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MEDIDAS DISCIPLINARES E PROCESSO DISCIPLINAR 34

No documento Emprego e Migracao Edicao III Portugues (páginas 34-37)

SECÇÃO 1 EMPREGO 7

10.   MEDIDAS DISCIPLINARES E PROCESSO DISCIPLINAR 34

O poder disciplinar é uma faculdade atribuída ao empregador, por forma a impor sanções ao trabalhador, incluindo o despedimento. Este poder, destina-se a fazer face a situações de responsabilidade disciplinar, ou seja, actuações do trabalhador em violação do contrato de trabalho e dos deveres legalmente estabelecidos, nos termos da lei.

Os processos disciplinares são regulados principalmente pelo Capitulo III, Secção VII subsecção III da Lei do Trabalho. A entidade empregadora pode aplicar medidas disciplinares aos trabalhadores devido a uma variedade de infracções disciplinares, incluindo, entre outros,

147

Ibid.: nº 3 do art 105. 148

o absentismo, incumprimento culpável das tarefas atribuídas, embriaguez, roubo, furto e assédio sexual (praticado ou não no local de trabalho).149

Existem seis medidas disciplinares de que as entidades patronais podem recorrer numa ordem ascendente de severidade que são:

 admoestação verbal;  repressão registada;

 suspensão do trabalho com perda de remuneração até ao limite de 10 dias por cada infracção e 30 dias por cada ano civil;

 multa até 20 dias de salário;

 despromoção para a categoria profissional inferior, por um período não superior a 12 meses; e

 despedimento. 150

É ilícito aplicar quaisquer outras sanções disciplinares, ou agravar as descritas acima, no instrumento de regulamentação colectiva ou no regulamento interno de trabalho ou no contrato de trabalho.

As medidas disciplinares devem ser obrigatoriamente fundamentadas e proporcionais à infracção. A entidade empregadora deve tomar em conta factores como a gravidade da infracção, o grau de culpabilidade do trabalhador, à conduta profissional do trabalhador e, em especial as circunstâncias em que se deram os factos.151 Diferentemente da Lei 8/98 já não é

obrigatório considerar a situação económica do trabalhador.152

Para além da finalidade de repressão da conduta do trabalhador, a aplicação das sanções disciplinares visa dissuadir o cometimento de mais infracções no seio da empresa, a educação do visado e a dos demais trabalhadores para cumprimento voluntário dos seus deveres.

Com excepção das medidas disciplinares de admoestação verbal e repreensão registada, ou seja as mais suaves, todas as medidas disciplinares estão sujeitas à instauração de um processo disciplinar interno previsto no Artigo 67 da Lei do Trabalho que contenha a notificação ao trabalhador dos factos de que é acusado, a eventual resposta do trabalhador e o parecer do órgão sindical.

O processo disciplinar procede em fases: a de acusação, da defesa e da decisão. São eles descritas logo abaixo.

Fase de acusação – A entidade empregadora deve primeiro (dentro de 30 dias após conhecimento da infracção) preparar e enviar uma nota de culpa ao trabalhador e ao comité sindical.153 Da nota de culpa devem constar a descrição detalhada dos factos e circunstâncias

de tempo, lugar e modo do cometimento da infracção que é imputada ao trabalhador.

149

A lista de infracções que podem originar a instauração de um processo disciplinar, consta da Lei do Trabalho, no nº 1 do art. 66.

150

Nº 1 e 2 do art. 63 da Lei do Trabalho. 151

Ibid.: nº 2 do art. 64. 152

Nº 1 do art. 23 da Lei 8/98. 153

Fase da defesa – Dentro de 15 dias após a recepção da nota de culpa, o trabalhador pode responder por escrito ou requerer a sua audição ou a realização de diligências de prova. Findo esse período, o processo é remetido ao comité sindical que deverá dar parecer no prazo de 5 dias.154,155

Fase de decisão – Seguidamente, até 30 dias após a data limite para a apresentação do parecer do órgão sindical, e consideradas todas as diligências probatórias, recorrendo aos meios de prova gerais para a averiguação dos factos alegados, o empregador deve proferir a sua decisão.156

Para todos os efeitos legais, o processo disciplinar considera-se iniciado, contando-se os prazos, a partir da data da entrega da nota de culpa ao trabalhador. Porém, em determinados casos, o processo disciplinar pode ser precedido de um inquérito que não excederá 90 dias.157

Se o trabalhador se recusar a receber a nota de culpa, deve o acto ser confirmado, na própria nota de culpa, pela assinatura de dois trabalhadores, dos quais, preferentemente, um é membro do órgão sindical existente na empresa. 158

Com a notificação da nota de culpa, o empregador pode suspender preventivamente o trabalhador – sem perda de remuneração -- sempre que a sua presença na empresa possa prejudicar o decurso normal do processo disciplinar.159

Em caso de processo disciplinar instaurado contra trabalhador ausente e em lugar desconhecido, que se presume ter abandonado o posto de trabalho, ou em caso de recusa de recepção da nota de culpa, deve ser lavrado um edital que, durante quinze dias, deve afixar-se num lugar de estilo na empresa, convocando o trabalhador para receber a nota de culpa, e advertindo-lhe de que o prazo, para a defesa, conta a partir da data da publicação do edital. É agora proibido o chamamento de trabalhadores, para responder a processo disciplinar, através do jornal, revista ou quaisquer outros órgãos de comunicação social.160

A Lei do Trabalho considera inválido o processo disciplinar sempre que:

 não for observada alguma formalidade legal, nomeadamente a falta dos requisitos da nota de culpa ou da notificação desta ao trabalhador, a falta de audição do trabalhador, caso a tenha requerido, a não publicação de edital na empresa, sendo caso disso, a falta de remessa dos autos ao órgão sindical ou a não fundamentação da decisão final do processo disciplinar;

 se verifique a não realização das diligências de prova requeridas pelo trabalhador; e

154

Ibid.: alínea a) do nº 2 do art. 67 A lei não desenvolve os procedimentos requeridos para as diligências de prova. No geral, as partes têm direito a requerer, entre si, provas documentais ou outras com relação ao assunto em conflito. 155

A luz da Lei 8/98 o trabalhador e o comité sindical tinham o mesmo prazo de 10 dias para apresentar a defesa do trabalhador. Na Lei do Trabalho esses prazos autonomizaram-se de tal forma que cada um tem o seu, que juntos totalizam 20 dias.

156

Alínea c) do nº 2 do art. 67 da Lei do Trabalho. 157 Ibid.: nº 3 do art. 67. 158 Ibid.: nº 6 do art. 67. 159 Ibid.: nº 5 do art. 67. 160 Ibid.: nºs 7 e 8 do art. 67.

 houver violação dos prazos de prescrição da infracção disciplinar, da resposta à nota de culpa ou de tomada de decisão.161

As causas de invalidade do processo disciplinar, com excepção da prescrição da infracção do procedimento disciplinar, e da violação do prazo da comunicação da decisão, podem ser sanadas até ao encerramento do processo disciplinar ou até 10 dias após o seu conhecimento. Constitui nulidade insuprível, porém, a impossibilidade de defesa do trabalhador arguido, por não lhe ter sido dado conhecimento da nota de culpa, por via de notificação pessoal ou edital, sempre que for caso disso.162

Perguntas Frequentemente Colocadas

 Para além da sanção a aplicar em caso de processo disciplinar, os trabalhadores poderão ser obrigados a pagar pelos danos causados?

Sim, se o dano tiver sido causado pela conduta dolosa ou culposa do trabalhador. Nos termos do nº 4 do art. 64 não é considerada como mais do que uma sanção disciplinar a aplicação de uma sanção acompanhada do dever de reparação dos prejuízos causados.

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