CAPÍTULO 3 INFÂNCIA, MEMÓRIA E CONVERSÃO RELIGIOSA
3.1 A religiosidade na infância
3.1.1 Teorias dos estágios do desenvolvimento religioso infantil
A maioria das teorias do desenvolvimento religioso foi grandemente influenciada pelas formulações do psicólogo, biólogo e pensador suíço Jean Piaget (1896-1980) sobre o
desenvolvimento cognitivo. Observando as regularidades na maneira como as crianças raciocinavam em cada faixa etária a partir de jogos (PIAGET, 1994), Piaget concluiu que o desenvolvimento cognitivo da criança envolve quatro estágios, da primeira infância até a adolescência, que refletem as habilidades de raciocínio nas diferentes idades. Em linhas gerais, a teoria do desenvolvimento cognitivo conforme demonstrada por Piaget propõe que o primeiro estágio é o sensório-motor, no período de 0 aos 2 anos, no qual as sensações e a coordenação motora estão sendo desenvolvidas para a cognição do mundo e dos objetos. A aprendizagem nesse estágio acontece pelo ensaio e experimentação. O segundo é o estágio pré-operacional, dos 2 aos 7 anos, caracterizado pelo desenvolvimento da fala e o início do raciocínio. Esta fase, marcada pelo jogo simbólico, se desenvolve em dois momentos: o pré-conceitual, caracterizado pelo animismo, realismo, artificialismo e egocentrismo; e o pensamento intuitivo, caracterizado pelo pensamento centrado em um único aspecto, o raciocínio transdutivo, pensamento estático, sincretismo, dificuldade de classificação e de seriação. O terceiro estágio é o das operações concretas, dos 7 aos 11 anos, e está relacionado com a capacidade de interpretação e resolução concreta de alguns problemas básicos. Nesta fase, a criança constrói regras e estratégias para compreensão do mundo, tem domínio de representações concretas, habilidades nas operações matemáticas e pensamento indutivo. O quarto estágio é o das operações formais, dos 11 anos em diante, onde se desenvolve o raciocínio lógico e a autonomia para criar e refletir sua própria visão de mundo. Esta fase é marcada pelas representações abstratas e o pensamento com base na lógica dedutiva. Esses estágios dizem respeito também ao desenvolvimento do juízo moral na construção do conhecimento da criança, que parte da fase da anomia, quando a consciência da criança é desprovida de regras; para a heteronomia, quando as regras são compreendidas pela força do hábito, a partir da autoridade externa; e finalmente a autonomia, na qual a criança alcança uma consciência moral, interiorizando os princípios éticos e morais em relação à influência de suas ações e as consequências de seus atos (PIAGET, 1994).
Lawrence Kohlberg (1927-1987) procurou, assim como Piaget, identificar os estágios cognitivos subjacentes ao pensamento moral, por meio de uma pesquisa que envolvia a resolução de um dilema moral ao qual os pesquisados deviam responder. Com os resultados, ele sustentou que as pessoas passam por três níveis do desenvolvimento moral: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional. Kohlberg tratou o desenvolvimento moral e o religioso como coisas distintas, entendendo que o comportamento moral independe de uma religião específica. Sobre esta estrutura básica que entende o desenvolvimento como etapas no decorrer da infância foram fundamentadas grande parte das teorias do desenvolvimento cognitivo (KOLBERG, 1964).
Estas teorias, que têm em comum o desenvolvimento infantil intelectual e moral demarcado pela progressão cognitiva, trazem, em conjunto com outras áreas do pensamento, implicações para o pensamento religioso. Visto pelo prisma das teorias do desenvolvimento cognitivo, a religiosidade infantil passa de imagens concretas e crenças literais na infância para um pensamento religioso mais abstrato na adolescência. Consequentemente, apenas na adolescência as crenças e valores religiosos poderiam assumir os mesmos significados da vida adulta (BRIDGES; MOORE, 2002, p. 3).
Vejamos, portanto, como são formuladas algumas das principais abordagens sobre o desenvolvimento religioso a partir do pressuposto dos estágios de desenvolvimento.
Partindo do entendimento da religião como inserida dentro do âmbito do desenvolvimento intelectual progressivo da infância para a vida adulta, David Elkind, na década de 1960, sugeriu quatro estágios do desenvolvimento paralelamente aos estágios piagetianos:
conservação, a fase 1 do pensamento religioso, associada à idade pré-operacional; a fase 2, a busca por representação, ligada ao pensamento operacional concreto; a fase 3, busca por relações e busca por compreensão, associadas ao pensamento operacional formal (HOOD, HILL, SPILKA, 2018, p.83). Para Elkind, a compreensão das crenças e práticas religiosas não está presente nas crianças pequenas, mas desenvolve-se ao longo da infância. Quando os adolescentes e adultos relatam suas afiliações religiosas, identificam não apenas uma igreja à qual pertencem, mas um conjunto de práticas religiosas e crenças subjacentes a elas (BRIDGES; MOORE, 2002, p.3). Anos depois, outro estudioso muito citado por realizar um amplo estudo longitudinal com quase 3.000 jovens foi Kalevi Tamminen (1991), que conseguiu documentar o declínio constante nos relatos de experiência religiosa desde a infância até a adolescência. Apesar das limitações metodológicas da pesquisa, os achados de Tamminen demonstraram que as relações parentais são a chave para entender as experiências religiosas das crianças com Deus como amoroso, poderoso, cuidador, protetor, próximo ou distante (GRANQVIST, DICKIE, 2006, p.200).
Ainda na década de 1990, outro estudioso que trabalhou a partir da teoria dos estágios foi Fritz Oser (1991), que, assim como Kohlberg, desenvolveu estudos na área do desenvolvimento moral. A pesquisa de Oser e seus colegas revelou cinco estágios do desenvolvimento religioso relacionado ao julgamento, à medida em que ocorrem mudanças qualitativas no relacionamento das pessoas com Deus. O estágio 1 refere-se à crença em um Deus que intervém com seu poder no mundo dos humanos; o estágio 2 envolve a crença em um Deus que pune ou recompensa, de acordo com boas ou más ações; o estágio 3 representa o início de um pensamento mais distanciado onde Deus exerce menos influência na vida das pessoas; e o estágio 4 as pessoas
percebem tanto a necessidade quanto os limites da autonomia, reconhecendo que a vida pertence a um ser supremo; e o estágio 5, no qual o ser supremo atua através da ação humana por meio do cuidado e do amor (HOOD, HILL, SPILKA, 2018, p.88). As três primeiras fases ou estágios de Oser são situadas na infância e início da adolescência, onde tem lugar o pensamento concreto e literal. Nas três primeiras fases, Deus é visto como imediatamente envolvido e causador dos acontecimentos. A partir da terceira e quarta fases, Deus é visto como mais distante e os questionamentos sobre a existência de Deus podem levar os adolescentes a crescente ateísmo (BRIDGES; MOORE, 2002, p. 9).
Dentro do escopo das teorias de estágios de desenvolvimento cognitivo, o pesquisador James Fowler ([1981] 1992) foi quem mais se destacou nos estudos sobre a religiosidade nas fases da vida. Fowler desenvolveu uma nova base teórica para os estágios da fé, dentro do contexto cristão; definiu a fé como a maneira de a pessoa ver a si mesma em relação às outras com a mesma base de significado e propósito, ou seja, a forma de dar sentido às múltiplas forças e relacionamentos que fazem parte da vida. Na obra Estágios da fé ([1981] 1992), através de intenso diálogo com psicanalistas e em contraponto com o cognitivismo piagetiano, Fowler desenvolveu um novo arcabouço teórico para o amadurecimento psicoespiritual sem deixar de lado a questão da busca de sentido e a coragem da fé (SILVA, 2013, p.413). Em sua pesquisa, Fowler distinguiu “conteúdo” da fé dos “estágios”, que ele chama de “elemento estrutural formal”. Esta é uma síntese dos sete estágios da fé elaborados por ele:
1) Fé primitiva e intuito protetora – até os dois anos de idade, quando os limites que separam o eu dos outros ainda não estão claramente definidos, a fé da criança é a imagem de um Deus que ainda é uma projeção dos cuidados que recebeu dos pais e outros adultos.
2) Fé intuitivo-protetora – de dois a sete anos, a criança usa a fala e a representação simbólica para organizar sua experiência sensorial e transformá-la em unidade de sentido. A espiritualidade se desenvolve basicamente no mundo de faz-de-conta e da imaginação.
3) Fé mítico-literal – na criança em idade escolar, o surgimento do pensamento operacional concreto traz uma abordagem mais lógica, diferenciando o real do imaginário, desenvolvendo hipóteses para dar sentido às suas experiências por meio de histórias. As crenças desse estágio são tomadas por uma interpretação literal, bem como as regras e atitudes morais.
4) Fé sintético-convencional – o adolescente, já na transição para o pensamento operacional formal, desenvolve a fé com a capacidade de refletir e da autoconsciência, na formação da identidade e da apropriação da fé autônoma.
5) Fé individuado-reflexiva – neste estágio, já no início da vida adulta, os rituais e símbolos são importantes, mas ressignificados para o seu próprio compromisso de fé.
6) Fé conjuntiva – neste estágio, a meia-idade traz nova maneira de ver, conhecer e se comprometer, reformulando o passado.
7) Fé universalizante – neste estágio, a pessoa vive à luz e sob a expectativa do reino de Deus, com nova compreensão da natureza do caráter divino e da comunidade.
Fowler admitia a possibilidade da conversão na infância, que poderia ocorrer em qualquer dos estágios da fé, com influência determinante para a vida toda (FOWLER, 1992, p. 234). A definição de conversão dentro desse contexto é por ele assim descrita:
Conversão é uma recentralização significativa de nossas imagens de valor e poder anteriores, conscientes ou inconscientes, e a adoção consciente de um novo conjunto de estórias mestras no compromisso de remoldar nossa vida, em uma nova comunidade de interpretação e ação (FOWLER, 1992, p.231).
A conversão, segundo ele (1992, p.231), “pode ocorrer em qualquer um dos estágios de fé ou em qualquer uma das transições entre eles”, permitindo várias combinações possíveis, como a conversão que precipita uma mudança de estágio da fé, a mudança de estágio que precipita a conversão, a conversão que se correlaciona com a mudança de estágio, e a conversão que impede ou ajuda a pessoa a evitar a dor das mudanças de estágio, fazendo nesta última combinação a declaração de que a conversão introduz a criança prematuramente a um padrão de fé adulta.
“como quando uma criança de 7 a 10 anos é levada, em um ambiente cristão fundamentalista, a uma poderosa experiência de conversão que traz certeza de perdão e salvação quando a criança foi convencida de sua pecaminosidade e por imagens da destrutividade do inferno. Tal conversão infantil pode levar ao que Philip Healfaer chamou de “formação precoce de identidade”, na qual a criança assume prematuramente os padrões de fé adulta modelados naquela Igreja. Em tais casos, a criança em crescimento não passa pela crise de identidade da adolescência. E, a não ser que nos primeiros anos de vida adulta ela rompa de maneira extraordinariamente dilaceradora com aquelas rígidas imagens de identidade e fé formadas na infância, a pessoa permanece naquele estágio por toda a vida (FOWLER, 1992, p.234).
Fowler, cujo corpo teórico transita fenomenologicamente entre a teologia e a psicologia da religião, interpreta a conversão como resultado de um ambiente cristão fundamentalista no qual conceitos como pecado, inferno e perdão constroem uma identidade desenvolvida a-temporalmente em um estágio (precoce), no qual a pessoa permanece por toda a vida. Como veremos mais à frente, a teoria de Fowler tem sido criticada por não esclarecer alguns pontos da religiosidade: a diferença entre experiências individuais na religiosidade infantil; como acontece a antecipação de um estágio do desenvolvimento; a atribuição de um valor superior aos estágios posteriores; a consciência de inadequação ou sofrimento na infância (KING;
BOYATZIS, 2015; HOOD; HILL; SPILKA, 2018).
Sobre a consciência de inadequação, sofrimento ou pecado, Ullmann (1989) estudou grupos de pessoas que se converteram a diferentes religiões, e que, apesar das diferenças, as
experiências desses grupos pareceram responder a necessidades psicológicas semelhantes. Em sua grande maioria (73,3 %) os convertidos descreveram uma infância extremamente infeliz, um ambiente de instabilidade e também, com maior frequência, relataram eventos perturbadores e traumáticos durante a infância, independentemente de sua religião de origem ou do grupo religioso ao qual pertenciam (ULLMANN, 1989, p.15). Considerando a possibilidade de os convertidos exagerarem em seus relatos o sofrimento ou o estado moral de sua infância pré-conversão, para valorizar a conversão e a vida presente, Ullmann argumenta:
Pode ser que uma propensão semelhante a denunciar a vida pré-conversão como pecaminosa e imoral, em vez da experiência de sofrimentos reais, tenha colorido as histórias de conversão que ouvi. Essa tendência pode explicar parcialmente as diferenças que observei entre convertidos e não convertidos em suas lembranças da infância e adolescência. Mas várias características de minhas entrevistas com convertidos religiosos indicam que a indignação moral exagerada e uma denúncia do passado “pecaminoso” são apenas um fragmento do quadro, pois, ao contrário de Tolstoi, muitos dos convertidos religiosos em meu estudo não descreveram suas vida pré-conversão como "pecaminosa", mas simplesmente como infeliz (ULLMANN, 1989, p.15)
O brasileiro Mauro M. Amatuzzi (2015), partindo das contribuições clássicas de Fowler (1992), desenvolveu sua própria teoria psicológica do desenvolvimento religioso, na obra Psicologia do Desenvolvimento religioso: a religiosidade nas fases da vida (AMATUZZI, 2015, p. 137), destacando quatro eixos teóricos: (1) o religioso aparece como uma exigência quase natural ao desenvolvimento pessoal; (2) psicologicamente falando, a religião pode tanto ser um elemento promotor quanto bloqueador do desenvolvimento; (3) depois da juventude, a religião será fundamentada experiencial e reflexivamente; (4) nas etapas mais avançadas do desenvolvimento pessoal, o lado humano e religioso coincidem, isto é, há a possibilidade de uma fé humana aberta a um sentido último.
Na tabela 4, sintetizamos os principais elementos das teorias de estágios conforme os teóricos citados neste trabalho, que seguiram a linha cognitivo-desenvolvimentista aplicada à psicologia da religião.
Tabela 4: Síntese geral das principais teorias de estágio da religiosidade infantil, em ordem cronológica.
Representantes e ano de
publicação Síntese dos principais elementos da teoria de estágios da fé David Elkind (1960)
Quatro estágios: (1) conservação, ligada à fase pré-operacional;
(2) representação, fase operacional concreta; (3) relações, fase operacional concreta; (4) compreensão, fase operacional formal.
James Fowler (1981) Sete estágios da fé: (1) primitiva e intuito protetora; (2) intuitivo-protetora; (3) mítico-literal; (4)
sintético-convencional; (5) individuado-reflexiva; (6) conjuntiva; (7) universalizante. A conversão pode ocorrer em qualquer estágio com influência para a vida toda.
Kalevi Tamminen (1991)
Relações parentais são chave para entender as experiências religiosas que constroem a representação de Deus como amoroso, protetor, distante, etc.
Fritz Oser (1991)
Cinco estágios que focam o aspecto moral do desenvolvimento religioso: (1) pensamento de Deus como ser que intervém (2) Deus como punitivo ou recompensador; (3) início de um pensamento de menor influência de Deus no mundo humano;
(4) compreensão da necessidade e limites da autonomia humana; (5) entendimento de um Deus como um ser supremo que atua por meio de ações humanas
Mauro Amatuzi (2015)
Quatro eixos teóricos a serem considerados: (1) o religioso é uma exigência natural do desenvolvimento pessoal; (2) religião como elemento promotor ou bloqueador do desenvolvimento;
(3) fé aberta a um fundamento experiencial e reflexivo da religião; (4) convergência do humano com o religioso nas etapas mais avançadas da vida.
Fonte: tabela elaborada pela autora.
Seria a teoria do desenvolvimento cognitivo por estágios a melhor perspectiva para se conhecer o aspecto religioso? Embora reconhecendo o valor e a primazia da ferramenta fornecida por Fowler para conhecer o desenvolvimento cognitivo religioso, de acordo com Streib (2001, p. 146), é necessário revisitar a teoria de James Fowler para um novo modelo que explique mais plenamente a relação da religião com a história de vida de uma forma mais interativa, dinâmica e interpessoal. Ele propõe, em vez de estágios, “estilos”, que consideraria o desenvolvimento da fé como um processo mais contínuo e não tão rigidamente atrelado às faixas etárias. A crítica às teorias de estágios da fé dirige-se basicamente a duas generalizações:
(1) a de que as crianças iniciam com concepções antropológicas e antropomorfizantes dos seres sobrenaturais progredindo para concepções mais simbólicas e abstratas; (2) a de que as crianças passam da dependência do pensamento egocêntrico-imaginativo para um pensamento mais racional e descentralizado (HOOD, HILL, SPILKA, 2018, p.91). Levando em conta a complexidade e singularidade do desenvolvimento religioso individual, King e Boyatzis (2015) apontam para a limitação da hegemonia das teorias baseadas nos conceitos piagetianos em postular uma sequência do pensamento mágico ao racional, de forma que os processos de pensamento das crianças sejam considerados inferiores aos do pensamento adulto:
Pensamento mágico e racional, “ordinário” e “extraordinário” da realidade, e outros processos de pensamento que aparentemente competem entre si podem, de fato, coexistir todos na mente de crianças e adultos. [...] Tais afirmações abalam a venerável visão da criança como cognitivamente imatura e o crescimento cognitivo como uma
marcha invariável, em forma de estágios, da fantasia irracional para os telos da lógica racional. [...] assim, as crenças sobrenaturais – nos países em desenvolvimento e industrializados – não diminuem com a idade e com a exposição ao conhecimento científico a partir da educação ou da cultura. As teorias cognitivo-desenvolvimentistas da religião e espiritualidade certamente irão evoluir em direção a relatos mais amplos de desenvolvimento cognitivo (KING, BOYATZIS, 2015, p. 981, tradução nossa).
Assim, se as teorias de estágios da fé não conseguiram captar a diversidade e a natureza não linear da progressão da fé, e sem descartar o avanço das teorias cognitivo-desenvolvimentistas, mas buscando um espectro mais amplo e abrangente, o campo de estudos da religião trouxe novos desafios empíricos que emergiram por meio das perspectivas de sistemas de desenvolvimento relacional, como os desenvolvidos pelas teorias da ciência cognitiva da religião.
3.1.2. Abordagens da Ciência Cognitiva da Religião sobre a religiosidade infantil