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CAPÍTULO I DELIMITAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS E

CAPÍTULO 1 ESTRATÉGIA E AÇÃO DOS IMPÉRIOS ALIMENTARES

1.4 MERCANTILIZAÇÃO DOS ALIMENTOS (COMMODITIES)

Em razão do que foi exposto anteriormente, pode-se afirmar que os Impérios

Alimentares, ao longo de décadas de atuação (desde os anos 50 do século passado

até os dias atuais), por meio de ações e estratégias biopolíticas que dirigem e

determinam a pesquisa, a produção, a distribuição e o consumo dos alimentos no

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As informações sobre os contratos de custeio do Pronaf foram encontradas no Anuário Estatístico

do Crédito Rural, confeccionado pelo Banco Central do Brasil e que vem sendo publicado desde o

ano de 1999. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/?id=RELRURAL>. Acesso em 16.11.2013.

44

O endereço eletrônico da ABRA está disponível em: <www.abrareformaagraria.org>. Acesso em

20.11.2013.

45

Informações disponíveis em:

<http://www.valor.com.br/agro/3174198/brasil-deve-importar-200-mil-toneladas-de-feijao-ate-outubro>. Acesso em 05.12.2013.

globo, possibilitaram a configuração de um quadro geopolítico do agronegócio

mundial, situação da qual o Brasil também faz parte.

A partir desse prisma, os números divulgados pelo Comunicado

(Communiqué) de n. 102

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elaborado pela Organização da Sociedade Civil ETC

Group, datado de Novembro de 2009, são esclarecedores. Segundo o Comunicado,

os Impérios Alimentares utilizam-se de aproximadamente 150 variedades em seus

cultivos, sendo que apenas 12 são realmente preponderantes, recebendo maior

volume de investimentos em pesquisa e produção. Trata-se de um mercado que, em

2009, atingiu a cifra de mais de 07 bilhões de dólares e representa cerca de 15 % de

toda a comida produzida no mundo.

Dos 12 cultivos preponderantes, apenas 06 (soja, milho, feijão, arroz, cevada

e mandioca) respondem por praticamente 80 % de toda a alimentação mundial,

outrora muito mais diversificada e abundante do que nos dias atuais. Tal fato se deve

a uma tendência de homogeneização da alimentação mundial fazendo com que

sociedade mundiais extremamente distintas em suas formações étnicas e culturais

se alimentem basicamente da mesma dieta.

No cenário da economia de mercado e da globalização geopolítica, os

alimentos se transformaram em mercadorias cotadas nas principais bolsas de

valores mundiais, tornando-se, então, commodities, cuja política de preços pouco

reflete as relações ocorridas no campo, em sede da produção. A opinião de Vivero

Pol (2013)

47

reflete essa mudança: “Food has been completely commodified, from a

common local resource to a private, transnacional, industrial commodity, to be

speculated without moral consideration to achieve the best price.”

Dessa forma, os preços não são fixados em razão dos custos da produção

em cada localidade, numa equação que leve em conta os fatores da produção e as

especificidades de cada empreendimento produtor. De modo contrário, os preços

são fixados mundialmente e todos aqueles cujos custos de produção forem

superiores ao preço estabelecido (seja no mercado atual ou no mercado futuro),

devem deixar o negócio, fato que tem provocado uma concentração no mercado

46

A íntegra do documento está disponível em: <www.etcgroup.org>. Acesso em 20.10.2013.

47

O artigo está disponível em:

<https://theconversation.com/staying-alive-shouldnt-depend-on-your-purchasing-power-20807>. Acesso em 14.12.2013.

agroindustrial, aliada à diminuição do número de proprietários e ao aumento da

concentração fundiária, como será exposto no tópico seguinte.

Em razão dos preços estabelecidos, parte considerável da população

mundial não têm acesso aos alimentos necessários para sua subsistência, em razão

da disparidade existente entre as diversas economias mundiais e do consequente

poder de compra dos cidadãos dessas localidades. Nesse sentido, os números

apresentados por Vivero Pol (2013)

48

são exemplificativos: enquanto um cidadão

norueguês dispende anualmente aproximadamente 2.724 libras esterlinas com sua

alimentação, um cidadão uzbeque, no mesmo período de tempo, dispõe de apenas

132 libras. Sendo assim, como os cidadãos de todas as partes terão acesso a uma

alimentação saudável e suficiente para suas necessidades alimentares e

nutricionais?

A resposta à indagação precedente é um tanto óbvia, qual seja, muitos não

terão o necessário acesso, fato que agrava o quadro de insegurança alimentar em

diversos países do globo. Assim, vale ressaltar os números relativos à fome no

mundo, extremamente alarmantes. Segundo dados constantes da publicação

“Achieving food security in the face of climate change”

49

, elaborado pelo CGIAR

(Consultative Group on International Agricultural Research) no âmbito do CCAFS

(Research Program on Climate Change, Agriculture and Food Security), em

novembro de 2011, a população mundial de subnutridos no ano de 2010 (número

divulgado originalmente pela FAO) foi da ordem de 0.9 bilhões de pessoas. Alguns

números mais recentes denotam que já existam 01 bilhão de pessoas com

desnutrição crônica, sendo que a grande maioria (cerca de 97 %), segundo Lele

50

,

reside na Ásia e/ou na África.

Portanto, resta evidente que no cenário em apreço os alimentos foram

transformados em coisas, em objetos, monetarizados e privatizados, o que

certamente impede que seu acesso e aquisição esteja disponível a todas as

48

Op. cit. loc.cit.

49

O referido documento está disponível em: <www.ccafs.cgiar.org/comission>. Acesso em:

06.03.2012.

50

Uma Lele escreveu o Editorial da Revista Science de 26 de março de 2010 intitulado “Food

security for a billion poor”. Disponível em: <www.sciencemag.org>. Acesso em: 07.08.2013.

pessoas. Segundo Vivero Pol (2013)

51

esse processo é denominado de

“commodification” e se apresenta:

[…] as the development of traits that fit better with the mecanized processes

and standardized regulations put in practice by the industrialized food

model, is the latest stage of the objectification of food, a social construct that

deprives food from all the non-economic attributes.

Nesse contexto, as dimensões não-econômicas dos alimentos acabam

negligenciadas, fato que prejudica o desenvolvimento de estratégias de

contraposição para que a superação da crise alimentar que se apresenta seja

possível. Dessa feita, o conhecimento, fortalecimento e divulgação das dimensões

não-econômicas dos alimentos é extremamente desejável e necessário.

Algumas dessas dimensões são elencadas a seguir, apenas a título

exemplificativo e serão abordadas no Capítulo 5 da Segunda Parte da presente tese:

os alimentos são uma necessidade humana básica e, em razão disso, deveriam

estar disponíveis a todas as pessoas; a alimentação é um direito humano

fundamental e deve ser assegurada a todos os cidadãos; a alimentação se constitui

como um dos pilares culturais de maior expressão nas diversas sociedades, seja em

relação aos produtores, seja em relação aos consumidores; os alimentos são

recursos naturais capazes de serem renovados em processos cíclicos controlados

pelos seres humanos; os alimentos são comercializáveis, desde que de maneira

justa e a partir de uma produção sustentável; os alimentos são bens comuns e

devem ser aproveitados por toda a humanidade.

1.5 DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO-TECNOLÓGICO, INOVAÇÃO E PATENTES