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ANTIOXIDANTES E MODIFICADORES DA RESISTÊNCIA ANTIMICROBIANA

6.1.3 Mecanismos de resistência bacteriana

Muitos pesquisadores estão envolvidos na busca de uma maior compreensão da resistência aos antimicrobianos, visando estratégias de combate. Este mecanismo de escape é gerado e transmitido por diferentes maneiras (Figura 14). Através da transferência horizontal de genes, por exemplo, integrons transportados em transposons permitem que bactérias compartilhem mecanismos de resistência (BRADLEY, 2014; FURI et al., 2016). Outro mecanismo conhecido de resistência é a ocorrência de mutações espontâneas em genes, os quais são transmitidos verticalmente à prole após o processo de replicação bacteriana (HOLMES et al., 2016).

Figura 14 - Principais mecanismos de resistência bacteriana

Fonte: Adaptado de Gullberg (2019).

Em outros casos ocorre resistência intrínseca, que se refere à presença de genes bacterianos que produzem fenótipos de resistência. Qualquer um dos elementos genéticos adicionais são capazes de promover a transmissão da resistência, e o tipo de elemento envolvido difere com o gênero. Isto posto, há diferentes mecanismos de escape para bactérias Gram- positivas e Gram-negativas (DAVIES; DAVIES, 2010; MUNITA; BAYER; ARIAS, 2015; RUPPÉ; WOERTHER; BARBIER, 2015).

A inibição enzimática constitui o meio mais comum de inativação, e é baseada em estratégias de modificação da estrutura química dos antimicrobianos. As formas mais comuns são: hidrólise, sobretudo em fármacos β-lactâmicos; transferência de grupos funcionais (acil, fosforil, tiol, nucleotídeo, ADP-ribosil e glicosil), que ocorre em aminoglicosídeos, cloranfenicol, rifamicina e lincosamida; e outras modificações químicas (redox, liase), que ocorrem em tetraciclina, rifamicina e estreptogramina (BHULLAR et al., 2012; OLIVEIRA et al., 2017; WRIGHT, 2005). As β-lactamases representam um desafio para o tratamento de infecções causadas por Gram-negativos. Estas incluem penicilinases, que conferem resistência a penicilinas; cefalosporinases AmpC (por exemplo, MOXs, MIR, família FOX, família CMI dentre outras mediadas por plasmídeos) e enzimas capazes de hidrolisar penicilinas, cefalosporinas e inibidores de β-lactamases (por exemplo, ácido clavulânico, sulbactam e tazobactam) (KOULENTI et al., 2019; OLIVEIRA; PAIVA; LIMA, 2019; PATERSON, 2006; WALSH et al., 2011).

As β -lactamases de espectro estendido (ESBL, do Inglês “Extended-spectrum beta-

lactamase”) (por exemplo, SHV-1, TEM-1, TEM-2, CTX-Ms e outras) também constituem um

grupo importante de enzimas inativadoras que conferem resistência a penicilinas e cefalosporinas. Além disso, muitos microrganismos produtores de TEM e SHV exibem resistência simultânea a tetraciclinas, sulfonamidas e aminoglicosídeos. A maioria das cepas produtoras CTX-M também são resistentes a fluoroquinolonas (DE SOUSA OLIVEIRA et al., 2016; LAHLAOUI; KHALIFA; MOUSSA, 2014). As carbapenemases (por exemplo, família IMP, família VIM, KPCs, OXAs e outras), são enzimas capazes de inativar todos os agentes β- lactâmicos, exceto aztreonam, sendo divididas em três classes: metalo-β-lactamases (classe B) e serina carbapenemases (classes A e D) (BONOMO, 2017).

Apenas as penicilinases configuram um mecanismo de inibição enzimática produzido por Gram-positivos. Outros mecanismos como modificações de proteínas de ligação a penicilina (PBPs) (PBP2a, mutação PBP20/superexpressão de PBP4 enterocócica ou PBP5) e de parede celular (aumento de espessura e alvo de peptidoglicano modificado) ganham destaque, pois conferem resistência contra antimicrobianos de última escolha, tais como cefalosporinas de quarta geração e vancomicina (ROSSOLINI et al., 2010). A mais alarmante é PBP2a (também chamada PBP20), uma proteína modificada que confere resistência a penicilinas e cefalosporinas. Esta proteína é o produto do gene mecA e genes homólogos mecB e mecC, todos de origem plasmídica. Estas PBPs modificadas alteram o sítio de ação, fazendo

com que os agentes β-lactâmicos percam ou diminuam a afinidade com a proteína alvo, promovendo resistência (BECKER et al., 2014; LI et al., 2017).

O principal constituinte da bicamada lipídica em bactérias Gram-negativas é o lipopolissacarídeo que, devido à sua hidrofobicidade, dificulta a passagem de compostos hidrofílicos. Assim, são necessárias porinas de membrana externa (Omps), que são proteínas que ajudam na passagem de solutos hidrofílicos. Alguns fatores podem afetar a capacidade do antimicrobiano de ultrapassar as porinas, como sua carga, sua conformação e seu tamanho, existindo algumas porinas típicas, como OmpF, OmpC e OmpE (CAMA; HENNEY; WINTERHALTER, 2019; LIVERMORE; WOODFORD, 2006).

Cada espécie bacteriana produz poros específicos e a perda ou comprometimento de uma ou mais Omps é um fator comum no estabelecimento de resistência. Por exemplo, a perda de OprD em Pseudomonas aeruginosa confere resistência a imipenem e meropenem; em outras espécies, a perda de OmpF pode levar a microrganismos MDR. Este fenômeno resulta em um aumento nas concentrações inibitórias mínimas para antimicrobianos hidrofílicos e reduz as escolhas antibacterianas na prática clínica (DE SOUSA OLIVEIRA et al., 2016; PANG et al., 2019). Estudos demonstram que a pressão seletiva exercida pelo uso prolongado de antibióticos é um fator importante no desenvolvimento de bactérias MDR. Os mecanismos mais comuns envolvidos nestes casos são a modificação das porinas, a diminuição da expressão das porinas e as mutações, que impedem que o antibiótico penetre na célula (RICE, 2018).

Um mecanismo de resistência altamente eficiente é a produção de uma bomba de efluxo, um sistema dependente de prótons que efetua remoção ativa do antibiótico do interior da célula. O efluxo de fármacos por bactérias Gram-positivas é comumente mediado por um único transportador, localizado na membrana citoplasmática das famílias de bombas MF, SMR ou ABC (SCHINDLER; KAATZ, 2016). Por outro lado, bactérias Gram-negativas são mais complexas devido à presença da membrana externa. Destas bombas, a proteína melhor caracterizada é a transportadora de tetraciclina (TetB) de Escherichia coli, que demonstrou funcionar como um sistema antiporte eletroneutral, catalisando a troca de um complexo tetraciclina-divalente-metal-cátion para um próton (KABRA et al., 2019; KANJI; HASAN; HASAN, 2019; PAGÈS; AMARAL, 2009).

Os antibióticos que visam a maquinaria de tradução das células bacterianas são potentes inibidores. No entanto, ao longo de décadas de uso clínico, bactérias tornaram-se resistentes a antibióticos que inibem a síntese proteica. Um mecanismo notável dessa resistência é a modificação do alvo molecular desses antibióticos. Comumente, isso pode surgir através de

mutações pontuais em genes selecionados, resultando em resistência relativamente rápida e fácil. Mudanças pequenas em uma sequência de aminoácidos alteram a estrutura da proteína de forma suficiente para impedir a ligação e a ação destes antibióticos (BULKLEY et al., 2010; KUMARIYA et al., 2019).

Os primeiros relatos de alterações estruturais ribossômicas foram descritos em mutantes de Escherichia coli resistentes a eritromicina, os quais apresentavam alterações das proteínas ribossômicas, notavelmente das proteínas L4 e L22 (HELSER; DAVIES; DAHLBERG, 1971). Lai, Dahlberg e Weisblum (1973) mostraram que a metilação específica do RNAr 23S em

Staphylococcus aureus confere resistência à família de antibióticos macrolídeos-lincosamida-

estreptogramina. A daptomicina, a mais recente classe terapêutica comercializável para o tratamento de infecções por enterococos resistentes a vancomicina (VRE), tem seu uso ameaçado pelo surgimento deste tipo de resistência (MUNITA et al., 2013; MUNITA; BAYER; ARIAS, 2015; REYES; BARDOSSY; ZERVOS, 2016).