Segundo Marx (2003), pode se caracterizar trabalho, uma atividade desempenhada pelos seres vivos de uma forma geral. Se tratando dos animais, estes realizam tarefas individuais ou coletivas especificamente para sua existência de forma instintiva. Braverman (1974) afirma que: "em contraste com isso, no trabalho humano o mecanismo regulador é o poder do pensamento conceptual, que tem origem com todo um excepcional sistema nervoso central” (p.51).
No sentido oposto a isso, a espécie humana executa atividade semelhante e/ou distinta, porém, não apenas para sua sobrevivência, mas, também para modificar os meios naturais, e com isso satisfazer suas necessidades e proporcionar o desenvolvimento social. O que o difere o homem dos animais é a capacidade de raciocínio, pois o homem ao efetuar uma ação, antes a imagina em sua mente, visualizando seu resultado final e no decorrer do processo da realização da mesma efetua uma comparação entre o que já desempenhou e o planejado de forma contínua até obter o resultado final. Outra característica é a capacidade de partilhar com os demais da mesma espécie ações efetuadas através do diálogo.
Para Marx (2003), o trabalho é definido como:
Antes de tudo, [...] um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma das suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas, cabeça e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana (MARX, 2003, p.303).
O que tem impulsionado o ser humano na transformação da natureza para a melhoria da sua sociabilidade até os dias atuais, é a “força” que advém da “consciência humana” em conjunto com as atribuições dadas nas divisões de funções de cada grupo
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29 social e/ou individualmente. Marx apud Braverman (1974) denomina este movimento como “força de trabalho”.
No modo de produção capitalista industrial é imprescindível a articulação paralela entre intercâmbio de relações, produção de mercadoria, dinheiro, e com o diferencial da realização da compra e venda da força de trabalho, visando a obtenção de lucro por parte do empregador. Com essa concepção Braverman aponta três aspectos que se tornaram comum nesta sociedade capitalista,
Em primeiro lugar, os trabalhadores são separados dos meios com os quais a produção é realizada, e só podem ter acesso a eles vendendo sua força de trabalho a outros. Em segundo, os trabalhadores estão livres de constrições legais, tais como servidão ou escravidão, que os impeçam de dispor de sua força de trabalho. Em terceiro, o propósito do emprego do trabalhador torna-se a expansão de uma unidade de capital pertencente ao empregador, que está assim atuando como um capitalista (BRAVERMAN, 1974, p.54-55).
Sobre essa perspectiva é estabelecido um contrato contendo as condições de trabalho, carga horária, atividades a serem realizadas e salário a ser pago pelos donos dos meios de produção aos trabalhadores, que se submetem a tais condições por falta de opções concretas de prover sua subsistência e de sua família em tal sociabilidade, reafirmando o pertencimento de uma unidade do capital e o controle do processo de trabalho, no qual, de forma alienada submete o trabalhador a realização de tarefas, produção excessiva de mercadorias, visando o lucro e o fortalecimento do sistema capitalista através da exploração do trabalhador assalariado e efetivando a mais-valia em condições de trabalhos precarizados.
Essas relações presentes no mercado de trabalho desde o surgimento do modo de produção capitalista perpassa os séculos prevalecendo até os dias atuais para todos os trabalhadores e, especialmente para a pessoa com deficiência, ocorre de forma relevante, mesmo após s leis com o objetivo de promover a inclusão e a garantia de direitos.
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30 2.2 Mercado de trabalho e informalidade no Brasil no contexto da pandemia
No início da pandemia em momentos mais críticos, principalmente na primeira fase (1º/2º trimestre de 2020), os governantes do país se viram com a urgência de tomada de decisões que minimizassem os efeitos da crise sanitária em curso, como por exemplo, o distanciamento e o isolamento social seguido, em dado momento, pelo lockdown que objetivava o fechamento das empresas e comércios para diminuir ao máximo a circulação das pessoas em vias públicas. Essa medida em específico, agravou o desemprego estrutural afetando também, de forma significativa, aqueles que atuam no mercado de trabalho informal, como por exemplo os camelôs, os vendedores expressivo problema, sobretudo em sociedades dependentes, a exemplo do Brasil, é retroalimentado por uma dinâmica de crise sanitária-social, ainda que disfarçado na forma de ocupações sem proteção social. (SOUZA, 2021, p. 04)
O trabalho de Costa (2020) primeiro define as categorias de trabalho formal e informal (quadro na sequência) para, depois, mostrar os impactos da pandemia no mercado de trabalho brasileiro. Nas duas classificações existem trabalhadores com e sem deficiência, pois ambos foram afetados pelos perversos impactos sociais da pandemia. No entanto, não há como separar do trabalho de Costa (2020) apenas os impactos nas pessoas com deficiência ou nas pessoas com deficiência visual (PDV).
Quadro 1: Classificação das ocupações em formais e informais
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• Não remunerados
• Empregadores com até 5 empregados Fonte: Costa (2020, p.971 extraído de Targino e Vasconcelos, 2015).
As notícias publicadas na imprensa nacional mostraram um número significativo de demissões em decorrência da queda da atividade econômica. Em muitas cidades, as empresas reduziram ou pararam totalmente suas atividades, o que provocou uma onda de demissões.
Em notícia publicada no G1, em 30/06/2021, Alvarenga e Silveira (2021), mostram que o Brasil possui 14,8 milhões de desempregados, o que, na análise do IBGE é resultado da ampliação do número de trabalhadores por conta própria no mercado informal.
O gráfico a seguir demostra a evolução do desemprego no país no ano de 2020, sendo que o IBGE apontou que o Brasil registrou menos 3,3 milhões de pessoas trabalhando desde o começo da pandemia. Basílio (2020) demonstra que, ainda que estes dados signifiquem cerca de 1% do emprego formal total, em termos de perda de vagas e fechamento dos vínculos de emprego, as pessoas com deficiência representaram 4% do total das demissões, registradas de janeiro a setembro de 2020.
Quadro 2: Notícias selecionadas sobre demissões
Data Notícias
26/03/2020 Hotéis, bares e restaurantes demitiram 4 mil no Distrito Federal.2 01/04/2020 Empresas de transportes demitem 145 no Rio Grande do Norte.3 01/04/2020 Empresa parceira da CVC (Porto Seguro/BA) fecha e demite os
funcionários.4
2 Recuperado de https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/25/coronavirus-hoteis-bares-e-restaurantes-demitem-4-mil-no-distrito-federal.htm
3 Recuperado de http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/jardinense-e-trampolim-demitem-145-funciona-rios-no-rn/476476
4 Recuperado de https://www.poder360.com.br/coronavirus/empresa-parceira-da-cvc-demite-funcionarios-em-porto-seguro-assista/
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32 02/04/2020 Fábrica de calçados democrata demite mais de mil funcionários no Ceará.5 03/04/2020 Associação de restaurantes diz que setor já demitiu até 800 mil no país.5 03/04/2020 Gympass demite funcionários em meio à pandemia de coronavírus (SP).6 04/04/2020 Hotéis demitiram 4 mil funcionários na Grande Recife7
18/11/2020 Pandemia tira emprego de mais de 21 mil profissionais com deficiência até o 3º trimestre.8
30/06/2021 Desemprego mantém recorde de 14,7% e atinge 14,8 milhões de brasileiros no trimestre encerrado em abril.9
Fonte: Adaptado de Costa (2020, p.972-973)
Gráfico 1: Variação do número de ocupados, em milhares
Fonte: Extraído de https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/06/30/desemprego-fica-em-147percent-no-trimestre-terminado-em-abril-diz-ibge.ghtml
5 Recuperado de https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2020/04/02/fabrica-de-calcados-democrata-demite-mais-de-mil-funcionarios-em-unidade-do-ceara-meio-a-crise-da-covid-19.ghtml
6 Recuperado de https://exame.abril.com.br/economia/associacao-de-restaurantes-diz-que-setor-ja-demitiu-ate-800-mil-no-pais/
7 Recuperado de https://valorinveste.globo.com/objetivo/empreenda-se/noticia/2020/04/03/gympass-demite-funcionarios-em-meio-a-pandemia-de-coronavirus.ghtml
8 Recuperado de https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/04/04/pandemia-de-coronavirus-afeta-rede-hoteleira-diminui-ocupacao-e-ocasiona-demissoes-em-pernambuco.ghtml
9 Recuperado de https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2020/11/18/pandemia-tira-emprego-de-mais-de-21-mil-profissionais-com-deficiencia-ate-o-3o-trimestre.ghtml
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33 Durante a pandemia, o desemprego não poupou as pessoas com deficiência.
Basílio (2020), analisando os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), evidencia que, de janeiro a setembro de 2020, 73,5 mil pessoas com deficiência (PCD) perderam seus empregos no Brasil. O gráfico a seguir mostra a evolução do mercado de trabalho formal para as PCD, neste período.
Gráfico 2: Evolução do mercado de trabalho para PCD (contratações menos demissões)
Fonte: Extraído de https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2020/11/18/pandemia-tira-emprego-de-mais-de-21-mil-profissionais-com-deficiencia-ate-o-3o-trimestre.ghtml
Para aqueles que atuam no mercado informal, embora não haja dados comprobatórios, a situação é ainda pior. O artigo assinado por Basílio (2020), mostra ainda que a quantidade de pessoas com deficiência sem ocupação formal é maior do que o número de pessoas com deficiência formalmente empregadas, o que revela que a maior parte das PCD, infelizmente, atuam na informalidade. Esse dado reflete na distribuição dos rendimentos médios, pois os melhores salários estão no mercado formal, e a maioria das PCD estão na informalidade, mesmo com a Lei de Cotas.
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34 Gráfico 3: Rendimentos médios das PCD no mercado formal
Fonte: Extraído de https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2020/11/18/pandemia-tira-emprego-de-mais-de-21-mil-profissionais-com-deficiencia-ate-o-3o-trimestre.ghtml
No início da recuperação das atividades econômicas (início dos anos 2021) evidenciado e apoiado no avanço da vacinação, a recuperação dos empregos das pessoas com deficiência demoram mais do que os demais trabalhadores.
Para Basílio (2020) é necessário um crescimento da economia em um ritmo virtuoso para poder ocorrer a recuperação das vagas perdidas no mercado de trabalho pelas pessoas com deficiência. Porém, isso não assegura, por si só, a recuperação do emprego das PCD. Como bem demonstra o DIEESE (2020, p.8), “o número de pessoas com deficiência que são ocupadas com vínculos formais é muito menor do que a quantidade de pessoas que trabalham e possuem alguma deficiência”. Para PCD é muito mais difícil ingressar ou retornar ao mercado de trabalho após ser demitido.
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35 2.3 Alguns desafios das pessoas com deficiência no mercado de trabalho
De acordo com Hunt e Sherman (1989), economistas da Escola Keynesiana do Pensamento Econômico, a ausência de trabalho e de renda é a pior privação que o ser humano pode sofrer, pois nada mais afeta a dignidade do homem do que a total privação de renda provocada pelo desemprego, quando o país não possui um sistema de previdência desenvolvido e que assegure a manutenção da vida humana quando há ausência do emprego.
Depois dessa reflexão inicial, é preciso destacar que a entrada no mercado de trabalho pela PCD é, e sempre será, um desafio de superação em busca da inclusão e da dignidade humana.
A busca pela entrada no mercado de trabalho e a luta pelo aumento das oportunidades de trabalho e, por conseguinte, pela inclusão das PCD no Brasil, como demonstrado no capítulo inicial, vem contabilizando conquistas em formas de leis e programas federais, que tem aumentado o ingresso das pessoas com deficiência no mercado de trabalho.
Porém, a Lei de cotas para PCD e a Lei nº 13.146/2015 - Estatuto da Pessoa com Deficiência, ainda não são cumpridas pela maioria das empresas brasileiras, como bem aponta o estudo do DIEESE (2020). No art. 93 da Lei nº 8.213/1991 está demarcado que para as empresas com 100 ou mais empregados, é obrigatório o preenchimento das vagas de emprego com 2% até 5% por pessoas com deficiência;
Empresas com quadro de funcionários de 201 até 500 funcionários, 3%; de 501 a 1000, 4% e; de 1001 funcionários em diante devem destinar 5% dos cargos para PCD.
Sem dúvidas, é um avanço na legislação e na política nacional de inclusão, todavia, deixa de fora as empresas com menos de 100 funcionários, que são, conforme o DIEESE (2020), as maiores empregadoras do Brasil. Ademais, devido a fragilidade da fiscalização, muitas empresas com mais de 100 funcionários não cumprem a legislação vigente.
O estudo do DIEESE (2020, p.6), mostra que da publicação da Lei 8213/1991
“[...] até a conclusão das regulamentações e regras para as fiscalizações, passou-se
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36 quase uma década. Somente a partir de 2000, ela começou a vigorar de fato [...]”. Nesse contexto, com o passar do tempo, as entidades sindicais são importantes aliados na luta para que a lei de cotas seja cumprida.
Entre os avanços e conquistas em relação ao mercado de trabalho, inclui-se a exigência (mesmo contra a pressão de muitas entidades empresariais) de que a cota somente seja cumprida através da contratação direta, não permitindo mais a “burla” da regra, que ocorria, muitas vezes, com a contratação por empresas terceirizadas. Além da ampliação do contingente de pessoas que podem ter acesso às informações sobre o cumprimento ou não das cotas, auxiliando na sua fiscalização. (DIEESE, 2020, p.7)
Encontrar uma vaga ainda é o maior desafio da PCD, pois a legislação demora para afetar a cultura empresarial e ainda muitas empresas não cumprem a Lei e não ofertam condições de acessibilidade e de trabalho. Obrigar a reserva de vagas é um avanço, mas não é condição suficiente. É preciso adaptar as instalações e o ambiente de trabalho de acordo com a necessidade específica de cada PCD, e os custos dessa adaptação tem sido usado como justificativa pelas empresas que não cumprem a Lei.
(DIEESE, 2020)
A falta de informação e custos de adaptação das instalações não podem ser aceitos pela sociedade, pois os dados do Censo Demográfico de 2010, última informação oficial que temos, trabalhados por Garcia (2014 apud DIEESE, 2020, p.8), revelam que no Brasil, tínhamos em 2010 cerca de “6,5 milhões (ou 6,1 %) de pessoas com deficiência (incapacitante ou severa), 20,6 milhões possuíam alguma limitação funcional e 80,1 milhões não tinham qualquer limitação ou deficiência”.
Esses dados são reveladores e fortalecem o argumento de que a inclusão das PCD precisa ser encarada com seriedade pela política pública. O estudo do DIEESE revela, conforme gráfico a seguir, o percentual das deficiências de PCD, com 20 a 59 anos, existentes no Brasil. Esse número tende a ser maior nos dias atuais, mas apenas um novo censo poderá confirmar isso.
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37 Gráfico 4: Distribuição das pessoas de 20 a 59 anos com deficiência no Brasil
Fonte: IBGE – Censo Demográfico de 2010, extraído de DIEESE, 2020, p.8.
Os dados do IBGE, compilados pelo DIEESE (2020), evidenciam a necessidade de uma atenção maior para PCD, em especial para pessoas com deficiência visual - PDV, que representam quase a metade (46,7%) do total das pessoas com deficiência no Brasil.
Corroborando com o que foi expresso no tópico anterior, o DIEESE (2020, p.17), pontua que os empregos das PCD representam cerca de 1% do total de vínculos formais de trabalho, mas, tiveram “mais de 4,0% do fechamento do total de vínculos formais do país entre janeiro a setembro de 2020”, o que dificulta ainda mais a busca por uma vaga, por um lugar no mercado de trabalho.