Em Portugal não existem normas profissionais que regulem especificamente a peritagem contabilística. Já no Brasil, para referirmos normas em língua portuguesa, as “Normas Brasileiras de Contabilidade” contemplam normas específicas sobre peritagem.
As normas brasileiras de contabilidade classificam-se em Profissionais (NBC P), que estabelecem regras de exercício profissional e em técnicas (NBC T), que estabelecem conceitos doutrinários, regras e procedimentos aplicados, podemos identificar a existência das seguintes normas relativas a peritagem contabilística:
33 Normas Profissionais
NBC P 2 - Normas Profissionais do Perito NBC P 2.1 - Competência Profissional NBC P 2.3 - Impedimento e Suspeição NBC P 2.4 - Honorários NBC P 2.6 - Responsabilidade e Zelo Normas técnicas NBC T 13 - Perícia Contábil NBC T 13.2 - Planejamento da Perícia NBC T 13.7 - Parecer Pericial Contábil
Por outro lado as Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC) podem ser detalhadas através de interpretações técnicas, que são identificadas pelo código da NBC a que se referem seguido da sigla IT e numeração sequencial.
Relativamente à NBC T 13 – Perícia Contábil, existem as seguintes interpretações técnicas: NBC T 13 - IT - 01 - Termo de Diligência
NBC T 13 - IT - 02 - Laudo e Parecer de Leigos NBC T 13 - IT - 03 - Assinatura em Conjunto
Apesar destas normas, como é óbvio, não vincularem em nada os profissionais portugueses, mas na ausência de normas nacionais vale a pena apresentar a estrutura daquelas normas, com transcrição de alguns parágrafos por serem pertinentes a qualquer peritagem.
“NBC T 13 – Perícia Contábil 13.1 – Conceituação e objetivos
13.1.1 – A perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnicos e científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar à justa solução do litígio, mediante laudo pericial contábil, e ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais, e a legislação específica no que for pertinente.
13.1.2 – A perícia contábil, tanto a judicial, como a extrajudicial e a arbitral, é de competência exclusiva de Contador registrado em Conselho Regional de Contabilidade.”
34 13.2 - Planejamento da Perícia
13.2.2.1. Os objetivos do planejamento da perícia são:
a) conhecer o objeto da perícia, a fim de permitir a adoção de procedimentos que conduzam à revelação da verdade, a qual subsidiará o Juízo, o Árbitro ou o Contratante a tomar a correta decisão a respeito da lide;
b) Oferecer condições para que o trabalho seja cumprido no prazo estabelecido;
c) Prever potenciais problemas e riscos que possam vir a ocorrer no andamento da perícia;
d) Antever fatos que possam vir a ser importantes para a solução do problema de forma que não passem despercebidos ou não recebam a atenção necessária ao seu devido exame;
e) identificar a legislação aplicável ao objeto da perícia;
f) definir a natureza, a oportunidade e a extensão dos exames a serem realizados, em consonância com os termos constantes na proposta de honorários;
g) estabelecer como se dará a divisão das tarefas entre os membros da equipe de trabalho, sempre que o Perito Contador ou o Perito-Contador Assistente necessitar de auxiliares;
h) facilitar a execução e a revisão dos trabalhos. 13.3 – A Execução
13.3.3 – Para a execução da perícia contábil, o perito contador e o perito-contador assistente devem ater-se ao objeto do trabalho a ser realizado.
13.3.7 – O perito-contador e o perito-contador assistente manterão registros dos locais e datas das diligências, nomes das pessoas que os atenderem, livros e documentos examinados ou arrecadados, dados e particularidades de interesse da perícia, rubricando a documentação examinada, quando julgarem necessário.
13.3.9 – O perito-contador e o perito-contador assistente devem documentar, mediante papéis de trabalho, os elementos relevantes que serviram de suporte à conclusão formalizada no laudo pericial contábil e no parecer pericial contábil.
13.4 – Procedimentos
13.4.1.1 – O exame é a análise de livros, registros das transações e documentos.
13.4.1.2 – A vistoria é a diligência que objetiva a verificação e a constatação de situação, coisa ou fato, de forma circunstancial.
13.4.1.3 – A indagação é a busca de informações mediante entrevista com conhecedores do objeto da perícia.
35 13.4.1.4 – A investigação é a pesquisa que busca trazer ao laudo pericial contábil ou parecer pericial contábil o que está oculto por quaisquer circunstâncias.
13.4.1.5 – O arbitramento é a determinação de valores ou a solução de controvérsia por critério técnico.
13.4.1.6 – A mensuração é o ato de quantificação física de coisas, bens, direitos e obrigações.
13.4.1.7 – A avaliação é o ato de estabelecer o valor de coisas, bens, direitos, obrigações, despesas e receitas.
13.7 Parecer pericial contábil
13.7.2.1. O Parecer Pericial Contábil deve ser uma peça técnica, escrita de forma objetiva, clara, precisa, concisa e completa, devendo sua escrita ser sempre conduzida pelo perito-contador assistente, que adotará um padrão próprio, como o descrito no item 13.7.3.
O parecer pericial – entre nós, o Relatório dos Peritos ou Respostas dos Peritos aos Quesitos – é o documento da maior importância e, por isso, se exige que na sua redacção estejam presentes os requisitos exigidos em qualquer comunicação de carácter técnico, bem evidenciados na Norma Brasileira.
Assim, o relatório deve ser:
Objetivo – quando descreve fatos, evitando juízos de valor (subjetividades);
Claro – se facilmente entendido por terceiros, pelo que evitará linguagem técnica desnecessária, ou explicará o seu alcance;
Preciso – se não contiver áreas de indefinição (o relatório emite um parecer técnico, mas deve evitar a palavra “parece”);
Conciso – se vai direto ao assunto a esclarecer, evitando detalhes que nada acrescentam. Completo – quando não omite nada de essencial para o esclarecimento desejado.
6. Conclusão
O perito contabilista é, por definição, o indivíduo hábil e experiente em questões de contabilidade e que faz “profissão” dessa sua capacidade.
A sua atuação caracteriza-se pela intervenção em todos os casos em que seja requerido um parecer especializado sobre as matérias em que é especialista. Para tal, ele terá de rever, verificar ou examinar
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contas, livros, registos ou documentos que justificam ou apoiam os movimentos económicos e financeiros.
Estes exames ou revisões e respetivos pareceres podem ser originados por litígios dirimidos em juízo, ou em inquérito judicial, sendo entre nós conhecidos pelo nome genérico de peritagem judicial; ou ser requeridos como diligência fora de juízo, quer no domínio do tribunal arbitral, quer no particular, constituindo a peritagem extrajudicial.
Numa passagem do relatório: “The Use of Forensic Accounting Experts in Tax Cases as Identify in Court Opinions”, de Muehlmann, Burnaby e Howe (2012:1) é referido o seguinte:
“When speaking about the fight on terrorism, Chancellor of the Exchequer Gordon Brown (2006), former Prime Minister of the United Kingdom stated, "What the use of fingerprints was to the 19th century, and DNA analysis was to the 20th century, so financial information and forensic accounting has come to be one of today's most powerful investigative and intelligence tools available.”
É assim possível verificar que os peritos desempenham um papel cada vez mais importante nos serviços de litigância em processos de fraude financeira. Muitos advogados precisam de assistência dos contabilistas na preparação dos seus casos e depois mais tarde precisam de contabilistas para testemunhar como perito contabilista. Para se preparar para os julgamentos, a defesa deverá conhecer todos os registos financeiros do cliente. Isso, normalmente, não se consegue fazer sem a ajuda de um perito na área. Os advogados, normalmente, não são peritos nas áreas financeiras e contabilísticas. É aí que os contabilistas desempenham um papel fulcral para testemunhar como peritos. A estratégia de um advogado de defesa, num caso, por exemplo, de fraude financeira, depende muito da avaliação do mesmo por parte do contabilista.
Uma vez que, na generalidade, os autores de uma fraude não pagam impostos do que roubaram, ou desviaram, pode verificar-se a abertura de vários processos, paralelamente, em relação a esses impostos que se deixaram de cobrar. Inclusivamente para a acusação, num caso de fraude, pode ser mais fácil agarrarem-se a um pormenor mais insignificante de fuga fiscal, quando não conseguem provas suficientes para a acusação principal.
O número de actividades fraudulentas e esquemas financeiros ilegais aumentou consideravelmente nos anos 90. Num ambiente tecnológico de grande evolução cada vez mais registos financeiros estão em computadores e sistemas informáticos. Os registos em papel estão a desaparecer. Consequentemente, os negócios estão cada vez mais expostos a novos riscos de actividades
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fraudulentas. Oportunidades para novos esquemas de fraudes informáticas crescem na mesma medida que os sistemas informáticos se expandem e evoluem.
Judicialmente ou extrajudicialmente os peritos contabilistas podem ajudar as empresas e pessoas singulares a calcular os danos de esquemas fraudulentos, de que foram alvos, e têm as competências para investigar os casos e testemunhar em tribunal contribuindo para decisões judiciais mais justas, rápidas e consequentes.
Muitas vezes, nos casos em que há duas partes envolvidas, o trabalho do perito é tão sólido e forte, ao nível de provas, que os processos não chegam ao tribunal. A outra parte verifica, pelo trabalho do perito, que vai ser uma perda de tempo e de dinheiro avançar com o processo para tribunal. As fraudes financeiras e temas relacionados com os impostos são a grande base de trabalho para os peritos mas temas comuns como: divórcios, falências, e a morte, por exemplo, podem exigir o recurso aos serviços de um perito contabilista.
Porque o recurso aos peritos pode ser motivado por um leque muito alargado de situações é lhes requerido, para além das naturais competências relacionadas com a sua área de actividade – contabilidade, finanças, fiscalidade, etc. – um conjunto vasto de competências para o desempenho das suas funções, nomeadamente:
a) Competência em investigação;
b) Competência em sistemas informáticos;
c) Competência em técnicas de entrevistas e questionário; d) Competência ao nível do planeamento.
Não existe em Portugal uma regulamentação legal da peritagem contabilística que exija a sua realização por profissionais inscritos em qualquer organismo profissional que tutele os técnicos com reconhecida competência em matérias contabilísticas e afins, como são os TOC e ROC.
Dessa forma, é possível afirmar que, não existe uma profissão de “Perito Contabilista”.
Clara é, por outro lado, a importância da intervenção de um perito que é requerida para obter uma opinião tecnicamente válida sobre matérias da sua especialidade e, por isso, servirá para dirimir as dúvidas que se colocam em juízo ou extrajudicialmente.
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Existe, tanto em Portugal como a nível internacional, muito pouca investigação nesta área. Todavia, a peritagem judicial é uma área que está a registar um avanço considerável por força dos recentes casos de fraude financeira internacional.
Huber (2012) levanta a seguinte questão: Nos Estados Unidos, o perito contabilista judicial está tornar- se numa profissão? Nos Estados Unidos já existem algumas pós-graduações nestas áreas e a procura de peritos continua a aumentar.
Para que esse caminho (para profissão) seja definitivamente percorrido, são efectuadas, no referido estudo, algumas propostas:
a) Criação de um código de Ética e regras uniformes de procedimentos ao nível da execução das peritagens;
b) Criação de requisitos e condições mínimas dos candidatos para o desenvolvimento da actividade;
c) Criação de uma entidade privada independente que faça a gestão e estabeleça as regras transversais para o exercício da profissão.
Por fim, salienta-se que deverá deixar-se de considerar esta actividade como um nicho de negócio. Essa perspectiva diminui e restringe o crescimento e a emancipação desta actividade no seu caminho para ser considerada uma profissão.
Neste contexto, o presente trabalho poderá constituir um documento para debate e reflexão sobre esta matéria e para uma eventual revisão do enquadramento da actividade em Portugal.
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4 - Peritagem contabilística extrajudicial. Um caso prático.
PERITAGEM À “CONTA CAIXA” DE UMA ASSOCIAÇÃO DE REFORMADOS,PENSIONISTAS E IDOSOS
Relatório de Peritagem
Peritagem às contas de disponibilidades e aos gastos realizados pela Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos.
2009 a 31 de Julho de 2012
Índice:
A. Introdução
B. Identificação do processo e das partes