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2.3 MECANISMOS DE GOVERNANÇA DA APRENDIZAGEM

2.3.2 Mecanismos por Fong e Chen (2012) e Chen e Fong (2013)

Fong e Chen (2012) sugerem que para governar a aprendizagem, as organizações têm

que levar em consideração quatro perspectivas teóricas, a saber: visão baseada no

conhecimento, visão da capacidade dinâmica, abordagem da Governança do Conhecimento e

aprendizagem estratégica.

A visão baseada no conhecimento (knowledge-based view – KBV) compreende a

organização como um sistema evolutivo, ativo e quase independente de criação e aplicação de

conhecimento para o desenvolvimento de um ambiente estratégico. Ou seja, a KBV considera

o conhecimento como um recurso estratégico, onde ele é criado, compartilhado e utilizado, ao

mesmo tempo em que é demonstrado em atividades e processos de negócios, para ter um efeito

favorável no desempenho da organização (SPENDER, 1998). Assim, a KBV trata-se de um

fator estratégico para geração de vantagem competitiva organizacional baseada no

conhecimento e na integração do conhecimento especializado (GRANT, 1996).

No tocante à capacidade de Gestão do Conhecimento (knowledge management

capacity – KMC), Lichtenthaler e Lichtenthaler (2009) entendem que KMC refere-se à

capacidade de a empresa de administrar dinamicamente sua base de conhecimento ao longo do

tempo, reconfigurando e realinhando os processos de investigação e prospecção de novos

conhecimentos (exploration), e o aproveitamento e a retenção (exploitation) deste

conhecimento na organização e em sua rede, resultando em uma capacidade dinâmica para a

organização.

Neste sentido, Fong e Chen (2012) mencionam que a capacidade de Gestão do

Conhecimento está incorporada nos mecanismos de Governança do Conhecimento nos

processos de conhecimento, formando um tipo especial de capacidade dinâmica

(LICHTENTHALER; LICHTENTHALER, 2009), que é propositalmente desenvolvida para

modificar rotinas operacionais e melhorar o desempenho organizacional (EISENHART;

MARTIN, 2000; CHEN; FONG, 2013). Capacidade dinâmica, neste caso, é compreendida

como um modelo consistente e aprendido de ações coletivas, fundamentado em mecanismos de

aprendizagem, por intermédio dos quais a organização sistematicamente cria e transforma suas

rotinas operacionais em busca de maior eficácia (ZOLLO; WINTER, 2002).

Em relação à abordagemdaGovernançadoConhecimento (knowledge governance

approach KGA), Foss (2007) destaca que os mecanismos de Governança dos Conhecimentos

organizacionais devem ser intencionalmente implantados para influenciar e apoiar os

comportamentos e o envolvimento dos membros da organização nos processos de

conhecimento, com a intenção de mitigar os custos e riscos das transações de transferência do

conhecimento nas redes inter e intraorganizacionais (FOSS, 2005; PEMSEL; MÜLLER, 2012).

Quanto à quarta e última perspectiva sugerida por Fong e Chen (2012), a aprendizagem

estratégica (strategic learning SL), ela ocorre em ambientes onde emergem frequentemente

novas ameaças, oportunidades e rápidas mudanças, o que leva as organizações a aprenderem

em ciclo duplo. Este Ciclo de Aprendizagem Organizacional acontece quando os gestores, ao

adotarem o conhecimento específico, modificam seus valores, perspectivas e objetivos para

tomada de decisão, de acordo com a necessidade da organização, ou seja, o que leva as

organizações a aprenderem de maneira a se adaptarem, a se desenvolverem, ou a transmutarem

seus modelos mentais para reestruturarem seus caminhos. Para tal, utiliza-se feedback para o

desenvolvimento de capacidades que os levem a aprender e responder às mudanças

(PIETERSEN, 2010; STACEY, 2003).

Por uma percepção mais ampla, tanto Eisenhart e Martin (2000), como Zollo e Winter

(2002) e Lichtenthaler e Lichtenthaler (2009) indicam que a aprendizagem em ciclo duplo é

realizada por mecanismos de aprendizagem que são essenciais para a construção de uma

capacidade dinâmica, por meio da capacidade de Gestão do Conhecimento nas organizações e

para modificações de rotinas operacionais que influenciam no desempenho desejado pela

organização (FONG; CHEN, 2012; CHEN; FONG, 2013).

Tais referências até aqui analisadas serviram de base para a elaboração do Framework

de asserções da visão de capacidades dinâmicas e do aprendizado estratégico sobre a gênese e

evolução do KMC, por Chen e Fong (2013) (Figura 7).

Figura 7 - Framework de asserções da visão de capacidades dinâmicas e aprendizado

estratégico sobre a gênese e evolução do KMC

Para Fong e Chen (2012) e Chen e Fong (2013), a literatura de gestão estratégica requer

uma estrutura sistêmica e holística, onde interações de mecanismos de Governança do

Conhecimento, processos de conhecimento e resultados de desempenho organizacional indicam

mecanismos de aprendizagem eficaz, por meio do ciclo duplo de aprendizagem (KAPLAN;

NORTON, 1996; PIETERSEN, 2010; STACEY, 2003; FREIRE et al., 2017) e da capacidade

de Gestão do Conhecimento para criação de valor e suporte das vantagens competitivas no

decorrer do tempo (EISENHART; MARTIN 2000; ZOLLO; WINTER 2002).

Neste Framework, Chen e Fong (2013) relacionam os mecanismos de Governança do

Conhecimento e os processos de conhecimento, destacando a inter-relação entre os constructos

que se constituem nos mecanismos de aprendizagem por meio de um sistema de aprendizagem

de ciclo duplo (STACEY, 2003), além de relacioná-los à capacidade de Gestão do

Conhecimento, dinâmica, rotinas operacionais e desempenho organizacional.

O Framework de Chen e Fong (2013) ilustra a conexão e interação entre os

mecanismos de Governança do Conhecimento (SCHOLL et al., 2004; EGBU 2006; FOSS,

2007; CHEN; MOHAMED, 2008; ANUMBA, 2009) e os processos de conhecimento

(GRANT, 1996; SPENDER, 1998; GOLD; MALHOTRA; SEGARS, 2001; ZOLLO;

WINTER, 2002; DARROCH, 2003; CHEN; MOHAMED, 2007; HEISIG, 2009) para a

formação dos mecanismos de aprendizagem (FOSS, 2007; TEECE, 2007; ABELL; FELIN;

FOSS 2008; LICHTENTHALER; LICHTENTHALER, 2009), que conduzem tais mecanismos

(EISENHART; MARTIN, 2000; ZOLLO; WINTER 2002) à constituição e evolução da

capacidade de Gestão do Conhecimento em uma capacidade dinâmica especial de uma

organização (LICHTENTHALER; LICHTENTHALER, 2009; ZOLLO; WINTER, 2002;

FONG; CHEN, 2012) para modificação de rotinas operacionais ao longo do tempo (CHEN;

FONG, 2013).

Descrevendo o Framework, pode-se compreender que os mecanismos de

aprendizagem têm estrutura complexa. O sistema de aprendizagem de ciclo duplo (STACEY,

2003) ocorre por meio da interação dos mecanismos de Governança do Conhecimento, que

criam contextos cognitivos adequados aos processos de conhecimento com o propósito de

atualização de rotinas operacionais e criação de valor para melhoria do desempenho

organizacional (FONG; CHEN, 2012; CHEN; FONG, 2013). Para os autores, governar estas

interações é indispensável para alcançar o desempenho pretendido pela organização.

Ainda, em uma discussão teórica para construção deste Framework, em 2012, Fong e

Chen definiram que os mecanismos de Governança do Conhecimento têm duas abordagens,

uma centrada nas pessoas e outra na tecnologia.

Os mecanismos centrados nas pessoas, chamados de “mecanismos organizacionais”,

representam os mecanismos que encorajam a inovação, a liderança, as orientações estratégicas

e a comunicação aberta. As inovações como “força motriz” e como influência para a criação de

novos conhecimentos (CHEN; MOHAMED, 2008). A liderança adequada à transmissão da

visão de Gestão do Conhecimento para diferentes níveis organizacionais (CHEN; MOHAMED,

2008). A Orientação estratégica para a disseminação do conhecimento (SUBRAMANIAM;

VENKATRAMAN, 2001) e para a utilização desse conhecimento na criação de novos

conhecimentos (NONAKA; TAKEUCHI, 2004). E as comunicações abertas, flexíveis e

eficientes (CHEN; MOHAMED, 2008) para criar cultura e clima de estímulo à criação,

compartilhamento e (re) uso do conhecimento para resolução de problemas, gerenciamento de

mudanças e melhoria da capacidade organizacional (CHEN; MOHAMED, 2008; EGBU, 2006;

ALAVI; LEIDNER, 2001; GOLD; MALHOTRA; SEGARS, 2001).

Os mecanismos centrados na tecnologia, chamados “mecanismos tecnológicos”, para

Fong e Chen (2012) representam os mecanismos que auxiliam a desenvolver e utilizar os

sistemas de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Os sistemas de informação e

comunicação são preparados para sustentar e ampliar as necessidades organizacionais de

Gestão do Conhecimento (ALAVI; LEIDNER, 2001), representando a infraestrutura

tecnológica e sua capacidade de responder ao ambiente de trabalho continuamente dinâmico

(CHEN; MOHAMED, 2008). Ou seja, utilizar efetivamente informações e tecnologias para o

compartilhamento de conhecimento nas organizações pode gerar a sua reutilização e, com isso,

minimizar o custo da solução de problemas, restringir a possibilidade de sua repetição e

expandir a capacidade de inovação (TSERNG; LIN, 2004).

Em uma análise relacional entre as 2 abordagens de GovC, é importante destacar que,

embora os mecanismos tecnológicos realizem uma função cada vez mais importante para

aquisição do conhecimento, o nível em que o conhecimento adquirido é compartilhado

depende, sobretudo, do contexto cognitivo produzido por mecanismos organizacionais

(NOOTEBOOM, 2009; FONG; CHEN, 2012).

Neste contexto, entende-se pelo modelo de Fong e Chen (2012) e Chen e Fong (2013)

que, para haver Governança da Aprendizagem, deve-se levar em consideração a Governança

do Conhecimento (GovC) e seus mecanismos organizacionais e tecnológicos

inter-relacionados, e não independentes, mas em conexão aos processos de conhecimento.

Complementando os mecanismos de GovC, Fong e Chen (2012) identificaram que os

processos de conhecimento mais importantes (CHEN; MOHAMED, 2007; GOLD;

MALHOTRA; SEGARS, 2001, DARROCH, 2003; HEISIG, 2009) são compostos por quatro

processos cíclicos, representados pela Capacidade de Resposta ao Conhecimento (CRC),

Aquisição de conhecimento (AC), Disseminação do conhecimento (DC) e Utilização do

conhecimento (UC).

Especificando estes processos, a CRC descrita por Chen e Mohamed (2007) representa

o processo que envolve as atividades de conhecimento em resposta aos diversos tipos de

conhecimento que a organização tem acesso, seja externa ou internamente. A AC, discutida por

diferentes autores (CHEN; MOHAMED, 2007; GOLD; MALHOTRA; SEGARS, 2001),

abrange a aquisição de conhecimento externo e a criação de novos conhecimentos com base

nos conhecimentos internos. A DC denota o processo de criação e sustentação de estruturas,

sistemas e conteúdos interativos para compartilhamento e retenção de conhecimento na

organização (CHEN; MOHAMED, 2007). E a UC retrata a utilização do capital intelectual pela

organização, especialmente o novo conhecimento tácito (CHEN; MOHAMED 2007; GOLD;

MALHOTRA; SEGARS, 2001).

No entanto, na literatura os processos de Gestão do Conhecimento têm outras

classificações e diferentes taxonomias.

Para Gold, Malhotra e Segars (2001), os processos de GC abrangem a aquisição,

conversão, aplicação e proteção do conhecimento. Na percepção de Alavi e Leidner (2001), o

processo de GC envolve a criação, armazenamento, recuperação, distribuição e aplicação do

conhecimento. Darroch (2003) explica que os processos de GC representam aquisição,

disseminação e uso do conhecimento. Para Lichtenthaler e Lichtenthaler (2009), os processos

de GC são a criação, retenção e compartilhamento de conhecimento. E na visão de Heisig

(2009), os processos de GC permeiam aplicar, distribuir, criar, armazenar e identificar o

conhecimento.

Para Chen e Mohamed (2008), o processo de Gestão de Conhecimento consiste na

combinação de uma série de subprocessos de identificação, captura e compartilhamento do

conhecimento (PALMER; PLATT, 2005). Neste sentido, as organizações reconhecem e

identificam o conhecimento a ser capturado, examinam as necessidades de implementar

ferramentas (técnicas e tecnologias) para capturar, filtrar, refinar, analisar, armazenar e

compartilhar o conhecimento. No entanto, uma vez disseminado o conhecimento, novos

conhecimentos serão criados, com base num novo ciclo do processo de GC que recomeça com

outros objetivos (HARI, EGBU, KUMAR, 2005; DALKIR, 2005).

Para entendimento desta tese, os estudos de Fong e Chen (2012) e Chen e Fong (2013)

fazem referência aos mecanismos da GovA, Governança do Conhecimento (GovC) e os