6 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO
6.5 A ENFERMAGEM E O CUIDADO ESPIRITUAL
6.5.2 Medo do desconhecido
As sessões de quimioterapia geram ansiedade e receio nas mulheres com câncer de mama, relacionado a uma nova situação totalmente desconhecida. O tratamento quimioterápico foi apontado pelas entrevistadas como um momento doloroso e difícil de ser superado. Isso muitas vezes acontece em função da paciente não saber lidar com o mal-estar generalizado, somado à baixa resistência imunológica provocados pela quimioterapia.
Assim, a falta de informações sobre como que exatamente o medicamento age no corpo também colabora para aumentar o medo e a angústia. O tratamento quimioterápico aparece como forma de sofrimento, somado ao medo e a incerteza.
A gente fica tão assustada, a gente não sabe, por mais que nos falem, a gente não sabe nada. A senhora vai vomitar um pouquinho! Que vomitar um pouquinho nada, eu quase fui no ralo! Foi muito vômito! (FL7)
Tive muito medo porque eu não conhecia nada, não sabia das reações. Era totalmente desconhecido. Cheguei com muito medo, mas a equipe toda orientando, acolhendo, sempre alguém indo e vindo, sempre em grupo. Não era só uma que pegava veia e ficava cuidando, eram todas, alarmava uma bomba sempre alguém levantava e ia, e olha que tinha dias que eu não sabia como davam conta de tanta gente. (FL13)
Acho que cuidar da gente neste momento faz muito bem pra gente, não sabemos nada do que vai acontecer e olhar para as enfermeiras, sentir confiança, faz diferença. A gente vai respirando mais calmo e vai passando este período tão difícil, a gente volta mais vezes e parece que vão ficando da família. (FL14)
Observa-se nas falas que o tratamento quimioterápico é considerado de difícil compreensão pelas pacientes, podendo gerar percepções distorcidas e imaginárias, tornando-se intimidante. As mulheres relacionam o cuidado de enfermagem como um apoio importante e efetivo, minimizando o sofrimento e favorecendo a adesão ao tratamento.
Tanto as habilidades técnicas quanto as de carinho e sensibilidade foram reconhecidas pelas mulheres. As falas revelam atitudes de atenção, paciência, respeito e proteção na relação do cuidado e, foram destacadas como ferramentas eficazes na assistência promovendo bem estar espiritual. A competência técnica nos procedimentos, também foi enfatizada sendo relacionada à segurança e ao apoio tão necessários nessa fase da vida.
Nessa perspectiva a equipe de enfermagem, necessita ser presente no cuidado a mulher com câncer de mama, ao oferecer apoio e esclarecimento sobre procedimentos, técnicas e os efeitos colaterais dos quimioterápicos, assim a enfermagem promove o cuidado transpessoal.
Nesse contexto, evidencia-se que o uso criativo do “Self” e de todos os outros
conhecimentos reconhecidos como parte do processo do cuidar para engajamento em um processo de recuperação de saúde por intermédio da arte, efetivado no
comprometimento com as práticas de cuidado e proteção, através do conhecimento criativo, estético, intuitivo e sensível. O cuidar transpessoal é baseado na premissa de que a enfermagem necessita desenvolver um conhecimento científico relacionado com um vasto oceano, não estabelecido (pela ciência), “de potencialidades humanas, chamadas de potencialidades espirituais” (WATSON, 2002, p. 117).
Nesse contexto, ao esclarecer sobre a quimioterapia e informar as mulheres, revela-se ações nas experiências de ensino-aprendizagem dentro do contexto do
cuidar, comprometendo-se genuinamente em uma experiência de prática de ensino e
aprendizagem, através da observação e respeito ao paciente na sua totalidade, fragilidade e limitações. A união entre o paciente e o enfermeiro na perspectiva da autora permite que ambos tenham um relacionamento mais efetivo com o seu lado espiritual (WATSON, 2012).
Aqui é um hospital que não se tem acesso as informações através do médico. O papel que não fazem lá em baixo com a gente, as enfermeiras fazem aqui. Porque é pesado pra gente, muito pesado e dolorido. Acho que faz toda a diferença um hospital onde a enfermagem estuda e tem como foco o doente, que acredita que é possível. (FL9)
A gente vê pessoas que não se importam: ‘Tá aqui o soro, o remédio, é uma máquina’. E não dá pra julgar por que elas estão fazendo o trabalho delas, mas tu pode fazer o teu trabalho de várias formas diferentes. Pode só fazer, ou pode fazer a diferença se você assim querer. (FL8)
Sabe-se que o enfermeiro através da individualidade, sinceridade e clareza, pode extrair várias manifestações e expressões de sentimentos. Durante as seções de quimioterapia, diante de uma situação nova, as pacientes ficam assustadas, e a equipe de enfermagem necessita proporcionar suporte espiritual para auxiliar a paciente no enfrentamento desse processo.
Evidencia-se nos relatos, que a relação de cuidado entre a enfermagem e as mulheres foi entendida por estas de modo mais próximo, o que pode facilitar a comunicação. Nesse sentido, para Costa (2012) a equipe de enfermagem torna-se um elo entre os demais profissionais e a instituição. A enfermagem é vista como coparticipante no processo de cuidar. Observa-se um elevado valor no relacionamento entre a equipe e o paciente evidenciado através do altruísmo humano, sensibilidade e confiança (WATSON, 2002).
Nessa perspectiva, Watson descreve que “a arte do cuidar’ acontece quando a enfermeira olha o paciente e a si com “cuidar e preocupação’ (WATSON, 2002, p. 118) expressando esse sentimento através de atitudes de cuidado como a delicadeza e a sensibilidade observada e sentida pela paciente. Assim, é na capacidade do enfermeiro demonstrar e receber expressões de cuidado que a atividade artística da enfermagem e do cuidar se baseia.
O cuidado de enfermagem é efetivado através do autoconhecimento e experiências de crescimento pessoal, qualidades essas necessárias para fortalecer e embasar o
profissional enfermeiro, que então poderá desenvolver comportamento altruísta para com os outros (WATSON, 2002, 2005; OLINISKI, LACERDA, 2006). Esses conceitos pessoais devem advir de dentro de cada um de nós (WATSON, 2012).
Como observado nos relatos, quando o profissional de enfermagem passa a identificar e valorizar as crenças individuais, a relação entre saúde física, emocional e espiritual, ele consegue promover o Cuidado Transpessoal. A enfermagem necessita cuidar das necessidades da paciente sem descuidar de si mesma. Pensar o cuidado, neste sentido, é cuidar a medicação, alimentação, a reflexão, o lazer, a meditação, a arte, para quem cuida e quem é cuidado (WATSON, 2012).
Corroborando, Rabelo (2014) salienta que o ouvir e o conversar estão relacionados com ações que individualizam o cuidado prestado pela enfermeira. Isso evidencia que ao prestar o cuidado, a enfermeira desenvolve uma autêntica relação de ajuda e confiança. Na mesma perspectiva, (BERENGUER, 2012; ALMEIDA; et al., 2015.) salientam a necessidade do enfermeiro compreender o real significado de espiritualidade para o paciente e como eventos significativos, como a doença, podem afetá-lo, para que, na prática do cuidado, possa lidar com as alterações em níveis de dimensão humana, de forma holística e ética, uma vez que a avaliação e o cuidado espiritual devem ser parte do cuidado integral do paciente.
Dessa maneira, pensando na integralidade do cuidado, destaca-se a importância do ambiente como fator importante na dimensão espiritual. Com enfoque nas relações humanas, envolvendo pessoas e o ambiente e, como isso afeta, o estado de saúde.