5 MEMÓRIAS DO NÚCLEO PERMAMENTE DE PATERNIDADE “NOME
5.2 MEMÓRIA TESTEMUNHAL: O CAMINHO PERCORRIDO PELOS ATORES
5.2.1 Memória testemunhal sobre como surgiu o projeto
5.2.1 Memória testemunhal sobre como surgiu o projeto
Antes de tratar dos detalhes mais específicos, reputamos ser fundamental trazer a versão da colaboradora 1 sobre o surgimento do projeto e todas as outras informações advindas da questão.
Destacamos que, apesar da valorosa contribuição da Promotora ao trabalho, em razão de sua entrevista com riquezas de detalhes, precisamos analisar o seu testemunho a partir do afirmado por Ferreira (2012, p. 113) que “as instituições e os atores sociais [...] buscam a legitimação de suas demandas sociais”.
Além do mais, cumpre-nos ponderar que a entrevista não foi realizada pessoalmente, e sim as perguntas foram encaminhadas e respondidas por e-mail, o que lhe permitiu utilizar-se da chamada “memória seletiva”, visto que não se submeteu a entrevista pessoal, onde as respostas precisam ser dadas na hora, sem a utilização de recursos documentais para balizar e justificar seu discurso. Além disso, não foi possível ao pesquisador visualizar eventuais sinais e reações provenientes da entrevista pessoal.
Ressaltamos que os demais colaboradores não possuíam a informação de quando o projeto havia iniciado, até pelo fato de só terem tomado conhecimento do mesmo após terem sido “convocados” ou quando tiveram acesso a algum dos meios de divulgação utilizados pelo Ministério Público.
O projeto NOME LEGAL foi criado em 2011 e surgiu a partir da constatação da existência de elevado número de crianças e adolescentes que não possuíam o nome do pai em seus registros de nascimento. Na época, aproximadamente 10% das crianças em idade escolar não possuíam o reconhecimento registral de paternidade. O Ministério Público da Paraíba iniciava um novo modelo de atuação, pautando algumas ações institucionais sob a moldura de Gestão Estratégica, com olhar voltado ao desempenho de atividades que assegurasse de maneira efetiva a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais
indisponíveis, com execução uniforme em todas as Promotorias de Justiça do Estado e em busca de uma atuação de resultado. Nesse novo formato foram lançados alguns Projetos Estratégicos, dentre esses projetos, o NOME LEGAL (COLABORADORA 1, 2018).
A partir dessa fala da Promotora, já podemos observar aquilo que trabalhamos, quando tratamos da importância da história do tempo presente, para que nenhuma informação relevante seja ignorada ou deturpada, pois a mesma se equivoca ao citar os dados sobre as crianças em idade escolar que não possuíam o nome do registro de nascimento na Paraíba. À medida que os fatos se distanciam, há maior perda de informação valiosa e redução das fontes de estudo ou análise, o que torna ainda mais importante a história do tempo presente a partir da memória na educação em direitos humanos128.
A colaboradora 1 afirma que aproximadamente 10% dos jovens em idade escolar não possuíam o nome do pai no registro de nascimento. Acontece que, como já tratado no presente trabalho, o número era ainda mais alarmante: de acordo com cartilha lançada pelo próprio MPPB no ano de 2012, “na Paraíba, a partir da constatação de que aproximadamente 25% das crianças em idade escolar não possuem o nome paterno em seus registros de nascimento, foi criado em abril de 2011 o projeto NOME LEGAL” (MINISTÉRIO PÚBLICO DA PARAÍBA, 2012, p. 2).
A colaboradora 1 ainda ressalta que o “Nome Legal” se inspirou em outros projetos da mesma natureza ao redor do Brasil e que a principal fonte de levantamento das crianças e adolescentes com o registro incompleto por ausência do nome paterno foi a escola, mas também houve a realização de parcerias com os Cartórios de Registro Civil, que apontavam que os registros de nascimento constando apenas o nome da genitora era crescente.
De maneira inicial, como ainda estava em processo de implementação, com relação à estrutura, a colaboradora 1 ressaltou que “por se tratar de projeto estratégico, o Projeto tinha um Gestor e os Executores. A Gestão do Projeto a nível estadual era de atribuição da Coordenação do CAO Cível e Família; os Executores eram os Promotores de Justiça que aderiram ao Projeto”, de modo que em João Pessoa se instalou fisicamente no Centro de Apoio Operacional e, no restante da
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Artières (1998) elucida e demonstra tal fato ao trazer o exemplo do criminoso chamado Nouguier, preso no final do século XIX, que começou a catalogar ou arquivar a sua própria vida, quando o mesmo relata que nem todos os acontecimentos ainda estão presentes em sua memória e a dificuldade de descrever impressões e sensações de anos atrás.
Paraíba, nas sedes das Promotorias de Justiça.
Tratando dos meios de divulgação do projeto, a colaboradora 1 destaca que se deu:
[...] inicialmente por meio da imprensa falada, escrita e televisionada com o intuito de esclarecer/informar a importância para criança/adolescente do ato de reconhecimento da paternidade/maternidade, ressaltando que se trata de direito da criança/adolescente. Também foram elaboradas cartilhas, panfletos, vídeos e cartazes com informações sobre o projeto NOME LEGAL, para distribuir nas escolas públicas (COLABORADOR 1, 2018).
Podemos perceber que tal divulgação conseguiu alcançar seus objetivos de conclamar a sociedade para aderir ao projeto. Os colaboradores 2 e 6, por exemplo, ao serem perguntados sobre como tomaram conhecimento do “Nome Legal”, responderam da seguinte forma:
Pesquisador: [...] mas esse projeto do Nome Legal o senhor descobriu como? [...]
Colaborador 6: Na TV (COLABORADOR 6, 2018).
Ainda,
Olha, eu me lembro que, na época, houve uma divulgação grande na mídia. Na mídia teve uma divulgação do Ministério Público acerca da questão da paternidade, acerca do reconhecimento da paternidade [...] (COLABORADORA 2, 2018).
Após isso, acreditamos ser relevante destacar que o foco dos trabalhos se deu primordial e inicialmente com as escolas, daí o grande motivo de se ter incluído a colaboradora 2 como um dos principais atores relacionados do projeto. O contato entre MP e escolas se estabelecia através de ofício solicitando das mesmas as relações das crianças sem o pai no registro, juntamente com o contato da mãe.
Várias instituições foram abrangidas pelo Projeto “Nome Legal” em suas duas edições. O foco do trabalho nessa fase foi às escolas públicas situadas em diversos municípios paraibanos [...] (COLABORADORA 1, 2018).
O que eu me lembro bem é que nós recebemos da secretaria da educação um ofício que foi do Ministério Público via secretaria da educação solicitando às escolas que fizessem a relação daqueles alunos que não tinham os pais no seu registro de nascimento, que só constava o nome da mãe (COLABORADORA 2, 2018).
Visto os caminhos iniciais no “Nome Legal”, ponderamos ser imprescindível tratar acerca do “processo de convencimento” da sociedade e a receptividade das demais instituições convocadas a colaborar com o projeto.