5 MEMÓRIAS DO NÚCLEO PERMAMENTE DE PATERNIDADE “NOME
5.2 MEMÓRIA TESTEMUNHAL: O CAMINHO PERCORRIDO PELOS ATORES
5.2.3 Memória Testemunhal sobre o funcionamento/etapas do projeto
Durante a realização da entrevista, a colaboradora 1 descreveu com riquíssimos detalhes toda a estrutura do “Nome Legal”, bem como todas as etapas do projeto, inclusive elucidando quais os procedimentos a serem adotados em caso de pais já falecidos e quando se tinha o choque entre o pai biológico e o pai socioafetivo. Relatou também as principais dificuldades encontradas no transcorrer do projeto estratégico do MPPB.
Primeiramente, ao explicar como se dava o mutirão, destacou que havia certa flexibilidade organizacional de acordo com as necessidades de cada lugar, como por exemplo, o número de servidores e colaboradores disponíveis para o trabalho e a quantidade aproximada de pessoas a serem atendidas. Em regra, o Promotor definia o local para realizar o mutirão e adotava as medidas cabíveis para o comparecimento dos interessados, contando com o suporte do Centro de Apoio
Operacional na sua execução, visto que o mesmo providenciava os equipamentos necessários (fotocopiadoras, computadores, extensões, etc) e colocava servidores à disposição. Importante informação trazida pela colaboradora 1 (2018) foi que “em algumas oportunidades, foi possível ajustar com o Cartório de Registro Civil a presença no momento do mutirão”, e em caso de reconhecimento espontâneo da paternidade, “a averbação da paternidade era providenciada logo na sequência, e a nova certidão era entregue ao interessado no mesmo dia”, algo de extrema importância, visto que acelerava imensuravelmente todo o processo, que muitas vezes era massacrante e desgastante para os envolvidos (pais, mães e jovens).
Passando agora a tratar das etapas do projeto, a colaboradora 1 (2018) respondeu que “por se tratar de Projeto Estratégico, seguia a regulação pertinente, havendo que ser cumprido o cronograma de atividades, com prazos e metas.” Foram elencadas pela promotora 25 etapas a serem seguidas pelo Promotor de Justiça integrante do Projeto estratégico “Nome Legal”, as quais consideramos fundamental transcrevê-las, quais sejam:
1. Participar da Pré-reunião do Projeto Nome Legal;
2. Participar de reunião com a Coordenação do Projeto e todos os Promotores de Justiça que aderiram, para recebimento do Plano de Ação e início das ações de implementação;
3. Instaurar Procedimento Administrativo (por Municípios a ser contemplado com o Projeto), para formar banco de dados com informações a respeito do número de crianças e adolescentes matriculados na rede municipal de ensino, sem indicação do nome do pai (ou da mãe) no registro de nascimento;
4. Expedir ofício à Secretaria Municipal de Educação para envio de informações das escolas existentes nos municípios (rede pública municipal), de todos os níveis de ensino;
5. Enviar ofício aos cartórios de registro civil das pessoas naturais, solicitando o encaminhamento ao MP de cópia das certidões de nascimento em que não constarem indicação de paternidade, acompanhados dos dados da mãe e do suposto pai;
6. Definir quantas e quais escolas seriam objeto do diagnóstico. 7. Enviar ofícios aos Diretores das Escolas para remeter ao MP listagem de alunos matriculados, menores de 18 anos, sem registro paterno;
8. Formação de banco de dados com o recebimento das informações solicitadas aos Diretores de Escola;
9. Instauração de um procedimento por escola;
10. Definir a quantidade necessária, as datas e os locais onde ocorreriam os mutirões;
11. Convocar as mães ou responsáveis legais para participarem dos mutirões (cartas convites ou notificações enviadas via Direção); 12. Preparar a Equipe para realização dos mutirões com recursos humanos, computadores, impressoras, etc, de forma a possibilitar a
adequada coleta dos dados e xerox de documento de identificação da mãe e do registro de nascimento da criança e/ou adolescente; 13. Realizar os mutirões (por Escolas) com grupos de mães (pais ou responsáveis legais) com objetivo de colher dados do suposto pai (ou suposta mãe);
14. Na oportunidade dos mutirões, o Promotor de Justiça apresentava o Projeto aos presentes, demonstrando a importância, como um direito do filho, da regularização registral, bem como, do envolvimento ativo do pai na vida da criança e do adolescente;
15. Controlar o número de mães convocadas para a reunião, coletando a assinatura em lista de presença;
16. Instaurar o procedimento individual relativo a cada criança/adolescente;
17. Notificar a mãe e suposto pai para comparecimento nova audiência. Nessa o Promotor de Justiça buscava sensibilizar o pai ao reconhecimento voluntário da paternidade, mostrando-lhe os benefícios de tal atitude para o filho;
18. Solicitar, quando necessário, a realização de exame de DNA; 19. Com o recebimento do laudo do exame de DNA, dar ciência aos interessados quanto ao resultado;
20. Havendo reconhecimento voluntário da paternidade, encaminhar o termo para o cartório de registro civil para a devida averbação; 21. Entregar o novo registro de nascimento ao interessado;
22. Informar à Coordenação do Projeto os dados quantitativos das ações realizadas para alimentação do banco de dados;
23. Não sendo possível o reconhecimento voluntário ou se assim entender o Promotor de Justiça, ajuizar ações de investigação de paternidade individuais;
24. Acompanhar as Ações de Investigação de Paternidade pelo MP, com informações no banco de dados a respeito do número de ações julgadas procedentes;
25. Em havendo Procedimento Ativo quando encerrado o prazo de execução do Projeto, encaminhar a demanda remanescente ao Promotor de Justiça de Família da respectiva comarca para dar prosseguimento com as adoções das providências necessárias; (COLABORADORA 1, 2018).
A partir do esmiuçado acima pela Promotora, verificamos a existência de um transbordamento de memória. A mesma relata de forma detalhada, justamente em razão da já falada memória seletiva proveniente do fato de que as perguntas foram respondidas por e-mail, o que permitiu à colaboradora em questão socorrer-se de documentos e outras fontes. Acreditamos que seria pouco provável a Promotora relatar de modo tão detalhado as etapas caso a entrevista fosse pessoal.
Além do mais, não podemos ignorar a questão de a Promotora ser a chamada “sombra branca”, ou seja, a detentora do poder, de modo que precisamos ficar atentos ao seu discurso embelezador e exaltador do “Nome Legal”, sobretudo através do cruzamento de fontes.
Podemos auferir, também, que os Promotores e suas equipes possuíam grande carga de trabalho no cumprimento de etapas do Projeto estratégico “Nome Legal”. Eram muitos requisitos e exigências a ser cumpridos, o que, naturalmente, em alguns casos, incidia em certa demora na resolução do problema, deixando pais e mães angustiados.
Entendemos que as etapas elencadas pela Promotora foram necessárias para o bom funcionamento do projeto e são cruciais no núcleo (as etapas continuam as mesmas), pois é necessário esse tipo de organização, até para que os dados e informações não se percam e o máximo de casos possa ser resolvido no menor tempo possível.
A colaboradora 1 ainda esclareceu a respeito de como se procedia em alguns casos específicos: atendimento de demandas espontâneas que se dirigiam ao Ministério Público, pais já falecidos, bem como quando havia o “choque” entre o genitor e o pai socioafetivo.
Com relação às demandas espontâneas, a promotora explicou que o atendimento se dava sem nenhuma diferenciação, posto que as mesmas estavam enquadradas nas atribuições legais do Ministério Público para atuação extrajudicial, de modo que a demanda era/é normalmente recepcionada e formalizada em procedimento administrativo; “a partir desse momento seguia idêntica rotina definida para os casos instaurados com base em informações encaminhadas pelas escolas ou do cartório de registro civil” (COLABORADORA 1, 2018).
Tratando-se dos episódios de pais já falecidos, aclarou que os seus familiares eram chamados a prestar informações e, em caso de concordância, serem submetidos à realização do exame de DNA para comprovação do vínculo, destacando que “nesses casos é comum o desejo pela regularização da paternidade manifestado pelos genitores do suposto pai”, alegando que a formalização no “Nome Legal” trouxe a “segurança jurídica a uma relação de afeto já construída” (COLABORADORA 1, 2018).
Outra questão curiosa em que os Promotores eventualmente se deparavam era o “conflito” existente entre o genitor (pai biológico) e o pai socioafetivo. Assim, fazia-se necessário a realização de estudo psicossocial no núcleo familiar, com a coleta de testemunhas e ajuizamento da ação judicial para reconhecimento da paternidade. Foi frisado pela entrevistada que, nestes casos, a judicialização era inevitável, mas que, apesar de não haver o levantamento das ações ajuizadas,
“sempre se observou que poucos eram os casos em que o Promotor de Justiça recorreu a judicialização da demanda” (COLABORADORA 1, 2018).
Por fim, passada toda a explanação detalhada a partir do testemunho da Promotora sobre o modo de funcionamento do projeto, verificando-se por meio dos depoimentos e dos respectivos registros, notamos a presença de dificuldades encontradas ao longo dos anos, sintetizados na fala abaixo, formulada a partir da ótica da mesma:
Considero que a maior dificuldade para consecução do objetivo final do trabalho proposto era a constante modificação de endereço pelas genitoras/responsáveis pelas crianças, dado esse que não era atualizado nos autos dos procedimentos. Um volume considerável de procedimentos administrativos foi arquivado sem o reconhecimento da paternidade em razão de não ser possível localizar a genitora/responsável no endereço que ela própria já havia fornecido ao Nome Legal (COLABORADORA 1, 2018).
Acreditamos que, em muitos casos, a alteração de contato era feita de modo intencional, posto que as mães eram orientadas para que em caso de alguma mudança de endereço ou telefone, avisarem ao MP, mas assim não o faziam. Julgamos que isso é proveniente do fato de que a maioria das mulheres atendidas pelo projeto estratégico era advinda de classes mais baixas, e a questão da “justiça” é um medo comum a elas, além do fato de não quererem ter relação, mesmo amistosa, com aquele homem que no passado lhe causou traumas, respaldado, mesmo que inconscientemente, pela nossa cultura de aceitar ou abrandar os comportamentos masculinos.
5.2.4 Memória Testemunhalsobre as razões do não registro de nascimento por parte