5.2 “Quem terminar, pode ir para a brinquedoteca”: limitações para
5.2.3. Meninos e bonecas: paternidade e curiosidade sexual
A brincadeira de casinha, na brinquedoteca, é um espaço interessante para pensar nos papéis ocupados por homens e mulheres na nossa sociedade e na forma como as crianças enxergam essa relação; para atentar para “a capacidade das crianças para extrapolarem a simples ideia de reprodução de papéis na brincadeira, sendo capazes de recriarem a cultura.” (SAYÃO, 2003, p. 80).
Transgressões como essas ocorreram com frequência no local, pois a brincadeira de casinha é um dos espaços privilegiados onde o cotidiano e o mundo privado podem ser repensados a todo o momento. Assim como em outras brincadeiras, as crianças inventam e recriam novos contextos, novos papéis. Percebi que durante as brincadeiras
de faz-de-conta na casinha as crianças incorporam diferentes papéis, imitando, negociando e experimentando, mas também criando diferentes e novos papéis.
A criança, ao brincar, está trabalhando suas contradições, suas ambiguidades e seus valores sociais: é na relação com o outro que ela constitui sua identidade. Em nossa sociedade atual é difícil, por exemplo, continuar sustentando a importância de que um menino não brinque de boneca, pois, cada vez mais, o pai assume responsabilidades de cuidado com suas próprias crianças.
Pode-se argumentar que as inversões de papéis durante as brincadeiras também podem ocorrer em consequência de estarmos, atualmente, diante de alterações no âmbito do relacionamento familiar. Podemos concordar com isso, mas essa afirmação não significa que esta forma de brincadeira esteja baseada somente em elementos de “imitação da realidade”, pois a criança pode estar brincando com questões advindas de seus próprios questionamentos, mesclando sua capacidade imaginativa e crítica para elaborar e protagonizar diferentes formas de ser.
Assim, é importante destacar que a capacidade de transgressão das crianças, como, por exemplo, transgredir os papéis sexuais dentro de uma brincadeira de casinha, não significa que elas somente invertam os papéis, baseadas em uma lógica dualista das relações; elas brincam com esses papéis, multiplicando as possibilidades de ser, brincando com possibilidades plurais, com elementos de fantasias e realidade. Experimentam novas brincadeiras com novos significados e recriam novas formas de ser e de relacionar-se.
Para as professoras, “os meninos até brincam com boneca, mas é com o papel
masculino, papel de pai.” Segundo as professoras, não havia problemas em um garoto
brincar com bonecas, pois poderia ser sinal que ele estaria “experimentando a
paternidade” ou “cuidando de um irmãozinho”. A maior parte das orientações nas propostas de uma educação para igualdade de gênero possuem esta proposta: “meninos e meninas podem brincar com casinhas, bonecas...” Porém, como foi possível perceber, essas orientações não dão conta da complexidade, das dúvidas e dos preconceitos contidos nessas relações. Isto fica evidente, na idéia de que os meninos brincam de boneca, somente para assumir o papel masculino do pai, somente quando eles “brincam
de papai e mamãe”:
Nas brincadeiras da brinquedoteca eu acho que existe uma separação, meninas gostam de fantasiar, já os meninos gostam dos carrinhos, a maioria brinca com os carrinhos. Eu acho que existem preferências diferenciadas. Os meninos até brincam com boneca, sim, mas é com o papel masculino, papel de pai. (Professora Gilda)
Eles brincam com as meninas, principalmente naquele lugar onde tem uma cortininha, eles brincam de papai e mamãe, sempre tem dois agarrados ali. Os meninos também gostam muito de brincar na casinha pequena, eles colocam o carro na garagem, eles brincam de mamãe, filhinha e papai (Professora Neuza)
O desejo do menino brincar de boneca tornava-se um problema quando não estava relacionado ao papel masculino hegemônico, e principalmente quando esse desejo se repetia muitas vezes e passava a ser a brincadeira preferida do menino, em detrimento as “brincadeiras de menino”. Como mostra a preocupação da professora: “É
complicado quando o menino quer só os vestidos, só as bonecas, quando é tudo para esse lado [feminino]”
Professoras negam e demonstram que ainda não sabem lidar com esse desejo de forma tranquila, e ainda é frequente a afirmação de que “meninos não gostam de
bonecas” ou “brincar de boneca é difícil”. A brincadeira com boneca, para os meninos, também estava relacionada com uma curiosidade sexual:
Os meninos gostam de brincar de boneca. Mas para beijar, para passar a mão, para beijar que nem na novela, cada um pega uma boneca daquelas maiores e ficam competindo, eles botam no colo e agarram e beijam, elas estão sem roupas, eles passam a mão no corpo das bonecas. Teve uma época que eles estavam muito ligados, agora isso está passando. Eu finjo que não estou vendo, se não eles se inibem, vão achar que eu estou proibindo, então eu fico na minha, fico meio de lado, olho de rabo de olho e continuo conversando com a menina. Eles aprendem assistindo TV, novela, eles assistem de tudo.
(Professora Neuza)
Tem as brincadeiras tipicamente de meninas, que são as panelinhas, as bonecas, e as dos meninos, que é essa brincadeira de luta. Quando eles interagem, eles brincam juntos; é a brincadeira de menino pega menina, com essa coisa da brincadeira, é um jogo sexual mesmo.
(Professora Gilda)
Além da brincadeira com o papel de pai, esta era a outra forma como brincadeira com boneca “era aceita” pelas professoras: era interpretada como uma curiosidade dos meninos em conseqüência da estimulação dos programas de televisão.
De acordo com Belotti (1975), ao adulto não basta escolher o brinquedo pela criança: quando dá uma boneca a uma menina, o adulto não se contenta em simplesmente oferecer-lhe, mas também lhe mostra como se segura nos braços e como se acalenta. É bastante curioso observar como os meninos da mesma idade, não ensinados como as meninas, seguram nos braços as mesmas bonecas de maneira muito mais despreocupada, por exemplo, mantendo-as em pé e não à vontade, passando-lhes
um braço em volta do pescoço, apertando-as ou mesmo esmagando-lhes a cabeça. Em todos os casos, o acalentar a boneca está quase sempre ausente. Vendo um menino de 4
anos carregar uma boneca, já no horário de saída, uma professora de outra sala pergunta: você, brincando com boneca?! E o menino responde prontamente: eu ainda sou criança, eu posso!
As categorizações, ou seja, a norma cultural de que existem brinquedos certos para meninos e outros para menina, estão relacionadas à preocupação com a futura escolha sexual da criança. “Poxa, o que tem um menino brincar de boneca, nesta parte
do brincar eu acho que não tem nada de mais. Mas eu estou falando quando é uma coisa de ser...” (Professora Miriam)