C 6 -C 3 cumarinas, isocumarinas e cromonas
6 Han; Parker (2017)
4.1.3 Punica granatum Linn
4.1.3.1 Aspectos botânicos e históricos
Planta nativa das regiões da Pérsia e Cáucaso, Punica granatum Linn (Punicaceae) tem o fruto conhecido internacionalmente como “pomegranate”, palavra derivada do Latim Medieval “pōmum” que significa maçã e “grānātum” que significa “sementes” (STOVER; MERCURE, 2007). A espécie é cultivada no Oriente Médio, Sul da Ásia e região do Mediterrâneo, prosperando também na Califórnia e no Arizona (DOIJODE, 2012). No Brasil, o fruto é conhecido como “romã” e o arbusto como “romãzeira”. É tolerante às diferentes condições de solo, água e clima, o que faz seu cultivo ser relativamente simples e mundialmente difundido (SUZUKI, 2016).
P. granatum (Figura 7) é um arbusto que atinge de 5-10 metros de altura. Dicotiledôneo
e decíduo, tem o caule coberto por casca amarronzada que depois torna-se cinza. Os ramos são rígidos, angulares e frequentemente espinhosos. Possui folhas brilhantes, coriáceas, estreitas e lanceoladas. As flores possuem cor vermelho alaranjada variegada, com formato afunilado e medindo cerca de 3 cm de diâmetro, com 5 a 8 pétalas torcidas e cálice tubular vermelho, carnudo, que persiste no fruto. Podem ser ainda solitárias ou agrupadas, em pares e trios nas extremidades dos ramos, florescendo no verão e sendo autopolinizadas ou polinizadas por insetos e pássaros (MAURYA et al., 2018; STOVER; MERCURE, 2007).
Figura 7 - Punica granatum Linn
O fruto é uma baga, ligeiramente redonda, medindo 2,5-5 cm × 5-12 cm. Coroada na base pelo cálice proeminente, a romã possui casca dura (pericarpo e mesocarpo) de cor amarela, com parede interna variando de rosa a vermelho profundo. O interior do fruto, parte comestível, é separado por membranas distribuídas em câmaras, contendo arilos preenchidos com polpa suculenta de sabor doce ou ácida, com cor vermelha, rosa ou esbranquiçada. Cada arilo é preenchido com uma semente angular, macia ou dura. O número de sementes varia, mas não mais de 1.300 por fruto. Em temperaturas quentes, os frutos amadurecem normalmente de 5 a 7 meses após a floração (STOVER; MERCURE, 2007).
Punica granatum tem sido cultivada pelos Sumérios desde 5.000 a.C., porém a
evidência do seu cultivo na Ásia remonta a 3.300-3.400 a.C. Estima-se que os fenícios espalharam este arbusto por toda a região do Mediterrâneo, sendo cultivado em Cartago (900 a.C.), na península Ibérica, na Grécia e na Itália (400 a.C.) (CHANDRA et al., 2010). Em muitas culturas, a romã está associada à fertilidade, à abundância, tendo sido consagrada pelos gregos a Afrodite, a deusa do amor (ZOHARY; HOPF; WEISS, 2012).
A espécie também é mencionada na Bíblia (Êxodo 28:33; Êxodo 39:25-24; Números 13:23; Números 20:5; 1 Reis 7:18, 20 e 42; Reis 25:17; Crônicas 4:13; Cantares de Salomão 4:13; Cantares de Salomão 8:2; Jeremias 52:22-23). Segundo os textos bíblicos, Moisés trouxe romãs de Canaan como prova de que a terra prometida era fértil. Segundo o Corão, a romã é um exemplo das coisas boas criadas por Alá e é um dos frutos do Paraíso. Entre os hindus é dedicada a Bhoomidevi, deusa da Terra. Para os judeus a romã é o símbolo da retidão, porque para eles o fruto teria 613 sementes, que correspondem aos 613 mandamentos da Torá (CHANDRA et al., 2010; MAURYA et al., 2018).
4.1.3.2 Uso tradicional
De acordo com o papiro de Eber (aproximadamente 1.550 a.C.), os antigos egípcios usavam extratos de raiz de P. granatum, ricos em taninos, para o tratamento de teníase. Hipócrates (400 a.C.) mencionou o uso de extratos de romã para tratar várias doenças, na forma de emplastros para inflamação de pele e olhos, e como bebida auxiliar na digestão. Dioscórides (40-90 d.C.) sugeria o suco da romã para a cura de úlceras, dores auriculares e nasais (ANAZARBUS, 2005; CHANDRA et al., 2010).
No sistema Ayurveda quase todas as partes (frutas, flores, sementes, folhas e cascas) são usadas para fins medicinais. Outros usos relacionam extratos de romã para contracepção, picadas de cobras, diabetes e hanseníase. Extratos das cascas, folhas e frutos imaturos são usados para diarreia, reumatismo e hemorragias, enquanto os botões secos e esmagados são transformados em chá como remédio para bronquite (STOVER; MERCURE, 2007).
Na medicina Unani, a decocção das cascas na proporção de 1:5 é recomendada no controle do diabetes e como antiparasitária. No México, os extratos das flores são usados como um gargarejo para aliviar a inflamação da boca e da garganta (ARUN; SINGH, 2012; RAMALINGUM; MAHOMOODALLY, 2015). No Brasil, a decocção, infusão ou lambedor das cascas do fruto, folhas ou sementes são utilizados popularmente para o tratamento de gastrite, sinusite, dores de garganta, rouquidão e tosse (BANDEIRA et al., 2018; LEITE et al., 2015; RIBEIRO et al., 2013).
A resolução RDC 10/2010 (BRASIL, 2010a), já revogada pela RDC 26/2014 que dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos e o registro e a notificação de produtos tradicionais fitoterápicos (BRASIL, 2014a) incluía Punica granatum como espécie passível de ser tratada como droga vegetal sujeita à notificação, apresentando as seguintes informações:
Nomenclatura botânica: Punica granatum Nomenclatura popular: Romã
Alegações: Inflamações e infecções da mucosa da boca, faringe como anti-inflamatório e anti-
séptico
Parte utilizada: Pericarpo (casca do fruto)
Forma de utilização: Infusão: 3 g (1 colher de sopa) para 150 mL (xícara de chá) de água Posologia: Decocção: 6 g (2 colheres de sopa) em 150 mL (xícara de chá) Aplicar no local
afetado, em bochechos e gargarejos, 3 vezes ao dia. Não engolir a preparação após o bochecho e gargarejo
Via: Tópica
Observações: Se ingerido, pode provocar zumbido, distúrbios visuais, espasmos na panturrilha
Dentre diversas espécies de interesse medicinal e para produção de fitoterápicos, P.
granatum consta na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS)
(BRASIL, 2009). Entretanto, a romãnzeira ainda não possui especificações como droga vegetal na Farmacopeia Brasileira (BRASIL, 2010b), bem como não consta na Instrução Normativa número 02, de 13 de maio de 2014 a qual publica a “Lista de medicamentos fitoterápicos de registro simplificado” e a “Lista de produtos tradicionais fitoterápicos de registro simplificado” (BRASIL, 2014b).
4.1.3.3 Composição química
O valor nutricional da romã crua, porção comestível, por 100 g é: água (77,93 g), proteína (1,67 g), carboidrato (18,70 g), lipídeos totais (1,17 g), fibra (4 g), cálcio (10 mg), ferro (0,3 mg), magnésio (12 mg) e fósforo (36 mg). O suco fornece cerca de 16% do consumo diário de vitamina C por 100 mL e é fonte de vitamina B5 (ácido pantotênico), ácido elágico, ácido gálico; ácido cafeico; catequina, epigalocatequina galato, quercetina, rutina, elagitaninos, antocianinas, coenzima Q10, ácido α-lipóico e potássio (ARUN; SINGH, 2012; RAMALINGUM; MAHOMOODALLY, 2015).
As folhas de P. granatum apresentam como principais compostos punicalina, pedunculagina, punicalagina (isômeros α e β), flavonas glicosiladas, incluindo luteolina e apigenina, ácido galágico e ácido elágico. As flores são compostas majoritariamente por triterpenoides como ácido ursólico, ácido oleanólico, ácido maslínico e ácido asiático. Antocianinas glicosadas como pelargonidina 3, 5- diglicosídeo e pelargonidina-3-glicosídeo também estão presentes nas flores (ARUN; SINGH, 2012; KHWAIRAKPAM et al., 2018).
O pericarpo e as cascas da romã apresentam punicalaginas, ácido gálico, catequina, epigalocatequina galato, quercetina, rutina e outros flavonois, flavonas, flavononas, antocianidinas. antocianinas, punicalina, punicafolina e flavonas glicosiladas, incluindo luteolina e apigenina. As sementes contêm ácido punícico (95%), ácido esteárico, ácido palmítico, fitoesterois e ácidos graxos conjugados, tais como ácido linoleico e ácido α- linolênico. As raízes e cascas do caule apresentam elagitaninos, incluindo punicalina e punicalagina e alcaloides piperidínicos (ARUN; SINGH, 2012; BRIGHENTI et al., 2017; CERDA et al., 2004; FELLAH et al., 2018; SAFIAGHDAM et al., 2018).
O Quadro 6 apresenta os principais compostos fenólicos descritos nas folhas de P.
granatum (AL-MUAMMAR; KHAN, 2012; BEKIR et al., 2013; FELLAH et al., 2018;
KHWAIRAKPAM et al., 2018; LANSKY; NEWMAN, 2007; NAWWAR; HUSSEIN; MERFORT, 1994). Há escassez de trabalhos que descrevem compostos voláteis para as folhas.
Quadro 6 - Principais constituintes fenólicos presentes nas folhas de Punica granatum
COMPOSTOS FENÓLICOS