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CAPÍTULO 1: O CRIME E O ENFOQUE DO ETIQUETAMENTO

1.7 O poder de definir

Para Becker, uma das questões centrais do enfoque consiste justamente em prestar atenção aos graus de diferença no poder de definir, alcançados por um grupo que define como os outros grupos serão olhados, tratados e entendidos. Para ser capaz de impor definições, um grupo necessita deter poder ou legitimidade suficiente. E para manter seu poder, grupos dominantes (como elites, chefes, homens, adultos e brancos) podem utilizar formas mais primitivas de controle para estabelecer sua hegemonia, como o recurso à violência. No entanto, um “controle baseado na manipulação de definições e etiquetas funciona mais suavemente e custa menos; grupos dominantes o preferem”226

. Para tal autor, o ataque à hierarquia moral existente na sociedade começa com um ataque às concepções convencionais,

222

No original: “invariably lead to conflict and the inability to definitely resolve questions when the premises of the way of life are not shared among all the discussants”. BECKER, Howard S., What about Mozart? What

about murder?, ob. cit..

223

No original: “there is no way of objectively determining what social problems are in the sense of what is „bad‟ or undesirable about a society or culture”. LEMERT, Edwin M., Social pathology, ob. cit., p. 6.

224 No original: “which carries the assumption that groups and individuals will formulate their own values,

objectives, and goals within fairly broad limits of freedom”. Idem, p. 6.

225

SCHUR, Edwin M., Labeling deviant behavior, ob. cit., p. 16.

226 No original: “control based on the manipulation of definitions and labels works more smoothly and costs less;

etiquetas e definições, e o papel do enfoque ora apresentado é estudar essas definições e os processos através dos quais elas se desenvolvem e alcançam legitimidade e aceitação como algo dado, pressuposto.

Desta forma, torna-se interessante focar a atenção naquelas pessoas que são suficientemente poderosas para fazer valer suas atribuições de etiquetas de desviantes, mas pouco estudadas a partir desse aspecto, como, por exemplo, a Polícia, as cortes, os médicos, os funcionários da escola e os pais227. Uma das dificuldades de aceitar que a etiqueta de desviante é fruto de um processo de definição reside na relutância em admitir que definições tidas como absolutamente não negociáveis pela sociedade são manipuladas por aqueles que possuem o poder de definir228. Para Schur, a existência de um desacordo público nos padrões de avaliação moral mostra que ao se estudar o desvio estar-se a pesquisar sobre uma forma de conflito social229.

Schur trata especificamente dos processos de “definição de desvios” (deviance-

defining), afirmando que não se tratam de eventos estáticos, mas sim de processos contínuos e

mutáveis. Para ele, o desvio consiste principalmente num problema de definição, pois normalmente os comportamentos sociais vistos como problemáticos não adquirem o seu caráter estigmatizante automaticamente. Além disso, o caráter de desviante que é imputado a alguns comportamentos quase nunca é absoluto; mais comumente, consiste numa questão de grau, de quão desviante um comportamento é considerado socialmente. Esta atribuição se dá por meio de um processo de definição-resposta em que alguns aspectos desonrosos são imputados a um comportamento ou condição, o que torna as questões dos significados morais e sociais de extrema importância para o estudo do desvio230. Por isso mesmo, Schur afirma que essas questões de desacordo público acerca dos padrões morais de avaliação, ou seja, problemas de definição de desvios (deviance-defining), são verdadeiras formas de conflitos sociais.

Tal autor chama a atenção para o fato de que a atribuição de uma etiqueta ou rótulo de desviante ao comportamento de alguém e a reação a esse ato são “um lado do processo através do qual a conformidade é estabelecida e reforçada”231

. Além disso, para ele, do ponto de vista macrossociológico, os processos de definição de desvios (deviance-defining) são centrais para a manutenção das estruturas sociais. No que diz respeito ao aspecto

227 Idem, p. 186.

228 SCHUR, Edwin M., Labeling deviant behavior, ob. cit., p. 66. 229

SCHUR, Edwin M., The politics of deviance, ob. cit., p. 26.

230 Idem, p. 132.

microssociológico, tal processo constitui uma parte essencial das interações sociais, normalmente guiadas por normas e sanções informais232. Esse processo, que também pode ser chamado de estereotipização, não é, para ele, algo que poderia ser eliminado através da educação, por exemplo, pois faz parte da própria natureza das interações em sociedades complexas e heterogêneas, que exigem o recurso a formas estereotipadas, processo mais comumente chamado pelos sociólogos de tipificação233. Para Schur, a estereotipização também

reflete as necessidades dos participantes de interações complexas de ordenar suas expectativas de forma que eles possam predizer as ações dos outros, ao menos numa extensão suficiente para a organização coerente do seu próprio comportamento234.

Para Becker, a sociedade e os problemas acerca do desvio não se reduzem apenas às interações face a face. A interação ocorre também entre grupos e organizações. Assim acontece com os processos políticos à volta do drama do desvio, em que organizações econômicas, associações profissionais, sindicatos, lobistas, empresários morais235 e legisladores interagem e estabelecem condições de interação com aqueles que alegadamente cometeram um ato desviante. Também nos casos de desvio solitário há uma interação, ainda que não face a face, com os meios de comunicação, por exemplo, que podem iniciar o indivíduo numa cultura desviante236.

Além disso, não só o objeto de estudo – o fenômeno desviante – é mutável, mas também as pessoas responsáveis por defini-lo (as autoridades criadoras e aplicadoras da lei) estão sujeitas a mudanças237. Os atos e as definições acerca do desvio, como todas as formas de ação coletiva, acontecem durante um tempo, e sofrem modificação de um momento a outro. A partir desta constatação, alguns dos atores envolvidos no fenômeno do desvio, especialmente os criadores e aplicadores das etiquetas e das regras, vão criar as concepções e conhecimentos do senso comum que servirão como objeto de estudo aos sociólogos. E observando-se esse senso comum construído de perto, veremos, segundo Becker,

que eles fazem isso algumas vezes, mas não todas as vezes; contra algumas pessoas, e não contra outras; em alguns lugares, mas não em outros. Estas discrepâncias lançam dúvidas em noções simples sobre quando algo é, afinal de contas, errado. Vemos que os próprios atores frequentemente discordam sobre o que é desviante, e frequentemente duvidam do caráter desviante de um ato. As cortes discordam; a

232 Idem, p. 68-69.

233 SCHUR, Edwin M., Labeling deviant behavior, ob. cit., p. 40-41. 234

No original: “reflects the needs of participants in complex interactions to order their expectations so that they can predict the actions of other, at least to an extent sufficient for coherent organization of their own behavior”. Idem, p. 41.

235 Os empresários morais, segundo Becker, são um tipo de pessoa para quem a leis já existentes não são

suficientes, pois existe um “mal” no mundo que os perturba. BECKER, Howard S., Outsiders, ob. cit., p. 147.

236 Idem, p. 31.

polícia tem reservas mesmo quando a lei é clara; aqueles envolvidos na atividade proibida discordam das definições oficiais. Vemos, ainda mais, que alguns atos que, por meio de padrões comumente reconhecidos, claramente deveriam ser definidos como desviantes não são assim definidos por ninguém 238.

Schur explora mais detalhadamente a questão da relação entre a atribuição de etiquetas a algumas pessoas ou atos e o poder político através do estudo das disputas em torno de estigmas (stigmas contests). Tais disputas são verdadeiras lutas pelo poder de atribuir definições e, consequentemente, representam conflitos sociais em torno dos significados morais e sociais que serão tidos como dominantes. Assim sendo, são disputas em torno do estabelecimento de uma verdade, de um discurso dotado de verdade, e que necessariamente gera alguns efeitos de poder. Isso porque a atribuição a alguém de uma etiqueta de criminoso produzirá efeitos sociais, mesmo sendo apenas uma “definição”. Para Schur,

Existem sempre ao menos dois lados numa situação de desvio – aquele dos que reagem e aquele das pessoas contra quem se reage. De fato, uma das melhores formas de pensar acerca da área inteira do desvio é em termos do que pode ser chamado de disputas em torno de estigmas. Nessas contínuas lutas acerca de definições sociais concorrentes, é o poder relativo e não o absoluto que conta mais. O poder de cada lado pode estar sujeito a mudanças, não apenas por meio de causas externas mas também através de esforços conscientes. Quando as pessoas se engajam em atividades políticas organizadas sobre questões de desvio eles estão, de fato, intencionalmente tentando influenciar o que poderia de outro modo parecer um curso de eventos irreversível, eles estão tentando assegurar que um particular equilíbrio de poder incline-se em seu favor239.

Esses processos de definição de desvios (deviance-defining) normalmente precisam de iniciativa – tanto da parte de quem pretende imputar uma etiqueta de desviante como da parte de quem intenta resistir a essa atribuição –, apesar de, por vezes, seguirem os cursos regulares de mudanças sociais. Essas disputas, segundo Schur, envolvem competição em torno da estabilização de valores morais, sendo que ambos os lados envolvidos procuram obter domínio moral, utilizando para isso meios políticos. E essas lutas tendem a ser constantes, pois é raro – senão impossível – um consenso completo em relação às questões

238 No original: “that they do this sometimes, but not all the time; to some people but not others; in some places

but not others. Those discrepancies cast doubt on simple notions about when something is, after all, wrong. We see that the actors themselves often disagree about what is deviant, and often doubt the deviant character of an act. The courts disagree; the police have reservations even when the law is clear; those engaged in the proscribed activity disagree with official definitions. We see, further, that some acts which, by commonly recognized standards, clearly ought to be defined as deviant are not defined that way by anyone”. BECKER, Howard S.,

Outsiders, ob. cit., p. 184.

239 No original: “there are always at least two sides in a deviance situation – that of the reactors and that of those

reacted against. Indeed, one of the best ways of thinking about the entire area of deviance is in terms of what might be called stigma contests. In these continuing struggles over competing social definitions, it is relative rather than absolute power that counts most. The power of either side may be subject to change, not only through external causes but to an extent by conscious effort. When people engage in organized political activity on deviance issues they are, in fact, intentionally attempting to influence what might otherwise seem an irreversible course of events, they are trying to ensure that a particular balance of power will tip in their favor”. SCHUR, Edwin M., The politics of deviance, ob. cit., p. 8.

desviantes. Ao contrário, as definições sociais e políticas em torno da questão do desvio costumam oscilar. Assim, é possível fazer uma conexão entre as lutas em torno do desvio e as mudanças sociais, pois tanto estas podem ajudar a transformar o curso de disputa em torno do desvio como essas lutas contribuem para a natureza cambiante da sociedade.

Desta forma, percebe-se que as questões relativas ao desvio são inerentemente políticas, pois envolvem o julgamento por algumas pessoas do comportamento de outras. Assim, afetam a distribuição de poder numa sociedade, pois consistem na atribuição de um caráter desvalorizado e desonroso a alguns indivíduos, por meio do exercício de certo poder. Segundo Schur, “embora o poder econômico, o legal e o político direto podem às vezes estar envolvidos, o que mais essencialmente está em jogo em tais situações é o poder ou recurso a elementos morais ou a aceitabilidade”240

. A colocação de algumas pessoas em posições morais desvalorizadas implica, necessariamente, na atribuição de um status valorizado a outras, as conformistas, cujos padrões e regras morais são os aplicados de forma geral. A imputação de uma etiqueta de desviante é, portanto, um elemento chave na estratificação de uma sociedade. E a situação se torna ainda mais complicada porque os vários indivíduos e grupos que disputam as questões relativas ao desvio frequentemente têm interesses múltiplos ou ambíguos em relação a uma determinada situação.

De qualquer forma, é importante ressaltar que nenhum poder, seja o do Estado, seja o das “classes dominantes” pode ser exercido de forma absoluta. Para Schur, falar em controle é falar em poder. Mas o controle nunca é exercido totalmente sobre uma situação, sendo capaz, na verdade, de apenas influenciar o seu desenrolar. Isso porque existem limites para o exercício de um poder total por alguém, especialmente em regimes ditos democráticos, pois “não apenas o compromisso formal com a democracia implica em limites ao uso do poder mas também a estrutura do governo democrático também complica a imagem do controle social”241

.

Quando se pensa na questão do desvio, e em especial em relação ao crime, busca-se compreender qual é o papel do Estado nesses tipos de conflitos, principalmente devido à grande importância que se atribui tradicionalmente à sua ação na esfera política. Para Schur,

o Estado não pode nunca permanecer totalmente indiferente em relação a maiores lutas em torno do desvio, uma vez que sua inação (nível legislativo, judicial ou

240 No original: “Although economic, legal, and direct political power may sometimes be involved, what is most

essentially at stake in such situations is the power or resource of moral standing or acceptability”. Idem, p. 6.

241 No original: “Not only does the formal commitment to democracy imply eventual limits on the use of power

executivo) bem como sua ação é propensa a ter consequências que favorecem um lado mais que o outro242.

E como o Estado costuma intervir nos conflitos em torno do desvio? Além da atuação direta mediante um dos três poderes, tem-se que muitas organizações de controle social fazem parte do Estado ou, ao menos, dele recebem verbas para seu funcionamento. Desta forma, mesmo por vezes não influindo diretamente em questões afetas ao problema do desvio, o Estado acaba tendo um significante papel, nem que seja por meio do patrocínio dessas agências de controle. Isso pode ser notado em relação aos meios de comunicação de massa, por exemplo, que apesar de pertencerem a grupos privados, são concessões estatais e dependem também do patrocínio (através de propagandas governamentais) financeiro do Estado.

Para Foucault, nas sociedades atuais, por ele caracterizadas como sociedades disciplinares, o estatal e o extraestatal vão se confundir, dentro de instituições como as escolas e as fábricas. Segundo ele, é difícil dizer se tais instituições são estatais ou não, se fazem ou não parte do aparelho de Estado. O poder estaria nestes vários aparelhos espalhados pela sociedade, e não concentrado em um único aparelho, o estatal, daí o termo “microfísica do poder” por ele utilizado. Para o autor, então, não importaria se os micropoderes encontram-se em estruturas estatais ou não.

No que diz respeito especificamente ao estudo das práticas penais, a concepção de Foucault é interessante, pois nos incita a estender os estudos para além do que consiste formalmente a estrutura estatal, como o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia, o Poder Legislativo. Outras instituições, como os meios de comunicação de massa, objeto de estudo da dissertação, por exemplo, encontram-se numa situação limítrofe, pois muito embora sejam concessões do Estado, são controladas por grupo privados e respondem às regras do mercado e do lucro243, e não ao interesse público, como fazem os entes propriamente estatais. Seu caráter híbrido não os permite serem tratados nem como instituição pública, nem como atividade comercial244. No entanto, possuem um grande alcance na sociedade global, especialmente em países como o Brasil, e consistem não só numa instituição que exerce um

242

No original: “the state can never remain totally aloof from major deviance struggles, since its inaction (on the legislative, judicial, or executive level) as well as its action is bound to have consequences that favor one side more than other”. Idem, p. 73.

243 CHAUI, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006, p.

7-8.

244 GARAPON, Antoine. O guardador de promessas: justiça e democracia. Lisboa: Instituto Piaget, 1996, p.

grau de controle social, mas são também atores de extrema importância nos processos de atribuições de etiquetas ou rótulos de desviante a alguém.