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CAPÍTULO 3 INFÂNCIA, MEMÓRIA E CONVERSÃO RELIGIOSA

3.2 A reconstrução das lembranças de experiências religiosas na infância

3.2.3 Memória na perspectiva da Teoria do apego

a expressão de Maraldi (2011, p.194)17. Tomando como referência a teoria de Hjamar Sundén (1908-1993) sobre a formação e manutenção dos papéis religiosos, este autor explica que os conceitos da religião veiculam uma série de papéis que o indivíduo religioso toma para si como modelos de conduta, o que molda suas experiências religiosas. Assim, nos textos, narrativas, exemplos de vida, as pessoas estabelecem um fundamento cognitivo e comportamental para suas próprias vivências religiosas. Independente de o registro das narrativas religiosas ser oral ou escrito, Maraldi afirma sua importância na formação de um modelo que é identificado na experiência religiosa:

Pouco importa se o registro dessas narrativas tradicionais é oral ou escrito. O primordial a se considerar é que, tendo sido a pessoa introduzida a tais registros – de onde se deve deduzir o lugar central da linguagem e da aprendizagem social nesse processo – os estímulos internos ou externos que formam a experiência, serão então assimilados, aos poucos, ao quadro de referência religioso. O sistema nervoso paulatinamente desenvolve uma disposição para a percepção, agora guiada por um dado esquema ou quadro previamente formatado. Assim que assimilado, o estímulo é imediatamente apreendido e reconhecido como religioso (MARALDI, 2011, p. 194).

Por essa perspectiva, aparece privilegiada a função da percepção, condicionada pelos quadros de referências culturais que intermediam as interações da pessoa com seus grupos, a linguagem, os símbolos compartilhados e as expressões religiosas e, portanto, definem uma identidade religiosa que, armazenada na memória, é resgatada para gerar o comportamento religioso. Embora esclareça a formação e manutenção dos papéis religiosos que moldam as experiências religiosas, Maraldi alerta para os limites da teoria no que diz respeito à mudança de um quadro de referência para outro, nos processos de conversão e desconversão religiosa.

Apesar das limitações, a teoria dos papéis religiosos na formação de uma identidade religiosa possui pontos em comum com a perspectiva da Teoria do Apego, pontos que nos ajudam na definição do papel da memória na reconstrução das experiências religiosas, como veremos a seguir.

apego com os cuidadores primários, nas experiências de vínculo que têm início muito cedo na vida do bebê, formando modelos funcionais internos que serão recuperados durante o ciclo da vida. Um aspecto importante a se considerar, portanto, dentro da lógica da Teoria do Apego é o papel da memória na reconstrução das experiências iniciais da vida. Os laços que levam ao comportamento de apego estão presentes e ativos durante todo o ciclo vital, e não se limitam apenas à infância, sendo, de acordo com Bowlby, um grave erro supor que, quando ativo em uma pessoa adulta significaria regressão ou imaturidade. O comportamento de apego fica potencialmente ativo durante toda a vida, tendo como meta manter certos graus de proximidade ou de comunicação com as figuras de apego discriminadas (BOWLBY, 2004b, p. 39).

Para entender como funciona a memória na estrutura cognitiva proposta pela Teoria do Apego, vamos observar as proposições de John Bowlby retomando os aspectos centrais e detalhando os que nos interessam em relação à memória.

Modelos funcionais ou de representação

Vimos brevemente no capítulo 2 que Bowlby descreve os estados da mente em termos de modelos funcionais ou de representação, isto é, a criança constrói modelos do mundo, e de si mesma como agente nesse mundo, que a auxiliam na percepção de acontecimentos e na previsão de possibilidades futuras; assim, a pessoa elabora seus planos de ação para a vida.

Fator chave para a construção desses modelos funcionais são as figuras de apego e a maneira como a pessoa vê a si própria como aceita ou não, pelas experiências que teve com estas figuras de apego, dependendo de quão acessíveis ou receptivas tenham se mostrado. Toda situação que a pessoa encontra na vida será, portanto, relacionada a esses modelos funcionais. As informações que chegam por meio dos órgãos sensoriais são selecionadas e interpretadas de acordo com esses modelos; o significado delas é avaliado em termos deles; os planos de ação são concebidos e executados também de acordo com esses modelos (BOWLBY, 2004b, p. 261).

As informações que chegam, portanto, passam por um processo de três etapas: percepção, avaliação e planejamento.

As primeiras experiências do bebê, assim, se organizam estruturando modelos funcionais, que, de acordo com Bowlby, servem de base para abstrações futuras, servindo de previsão quanto às interações futuras. Independente de se ter consciência de sua presença, as experiências subjetivas sociais, ou de interação, são trazidas à tona por essa memória prototípica.

Portanto, podemos afirmar que as crianças entenderão as novas situações a partir de certas pré-concepções e vieses interpretativos extraídos de suas expectativas pregressas de comportamento em relação aos outros. Ou seja, somente podemos imaginar o futuro na exata medida em que nos recordamos do passado. Ninguém pode imaginar receber algo no futuro que não consegue (localizar e) recordar em sua história de vida no passado (ABREU, 2015, p.104).

O processo de construção desses modelos de mundo pela criança tem uma dimensão subjetiva, porque ela gradualmente vai descobrindo a respeito de si mesma; mas também uma dimensão social, porque essa descoberta é feita por meio da interação com outros. Com todas essas experiências armazenadas na memória, a criança forma um esquema de si mesma, ou um senso de self, em termos de conexão e relacionamento que permite a ela, no presente, imaginar o futuro, com base nas experiências do passado.

Avaliação e interpretação de informações

As informações são processadas de acordo com os estímulos que desempenham um papel na ativação ou finalização do comportamento instintivo. Segundo Bowlby (2002, p. 125), a pesquisa neurofisiológica tem chamado atenção para a forma como os estímulos funcionam nas áreas sensoriais do cérebro, em relação aos acontecimentos do meio ambiente:

Quando o input sensorial derivado de um evento ambiental é recebido, é imediatamente avaliado. Se for considerado sem importância, é apagado. Caso contrário, é ampliado e, se julgado relevante (e não esmagador ou irresistível demais em suas implicações), é determinado o seu valor para a ação; as mensagens apropriadas são expedidas então para as áreas motoras (BOWLBY, 2002, p.125).

No ponto de vista de Bowlby, e com as informações científicas de que dispunha na época em que desenvolveu sua teoria18, as avaliações são intuitivas, em processos conscientes ou inconscientes, mas vivenciadas por meio de afetos e emoções, ou seja, experiências sensíveis, e, portanto, denominadas pelo autor na acepção ampla de “sentimentos”. Retomando: os dados sensoriais referentes a eventos ambientais que atingem o organismo através dos órgãos dos sentidos são imediatamente avaliados, regulados e interpretados, para então serem selecionados para a ação (BOWLBY, 2002, p.133). Os processos de avaliação continuam acontecendo mesmo depois de iniciada uma ação coordenada, e as consequências, registradas para posterior

18 Nosso interesse em observar as postulações de Bowlby tanto em relação à memória quanto a outros aspectos como a etologia ou a evolução, por exemplo, está em perceber a linha de raciocínio que ele estabelece e que dá a base para dialogarmos com a Psicologia da Religião. As discussões sobre o desenvolvimento da memória, tanto na teoria bowlbyana quanto nas primeiras postulações de Halbwachs, continuam a ser úteis para compreender os conjuntos de lembranças individuais assim como as memórias no espaço social coletadas pelas tradições religiosas.

Novos estudos buscam uma revisão conceitual tanto na neurociência (MARALDI et.al, 2022, p.705) quanto na área da antropologia e da sociologia (TEIXEIRA, 2022, p.654) para compreender a função da memória nos estudos dos fenômenos religiosos.

referência. Avaliadas, as informações recebidas – ou inputs sensoriais – são interpretadas, e complementadas com as imagens resgatadas no “armazém mnemônico” do organismo (BOWLBY, 2002, p. 135). O input interpretado e avaliado, tenha vindo do meio ambiente ou do próprio organismo, é experimentado em termos de valor, por exemplo, como agradável ou desagradável, delicado ou irritante, simpático ou antipático (BOWLBY, 2002, p.136). Esses valores são formados como resultado da comparação do input sensorial com padrões ou referências internas: o que foi avaliado como agradável será provavelmente mantido ou procurado, o que foi avaliado como desagradável será provavelmente evitado. Assim, a avaliação distingue duas etapas: a comparação do input sensorial com padrões desenvolvidos ao longo da vida e a seleção de algumas formas de comportamento como consequência dos resultados dessa comparação, que determinarão o aprendizado de um comportamento experimentado como agradável ou não, em outras palavras, os processos de interpretação e avaliação do input sensorial têm um papel causal na produção do comportamento, seja ele qual for (BOWLBY, 2002, p.142).

Armazenamento de informações: memória episódica e memória de longo prazo

Como a Teoria do Apego trabalha com a noção de que as experiências de vínculo têm início muito cedo, Abreu (2019, p. 40) sugere que o tipo de memória mais abrangente para incorporar ações, cognições, percepções e afetos é a memória de episódio recordado. Citando Stern (1992), Abreu explica que a unidade memorial básica é um pequeno episódio, mas que se insere de maneira coerente com as demais experiências vividas e às sensações que a elas correspondem. A ocorrência de vários episódios razoavelmente semelhantes, com o passar do tempo, começam a agrupar um episódio generalizado, uma representação abstrata de situações diversas, mas de estrutura flexível, como uma “média” de várias experiências reais, que formam um protótipo para representar todas as experiências. Abreu explica que:

Um episódio de relacionamento desloca-se, inicialmente, para a memória como uma unidade indivisível e completa. Com o passar do tempo, e com a ocorrência de vários episódios específicos e de razoáveis semelhanças (com mínimas diferenças), a estrutura interna do bebê começará a formar o “episódio generalizado, ou seja, um agrupamento de episódios relacionais específico (ABREU, 2019, p.40).

Agrupadas em uma estrutura de evento generalizado, isto é, uma aproximação generalizada das interações ocorridas, esta memória será acessada novamente cada vez que uma experiência nova ative esses registros ou representações de interações generalizadas, as RIGs.

Segundo Stern:

Episódios vividos imediatamente se tornam os episódios específicos para a memória, e, com a repetição, eles se tornam episódios generalizados [...]. Eles são episódios generalizados da experiência interativa, que são representados mentalmente – isto é, representações de interações que foram generalizadas, ou RIGs. Por exemplo, depois da primeira brincadeira de esconde-esconde, o bebê estabelece a memória do episódio específico. Depois da segunda, terceira ou décima-segunda experiência de episódios levemente diferentes, o bebê terá formado uma RIG de esconde-esconde. (STERN, 1992, p.97).

Sintetizando, os “episódios generalizados” são eventos prototípicos, registros acumulados das interações passadas, ou as chamadas RIGs (Representações de Interações Generalizadas), uma construção (aproximada, não exata nem detalhada) das interações vivenciadas, que é evocada a cada nova experiência (STERN, 1992).

Quando um bebê experimenta um determinado sentimento, este evoca a RIG correspondente da qual ele é um dos atributos. E, assim, cada vez que uma RIG é ativada, um pouco da experiência originalmente vivida é ativada na memória (ABREU, 2019, p. 41)

Nas experiências que envolvem interações com outros, cada vez que uma RIG é ativada, evoca uma experiência de estar com um outro, que Stern, trabalhando com a perspectiva da psicanálise e da psicologia do desenvolvimento para entender a formação do senso do eu para a criança pré-verbal, chama de companheiro evocado (STERN, 1992, p. 98). O companheiro é evocado não como a lembrança de um acontecimento real, mas como um exemplo ativo de tais conhecimentos, e por isso, reativam a experiência vivida carregando um pouco do impacto da experiência original, na forma de uma memória ativa (STERN, 1992, p.98). Assim, as experiências atuais passam a incluir a presença desse companheiro (companheiro apenas no sentido de alguém que acompanha um outro) que existe concretamente somente na memória. É um companheiro evocado porque, mesmo que a pessoa esteja sozinha quando vive determinada experiência, inclui a presença, consciente ou não, da experiência prototípica como companhia daquele momento.

O companheiro evocado é uma experiência de estar com, ou na presença de um outro autorregulador, o que pode ocorrer dentro ou fora da consciência. O companheiro é evocado da RIG não como a lembrança de um acontecimento passado real, mas como um exemplo ativo de tais acontecimentos (STERN, 1992, p. 99)

A ideia de companheiros evocados também se aplica, segundo Stern, a episódios em que o bebê está sozinho, como quando outros episódios semelhantes envolveram a presença de um autorregulador (por exemplo, um bebê de seis meses que encontra um chocalho e consegue produzir som), e trazem à memória eventos semelhantes de momentos passados, prototípicos, vividos na presença de um outro regulador. Para Stern, esta é uma resposta social que acontece em uma situação não-social (STERN, 1992, p. 99).

Essa visão, de estar quase continuamente com companheiros reais e evocados, abrange aquilo que geralmente se quer dizer quando se diz que o bebê aprendeu a

estar confiante ou seguro ao explorar o mundo circundante. O que poderia criar confiança ou segurança a explorar, inicialmente, a não ser a memória de experiências passadas com o eu e o outro em contextos exploratórios? O bebê não está, de fato subjetivo, sozinho, mas acompanhado por companheiros evocados, retirados de várias RIGs que operam em muitos níveis de ativação e consciência (STERN, 1992, p.104).

Para Stern, as noções de RIGs vieram para preencher uma lacuna teórica, dentre outras, compatível com os modelos funcionais de apego e, ainda que carreguem diferenças em alguns aspectos, convergem por funcionarem de maneira semelhante aos modelos funcionais da Teoria do Apego por, primeiro, serem memórias prototípicas que representam a história passada acumulada de um tipo de interação com um outrem e, segundo, por possuírem uma função orientadora no sentido do passado, criando expectativas no presente e futuro (STERN, 1992, p.102). Segundo este autor, a Teoria do Apego consegue abarcar a experiência subjetiva do bebê na forma dos modelos funcionais de relacionamento mãe/bebê (STERN, 1992, p. 19).

Nesse sentido, a pessoa constrói os modelos funcionais do mundo e de si própria tendo como base essas experiências iniciais das primeiras interações que formaram um protótipo dos relacionamentos. Esses modelos guiam a estrutura interna e delimitam o que se pode experimentar de uma relação futura, inclusive no relacionamento com Deus como figura de apego. Segundo Abreu, a memória vista sob essa perspectiva adequa-se perfeitamente aos sistemas de apego elaborados por Bowlby:

Segundo ele (Bowlby), a partir das primeiras experiências do bebê com as figuras centrais de sua vida – as chamadas figuras de apego, a criança constrói uma linha de raciocínio mais ou menos primitiva partindo dos modelos de inter-relação vivenciados. Com o tempo, estes “modelos” se estruturarão e serão a base para abstrações futuras, servindo de elementos de previsão às expectativas de relacionamentos futuros (ABREU, 2019, p. 42).

À medida em que se desenvolvem as capacidades cognitivas das crianças, elas se tornam capazes de antecipar a possível ocorrência de diversas situações, especialmente aquelas que geram medo. Passadas as etapas de seleção, interpretação e avaliação, os inputs passam a ter influência sobre o comportamento, imediatamente ou depois. Para que isso ocorra, as informações serão correlacionadas com outras que já estão armazenadas na memória de longo prazo, e por sua vez, são armazenadas ou excluídas19.

No curso normal da vida de uma pessoa a maior parte da informação que ela recebe é excluída rotineiramente do processamento posterior, a fim de que suas capacidades não sejam sobrecarregadas e sua atenção não seja constantemente desviada. Portanto, a maior parte da exclusão seletiva é necessária e adaptativa (BOWLBY, 2004b, p.47).

19 Para Bowlby, assim como para psicanalistas e psicólogos cognitivos, a exclusão seletiva de informações, que o autor considera conveniente chamar de “exclusão defensiva”, ocorrida de forma inconsciente, pode resultar em certo grau de bloqueio ou amnésia, o que tem impacto direto na prática terapêutica.

Na primeira infância, ou segundo Granqvist e Dickie (2006), de 3 a 6 anos, o desenvolvimento físico já permite o distanciamento das figuras de apego, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento emocional e cognitivo possibilita que as sensações experimentadas com as figuras de apego, ainda que distantes fisicamente, sejam trazidas simbolicamente para prover conforto diante de situações de angústia. Aqui se abre o caminho para que se desenvolva o apego a Deus, conforme vimos anteriormente. Granqvist e Dickie presumem que é na primeira infância (do nascimento até por volta de 6 anos) que os modelos funcionais internos das crianças a respeito de seus pais (como nutrir, cuidar, amar, proteger, punir), estão atuando na formação de sua percepção de Deus (GRANQVIST; DICKIE, 2006, p. 201). Na transição para a segunda infância (de 7 a 11 anos), as crianças já têm os mecanismos internos para preencher a lacuna física das figuras de apego primárias buscando refúgio e segurança na representação de Deus.

Segundo esses autores, as percepções que as crianças têm dos pais, mais do que as percepções de si mesmas, são os mais poderosos preditores de percepções de Deus.

Assim, os modelos funcionais internos são determinantes para ativar os comportamentos de apego relacionados à religiosidade e às experiências religiosas. É possível que, para uma pessoa que tem um modelo funcional interno de apego seguro aos pais, o desenvolvimento da religiosidade reflita a adoção de padrões do cuidador primário, que incluem os valores religiosos, corroborando a hipótese da correspondência socializada. Da mesma forma, o modelo interno de apego inseguro pode resultar nos padrões de compensação emocional.

Para os diversos autores que pesquisaram empiricamente a conversão religiosa à luz da Teoria do Apego, a conversão também refletirá os padrões de conversões religiosas súbitas e emocionais para os participantes com histórico de apego inseguro, configurando a hipótese de compensação, e conversões graduais, menos emocionais, para os de apego seguro, conforme a hipótese de correspondência socializada, uma vez que as percepções de situações que causam medo, como vimos, podem provocar a ativação do comportamento de apego.