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SUMÁRIO

INÍCIO NUM DE

4.4 ANÁLISE DE INSTRUMENTOS CONTRATUAIS

4.4.1 Objeto e Finalidade

A finalidade do contrato de integração, assim como os contratos agrários típicos de arrendamento e parceria, é garantir o suprimento de matéria-prima à agroindústria. Entretanto, como observado na Figura 3, do ponto de vista organizacional, os contratos de arrendamento e parceria pertencem à T0, uma vez que o objeto transacionado é a terra. Nesse caso, haveria a integração vertical propriamente dita da produção, pois a agroindústria fica responsável por todo o ciclo produtivo.

Figura 3. Sistema produtivo típico do agronegócio (simplificado)

Insumos → T0 Produtor → T1 Indústria Processadora de Alimentos → T2 Distribuidor → T3 Consumidor Final Fonte: ZYLBERSZTAJN (2005).

Por sua vez, o contrato de integração pode ser caracterizado como híbrido, pois envolve as transações T0 e T1. O objeto principal do contrato é o produto agropecuário, ou seja, a aquisição de frangos de corte para o abate, por isso T1. Entretanto, diferentemente de um simples contrato de fornecimento, em que os insumos ficam a cargo exclusivo do produtor rural, nesse método, a produção ocorre em um sistema integrado, em que a agroindústria participa no oferecimento dos insumos (T0) e na aquisição da produção (T1), restando ao produtor integrado o desenvolvimento do ciclo produtivo.

Desse modo, pode-se observar que o contrato de integração ultrapassa a definição de um contrato de compra e venda ou de fornecimento, pois envolve além da obrigação de dar, obrigações de fazer. Nesse sentido, no estudo sobre a sua natureza jurídica, Nunziata Paiva (2009, p. 193), aponta dificuldades de sua qualificação em razão da multiplicidade de faces de

que se reveste, concluindo pela caracterização de categoria contratual autônoma, afastando-se das categorias contratuais típicas previstas no ordenamento jurídico brasileiro.

O modelo de produção avícola apresenta uma tendência histórica de organização em um sistema integrado, no qual a agroindústria não é proprietária dos aviários, transferindo aos avicultores a responsabilidade pelo desenvolvimento da produção. Esse modelo é adotado fundamentalmente em todo o sistema de produção de aves do Brasil, sendo um dos fatores responsáveis pelo crescimento do setor nas últimas décadas.

Essencialmente, o integrador é responsável pelo fornecimento de pintos de um dia, ração, vacinas, medicamentos e assistência técnica de manejo, condições sanitárias e veterinárias, obrigando-se a receber toda a produção, ao passo que o produtor integrado fica responsável pelo desenvolvimento da criação das aves em sua propriedade, bem como dos custos relativos a essa atividade, recebendo, como remuneração, um percentual da produção entregue ao integrador.

O sistema de integração apresenta como principal vantagem a redução dos custos de produção e dos custos de transação, aperfeiçoando a coordenação do ciclo produtivo, na medida em que mitiga os riscos relacionados à oscilação de preços e à oferta de matéria-prima. Destaca-se, assim, como principal vantagem ao produtor integrado a garantia de preço em troca da entrega completa da produção.

Desse modo, antes mesmo do início do desenvolvimento do ciclo biológico, o produtor integrado possui garantia de venda, sem a preocupação de buscar comprador e preço durante o manejo de produção. Já quanto ao integrador, assegura a qualidade e a quantidade de matéria- prima necessária, logrando um melhor planejamento, sem a obrigação de investir na atividade de produção agrossilvipastoril.

Entretanto, o sistema de integração também proporciona desvantagens às partes, mas sobretudo para os produtores integrados. A principal objeção é quanto ao baixo valor pago pelo integrador. Além disso, com a exclusividade prevista no contrato, são obrigados a entregar toda a sua produção, impossibilitando a busca de melhores preços no mercado spot164. O integrador, por

164 Spot possui o significado de instantâneo, imediato. Desse modo, o mercado spot é caracterizado por transações

sua vez, corre o risco quanto à quantidade e qualidade da matéria-prima, pois, apesar de exercer controle, não é o responsável direto pela produção.

4.4.2 Partes

O instrumento contratual de integração vertical é celebrado por duas partes. Seguindo a terminologia adotada pelo artigo 2º da Lei n. 13.288/2016 (BRASIL, 2016), temos de um lado o produtor integrado, responsável pelo recebimento dos insumos, desenvolvimento do ciclo produtivo e entrega da produção, e de outro lado o integrador, responsável pelo fornecimento dos insumos e recebimento do produto final. A vinculação entre as partes ocorre por meio do contrato de integração.

O contrato deve estipular a sua finalidade, as respectivas atribuições das partes, os compromissos financeiros, os deveres sociais, os requisitos sanitários, as responsabilidades ambientais, entre outros que regulem o relacionamento entre os sujeitos do contrato, conforme disposto no inciso IV do artigo 2º.

Quanto à situação jurídica das partes, de acordo com o previsto no artigo 2º da Lei n. 13.288/2016, podem ser pessoa física ou pessoa jurídica. É mais comum a caracterização da agroindústria como pessoa jurídica, em razão da dimensão da atividade desenvolvida e da necessidade de organização para o suprimento de insumos dentro da cadeia produtiva. Por outro lado, quando ao produtor integrado, apresenta-se geralmente como pessoa física, sobretudo no sistema de integração avícola, marcado principalmente por agricultores familiares ou pequenos e médios produtores.

Quanto à terminologia adotada, esta pode variar a depender do contrato, mas, essencialmente, representa a definição legal de produtor integrado (ou integrado) e integrador. A Tabela 13 apresenta a nomenclatura utilizada nos três contratos analisados.

produto é única, por tempo limitado. Também pode ser denominado mercado disponível, mercado físico ou mercado pronto. Desse modo, contrapõe-se com a ideia de contratos de longa duração e com os mercados futuros e a termo (IPEA, 2006).

Tabela 13. Nomenclatura das partes

A B C

Produtor integrado Integrado Integrado Produtor I

Integrador BRF Integradora Produtor II

Dentre os contratos analisados, a opção do Contrato C por “Produtor I” e “Produtor II” pode trazer confusão ao produtor integrado, principalmente no que tange à distribuição das obrigações. Desse modo, acertada a opção de A e B pela utilização da denominação social da agroindústria e pela escolha dos termos apresentados na Lei, respectivamente, evitando imprecisões quanto às responsabilidades das partes.