CAPÍTULO 3: O PROGRAMA “BRONCA PESADA”
3.1 Metodologia de análise
Em nossa dissertação, utilizamo-nos de pesquisa bibliográfica, cujos resultados principais já foram apresentados, e de pesquisa documental, referente a documentos de difusão de sons e imagens, correspondentes ao programa televisivo “Bronca Pesada”.
No que diz respeito à pesquisa documental, escolhemos coletar dados sobre o programa “Bronca Pesada” do turno da tarde, transmitido na TV Jornal no horário aproximado das 12h25 às 13h30. Como decorre da própria escolha do aporte teórico, a nossa abordagem dos documentos coletados não poderia se dar por outra via que não a da pesquisa qualitativa, da análise em profundidade de um pequeno número de programas. Para o estudo qualitativo, “é necessário compreender as interpretações que os atores sociais possuem do mundo, pois são estes que motivam o comportamento que cria o próprio mundo social”419
. Isto se coaduna com o aporte teórico que utilizamos no nosso trabalho, que vê o crime como uma construção social realizada por atores em processos de interação. Os conteúdos do programa escolhido foram selecionados como fontes de primeira ordem, pois consistem em espaços de construção de realidades.
Enquanto a pesquisa quantitativa utiliza a amostragem como procedimento de seleção para coleta de dados, buscando principalmente a representatividade da amostra em relação à população, a pesquisa qualitativa, nos moldes apresentados por Martin Bauer e Bas Aarts, se dá a partir da construção de um corpus, que “significa escolha sistemática de algum racional alternativo”420
. Para os autores, a amostra própria da pesquisa quantitativa pode ter sucesso em representar indivíduos em relação à população geral, mas não é capaz de fazê-lo em relação às ações e situações. As populações de sistemas abertos, como a linguagem, podem ter seus elementos no máximo tipificados, mas nunca listados421.
Se do aporte teórico estudado podemos concluir que os conceitos de crime e de criminoso são construções, fluídas e cambiantes, então não há como sequer pensar em fazer
419
BAUER, Martin W.; GASKELL, George; ALLUM, Nicholas C.. Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento: evitando confusões. In: BAUER, Martin W.; GASKELL, George (Comp.). Pesquisa qualitativa
com texto, imagem e som: um manual prático. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 17-36, p. 32-33.
420 BAUER, Martin; AARTS, Bas. A construção do corpus: um princípio para a coleta de dados qualitativos. In:
BAUER, Martin W.; GASKELL, George (Comp.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 39-63, p. 39.
um recorte que implique numa amostra de tal objeto, muito menos é possível descrevê-lo completamente. O que orientou a escolha de nosso corpus foi a decisão de buscar, através da análise de alguns programas, obter alguns dados sobre como está sendo construída essa imagem no programa escolhido, bem como aquilo que se está construindo.
A partir disso, buscamos uma aproximação inicial do objeto, assistindo livremente a alguns programas. Posteriormente, decidimos analisar mais detalhadamente dois programas de um mesmo dia, um do turno da manhã e outro da tarde, para tentar captar os aspectos mais interessantes a serem observados nos demais programas escolhidos. Optamos, então, por uma aproximação livre, buscando anotar tudo o que houvesse de interessante, para depois fazer a seleção das variáveis a serem coletadas. Com base nisto, elaboramos um instrumento de coleta, no qual anotamos desde dados mais precisos (como tipo de crime, bairro, etc.), bem como algumas informações mais abertas, que nos ajudassem a perceber os aspectos mais complexos do programa escolhido (relação com a Polícia, comentários, humor, contradições). Terminada esta primeira aproximação, decidimos começar a coletar os dados sobre os programas. Optamos por fazer uma coleta mais aprofundada durante uma semana, em relação ao programa da tarde. Finalizada a etapa de coleta, partimos para a análise dos dados.
Quanto ao nosso objeto de estudo, Diana Rose ressalta que,
os meios audiovisuais são um amálgama complexo de sentidos, imagens, técnicas, composição de cenas, seqüência de cenas e muito mais. É, portanto, indispensável levar esta complexidade em consideração, quando se empreende uma análise de seu conteúdo e estrutura422.
Ainda segundo Rose, temos que “todo passo, no processo de análise de materiais audiovisuais, envolve trasladar. E cada translado implica em decisões e escolhas”423
. Transformar sons e imagens em texto escrito envolve uma brutal simplificação, agravada pela influência, na descrição feita, das percepções e subjetividades do pesquisador.
Assim, a todo momento que nos aproximávamos do nosso objeto, estávamos sempre realizando escolhas e pensando em como podíamos traduzir determinadas imagens e sons em palavras. Da mesma forma como ressaltamos que todo relato é limitado, aí incluído o produzido pela mídia, as nossas escolhas sobre o que destacar nos programas analisados consistem também num relato simplificado, limitado e incompleto, que traduz nosso ponto de vista a partir da leitura que fizemos do aporte teórico utilizado. Assim, para Rose,
422 ROSE, Diana. Análise de imagens em movimento. In: BAUER, Martin W.; GASKELL, George (Comp.).
Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 343-364,
p. 343.
o que é deixado fora é tão importante quanto o que está presente. A escolha, dentro de um campo múltiplo, é especialmente importante quando se analisa um meio complexo onde a translação irá, normalmente, tomar a forma de simplificação424.
Apesar das limitações apontadas, construir um relato baseado em escolhas e traduções imperfeitas é a única forma de se aproximar qualitativamente de um objeto de estudo como os meios audiovisuais, de forma que vá além da mera quantificação e tipificação. Tal maneira, também é mais compatível com a abordagem que adotamos, que se centraliza nos aspectos simbólicos dos processos e interações que vão definir o que é crime e quem são os criminosos.