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Com efeito, o uso compulsivo em Internet, torna parcela da sociedade viciada em notificações, visto que não conseguem resistir ao desejo de verificar constantemente o telefone para qualquer notificação que possa chegar. A par disso, certas plataformas digitais, como o Instagram21, alteraram a forma de notificação sobre “likes”, visto que parcela considerável de pessoas passaram a reagir mal quando não recebiam notificações de aplicativos.

Nesta perspectiva, Azevedo et al. (2016) concluíram que “no CID 1022 e no DSM V23, o uso patológico de tecnologia digital pode ser descrito como Transtorno Compulsivo ou incluso como Transtorno de Controle de Impulso.

No entendimento da Professora Dra. Henriette Morato, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista24 concedida em 03/05/2022 para Jornal da USP no Ar, a disponibilidade da conexão favorece a hiper conectividade, porém não justifica o vício.

Segundo Morato (2022) “instalou-se um novo modo de ser da humanidade, não dá mais para voltar ao que era”.

Dessa maneira, há de ser ter cautela no uso das plataformas digitais, considerando o modo de operação destes produtos tecnológicos, a sua capacidade de causar dependência e ao grande volume de informação descarregada naqueles que lhes fazem uso. Logo, as redes e plataformas digitais não podem ser vistas como meras ferramentas de comunicação privadas porque têm um interesse público.

de comunicação que intentam fornecer informações ao maior número possível de pessoas simultaneamente.

Nesse cenário de novas tecnologias, entende António-Enrique Pérez Luño:

As TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) e NT (Novas Tecnologias) produziram novas formas de viver os valores democráticos, mas, em contraponto, também geraram novos riscos para o exercício e violação das liberdades. As possibilidades de interferência na privacidade e colonização da vida privada por meios tecnológicos têm suscitado constante preocupação cívica nas sociedades avançadas.

Sabe-se que o atual estágio de desenvolvimento tecnológico gerou novos fenômenos de agressão a direitos e liberdades (LUÑO, 2014, p. 10) (tradução nossa).

As tendências culturais modernas são marcadas por um processo de desmaterialização, como são casos as mídias on-line, as artes eletrônicas, plataformas de música, entretenimento.

Para Lemos (2002, p. 89) a “cibercultura forma-se, precisamente, da convergência entre o social e o tecnológico, sendo através da inclusão da socialidade na prática diária da tecnologia que ela adquire seus contornos mais nítidos”. Por isso, Demo (2005, p. 38) adverte ser “fundamental que o incluído controle sua inclusão”.

Para Fiorillo (2015, p. 138) “o meio ambiente é voltado para a satisfação das necessidades humanas”. Nesse âmbito de correspondência aos interesses dos homens, mundos virtuais são criados tecnologicamente, a fim de representar o componente visual de um sistema de realidade virtual, popularmente conhecidos por “metaverso”.

Como por profecia, Adorno e Horkheimer (2021, p. 112) apontam que “o controle sobre os consumidores é mediado pela diversão, e não é por um mero decreto que esta acaba por se destruir”. Da mesma maneira como se deu na indústria cultural, o entretenimento também norteou os produtos da indústria tecnológica, como o caso dos metaversos:

Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é sua base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. (ADORNO; HORKHEIMER, 2021, p. 119).

O termo “metaverso” foi cunhado do romance de ficção científica de Neal Stephenson

"Snow Crash" (1992)25 e se refere a um mundo on-line no qual os seres humanos interagem (via software, plataformas e avatares) uns com os outros.

O metaverso representa um universo muito além do que o que existia até recentemente, adicionando inúmeras camadas de ampliação da experiência humana por meio da integração físico-digital propiciada pela digitalização de tudo. Isso nos oferece, inclusive, a oportunidade de realizar no metaverso o que seria impossível no mundo físico (GABRIEL, 2022, p. 123).

25 STEPHENSON, Neal. Snow Crash. 2ª ed. São Paulo: Editora Aleph, 2015.

Segundo Cerigatto et al. (2018, p. 152) “o metaverso é a base dos mundos digitais virtuais 3D. Um metaverso é uma plataforma para a criação de um MDV3D”. Para Schlemmer e Backes:

O metaverso é, então, uma tecnologia que se constitui no ciberespaço e se

“materializa” por meio da criação de Mundos Digitais Virtuais em 3D – MDV3D, no qual diferentes espaços para o viver e conviver são representados em 3D, propiciando o surgimento dos “mundos paralelos” contemporâneos (SCHLEMMER, BACKES, p.

522).

Para Adorno e Horkheimer (2021, p. 14) “a enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotizam as pessoas ao mesmo tempo”. Sob a ótica de Habermas (2004, p. 64) “a adaptação das formas sociais de produção e circulação aos avanços científicos certamente fez prevalecer os imperativos de uma única forma de ação e, justamente a instrumental”.

Assim, os metaversos não correspondem ao todo do ciberespaço, mas são um dos temas-chave do interesse mundial sobre a vida digital, presença e ação devido à sua amplitude de cobertura, que inclui projetar, desenvolver e viver em ambientes e jogos digitais interativos multiusuário, como por exemplo Second Life, Minecraft e Horizon Worlds.

Com isso, o emprego de inteligência artificial (IA) possibilita ultrapassar as balizas da gestão de complexidade, permitindo a existência e a evolução do metaverso, bem como, a expansão da IA nesse universo, alavancando a formação de um emergente super smart world26. Sobre novas tecnologias de informação e seus reflexos no direito ao lazer e ao entretenimento, asseveram Fiorillo e Conte:

Além de estarem diretamente vinculados ao direito constitucional ao lazer, apresentam consequências jurídicas em diversos ramos do direito: direito criminal (prática de crimes por essas novas formas de entretenimento – como crimes contra a honra); direito civil (especialmente atinentes à responsabilidade civil: danos morais e materiais); direito do consumidor (responsabilidade dos provedores, novas formas de publicidade) etc. (FIORILLO; CONTE, 2016, p. 37).

De forma auspiciosa, Hans Jonas (2006, p. 55) entende que “todo passado é uma etapa preparatória para o presente e de que todo o presente é uma etapa preparatória par ao futuro”.

Com efeito, pode-se entender que a fase atual dos metaversos é bem discreta e modesta daquela que está por vir.

Nesse cenário virtual, inserem-se questões como a redução de distâncias para inclusão digital e o acesso do cidadão ao Poder Judiciário. No mês de maio de 2022, foi noticiado pelo

26 Como um “mundo superinteligente”, porém não como no “plano das ideias” em Platão, visto que os metaversos possuem marcas do plano sensível.

jornal “Folha de São Paulo”, em matéria27 de autoria de Géssica Brandino, a chegada do metaverso no Judiciário brasileiro, por meio de plano piloto realizado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 23ª Região, na Vara do Trabalho da comarca de Colíder/MT, sob titularidade da magistrada Graziele Cabral Braga de Lima28. O primeiro evento deste ambiente metaverso29, proporcionado por aquele Regional, tratou-se de palestra sobre segurança no meio ambiente do trabalho.

O ato se deu através da plataforma metaverso da empresa View 3D Studio (aplicativo AltspaceVR), objetivando a expansão das portas da unidade judiciária para o público geral, de forma mais ampla e pedagógica, promovendo educação ambiental laboral por meio de palestras e visitas assistidas.

Ainda no cenário do judiciário brasileiro, tem-se o projeto “Conciliar no Metaverso é melhor30”, da Justiça Federal na Paraíba (JFPB), que visa a realização de audiências conciliatórias em sede de metaverso específico para esta finalidade. Em julho/2022 o projeto realizou audiência simulada31, com a participação de advogados e representantes do Centro Judiciário de Solução Consensual de Conflitos e Cidadania da Justiça Federal na Paraíba (CEJUSC/JFPB). Da mesma maneira como ocorreu na Vara do Trabalho da Comarca de Colíder/MT, a iniciativa em solo paraibano também transcorreu sob responsabilidade feminina, comandada pela supervisora do Escritório de Inovação da JFPB, a servidora Samara Vieira Rocha de Queiroz.

À luz do expendido, relevante é a contribuição de Freitas (2019, p. 59) ao aduzir que “a sustentabilidade deve adjetivar, condicionar e qualificar o desenvolvimento, nunca o contrário”.

Assim, considerando os empreendimentos citados, tem-se que os produtos tecnológicos devem cumprir seu papel social para a coletividade, viabilizando em suas plataformas direitos

27 BRANDINO, Géssica. Metaverso chega ao Judiciário com avatares, emojis e promessa de ampliar interação:

Projeto-piloto foi realizado pela Justiça do Trabalho em Mato Grosso e despertou a atenção de operadores do direito. Jornal Folha de São Paulo. 24 mai. 2022. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/05/metaverso-chega-ao-judiciario-com-avatares-emojis-e-promessa-de-ampliar-interacao.shtml

28 Sobre a vanguarda da atuação da magistrada vide Revista do XXIV Congresso Brasileiro de Magistrados da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), publicação especial em https://www.amb.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Revista29-06-V2-Final-M3.pdf

29 Para acesso ao Metaverso da Vara do Trabalho de Colíder/MT é necessário cadastro no aplicativo AltspaceVR, criar o avatar e ingressar na plataforma usando o código QMJ945. O programa pode ser baixado em desktop ou notebook.

30 JFPB. Projeto pioneiro da JFPB prevê realização de audiências conciliatórias no metaverso. Seção de Comunicação Social da JFPB - [email protected]. Publicado em 21/07/2022. Disponível em https://www.jfpb.jus.br/index.php/noticias/leitura-de-noticias?/id=16221306 Acesso em 11 ago. 2022.

31Confira o vídeo da audiência simulada da JFPB: https://bit.ly/3b5yaRq

fundamentais, dando ênfase ao bem-estar, cidadania e saúde dos usuários, observando os deveres da sustentabilidade e solidariedade intergeracional que permeiam a existência humana.

Nesse sentido, aduz Gabriel (2022, p. 126) para que um “futuro super smart human centric32 se realize, precisamos desenvolver um caminho sustentável que nos permita chegar lá – com segurança, ética, moral e humanidade”. Assim, perfaz-se indispensável o respeito aos objetivos elencados no art. 3º da Constituição Federal de 1988, aos direitos fundamentais e aos princípios do Direito Ambiental para uma evolução pacífica da coletividade.

Isto posto, pode-se admitir que o metaverso é uma camada de realidade digital que une o mundo físico ao virtual, por meio de hologramas criados através de inteligência artificial, conectando seus usuários e expandindo suas relações interpessoais. Logo, o metaverso não deve estar apartado das noções de responsabilidade, dignidade humana, sustentabilidade e solidariedade intergeracional.

32 Mundo superinteligente centrado no ser humano (tradução nossa).

3 DA SOCIEDADE ATUAL