existindo apenas a possibilidade de aceitação ou recusa do contrato como um todo pelo aderente, sem possibilidade de debates acerca das disposições contratuais, salvo naturalmente o preenchimento de algumas informações ou a realização de opções preestabelecidas”.
IX - os parâmetros técnicos e econômicos indicados pelo integrador e validados pela respectiva Cadec para uso no estudo de viabilidade econômico-financeira do projeto de financiamento do empreendimento;
X - caráter e grau de exclusividade da relação entre o produtor integrado e o integrador, se for o caso;
XI - tributos e seguros incidentes na atividade e a responsabilidade das partes, segundo a legislação pertinente;
XII - responsabilidades ambientais das partes, segundo o art. 10 desta Lei;
XIII - responsabilidades sanitárias das partes, segundo legislação e normas infralegais específicas.
Francisco de Godoy Bueno (2017, p. 173) aponta que a abrangência das informações denota “o objetivo da Lei de coibir o abuso de poder contratual e garantir a redução da assimetria de informações de modo que sejam previamente apresentadas pelo integrador todas as premissas técnicas e econômicas”.
Vislumbra-se, assim, a previsão legal da boa-fé objetiva na fase pré-contratual. A fase pré- contratual, ou de negociação preliminar, não é indispensável para a formação do contrato, uma vez que, conforme pondera Carlos Roberto Gonçalves (2011, p. 73), o negócio jurídico pode surgir instantaneamente, de uma proposta seguida de uma imediata aceitação.
Apesar de não obrigatória, a fase de negociação preliminar é cada vez mais frequente em razão do aumento da complexidade dos contratos. A sua finalidade, portanto, é permitir que as partes troquem “informações fundamentais para a deliberação de cada qual, sobre realizar ou não o negócio jurídico e sobre o conteúdo que devem imprimir nele” (PEREIRA, 2001, p. 46).
Para o contrato de integração, caracterizado como de adesão, não haverá possibilidade de discussão sobre o conteúdo constante no instrumento contratual, servindo, assim, para a deliberação sobre realizar ou não o negócio jurídico, ao permitir um prévio exame das obrigações, responsabilidades, riscos, vantagens e desvantagens.
Porém, ao contrário do ordenamento jurídico italiano93 e português94, o legislador brasileiro expressou a incidência da boa-fé objetiva apenas na conclusão e na execução do contrato,
93 Codice Civile Italiano, Art. 1337 Trattative e responsabilità precontrattuale. Le parti, nello svolgimento delle
trattative e nella formazione del contratto, devono comportarsi secondo buona fede (1366,1375, 2208) (ITÁLIA, 1942)
94 Código Civil Português, art. 227. 1 Quem negoceia com outrem para conclusão de um contrato deve, tanto nos
preliminares como na formação dele, proceder segundo as regras da boa fé, sob pena de responder pelos danos que culposamente causar à outra parte (PORTUGAL, 1966)
conforme artigo 422 do Código Civil95, excluindo, assim, em uma interpretação literal, a sua aplicação à fase pré-contratual. Entretanto, não foi este o posicionamento firmado pela doutrina96 e pela jurisprudência97, estendendo a sua aplicação às tratativas.
Deste modo, seguindo os ensinamento de Ruy Rosado de Aguiar Júnior (2003, p. 250), a aplicação da boa-fé nas tratativas preliminares resulta em dever de esclarecimento, sobretudo nas situações em que uma das partes possui superioridade de informações ou de conhecimentos técnicos. Destaca-se que o esclarecimento deve ser dado de forma ampla e compreensível à outra parte, possibilitando, assim, a deliberação clara e esclarecida sobre a realização do negócio jurídico.
3.5.7.2 Relatório de Informações da Produção Integrada (RIPI)
O dever transparência também pode ser verificado no artigo 7º da Lei n. 13.288/2016 (BRASIL, 2016), que traz como obrigação ao integrador elaborar e entregar ao produtor integrado Relatório de Informações da Produção Integrada - RIPI, relativo a cada ciclo produtivo. Desse modo, após a entrega da totalidade da produção do respectivo ciclo, o integrador deverá informar sobre os insumos fornecidos, os indicadores técnicos da produção integrada, as quantidades produzidas, os índices de produtividade, os preços usados nos cálculos dos resultados financeiros e os valores pagos aos produtores integrados. Além dessas informações, a CADEC poderá dispor sobre a obrigatoriedade de outras.
Trata-se de dever de informação, fundamental para a efetivação da transparência na relação contratual. Apesar da ausência de tratamento sobre a qualidade da informação, ela deve ser acessível ao entendimento do produtor integrado. A apresentação de dados e informações de forma não acessível correspondem à não prestação e informação. Nesse sentido, o produtor
95 Código Civil, art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua
execução, os princípios de probidade e boa-fé (BRASIL, 2002).
96 I Jornada de Direito Civil do CEJ/CJF: Enunciado 25 - Art. 422: o art. 422 do Código Civil não inviabiliza a
aplicação pelo julgador do princípio da boa-fé nas fases pré-contratual e pós-contratual. Esse enunciado foi ratificado na III Jornada de Direito Civil do CEJ/CJF - Enunciado 170 - Art. 422: a boa-fé objetiva deve ser observada pelas partes na fase de negociações preliminares e após a execução do contrato, quando tal exigência decorrer da natureza do contrato.
97 “RECURSO ESPECIAL. CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL PRÉ-
CONTRATUAL. NEGOCIAÇÕES PRELIMINARES. EXPECTATIVA LEGÍTIMA DE CONTRATAÇÃO. RUPTURA DE TRATATIVAS. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA. JUROS DE MORA. TERMO 'A QUO'. DATA DA CITAÇÃO. (...) 4. Aplicação do princípio da boa-fé objetiva na fase pré- contratual. Doutrina sobre o tema” (STJ, REsp 1367955/SP, Relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, d.j 18/03/2014).
integrado poderá solicitar esclarecimentos ou informações adicionais, devendo ser fornecidas, sem custo, no prazo máximo de 15 dias98.
A lei determina prazo para a sua entrega, correspondendo a data do acerto financeiro entre integrador e produtor integrado. O RIPI poderá ser entregue também, quando solicitado, à CADEC ou entidade representativa99, sendo vedado o fornecimento de informações à terceiros sem a autorização escrita do produtor integrado100.
Francisco de Godoy Bueno (2017, p. 175) aponta a importância do RIPI na redução de assimetrias de informação, permitindo, assim, ao produtor integrado a conferência dos valores repassados pelo integrador a título de remuneração pela produção.