QUESTIONAMENTO E DESAFIO
1.4 Medo e exclusão
O sociólogo Zygmunt Bauman, quando afirma em seu livro Confiança e medo na
cidade “[...] que as cidades, nas quais vive atualmente mais da metade do gênero humano,
são de certa maneira os depósitos onde se descarregam os problemas criados e não resolvidos no espaço global. [...]”149, evidencia da complexidade do tema. Bauman descreve a situação das grandes cidades movidas a medo e identifica a origem desse medo nas imposições globais à vida urbana e na administração local dos problemas que afligem os grandes centros urbanos.
O “estrangeiro”, o “excluído econômico” (ou underclass), que procura ocupar um espaço na cidade (e na sociedade urbana), é percebido como ameaça aos logros dos cidadãos e passou a ser separado por marcas urbanísticas: bairros próprios, grades, muros e todos os mecanismos possíveis de segregação. As elites, por ele chamadas o “espaço da primeira fila”, identificam-se pelo lugar em que moram, mas também são cidadãs globais (sem compromisso com a comunidade local).
Os cidadãos da “última fila” – os estrangeiros e os descartados, ou desclassificados (underclass) do sistema econômico – ficam condenados a permanecer na periferia vizinha do “espaço da primeira fila” local. Convivem, assim, no mesmo espaço físico. O pânico diante do marginalizado retroalimenta a lucrativa rede de serviços voltados para garantir a ilusão de segurança dos cidadãos da primeira fila.
[...] Não menos sutil é a linha que separa os "supérfluos" dos criminosos; underclass e "criminosos" são duas subcategorias de "elementos anti-sociais" que diferem uma da outra mais pela classificação oficial e pelo tratamento que recebem que por suas atitudes e comportamentos.[...] Não são mais encarados como pessoas que seriam "reeducadas", "reabilitadas" e "restituídas à comunidade" na primeira ocasião, mas vêem-se definitivamente afastadas para as margens, inaptas para serem "socialmente recicladas":
148 BAIGORRI, 1997. p. 3.
149 Transcrição de conferência proferida por Zygmunt Bauman no congresso Confiança e Medo na Cidade,
que teve lugar em Milão, em março de 2004. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/23585682/ Zygmunt-Bauman-Viver-com-Estrangeiros > asseado em 10- 05-2011
indivíduos que precisam ser impedidos de criar problemas e mantidos a distância da comunidade respeitosa das leis150.
Estes supérfluos agora ‘não cidadãos’ por não poder acessar ao sistema econômico (por isto as redes de representatividade social e por decorrência cidadãs) se constituem não só incomodo estéticos mais como ameaças que deverão ser afastadas não só por marcas simbólicas mais por barreiras físicas e espaciais. A este respeito afirma Bauman:
Que apavoram a sociedade urbana os que ameaçam com sua presença a seguridades da ordem e dos que os cidadãos têm que se proteger isolando-se com muros simbólicos, físicos e eletrônicos (fonte de uma próspera indústria), vastos recursos e meios que isolam ao indivíduo da vizinhança (para protegê-lo) e não para integrar à comunidade; os vizinhos pobres de aldeia camponesa agora na cidade serão a ameaça potencial para o conforto da privacidade151.
Outros fatores alimentam o medo e a insegurança moderna (em suas várias manifestações), que é caracterizada pela imposição e o dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo frente à nevoa do contingencial. O primeiro é a “supervalorização” do indivíduo, liberado das restrições impostas pela densa rede de vínculos sociais da sociedade comunitária camponesa (ou do Estado Social152). O segundo, consiste na fragilidade e vulnerabilidade sem precedentes desse mesmo indivíduo, agora desprovido da proteção que os antigos vínculos lhe garantiam (a comunidade camponesa pré-moderna e em épocas da modernidade sólida do Estado social).
Assim, o habitante da cidade, isolado do núcleo mais íntimo (e das comunidades solidamente unidas que outrora definiam as regras de proteção e controlavam a aplicação dessas regras), tem que olhar ao seu redor impelido a procurar garantir a segurança de sua privacidade, de seus logros e da segurança de seu futuro, desconfiando do nebuloso mundo que o rodeia e ao qual não consegue decifrar, em que o estrangeiro, o excluído e o criminoso personificam a ameaça ao bem-estar153.
A dissolução da solidariedade representa o fim do universo no qual a modernidade sólida administra o medo. [...] A Europa, primeira a sofrer a revisão moderna e todas as suas conseqüências, passa pela "desregulamentação individualista número dois", agora não por escolha própria, mas cedendo à pressão das incontroláveis forças globais.
Isto é assim porque a maioria dos indivíduos não possui as habilidades e conhecimentos operáveis por seus próprios recursos materiais; inadequação ao sistema
150 BAUMAN, 2009, p. 24.
151 Ibid. p. 25. 152 Ibid. p. 23. 153 Ibid. p. 16.
representa ser rejeitado, isto é, ser marginalizado deste por ser ‘não assimilável’ ao sistema. Esses indivíduos formaram a classe definitivamente ‘supérflua’, excluída de modo
permanente. O medo de ser arrastado por esses supérfluos é a paranoia que espreita e
alimenta o círculo vicioso que a sociedade “líquida” dinâmica e ativa encoraja no indivíduo. Como já dito, não é possível descartar plenamente a visão estruturalista que entende as características da subjetividade e a psique como a mentalidade do sujeito urbano que são condicionadas às destrezas culturais que lhe permitem sobreviver a ecologia e a lógica especifica urbana, tanto dos centros abastados quanto da favela. O ‘encontro’ destes dispares ‘outros’, e suas particulares ‘outros saberes’, ‘outras sensibilidades’, desafia e questiona a comunicação e a suposta riqueza na expressão de ‘si’ próprio para com outros e com outros, que permitiria construir a sociedade e a cultura idiossincrática da cidade.
O horizonte mental da cidade e a evidência do poder gerador do processo de expansão da urbanização que extrapola os limites do visível espaço geográfico-geológico e arquitetônico da cidade – o processo de urbanização – urbaniza também as mentalidades e os espíritos, gera uma cultura que leva uma maneira particular de ‘ser’ e de ‘agir’ no indivíduo urbano e seu decorrente agir com respeito aos outros (e com respeito a si mesmo), seu entorno (ecológico) e Deus, seus jeitos de se engajar na participação social e cidadã. Este universo mental urbano determina os valores que o fortalecem e os contravalores que o debilitam. Esta dimensão mental é a evidência da cultura urbana.