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Metodologia: Causalidade processual qualitativa

A possibilidade de identificar relações de causalidade numa investigação de base qualitativa foi alvo de discórdia durante várias décadas (Maxwell, 2004). No entanto, a afirmação da teoria realista nas ciências sociais, como alternativa ao construtivismo e ao positivismo, validou a realização de análises qualitativas à causalidade.

A teoria positivista liga a possibilidade de aferir uma relação causal à realização de uma experiencia que permita observar a regularidade da relação, sendo essa regularidade a base para existir uma relação de causalidade. Já o construtivismo, ao defender a existência de

35 múltiplas realidades socialmente construídas, não regidas por relações causa efeito, nega a possibilidade deste tipo de análise (Maxwell, 2012).

O realismo, ao afirmar que as entidades existem independentemente da forma como nós as percecionamos ou das teorias que temos sobre elas, permitiu uma nova visão sobre a causalidade (Sayer, 2000) , que deixou de estar exclusivamente associada à regularidade das relações, pois legitimou a observação de mecanismos e processos reais não necessariamente regulares com forma de investigação. A aplicação do realismo às Ciências Sociais é normalmente conhecida por realismo crítico, embora existam múltiplas abordagens distintas. A possibilidade de observar os processos de causalidade, retira a necessidade de comparação, ou seja, permite a utilização de casos de estudo, como o utilizado nesta dissertação, para aferir a causalidade num caso concreto. Esta abordagem reforça a importância do contexto como variável explicativa da causalidade e convoca para o campo de análise aspetos como os processos mentais e as intenções humanas (Maxwell, 2004).

Existem duas abordagens distintas para aferir relações de causalidade em ciências sociais, a teoria da variância e a teoria do processo. (Mohr, 1996).

A teoria da variância utiliza diferentes variáveis e as correlações entre estas, procurando medir os impactos que as mudanças numa das variáveis têm em terceiras, aferindo assim a causalidade ente estas. Normalmente, este tipo de análise recorre a métodos quantitativos de análise, como os testes estatísticos e os modelos de regressão linear, que requerem dados quantitativos muito precisos (Maxwell, 2004).

A teoria do processo, por outro lado, tem como base os processos causais, procurando aferir a existência de uma relação de causalidade através da análise das influências de um determinado evento noutro evento, ou seja, no processo de conexão entre eventos. Como cada caso investigado é único, a teoria do processo é menos adaptada à utilização de métodos estatísticos, recorrendo, em substituição, ao estudo de um caso ou de um pequeno número de casos e utilizando dados narrativos que descrevam as conexões cronológicas e contextuais entre eventos (Maxwell, 2004).

No âmbito desta dissertação, utilizaremos a teoria do processo para aferir as relações de causalidade, pois esta é aquela que melhor se adapta à análise de um caso concreto, como foi a intervenção FMI em Portugal entre 1975 e 1985, onde os fatores contextuais são fundamentais e dificilmente replicáveis ou comparáveis com outros.

36 Por outro lado, este é um objeto sobre o qual existe muita informação disponível, o que nos permite compreender e descrever, dentro das limitações da própria análise, as conexões entre eventos. Este facto levou-nos a descartar como metodologia a análise sistémica que recorreria a uma abordagem “black box” para aferir a causalidade (Jackson, 1991). Um dos pontos fortes deste projeto é a quantidade de informação disponível sobre todo o processo. A opção por aferir a causalidade pela correlação entre inputs e outputs retiraria da análise toda essa informação.

Existem diversas estratégias que podem ser utilizadas numa investigação qualitativa para aferir e validar relações de causalidade (Miles & Huberman, 1984). Uma vez que no âmbito desta dissertação optámos por uma análise processual, limitar-nos-emos a enumerar as principais estratégias utilizadas neste tipo de abordagem.

A primeira estratégia consiste no envolvimento longo e intenso no processo em análise, o que permite recolher maior quantidade de dados de forma direta e desenvolver e testar hipóteses durante a investigação (Maxwell, 2004). Devido à natureza do nosso tema, esta abordagem não é exequível.

A segunda estratégia baseia-se na utilização de dados ricos, ou seja, dados variados e detalhados o suficiente que permitam ter uma compreensão completa do processo em análise reveladora dos processos de causalidade existentes (Maxwell, 2004).

A terceira estratégia é a narrativa e análise de conexões que procura aferir as relações de causalidade identificando as conexões entre eventos e processos num contexto específico. Esta estratégia adapta-se especialmente a estudos de caso, como o realizado nesta dissertação. Tendo em conta o antes enunciado, adotámos como metodologia uma aplicação da causalidade processual com recurso a uma narrativa, que utiliza os dados recolhidos para identificar conexões entre os eventos e processos analisados.

Esta opção trás consigo alguns riscos como a confusão entre causalidade e cronologia de eventos e a falta de problematização e de alternativas plausíveis (Maxwell, 2004). Para evitar estes riscos e reforçar a validade das nossas conclusões optámos por uma estratégia de triangulação das fontes e dos métodos de recolha de dados, que reduz o risco associado à utilização de uma só fonte ou método (Denzin, 1970). No quadro da estratégia de triangulação combinámos fontes primárias, uma análise teórica de base bibliográfica e entrevistas a alguns intervenientes diretos neste processo.

37 Para a realização desta dissertação foram entrevistados o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Basílio Horta, que durante o período analisado exerceu funções como Ministro do Comércio e Turismo, Ministro de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro e Ministro da Agricultura, Comércio e Pescas; ao Professor Doutor João Ferreira do Amaral, que durante este período foi técnico e Diretor-geral do Departamento Central de Planeamento; á Presidente do Conselho das Finanças Públicas, Dr.ª Teodora Cardoso, que no período analisado exerceu funções técnicas no Banco de Portugal participando ativamente nas negociações com o Fundo; ao Dr. Vítor Bento, Presidente da SIBS que durante este período exerceu funções técnicas no Banco de Portugal e acompanhou a execução dos programas.