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Tendo em vista a reincidência na forma falha de implementação da Conven- ção, e buscando cumprir com suas obrigações perante a mesma, o Brasil vem tomando sucessivas medidas em prol de uma maior instrução dos juízes sobre a temática e maior celeridade nos processos.

Parte das medidas apontadas nesse capítulo foram retiradas dos relatórios feitos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, que englobam o período de 2005 até 2015. Após a identificação das ações brasileiras, veremos se causaram realmente algum efeito positivo no decorrer da resolução dos impasses com os pais americanos.

Em agosto de 2006, a então presidente do Supremo Tribunal Federal - a Ministra Ellen Gracie Northfleet - instituiu o Grupo Permanente de Estudos sobre a Convenção de Haia de 1980,1 o qual era “composto por representantes dos órgãos

públicos envolvidos no tratamento do tema e tem o objetivo de divulgar este importante documento entre os operadores jurídicos, fomentar estudos e pesquisas, participar no âmbito interno e internacional de discussões a respeito, fornecendo elementos

para auxiliar sua interpretação e aplicação” (Grupo Permanente de Estudos sobre a Convenção da Haia de 1980). O primeiro coordenador do grupo foi Jorge Antonio Maurique, desembargador do Tribunal Regional Federal da 4a região, e também Juiz de Ligação (Enlace) entre Haia e Brasil. Além da confecção de uma Convenção comentada, um dos resultados práticos do grupo foi “a participação do Brasil na Reunião de Especialistas de Haia”, no qual Maurique foi o representante; lá foi sugerido o afastamento “do aspecto criminal do sequestro, presente em muitos ordenamentos jurídicos de países signatários, para incentivar o retorno voluntário da criança ao país de residência habitual”, moção adotada na Convenção (Tribunal Regional Federal da 4aRegião, 2014).

Quando do término dos estudos do grupo, foi apresentado ao STF um anteprojeto2no qual foi consolidado o “entendimento da competência da Justiça Federal

para os casos de sequestro internacional de menores” (Tribunal Regional Federal da 4a

Região, 2014).

Além disso, em dezembro do mesmo ano, juízes brasileiros participaram de um seminário patrocinado pelo Escritório Permanente de Haia e com a participação de um representante da Autoridade Central norte-americana sobre o tema (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 2008). Percebe-se que as medidas adotadas durante esse ano tinham o objetivo primordial de difundir o conhecimento sobre a Convenção, ensinando os juízes como agir em tais situações.

Como foi dito anteriormente, foram estabelecidos juízes de enlace entre Haia e Brasil, sendo um deles Maurique e a outra a desembargadora Mônica Sifuentes. Segundo Maurique, “são cerca de 80 juízes de ligação no mundo todo, dois no Brasil, que tem como principal objetivo esclarecer os juízes locais sobre a matéria e explicar a aplicação da Convenção nestes casos” (Tribunal Regional Federal da 4aRegião, 2014).

Houve, em 2014, o estabelecimento da Comissão Permanente sobre Subtra- ção Internacional de Crianças que, juntamente com a CNJ, propuseram um anteprojeto de lei para regulamentar a “atuação das autoridades brasileiras nos casos de sequestro internacional de crianças” (VASCONCELLOS, 2015). Os alvos passíveis de regula- mentação são o papel da Autoridade Central Administrativa Federal (ACAF); requisitos formais e materiais dos pedidos de restituição dos menores; o papel da Defensoria Pública da União, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da Repú- blica, da Advocacia-Geral da União e da Justiça Federal (VASCONCELLOS, 2015). A mediação e conciliação como solução para os impasses, como também as audiências judiciais, as visitas e os procedimentos de devolução da criança também necessitam ser reguladas, estando presentes nesse anteprojeto. A confecção deste anteprojeto é de suma importância, vez que mesmo o Brasil tendo ratificado a Convenção em 2000, até

2 É o estudo inicial, esboço, que servirá de base para o projeto de lei (Câmara Municipal do Rio de Janeiro, 2011).

o presente ano não há lei que regulamenta sua aplicação (MONTENEGRO, 2015). O anteprojeto ficou pronto em dezembro de 2015, sendo debatido em audiências públicas ao longo deste ano (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, 2015).

A Comissão Permanente sobre Subtração Internacional de Crianças foi estabelecida pela Portaria n. 34 de 28 de janeiro de 2014, e tem como objetivos

estudar e propor iniciativas de prevenção à subtração e retenção inter- nacional de crianças e adolescentes; propor medidas de divulgação da Convenção sobre Subtração e Retenção Ilícita de Crianças e Adoles- centes e da Convenção de Haia sobre Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças, bem como de capacitação de agentes pú- blicos e operadores do direito envolvidos em sua aplicação; propor procedimentos administrativos conjuntos a serem adotados em casos em que houver alegação de ocorrência de violência doméstica contra a mulher, bem como contra criança e adolescente; elaborar propostas de atos normativos com vistas ao aprimoramento da implementação da Convenção Interamericana sobre Restituição Internacional de Menores e da Convenção de Haia sobre Aspectos Civis do Sequestro Internacio- nal de Crianças; fomentar estudos e pesquisas sobre a implementação da Convenção Interamericana sobre Restituição Internacional de Me- nores e da Convenção de Haia sobre Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças (BRASIL, 2014).

É composta pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), Polícia Federal, Advocacia-Geral da União, Defensoria Pública da União, Procuradoria do Cidadão do Ministério Público Federal, Conselho Nacional do Ministério Público, Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Justiça, Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da Repú- blica e Rede Internacional de Juízes da Conferência da Haia de Direito Internacional Privado (MONTENEGRO, 2015).

Suas atividades tiveram início no final de maio de 2014, tendo realizado - além da elaboração do anteprojeto - um intercâmbio de experiências de operadores do direito brasileiros e americanos, como também

o seminário "O Brasil e a Conferência da Haia de Direito Internacional Privado". O grupo elaborou ainda a "Cartilha sobre Guarda e Subtração Internacional de Menores Brasileiros no Exterior", que é disponibili- zada nos sites de todos os consulados brasileiros no exterior, a fim de esclarecer pais e responsáveis acerca dos direitos assegurados nas convenções sobre subtração internacional de menores de 16 anos (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, 2015).

Os seminários são uma importante forma de disseminação do conhecimento sobre a Convenção, como também uma forma de educar os juízes e outros operadores do direito em como proceder em tais casos. Esses seminários - e cursos - são feitos por todo o Brasil; inclusive, em 2014, houve um seminário em Florianópolis, realizado pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região, no qual se demonstrou a necessidade da

especialização de juízes3para a atuação nos casos e uma integração judiciária para

garantir uma maior celeridade na solução dos processos (Tribunal de Justiça da Bahia, 2014).

Outra medida em prol da educação dos magistrados brasileiros é a possibili- dade de se fazer intercâmbio em outros países para um mais profundo aprendizado sobre a Convenção. Em 2014, por iniciativa da ACAF, dez magistrados brasileiros foram para os Estados Unidos participar de debates a respeito da Convenção, para depois formarem um grupo consultivo para auxiliar nos trabalhos de aplicação da mesma no Brasil. O juiz federal Marcelo De Nardi, da 8a Vara Federal de Porto Ale- gre representou o TRF4. O intercâmbio teve duração de dez dias, nas cidades de Washington, Saint Louis e Sacramento, tendo como objetivo estabelecer conexões entre o Direito brasileiro e o norte-americano, além de apresentar as experiências de sucesso e as dificuldades dos países no enfrentamento dos problemas relativos ao sequestro internacional (Conselho Nacional de Justiça, 2014).

Ainda tratando da relação Brasil/Estados Unidos, diversas reuniões bilaterais foram feitas, onde se discutiram a atuação das instituições brasileiras, casos em aberto e possíveis medidas para melhorar o status do Brasil nos relatórios norte- americanos. Um desses encontros ocorreu em 2013, entre a Advocacia-Geral da União e representantes do Governo dos Estados Unidos, em Brasília. O encontro, solicitado pelas autoridades americanas,

abordou diversos assuntos relacionados à aplicação da Convenção da Haia no Brasil, com destaque ao funcionamento do Judiciário brasileiro e aos trâmites do processo, nos casos envolvendo pedido de retorno ao país de origem de crianças trazidas sem autorização para o Brasil, ou levadas daqui para o exterior de forma ilegal. Além disso, foram debatidos os recursos judiciais cabíveis, bem como a forma com que a Advocacia-Geral pode otimizar a cooperação com os EUA. A troca de informações técnicas sobre o tema, também fez parte da pauta do encontro, com objetivo de garantir o adequado, célere e seguro andamento dos processos (CRUZ, 2013).

Nos últimos cinco anos, já houve resultados provenientes dessas medidas. No relatório de 2010, melhoras na celeridade dos processos foram atribuídas ao extensivo treinamento judicial e campanha de conscientização por parte da Autoridade Central, como também à atribuição pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dos casos da Convenção aos tribunais federais, além de sua diretiva, através de duas resoluções, que estabeleceu prioridade sobre os casos da Convenção.

A primeira das resoluções, promulgada em 2007, atribuiu a jurisdição aos Tribunais Federais; mais bem equipados que os Tribunais Estaduais para lidar com ca- sos da Convenção, fazendo com que os atrasos causados pelo conflito de competência

3 Tanto Maurique, quanto o coordenador-chefe da Autoridade Central do Brasil, Francisco Beserra, e a advogada da União Natália Camba defenderam essa posição.

fossem reduzidos. Essa resolução também limitou o número de juízes autorizados a tratar desses casos, aumentando assim a probabilidade de que os mesmos ganhem experiência, devido ao contato mais frequente com a temática. A segunda, de 2008, deu prioridade aos casos da Convenção, ao requerer que novos casos sejam apresen- tados a um juiz federal dentro de 48 horas após seu registro (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 2010).

Já em 2011, o relatório destacou a iniciativa brasileira de ordenar o retorno aos EUA de três crianças, em casos duradouros, porém com apelações pendentes em dois deles. Também com apelação pendente, havia o caso de Sean Goldman, enfatizado pelo relatório, no qual o STF garantiu a execução da sentença, havendo o retorno da criança aos EUA no final de 2009. Esses resultados só foram possíveis gra- ças às medidas tomadas pelas instituições brasileiras, que causaram relativa melhora na celeridade e na forma de execução da lei (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 2011).

As medidas tomadas até o presente momento são apenas os primeiros passos para uma futura conduta exitosa por parte do Brasil nos casos da Convenção. As campanhas de conscientização, a instrução dos próprios juízes, além de um anteprojeto de lei para a regulamentação das instituições relacionadas a Convenção são atos preliminares para posteriores ações práticas. A seguir veremos possíveis medidas que podem ser adotadas nos próximos anos pelo Brasil.

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